Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

A treta que nos separa


Volta a atacar, salvo seja, um tal Sérgio Rodrigues, autor do panfleto com o significativo título “Viva a Língua Brasileira”.  Reemerge agora esse escriba, portanto, do charco infecto em que chafurdam os flautistas acordistas, para de novo perorar sobre aquilo que, em sua não muito douta opinião, é o “antibrasileirismo linguístico, marca bandeirosa da cultura lusitana“.

Ou seja, traduzindo para Português tão duvidoso paleio, acha o dito que nós, os tugas, somos “contra eles”, os zucas, e que essa espécie de “contrismo” é uma marca identitária da “cultura lusitana”.

Não há paciência.

Pois está claro, antes do AO90 não existia qualquer “antipatia” pelos diversos crioulos brasileiros, mas isso não tem rigorosamente nada a ver com a Literatura brasileira. E essa “antipatia” nunca foi mútua, aliás: nós por cá não traduzimos para a língua indígena os livros nem legendamos os filmes provenientes do “país-continente”.

Escora-se o escriba neste seu textículo, o que de todo não surpreende, em supostos aliados que, do lado oriental do Atlântico, circunstancial ou ocasionalmente paridos algures no meridiano de Greenwich, parece apoiarem tão bizarra (quanto estúpida) teoria da conspiração “contra” a “cultura brasileira” em geral e a respectiva Literatura em particular. No caso, para “ilustrar” a tese, cita umas quantas indignadíssimas bojardas publicadas no Fakebook por um tal Venâncio, gajo se calhar porreiríssimo, suponho, mas que tem no entanto essa estranha — e tuga — mania de armar aos cucos denegrindo os seus compatriotas para dar graxa aos brasileiros.

Coisa que me irrita solenemente, confesso. Para isso, bajulação travestida de erudição, ainda tenho menos pachorra do que para levar com as tretas neo-colonialistas dos acordistas de serviço.

 

A língua que nos separa

Forte em Portugal, desprezo ao português brasileiro também viceja aqui

Sérgio Rodrigues

Jornal “Folha de S. Paulo” (Brasil), 19.07.18

 

Dia desses, no Facebook, o linguista português Fernando Venâncio desabafou: “Poucas coisas me irritam tanto como o antibrasileirismo primário e militante que encontro por estas paragens”. Referia-se ao antibrasileirismo linguístico, marca bandeirosa da cultura lusitana.

Qualquer escritor brasileiro que tenha lançado livros em Portugal nas últimas décadas (sou um desses) sabe o que Venâncio quer dizer. As portas que Jorge Amado escancarou de par em par no século passado se fecharam em algum momento sobre corredores cada vez mais estreitos e labirínticos.

Sim, é claro que muitos editores, críticos, jornalistas e outros portugueses esclarecidos insistem em furar com brio essas defesas. Infiltrando-se nas brechas, porém, os brasileiros que se expressam por escrito logo se veem escalados pelos leitores comuns d’além-mar como representantes de uma versão menor, tosca e corrompida da língua “deles”. Se soubessem cantar, dançar, contar piadas, temperando o verbo com aquele jeito de corpo que é sua maior —ou quem sabe a única— vocação, talvez pudessem ser levados a sério. Mas isso de escrever, francamente…

Nas palavras de Venâncio, há em Portugal uma “desavergonhada altanaria perante os pretensos ‘erros’ de que o português brasileiro estaria inçado”. O linguista vê esse sentimento integrado ao senso comum, cultivado por “gente visivelmente de poucas letras, e poucas luzes”. Refere-se a ele como “assustador”.

Eu prefiro o adjetivo “triste”. Assustador é constatar que um antibrasileirismo tão pimpão e ignorante quanto o luso viceja aqui também. Como reclamar do insulto de nos negarem em terra estrangeira o direito de gozar livremente de algo tão pessoal e profundo quanto a língua materna, sem ouvir sermões abestalhados sobre algum ideal platônico de gramática? Negamos a mesma coisa por conta própria, o que é bem pior.

Parte dessa dissonância é comum às línguas imperiais. A relação de amor e ódio entre o inglês britânico e o americano é tema do recém-lançado “The Prodigal Tongue” (A língua pródiga), de Lynne Murphy, linguista americana que mora e leciona na Inglaterra. Ela identifica em seus compatriotas um “complexo de inferioridade verbal” e, nos britânicos, o que chama de “amerilexofobia”, aversão esnobe a americanismos.

Nada tão diferente assim do que se vê no universo da língua portuguesa ou da espanhola. Ex-colônias crescidinhas e ex-impérios em queda vão sempre se emaranhar em teias complicadas de amor e ódio, admiração e desprezo. Contudo, vale atentar para a diferença que Venâncio, repetindo no post-desabafo o que já defendeu em livros, aponta entre os projetos linguístico-coloniais de Lisboa e de Madri.

“No Brasil, Portugal abandonou a língua portuguesa à sua sorte. E ainda bem! Pense-se na uniformidade lexical, gramatical e ortográfica que a Espanha impõe como ideal à América de fala espanhola”, escreve o linguista, concluindo que “o Português Brasileiro pôde desenvolver em invejável liberdade a sua norma, e vive bem nela”.

O texto termina exigindo, ainda que de forma jocosa, gratidão: “E venha daí um ‘obrigadinho’ a este Portugal que, oh felicidade, nunca teve um projecto linguístico, nem cultural, para o seu Império”.

Muito bem, mas não estou tão certo de que o deus-dará cultural seja algo que devemos agradecer. Seria necessário investigar primeiro até que ponto se funda nele a ridícula autoestima linguística que leva o brasileiro médio a situar nosso português três degraus abaixo do português europeu, e este, pelo menos sete palmos abaixo do inglês.

Sérgio Rodrigues

Escritor e jornalista, autor de “O Drible” e “Viva a Língua Brasileira”.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Sérgio Rodrigues, publicado no jornal brasileiro “Folha de S. Paulo” em 19.07.18.]

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