As variações da mentira – II

As primeiras cinco poderão ter sido um pouco incomodativas, com estas outras cinco o incómodo passará talvez à fase do enjoo. Suponho que no fim da tareia, completados uns 20 “assaltos” de 3 minutos (se não houver prolongamento), qualquer pessoa normal sentir-se-á completamente estonteada, nauseada, prestes a vomitar. Efectivamente, a imaginação delirante dos mentirosos compulsivos, quando “servida” assim, em “rounds” consecutivos e sistemáticos, deita qualquer um abaixo, põe-nos de rastos… por momentos.

Claro que já todos ouvimos e lemos inúmeras vezes todos estes violentíssimos insultos à nossa inteligência, equivalentes a murros no estômago e patadas na cabeça. mas uma coisa é levar com a agressividade doentia dos aldrabões acordistas de forma esparsa e esporádica e outra coisa bem diferente é seriar, enumerar, esquematizar-lhes as pancadas.

 

6. Não existe “brasileiro”, apenas existe “português do Brasil”. Mentirola.
«Há poucos dias, o provedor da Santa Casa da Misericórdia estava no emblemático Empire State Building, em Nova Iorque, quando viu algo que não lhe agradou. «Lá em baixo havia uma placa a dizer: ‘Vídeo disponível em alemão, inglês, italiano, espanhol, brasileiro’. Com a bandeira do Brasil. Confesso que fiquei transtornado» [“Sol”, 06.2016] Mentirola.

a) «Norma culta portuguesa contra o brasileiro: Para o linguista, as preocupações do governante estão relacionadas com as “questões da norma culta portuguesa contra o brasileiro“, que também estiveram na base de muitas das críticas nacionais à aplicação do acordo.» [Malaca Casteleiro, “DN”, 11.2016]
b) «A maioria dos brasileiros não tem qualquer relação com Portugal. Existe um certo desprezo. O que vai acontecer é que vamos cada vez mais distanciar-nos, o português de Portugal vai acabar por ser um mero dialecto da língua brasileira.» [Luiz Ruffato, jornal “Hoje Macau”, 03.2016]
c) «
O Brasil salvará o português? Infelizmente, não. Uma política errada de falta de cooperação separou já o português do Brasil do português de Portugal de forma irreversível. Em termos escritos, o português do Brasil é hoje uma língua estranha e estrangeira. Com os seus duzentos milhões de falantes, o português do Brasil sobreviverá, sem que com isso salve o nosso português.» [Jorge Fonseca de Almeida, “Jornal de Negócios”, 02.2018]

7. O AO90 extingue duas normas ortográficas, passando a haver uma única. Aldrabice.
«Em segundo lugar, a harmonização ortográfica nos países da CPLP é fundamental para que os cerca de 250 milhões de falantes, presentes em comunidades portuguesas no estrangeiro, nos países de língua oficial portuguesa ou, ainda, integrados no crescente número de pessoas que procuram a língua portuguesa por outras razões, possam comunicar utilizando uma grafia comum.» [RCM 8/2011] Aldrabice.

a) «A versão 3.6 do LanguageTool inclui também suporte ao Acordo Ortográfico de 90 e às variantes do português utilizadas em Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, Macau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.» [Revista PC Guia, 12.2016]
b) Não há “unificação” alguma, muito pelo contrário: o AO90 originou ainda mais diferenças entre as duas normas, novos casos de duplas grafias (e triplas e quádruplas). Neste momento (2018) existem não duas mas três “normas”: PT-BR (Brasil), “acordês” (organismos do Estado e algumas empresas em Portugal) e PT-PT (Angola e Moçambique). [Apartado 53, FAQ]
c) «De qualquer modo, mesmo em relação ao Brasil, não se trata de uma simples questão de ortografia, é o léxico e a sintaxe, que são muito diferentes. Um livro de Portugal, para os brasileiros, que inovam muito em termos linguísticos, soa sempre a arcaico. É muito difícil exportar para lá. » [Francisco Vale (editor), “Jornal de Leiria”, 02.2018]

 8. O AO90 tem paralelo em reformas ortográficas de outras Línguas. Falsidade.
«Outras línguas europeias passaram ou estão a passar por reformas ortográficas: o espanhol em 2010; o neerlandês em 1996 e 2006; o alemão em 1996; o francês, como nós, em 1990, aplicando-a, também como nós, só agora. » [parecer do ILTEC, 2013] Falsidade.

