A tribo Matatuga

Como de costume, quando algo arde no Brasil (em sentidos figurado ou literal, como neste caso) ressurge, com redobrada fúria, essa estranha rotina a que se dedicam alguns brasileiros — não poucos e nem todos eles completamente maluquinhos —  cujo modo de vida consiste em, 200 anos depois da independência do seu país, invectivar o “colonizador”, enxovalhar Portugal, culpar os portugueses pelo caos em que aquele “país-continente” está cíclica e sistematicamente mergulhado.

O mais recente surto desta espécie de alergia histórica ocorreu a propósito do incêndio que arrasou por completo o Museu Nacional do Rio de Janeiro.

Como muito bem assinala o jornalista Carlos Fino, em artigo publicado no jornal online “Tornado”, existe no Brasil um “velho estigma anti-lusitano”. E exemplifica o dito citando (in)certo indivíduo que, na rede anti-social Fakebook, publicou um chorrilho de disparates congratulando-se não apenas por ter ardido o museu nacional do seu país como, ou principalmente, porque o incêndio foi uma boa limpeza da memória brasileira: “Tudo o que apague do cenário brasileiro a lembrança daquele período nefasto (assim como de outros) é um alívio para mim e certamente para todos cujo sofrimento atual é uma herança daquela época.”  

Justiça histórica sendo feita pelas mãos do acaso. Acaba de ser consumida em chamas a antiga Casa Grande da família que…

Publicado por Robson Lucas de Oliveira em Domingo, 2 de Setembro de 2018

Extraordinário. E foi nisto o indivíduo de imediato secundado por milhares de outros “índios” da mesma tribo, os Matatuga, a qual se distingue por uma terrível sanha persecutória com efeitos retroactivos (abarcando dois séculos) em relação a tudo aquilo que sequer cheire a português. Porque, forçosamente, segundo a respectiva “lógica” tribal, tudo o que vai bem no Brasil é brasileiro, mas se algo corre mal no Brasil então a culpa é dos tugas.

Na verdade, Carlos Fino não refere no seu texto um caso isolado. Não, de todo. Aquele é apenas mais um, se bem que ilustrativo do fenómeno, por assim dizer, e nem mesmo é dos piores, não é dos mais violentamente anti-lusitanos.

Por uma questão de pudor mental, devo confessar, tento esquecer imediatamente quejandos pedaços de esterco em que vou tropeçando; limito-me a seguir adiante raspando as solas dos sapatos, como toda a gente faz quando calha pisar “presentes” malcheirosos. 

Mas é fácil, havendo alguma espécie de interesse escatológico pela matéria, salvo seja, encontrar semelhantes poias, não apenas sobre Portugal e os portugueses em geral mas também sobre o AO90 em particular, já que este é uma das formas de revanche histórica a que se dedicam brasileiros e meia dúzia de vendidos.

Aí ficam duas amostras, ambas de comentários a vídeos do YouTube em que o tema é o “acordo ortográfico”. São apenas duas mas há lá muitas, de igual aspecto, consistência e cheiro; basta procurar, o que não é nada difícil se para tal houver estômago.   

gilberto apollinare 4 years ago
O mundo ira seguir o BRASIL pelo seu tamanho populacional, territorial, economico , e importancia no cenario internacional. Se portugal nao se aderir ao acordo imposto pelo BRASIL, ficara esquecido ainda mais. Portanto eu digo que; portugal depende do BRASIL e assim tem que continuar.

Mauro David 2 years ago
Não adianta alguns portugueses serem contra o acordo o fato é que já aconteceu. Quem mais usa essa linguá no mundo são os brasileiros, principalmente para os negócios no mundo a fora, um brasileiro compreende melhor, mas rápido e com clareza a sonoridade de um falante do idioma português africano. já um cidadão de Portugal falando português, é entendido porem com muita dificuldade, a sonoridade de um português falando é horrível, quase trágica. A cultura de Portugal não é um coisa que as pessoas falante de português pelo mundo gostaria de ter ou de saber, Portugal é desinteressante, sem cor, pobre de dinheiro de de espirito é um país preso, sem visão. Já o Brasil, eu nem preciso comentar.

