Dia: 18 de Junho, 2018

O tanas, compadre!

Ao fim e ao cabo, se bem que seja enorme a quantidade de informação, o que, paradoxalmente,  impossibilita um  escrutínio minimamente credível, tal é o grau (zero) de iliteracia vigente, o caso explica-se por si mesmo em poucas palavras ou, vá lá, numa frase singela: o autor de um livro ainda não publicado premeia-se a si mesmo enquanto júri de um concurso literário sem regulamento e depois alega em sua defesa que seria absurdo ele próprio ter feito aquilo que exactamente ele mesmo fez.

O objecto da contenda ficou antes aqui substancialmente exposto, contrastando os dois lados da questão, a qual é afinal apenas uma: o compadrio enquanto elemento ancestralmente estrutural na chamada “intelectualidade” portuguesa, essa irrisória (e risível) tribo de indígenas emplumados cujo modo de vida consiste em passear diariamente seus enormes egos entre o Chiado e a pastelaria Suíça.

Deixo agora, portanto, a acompanhar o presigo, o respectivo conduto, isto é, os acompanhamentos, os demais elementos de análise, a documentação atinente, com “bonecos” e tudo, para quem tradicionalmente à portuguesa odeie ler e ainda mais pensar ou tirar as mais simples conclusões — em especial se o prato principal for servido em bandeja de prata por criado de luva branca, venerador, atento e obrigado.

Prémio José Mariano Gago atribuído a “OBRAS PIONEIRAS DA CULTURA PORTUGUESA”

Na sua primeira edição, o Prémio José Mariano Gago de Divulgação Científica criado pela SPA é atribuído no Dia do Autor, na próxima terça-feira às 18 horas, na Sala-galeria Carlos Paredes aos 30 volumes das “Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa”, publicados sob a égide da Universidade de Coimbra e da Universidade Aberta e com o apoio da Fundação Gulbenkian e da Biblioteca Nacional. Os coordenadores desta ampla e muito diversificada edição foram os professores Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco.

Estes 30 volumes da maior operação científica interdisciplinar da cultura portuguesa incluem obras representativas da medicina, da geografia, do direito, da física, da arquitectura, da química, da música, da engenharia, da botânica, da pedagogia e da arte de navegar, entre outras.
Os júri que efectuou esta escolha e levou em conta as obras publicadas na área da divulgação científica em 2017 foi constituído pelos professores universitários e investigadores Rui Vieira Nery, Miguel Lopes e Elvira Fortunato.
Os prémios constam de um troféu e do valor pecuniário de 2.500 euros.
Recorde-se que a Assembleia da República escolheu como Dia da Ciência a data de 16 de Maio, por ser aquela em que José Mariano Gago nasceu há 70 anos. Mariano Gago foi ministro durante 12 anos e realizou um trabalho notável como físico, docente universitário, decisor político e dirigente internacional.
Lisboa, 18 de Maio de 2018

OBRAS PIONEIRAS DA CULTURA PORTUGUESA
  Sob a  égide 
da Universidade de Coimbra e da Universidade Aberta,
e com o apoio
da Fundação Calouste Gulbenkian, do Ministério da Educação e da Biblioteca Nacional de Portugal
Editar e conhecer as obras pioneiras da nossa cultura é uma maneira excelente de tomarmos consciência do nosso passado extraordinariamente rico e de nos apercebermos de que a nossa língua esteve a par de grandes línguas europeias, antecipando-se até, por vezes, a algumas delas no processo de autonomização do tronco da língua latina de onde emergiu.
Marcelo Rebelo de Sousa
Presidente da República Portuguesa

Estamos em directo da cerimónia do Dia do Autor Português e 93º Aniversário da SPA!#diadoautor #spa #spautores

Publicado por Sociedade Portuguesa de Autores em Terça-feira, 22 de Maio de 2018

“Cidadãos dóceis”

 

«O sistema agradece. É sempre mais fácil lidar com cidadãos dóceis, não reivindicativos, fáceis de convencer e manipular.»

 

Iliteracia

O dicionário Priberam da Língua Portuguesa, para citar um dos mais utilizados actualmente sem entrar em obras mais complexas, apresenta os significados seguintes para iliteracia:

“1. Qualidade ou condição do que é iletrado. 2. Estado ou condição de quem não sabe ler nem escrever. = ANALFABETISMO, ALITERACIA, ILETRISMO 3. Incapacidade para perceber ou interpretar o que é lido.”