a) De um lado, temos que a Académie française aprova, por unanimidade, uma declaração formal manifestando a sua firme oposição a qualquer modificação da ortografia. Do outro lado, em posição diametral e estupidamente oposta, a “Academia” portuguesa não apenas aprova como apoia e promove um “acordo ortográfico” que não é acordo algum e que de ortográfico nada tem. [Apartado 53, 02.2016]
b) «Dans sa séance du 16 novembre 1989, confrontée à un projet de simplification de l’orthographe, elle a adopté à l’unanimité une déclaration qui rappelait fermement son opposition à toute modification autoritaire de l’orthographe. L’Académie a réaffirmé qu’il n’appartient ni au pouvoir politique ni à l’administration de légiférer ou de réglementer en matière de langage, l’usage, législateur suprême, rendant seul compte des évolutions naturelles de la langue, qui attestent sa vitalité propre.» [Académie Française, 02.2016]
c) Primeiro, nenhuma das reformas ortográficas promovidas por outros países que não os terceiro-mundistas Brasil e Portugal é vinculativa ou obrigatória. Não contêm qualquer imposição — e muito menos implicam sanções para os “renitentes” –, visto que nenhuma dessas reformas é compulsiva, como o AO90. Segundo, tais reformas são a consequência natural e não a causa artificial das alterações ortográficas. [Apartado 53, FAQ]

9. Ninguém é penalizado ou prejudicado por recusar o AO90. Ilusão.
Há resistências de algumas pessoas, e não são muitas, que têm uma relação emocional, clássica, física e sensorial com a Língua. Mas ninguém será abatido, preso ou punido se não aderir às novas normas.” [José António Pinto Ribeiro, ex-Ministro da Cultura, “Expresso“, 08.2008] Ilusão.

a) 14,4% de “reprovados” na “prova de avaliação dos professores contratados” por “erros ortográficos”. Aliás, 62,8% do total de examinandos registaram “mais de três erros ortográficos” nesta “prova”. Como se vê, o AO90 não é obrigatório (…) mas serve para “reprovar” professores (e alunos, claro) que não escrevam em acordês. [ILCAO, 08.2014]
b) «O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) confirmou a pena disciplinar de “advertência registada” aplicada ao juiz Rui Teixeira, que se recusou a receber um documento escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.» [Público, 07.2015]
c) «relativamente a despachos judiciais e a sua conflitualidade com a utilização da grafia decorrente da utilização do acordo ortográfico, (…), foi deliberado: a) Instaurar inquérito ao Exmº Sr. Juiz, a incidir sobre todos os despachos que tenham sido proferidos neste âmbito e respectivas consequências processuais (…)» [Conselho Superior da Magistratura, 11.2013]

10. No AO90, a regra é “o que não se pronuncia não se escreve“. Falácia.
«Dos seus hábitos de escrita, os portugueses só foram obrigados a abandonar a consoante não articulada, aquela que se escreve, mas não se pronuncia. No novo sistema, o que não se pronuncia não se escreve.» [Jornal “Estadão” (Brasil), 11.2012] Falácia.

a) «A ideia é minimizar a língua escrita em comparação da fala, caso contrário os falantes falam de um jeito e escrevem de outro e acaba havendo problema, principalmente quando se vai utilizar nas escolas”, explicou. Para Raynice, o novo acordo é um processo contínuo de adaptação.» [Raynice Silva, “acrítica” (Brasil), 08.2016]
b) «Isto seria o primado da fonética no seu apogeu, ou seja, na sua máxima sublimação. Mas porque ficais por aí, senhores, porque sois tão tímidos? Seguindo os ditames da fala, cooperativa (há aí alguém que diga, mesmo, os dois “oo”?) devia poder escrever-se cuprativa ou mesmo comprativa (ouçam lá os falantes!); reestruturação devia poder escrever-se restruturação (quem pronuncia os dois “ee”?); dizer devia poder escrever-se dezer (e tantos assim o dizem!); ministro passaria a escrever-se menistro (porque assim correntemente se pronuncia); televisão ficava bem por tlevisão (não é invariavelmente mudo, na fala, o primeiro “e”?); formação podia escrever-se também fromação (…)» [Nuno Pacheco, “Público”, 05.2018]
c) «Passando ao lado da beleza e da transparência da prosa, fica a pergunta: onde mora a pronúncia culta? (Há diferentes respostas dos acordistas.) E nesse sítio delimitável ou nesse território ficcional em que ela mora, pronunciarão os autóctones todos da mesma forma os mesmíssimos vocábulos?» [Manuel Matos Monteiro, “Público”, 01.2017]

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