Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Um abracinho, “viu”?

À laia de suplemento, este artigo de Miguel Sousa Tavares, publicado há mais de 18 anos, completa na perfeição o “post” anterior sobre Caetano Veloso e a sua recente “conversão” (?) à verdade histórica. Esperemos agora ouvir, na primeira pessoa, a devida retractação pública por parte deste (por vezes) zangadíssimo cantor. Puxemos cada qual de sua cadeira, por conseguinte, para que possamos esperar sentados.
.

 

«Mas não vejo porque é que nós, por razões diplomaticamente correctas, haveremos de ficar envergonhadamente calados, a mendigar que venha comemorar connosco quem acha que não fomos mais do que uns facínoras – como já sucedeu com a Índia, nas comemorações da viagem do Gama. Se o Brasil entende que Portugal é a mancha na sua História, paciência. É como se nós nos lembrássemos de repudiar a nossa herança romana ou árabe: o ridículo seria só nosso.»
Miguel Sousa Tavares

Desculpem lá o Cabral

“Público”, 3 de Março de 2000

(…)

“Se Caetano (Veloso) levanta a voz contra os desmandos dos colonos portugueses, o nosso coração confusamente imperialista sobressalta-se” – escreveu António Mega Ferreira, aqui, na segunda-feira passada, numa muito interessante reflexão sobre este equívoco luso-brasileiro, que a mim também me dá muito que pensar.

Tal como vejo as coisas, há duas atitudes habituais, do lado de cá, e ambas são causa de ilusões: uma, é a tal nostalgia imperial, que talvez seja uma fatalidade de quem algum dia foi Império, e que, na prática, se traduz em alguns desejos tidos como verdades de todos os tempos, tais como a ficção do “país-irmão” ou a presunção de que os brasileiros, só porque falam a mesma língua, hão-de gostar tanto de nós quanto nós gostamos deles; outra, é uma subserviência institucional perante o Brasil, da parte de alguns “abrasileirados oficiosos”.

A questão próxima – as declarações de Caetano Veloso – é apenas um detalhe, mas o detalhe é elucidativo. Preparava-me eu, entusiasmado, para ir a correr comprar bilhete para o espectáculo de Caetano no Parque das Nações, quando dei comigo a pensar se estaria certo ir a um concerto comemorativo dos 500 anos da descoberta do Brasil, ouvir um brasileiro que afirma que “o que Portugal veio fazer ao Brasil foi sugar, sugar, sugar e matar índios.” Se isto é o que ele pensa que Portugal foi fazer ao Brasil, a pergunta óbvia é o que vem ele fazer a Portugal. E como é que nós nos sentiremos a aplaudi-lo no Parque das Nações? Eu sinto-me mal.

Talvez conviesse começar por explicar aos brasileiros que o que se comemora para o mês que vem é apenas a viagem de Cabral: o que Portugal foi fazer ao Brasil, em 1500, foi a descoberta daquilo que existia para lá do imenso “mar oceano”. É isso que está escrito num dos mais belos textos desta nossa língua comum, verdadeiro acto fundador do Brasil, que é a carta de Pero Vaz de Caminha. Compreendo que os índios brasileiros não estejam entusiasmados com a perspectiva de verem comemorada a sua “descoberta”. Compreendo pior que vagamente crioulos, como Caetano Veloso, se juntem ao protesto. Mas o que não consigo acreditar é que haja um só ser inteligente no Brasil que reduza o significado do acto científico, histórico e cultural da descoberta do Brasil à matança de índios ou ao saque do ouro de Minas. Falando claro: morreram mais índios na Amazónia, por acção dos brasileiros, nos últimos 30 anos do que morreram nos 300 anos de colonização portuguesa; e sai mais ouro da Amazónia, numa semana, do que tudo o que Portugal de lá tirou durante três séculos.

Já vi este tipo de argumentação, sobre o extermínio dos índios pelos colonizadores portugueses e espanhóis, usado várias vezes e sobretudo por historiadores anglo-saxónicos. Mas, curiosamente, onde Portugal e Castela estiveram, sobravam e sobram nativos e por onde passaram os outros, não sobra nada. A verdade é que há sempre dois lados para ver a mesma história: o Portugal que matou índios brasileiros também foi o Portugal que lá teve um padre Vieira ou o Portugal que aqui tinha um primeiro-ministro, chamado Pombal, que publicou decretos concedendo terras, dinheiro e alfaias aos colonos portugueses que se casassem com índias (com os sacramentos da Santa Madre Igreja e tudo) e se fixassem no território – com isso fixando as fronteiras que o Brasil independente herdaria e de que goza até hoje.