Há, no entanto, diverso tipo de iliteracias: científica, política, digital, em saúde, mediática… Vou centrar-me na iliteracia mediática e tecer algumas considerações acerca das suas causas e consequências.

Segundo estudos recentes, quase metade da população portuguesa em idade activa não possui conhecimentos funcionais mínimos.

Quer isto dizer que, embora saibam ler, escrever e contar, o seu nível de conhecimento (literacia) é insuficiente para o cabal desempenho das funções que exercem. A acreditarmos no Relatório do Desenvolvimento Humano publicado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) 48% da população portuguesa é considerada iletrada funcional, valor mais elevado da União Europeia.

Esta aparente realidade pode parecer-nos insólita! Então não basta saber ler para entender o que se lê?!

A comunicação social fez eco da existência de mais de meio milhão de portugueses analfabetos. Não é desses que aqui falo. Falo dos mais de 90% de alfabetizados cuja literacia andará perto dos 45%, segundo os últimos dados.

A ser verdade, só cerca de 45% dos alfabetizados são capazes de ler um texto, observar um gráfico, perceber um aviso, um comunicado e interpretá-lo devidamente.

Os avanços da tecnologia proporcionaram-nos ferramentas e equipamentos capazes de nos proporcionar respostas imediatas (máquinas de calcular, computadores, gps, browsers da internet, telemóveis, etc.) o que nos torna cada dia mais preguiçosos.

Deixamo-nos embalar na aparente facilidade com que absorvemos horas de lixo televisivo, redes sociais e imprensa cor-de-rosa. Acreditamos nas notícias com que somos bombardeados 24 horas por dia de um modo acrítico e… desinformado!

Ouvimos políticos, comentadores, fazedores de opinião, “peritos”. Tudo isto sem que o nosso cérebro se rebele e tome o comando.

Sentamo-nos em frente da televisão e temos ao nosso dispor centenas de canais com informação, actualidade, entretenimento, debate político, desporto, novelas, filmes…tudo isso nos dá a falsa impressão de estarmos “informados”, “actualizados”, “conhecedores da realidade”.

O próprio sistema de ensino está construído nessa base. As famílias não têm tempo. As escolas debitam “informação” não ensinam a aprender e, muito menos, a questionar, a duvidar, a ter opinião devidamente estruturada e fundamentada. O sistema agradece. É sempre mais fácil lidar com cidadãos dóceis, não reivindicativos, fáceis de convencer e manipular.

Evitemos as controvérsias sérias. Os problemas sérios. As situações graves que campeiam por todo o lado. Sejamos bons meninos. Bons alunos. Bons cidadãos. Bons trabalhadores.

A injustiça social, o compadrio, o roubo descarado, a corrupção, a injustiça, existem mas… há quem vele por nós! Há quem nos assegure que tudo vai melhorar quando A, B ou C for eleito. Vamos ter saúde, educação, segurança social, justiça.

Apesar de grande parte dos políticos, comentadores, mesmo jornalistas, se expressar mal na própria língua… nós acreditamos! A nossa iliteracia mediática leva-nos a acreditar em tudo o que ouvimos ou lemos, em especial, quando apoia os nossos secretos desejos de uma vida melhor.

A escola continua a ignorar que é preciso melhorar a literacia dos agentes de ensino e dos alunos, que é urgente encontrar novos modelos educacionais, que é fundamental apoiar uma aprendizagem mais personalizada, que é crucial preparar as pessoas para aceitarem a mudança, que é imprescindível ligar as aprendizagens extracurriculares dos alunos às actividades de aprendizagem em aula, que a escola deve guiar os alunos no conhecimento do processo de aprendizagem ao invés de debitar matéria que, frequentemente, já está desactualizada no momento em que é transmitida.

A iliteracia mediática e digital assume-se como uma nova forma de “analfabetismo funcional” que traduz a ausência de competências para existir e coexistir num contexto de uma sociedade global da informação.

Os hábitos de leitura, a análise factual, a dúvida metódica, a capacidade de pôr em causa tudo na procura da verdade, o pensar pela própria cabeça, a necessidade de fundamentar opiniões e certezas não se decretam, quando muito, incentivam-se. Se não tivermos uma estratégia para combater a iliteracia aos múltiplos níveis micro e ao nível macro, de nada nos serve a acessibilidade às mais diversas plataformas comunicacionais, às toneladas de informação que nos caem em cima diariamente. Continuaremos a sofrer de iliteracia.

[Source: «Iliteracia», “DN” Madeira, 17.06.18. “Links” meus.]