Costa em Angola: bué aldrabão, craro

Visita de Estado de António Costa a Angola

Em declarações à televisão estatal local, o Primeiro-Ministro português revela mais uma vez não apenas a sua total inépcia para a expressão oral em geral como a sua absoluta incapacidade na área da dicção em particular: ou seja, é praticamente impossível entender aquilo que o homem diz porque ele pura e simplesmente despreza a sua própria Língua de forma acintosa e progressivamente arrogante. Isto, é claro, caso não se trate de alguma deficiência — articulatória ou mental — clinicamente diagnosticada, de que seja portador o cidadão em causa, e estando ou não em curso o respectivo tratamento.

Acautelado tal handicap (nesta transcrição substituindo-se por anotações entre parêntesis rectos as expressões ou construções frásicas absolutamente incompreensíveis), resta ainda assim algo de picaresco — para não dizer anedótico — naquilo que debita Sua Excelência a respeito da Língua Portuguesa em geral e do “acordo ortográfico” em particular. Aliás, o facto de nem ter-me dado à maçada de destacar as declarações mais extraordinárias ou bizarras é desde logo indício de que não há ali nada a destacar, tudo o que ele diz sobre tais assuntos (que em absoluto e com indisfarçável orgulho desconhece) é mais do mesmo: puro paleio, verbo de encher, chorrilho de vacuidades, a treta do costume.

Note-se, porém, que este exemplar é um político de carreira e, portanto, há que tentar ouvir o que ele diz não dizendo e, sobretudo, o que ele implicitamente declara nas entrelinhas.

Ora, sob este prisma está lá tudo aquilo que significa actualmente a expressão “língua portuguesa”, o que é e para que serve a CPLP, em que consiste basicamente o AO90: o “acordo” é a base ideológica (conversa para enganar as massas) que sustenta a criação da Comunidade (variante neo-colonialista de cariz mercantilista, já não militar) tendo por finalidade a erradicação  do Português-padrão e a sua substituição pela variante brasileira.

Ou seja, tornando ainda mais claro o paleio de chacha do político, pretende este dizer, esfregando as mãos de contentamento, que o II Império brasileiro é a actual “rota das especiarias”, o El Dorado do século XXI, a casa-forte do Tio Patinhas à qual passarão a ter acesso não apenas os brasileiros de cartola como também os seus “amigos” portugueses — a irrisória minoria de traidores e vendidos, as ratazanas que já vão amarinhando pelo cordame de atracação das novas naus prontas a zarpar, ao invés do sentido da História, do Novo para o Velho Mundo.

Teria até sua piada, este triste, caso não fosse trágico, demente, catastrófico aquilo que na prática significam as suas graçolas.

[27:40] ent. –Os críticos da CPLP dizem que tem havido pouco investimento em matéria de língua, que afinal é o maior capital que a organização devia ter, ou que tem, e o que eu pergunto é, por exemplo, não constrange ao sr. primeiro-ministro o português, por exemplo, não ser língua de trabalho nas Nações Unidas? Vem aí o mês de Setembro, Conselho-Geral das Nações Unidas e aí não lhe constrange, por exemplo,{inaudível/incompreensível].
A.C. —E acho que é um trabalho que temos de continuar a fazer. Hoje temos mais de 230 milhões de falantes, prevê-se que em 2050 [‘tecemos’?] mais de 350 milhões de falantes em todo o mundo, portanto é uma língua que claramente está em expansão, é uma língua cada vez mais global, é uma língua que é falada em 4 continentes e acho que esse trabalho de promoção da língua é cada vez mais importante…

ent. —Mas qual é o óbice para avançar-se nesta matéria?
A.C. —Eu acho que não há óbice. Vamos lá ver. Nós todos temos tido, muitas vezes temos sido confrontados com outras prioridades; nem sempre os últimos anos foram fáceis para todos nós e portanto tivemos que nos concentrar, muitas vezes, na resolução de problemas internos mais do naquilo que podemos fazer, mas agora, que estamos numa fase de viragem, acho que essa, o reforço do investimento [‘da’? ‘na’?] promoção da língua será também importante. Posso-lhe dizer que o orçamento de Estado para o próximo ano em Portugal vai ter um reforço importante no Instituto Camões, que é o responsável pela promoção {inaudível/incompreensível] da língua. Temos feito investimentos importantes no aumento das escolas portuguesas. Por exemplo, não havia uma escola portuguesa em Cabo Verde e está-se a avançar com a escola portuguesa em Cabo Verde. Recentemente adquirimos algo que é absolutamente fundamental para a {inaudível/incompreensível] da língua e da cultura lusófona, que é o Real Gabinete de Leitura no Rio de Janeiro, que foi adquirido pelo Estado português, para o poder preservar, para além da vida sempre contingente da família que o geria. Portanto, temos vindo a procurar fazer esse esforço de investimento e quero acreditar que o vamos fazer, e vejo como muito auspicioso também o acordo que a TPA assinará amanhã com a RTP e com a Lusa, como uma outra forma de divulgar a língua, de promover a língua portuguesa.
ent. —A propósito da língua, como é que se vai resolver o grande handicap que é do acordo ortográfico? Até agora não se encontrou uma plataforma comum. Como é?
A.C. —Bom, Portugal fez a sua parte, cada um está a fazer a sua parte. Eu percebo as resistências que existem aqui e ali, mas eu acho que há uma coisa que é essencial e que temos que compreender: as línguas não são fixas, são vivas. E as línguas vivas vão-se transformando, não só na sua ortografia como no seu vocabulário. Hoje, nós, quanto mais não seja fruto das novelas, introduzimos na nossa linguagem do dia-a-dia um conjunto de expressões do português do Brasil que nós não utilizávamos ou nós também introduzimos em Portugal muitas expressões do — olhe — do português falado em Angola, como “bué”, hoje é uma palavra corrente em Portugal quando não era quando eu andava na escola…

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