Decerto que cometemos muitos e vastos crimes de colonização, dos quais o pior de todos foi a escravatura de negros levados de África para o Brasil. Mas não há nada de mais falacioso do que julgar a História pelos padrões éticos contemporâneos. Se o critério fosse aplicável universalmente, nada mais restaria da História da Humanidade do que um imenso e incompreensível relato de barbaridades. Os negros que levámos como escravos para o Brasil são hoje uma parte substancial dos brasileiros. Podemos ficar eternamente a lembrar e a pedir perdão por esse crime, também ele fundador do Brasil. Mas talvez que para os actuais brasileiros descendentes dos escravos da costa ocidental de África fosse mais útil a interrogação sobre os motivos por que, fora do futebol e do samba, não existe hoje um só negro em posição de destaque na vida brasileira (tirando o infeliz prefeito de São Paulo, criatura política do sr. Paulo Maluf).

Sinceramente, não sinto aquilo que Mega Ferreira refere como a incapacidade de Portugal ou os portugueses se “refazerem da perda daquele pedaço precioso de Império”. Primeiro que tudo, porque, por maior que seja a tal nostalgia imperial, não acredito e não sinto que o vírus permaneça vivo quase 200 anos. Depois, porque, tendo feito a minha descoberta do Brasil, como quase todos os portugueses, pelo eixo Rio-São Paulo, não senti que naquela fantástica civilização de cidades e praias houvesse, fosse a que nível fosse, o mais leve vestígio da nossa marca. Pelo contrário, sempre achei que o Brasil é um país à parte, não apenas totalmente diferente de Portugal, como de qualquer outro país que eu conheça. Só mais tarde, viajando pelo Nordeste, Norte e Amazónia, é que comecei a dar-me conta do que terá sido a dimensão da empreitada lusitana naquele continente. E, certamente não por coincidência, foi quando comecei a descobrir também as teses de alguns intelectuais brasileiros, como João Ubaldo Ribeiro, que tendem a reduzir a colonização portuguesa aos seus crimes e que ensaiam a justificação dos males actuais de que o Brasil padece com a herança da colonização portuguesa. Simplificando, a história terá sido assim: até 1820, Portugal explorou, saqueou, matou, destruiu. Do “grito de Ipiranga” para cá, “o povo brasileiro” (do qual, estranhamente desaparecera, com a partida de D. Pedro IV para Portugal, qualquer cromossoma português), tem-se esforçado para das ruínas erguer um país.

De tão absurda, esta versão histórica tem qualquer coisa de patológico. O Brasil foi descoberto há 500 anos, é independente há quase 200: estamos a falar de uma eternidade, em termos de construção de um país, para mais tão rico como o Brasil. Ocorre lembrar que, no mesmo ano em que a América foi descoberta se pôs fim à ocupação árabe da Península. Lembraria a algum espanhol ou português, mesmo que grosseiramente ignorante, lastimar-se hoje da herança dos mouros?

Há, nestas atitudes, uma verdadeira tentativa de reescrever a História: como não se pode apagar o facto de o Brasil ter sido descoberto e colonizado pelos portugueses (apesar de ter sido a única colónia, desde o Império Romano do Oriente, que chegou a ser sede do império), é como se fosse forçoso e patriótico abjurar esse passado. Mas, pese a alguns brasileiros, não foi a Inglaterra, nem a França ou a Holanda, nem sequer a Espanha, a matriz europeia do Brasil: foi um pequeníssimo e insignificante país, hoje como ontem, quem se lançou nessa desmedida aventura, muito para além do imaginável.

