“Cidadãos dóceis”

 

«O sistema agradece. É sempre mais fácil lidar com cidadãos dóceis, não reivindicativos, fáceis de convencer e manipular.»

 

Iliteracia

O dicionário Priberam da Língua Portuguesa, para citar um dos mais utilizados actualmente sem entrar em obras mais complexas, apresenta os significados seguintes para iliteracia:

“1. Qualidade ou condição do que é iletrado. 2. Estado ou condição de quem não sabe ler nem escrever. = ANALFABETISMO, ALITERACIA, ILETRISMO 3. Incapacidade para perceber ou interpretar o que é lido.”

Há, no entanto, diverso tipo de iliteracias: científica, política, digital, em saúde, mediática… Vou centrar-me na iliteracia mediática e tecer algumas considerações acerca das suas causas e consequências.

Segundo estudos recentes, quase metade da população portuguesa em idade activa não possui conhecimentos funcionais mínimos.

Quer isto dizer que, embora saibam ler, escrever e contar, o seu nível de conhecimento (literacia) é insuficiente para o cabal desempenho das funções que exercem. A acreditarmos no Relatório do Desenvolvimento Humano publicado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) 48% da população portuguesa é considerada iletrada funcional, valor mais elevado da União Europeia.

Esta aparente realidade pode parecer-nos insólita! Então não basta saber ler para entender o que se lê?!

A comunicação social fez eco da existência de mais de meio milhão de portugueses analfabetos. Não é desses que aqui falo. Falo dos mais de 90% de alfabetizados cuja literacia andará perto dos 45%, segundo os últimos dados.

A ser verdade, só cerca de 45% dos alfabetizados são capazes de ler um texto, observar um gráfico, perceber um aviso, um comunicado e interpretá-lo devidamente.

Os avanços da tecnologia proporcionaram-nos ferramentas e equipamentos capazes de nos proporcionar respostas imediatas (máquinas de calcular, computadores, gps, browsers da internet, telemóveis, etc.) o que nos torna cada dia mais preguiçosos.

Deixamo-nos embalar na aparente facilidade com que absorvemos horas de lixo televisivo, redes sociais e imprensa cor-de-rosa. Acreditamos nas notícias com que somos bombardeados 24 horas por dia de um modo acrítico e… desinformado!

Ouvimos políticos, comentadores, fazedores de opinião, “peritos”. Tudo isto sem que o nosso cérebro se rebele e tome o comando.

Sentamo-nos em frente da televisão e temos ao nosso dispor centenas de canais com informação, actualidade, entretenimento, debate político, desporto, novelas, filmes…tudo isso nos dá a falsa impressão de estarmos “informados”, “actualizados”, “conhecedores da realidade”.

O próprio sistema de ensino está construído nessa base. As famílias não têm tempo. As escolas debitam “informação” não ensinam a aprender e, muito menos, a questionar, a duvidar, a ter opinião devidamente estruturada e fundamentada. O sistema agradece. É sempre mais fácil lidar com cidadãos dóceis, não reivindicativos, fáceis de convencer e manipular.

Evitemos as controvérsias sérias. Os problemas sérios. As situações graves que campeiam por todo o lado. Sejamos bons meninos. Bons alunos. Bons cidadãos. Bons trabalhadores.

A injustiça social, o compadrio, o roubo descarado, a corrupção, a injustiça, existem mas… há quem vele por nós! Há quem nos assegure que tudo vai melhorar quando A, B ou C for eleito. Vamos ter saúde, educação, segurança social, justiça.

Apesar de grande parte dos políticos, comentadores, mesmo jornalistas, se expressar mal na própria língua… nós acreditamos! A nossa iliteracia mediática leva-nos a acreditar em tudo o que ouvimos ou lemos, em especial, quando apoia os nossos secretos desejos de uma vida melhor.

A escola continua a ignorar que é preciso melhorar a literacia dos agentes de ensino e dos alunos, que é urgente encontrar novos modelos educacionais, que é fundamental apoiar uma aprendizagem mais personalizada, que é crucial preparar as pessoas para aceitarem a mudança, que é imprescindível ligar as aprendizagens extracurriculares dos alunos às actividades de aprendizagem em aula, que a escola deve guiar os alunos no conhecimento do processo de aprendizagem ao invés de debitar matéria que, frequentemente, já está desactualizada no momento em que é transmitida.

A iliteracia mediática e digital assume-se como uma nova forma de “analfabetismo funcional” que traduz a ausência de competências para existir e coexistir num contexto de uma sociedade global da informação.

Os hábitos de leitura, a análise factual, a dúvida metódica, a capacidade de pôr em causa tudo na procura da verdade, o pensar pela própria cabeça, a necessidade de fundamentar opiniões e certezas não se decretam, quando muito, incentivam-se. Se não tivermos uma estratégia para combater a iliteracia aos múltiplos níveis micro e ao nível macro, de nada nos serve a acessibilidade às mais diversas plataformas comunicacionais, às toneladas de informação que nos caem em cima diariamente. Continuaremos a sofrer de iliteracia.

[Source: «Iliteracia», “DN” Madeira, 17.06.18. “Links” meus.]

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