Incêndio do Museu Nacional – Há brasileiros que aplaudem

O velho estigma antilusitano, que continua em boa parte a ser alimentado na escola, na historiografia, na literatura, no cinema e nos media do Brasil, deixa naturalmente marcas profundas.

“Jornal Tornado”, 03.09.18
Carlos Fino, em Brasília

Veja-se, por exemplo, esta reacção ao incêndio que consumiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro, retirada do FaceBook

Robson Lucas de Oliveira 13 h ·

Justiça histórica sendo feita pelas mãos do acaso. Acaba de ser consumida em chamas a antiga Casa Grande da família que por anos dominou, massacrou, e explorou o povo brasileiro, além de ser notoriamente conivente com a escravização dos negros africanos.

EDIT, aos que não me compreendem: Tudo o que apague do cenário brasileiro a lembrança daquele período nefasto (assim como de outros) é um alívio para mim e certamente para todos cujo sofrimento atual é uma herança daquela época.

4,9 mil comentários 2,5 mil partilhas

Muita gente reagiu, colocando seu Robson no seu lugar, mas muitos outros também parece que gostaram porque partilharam o comentário descabido e equivocado. E isso, juntamente com aquilo que conheço bem por anos de vivência no Brasil leva-me a concluir que não estamos perante um caso isolado.

Apesar da manifesta melhoria das relações comerciais, apesar da TAP, da Embraer e dos contactos, um oceano de percepções continua a separar Portugal do Brasil. Que os brasileiros tenham cultivado o antilusitanismo, no século XIX, para construírem a sua própria identidade (que não existia antes da independência), compreende-se; que o continuem a fazer até hoje, quase 200 anos depois, já se percebe menos.

Mas a responsabilidade não é só deles – é portuguesa, também. Há pelo menos 15 anos que se assiste aqui a um apagão mediático português no Brasil – a Lusa fechou portas, a RTP foi retirada pela Globo da principal rede de distribuição por cabo e a SIC, que está lá, não tem programação especificamente dirigida ao Brasil.

Assim sendo, nenhum grande media português verdadeiramente dialoga com a população brasileira. Há muito que Portugal virou costas ao maior mercado de língua portuguesa do mundo. Sim, há mais livros, há autores portugueses publicados, etc. Mas nada disso atinge o essencial – o preconceito anti-português que está na própria raiz da nacionalidade brasileira.

Para isso ser superado ou mitigado teria que haver da nossa parte uma atenção muito maior e uma muito maior presença mediática portuguesa no Brasil, que simplesmente não existe.

Até lá, continuará a haver quem se regozije pela queima acidental do passado português do país; e a avaliar pela profundidade do ressentimento, nem sequer se pode excluir que alguém, nalgum lugar, lhe ponha fogo.

 

Carlos Fino

[Transcrição integral de artigo, da autoria do jornalista Carlos Fino, publicado no jornal online “Tornado” em 03.09.18. Imagem de topo de: Jornal da USP (Brasil)]
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3 Comments

  1. É “antilusitano” que se escreve, Carlos Fino está certo. “Anti” é apenas seguido de hífen quando o segundo elemento começa por h, i, r ou s. Leis o acordo de 1945.

    1. 5. Embora não seja adepto de “acordos ortográficos” individuais, reservo-me o direito de utilizar algumas “regras” de escrita próprias, especialmente em hifenização e maiúsculas iniciais, o que deve ser levado à conta de alguma latitude expressiva e/ou criativa.
      https://cedilha.net/ap53/about/

      São opiniões. Porém, este blog é meu, e portanto aqui escrevo e até transcrevo como me der na real gana. Apenas dos próprios autores aceito reclamações e, se assim algum dos ditos educadamente o solicitar, procederei a quaisquer eventuais alterações. Ler a Constituição da República e o Código dos Direitos de Autor.

  2. OK, pensei que seguia o acordo de 1945.

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