Quando hoje, por exemplo, a maior reserva de riquezas naturais do Brasil é constituída pela imensa superfície da Amazónia, talvez os brasileiros não saibam que devem a sua posse ao tal Pombal, que no seu gabinete no Paço, para lá mandou um tal Luís de Albuquerque com a missão de construir sete fortes que constituíssem a linha de fronteira defensiva da Amazónia e o símbolo da soberania brasileira em todo o território virgem. E talvez não saibam que alguns desses fortes, como o do Príncipe da Beira, no Acre, foram erguidos com pedras de granito levadas de Portugal por mar, transportadas de barco Amazonas acima e carregadas por homens e animais, selva adentro, numa desumana empreitada que hoje ninguém se atreveria a repetir. Tanto que, pelo menos, um desses fortes era, há uns anos atrás, ocupado pelo Exército brasileiro com a mesmíssima missão para que o Marquês de Pombal o mandou fazer.

Não vale a pena prolongar os exemplos. Quem quer que tenha viajado por Minas, pelo Nordeste, pelo Norte, não pode senão tropeçar a cada passo com os sinais portugueses e até pode, aliás, comparar, em cidades como Salvador, Recife ou Belém, com os sinais brasileiros…

Nada disto faz do Brasil tributário de Portugal. O que o Brasil tem hoje de notável e pujante não tem nada que ver com a herança lusa e só um lusitano imbecil se lembraria de reclamar créditos fundados em títulos caducados há 200 anos. Por isso e por idêntica ordem de razões, a inversa também é verdadeira. O que me custa a entender, nestas atitudes de voluntária bastardia, é a falta de sentido útil e de inteligência que lhes está subjacente. Quando Rafael Greca, nomeado responsável pelas comemorações dos 500 anos do lado do Brasil (julgo que já não o será), se lembrou de dizer, logo à partida , que os países das Américas não tinham nada a aprender com a Europa ou com o seu passado fundador, dá vontade de lhe perguntar quem foi o pai e o avô e o bisavô dele, ou seja, quando é que ele nasceu brasileiro por geração espontânea.

A viagem de Cabral uniu dois continentes e duas civilizações que se desconheciam e fez dele o primeiro europeu a pisar o Brasil e o precursor de milhões de outros. Este facto, por si só, é tão importante para a História da Humanidade como a descoberta da América, da rota da Índia, a descoberta da Austrália ou a conquista do Pólo Norte ou a chegada à Lua. Pesa assim sobre o Brasil o absurdo de ver o mundo inteiro admirar o feito de Cabral, menos o Brasil – o destino e o destinatário da viagem.

Não vejo nisto que digo nenhum complexo de colonizador. Pelo contrário, tenho uma funda admiração pelo “Brasil brasileiro”, pela identidade brasileira, onde não enxergo, nem esforçadamente, traços da nossa. Como muitos portugueses, cresci praticamente com a literatura e com a música brasileira e, com os anos, fui-me tornando admirador e tributário da arquitectura, do cinema, do jornalismo, do futebol, da comida brasileira. Indignei-me quando vi os portugueses, num assomo de novo-riquismo europeu, começarem a barrar os brasileiros nas fronteiras, com guerras de dentistas ou outras coisas que tais.

Mas não vejo porque é que nós, por razões diplomaticamente correctas, haveremos de ficar envergonhadamente calados, a mendigar que venha comemorar connosco quem acha que não fomos mais do que uns facínoras – como já sucedeu com a Índia, nas comemorações da viagem do Gama. Se o Brasil entende que Portugal é a mancha na sua História, paciência. É como se nós nos lembrássemos de repudiar a nossa herança romana ou árabe: o ridículo seria só nosso.

E se, à parte as cerimónias oficiais, as comemorações da viagem de Cabral vão ser, como parece, um pretexto para que, na rua e no Carnaval, a herança portuguesa no Brasil seja o bombo da festa, o que havemos nós de fazer?

Desculpem lá o Cabral, pá. Até dizem que ele não o fez de propósito…

[Transcrição de artigo da autoria de Miguel Sousa Tavares. Jornal “Público”, 03.03.00. Destaques, sublinhados e “links” meus.]

Nota:
Como já “atingiu o seu limite de artigos gratuitos” (ridículo exclusivo do Público, este, artigos já velhos de 18 anos ainda têm de ser pagos), tive de transcrever a partir do código html, tentando adivinhar a marcação de parágrafos; as minhas desculpas ao autor caso tenha falhado em algum.

Print Friendly, PDF & Email
Share
Apartado 53 © 2015, 2016, 2017, 2018 Frontier Theme