Dia: 26 de Novembro, 2018

Biodesagradável

O que se deve fazer, xôtor, quando sentimos uma súbita vontade de vomitar? “Vomitar mesmo e pronto, já está”, xôtor? Mas… xôtor… e se estivermos num sítio cheio de gente, num café, à mesa de jantar, numa paragem de autocarro, por exemplo, ou até em plena rua, a ver as montras ou assim? Não que eu seja do tipo de andar a ver montras, por acaso até detesto andar a ver montras, fico fulo da vida quando a patroa insiste, ela é que tem esse vício, enfim, era só um exemplo, o caso é que a gente está muito bem e de repente vem-nos aquela coisa à garganta, oops, canoijo, se desato a vomitar já aqui é uma bronca dos diabos. E se, ainda por cima, para desajudar à festa, salvo seja, não houver por perto uma casa-de-banho, um simples balde, aqueles saquinhos para o enjoo que dão nos aviões ou outro recipiente qualquer? Isto é uma coisa que me angustia, xôtor, confesso, não sei se está bem a ver. Aborrece-me mortalmente incomodar o próximo com as minhas substâncias pastosas, digamos.

Sim, xôtor, bastantes vezes. E tem vindo a piorar muito, sabe? Como diz? Ah, pois, pois sim, infelizmente. Todos os dias tenho de ler muito texto incrivelmente nojento, sim, o paleio abjecto de uns tipos sinistros que parecem levantados do chão, como dizia o outro, ou que saltam de debaixo dos calhaus, como os lacraus, digo eu. Mas, repito, acho que a frequência e a intensidade dos acessos (será uma síndroma, xôtor, acha?, não poderá ser só um sintoma colateral de outra chatice qualquer?) têm aumentado exponencialmente nos últimos tempos. Quanto mais leio mais se me assoma à boca este asco, esta repulsa incontrolável.

Queira desculpar, xôtor. Eu vou ali e já volto.

Germano Almeida diz-se a favor de uma revisão do novo Acordo Ortográfico com base científica

InforPress” (Cabo Verde), 21/11/18

 

Cidade da Praia, 21 Nov (Inforpress) – O escritor cabo-verdiano, Germano Almeida, concorda que as decisões sobre o novo Acordo Ortográfico devem ter base científica, mas mostrou-se a favor de uma revisão se também os países envolvidos o defenderem, porque há coisas nele que não concorda.

Em entrevista à Inforpress, o prémio Camões 2018 corroborou a posição do ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, Abraão Vicente, de que decisões sobre o Acordo Ortográfico devem ter base científica e não resultar de opiniões de políticos “transitoriamente nos cargos”.

O escritor afirmou que a sua escrita em grande medida leva em conta o novo acordo e lembrou que ele foi aprovado pela maioria dos países que definiram que entraria em vigor há já alguns anos. Por isso, não pode ser posto em causa, defendeu.

″O senhor ministro tem toda a razão. Há uma coisa que as pessoas não se lembram é que Cabo Verde aprovou este Acordo Ortográfico. Ele pode não estar a ser seguido em Cabo Verde, mas a verdade é que Cabo Verde o aprovou. Portanto, para nós devia estar oficialmente nas escolas, nas repartições públicas e muito mais”.

Entretanto, Germano Almeida revelou que aprova uma revisão se os países envolvidos se juntarem para chegar à conclusão de que esse acordo merece ser revisto, porque há muitas coisas nesse acordo com as quais não concorda.

Mas, para se ter uma revisão, o romancista também defende que são necessários subsídios das comissões nacionais de línguas, das universidades e de investigadores que devem ser estudadas por especialistas nomeados pelos países envolvidos para depois decidirem sem imposições.

″Agora não é pelo facto de eu não concordar, que posso dizer que uso a antiga forma de escrita. Se digo que vou usar a forma nova não posso usá-la somente naquela parte que me convém. Portanto, o ministro tem razão quando ele diz que para a modificação do acordo será necessário uma coisa científica, mas de todos os países subscritores, ″ reiterou.

Para o escritor cabo-verdiano, natural da Boa Vista, esta questão não é apenas de Portugal, de Cabo Verde ou de Angola. Afirmou que em Portugal há muita gente, sobretudo os escritores, que são contra o novo acordo e escrevem de acordo com a forma antiga, mas considera esta atitude ″uma asneira″.

″Na minha opinião também é uma asneira porque as gerações mais novas estão a aprender a escrever tendo em conta o novo acordo e, daqui a algum tempo já ninguém se lembra mais do acordo antigo″.

No entanto, conforme Germano Almeida, o Acordo Ortográfico é importante para ter cada vez mais uma língua mais próxima. Isto porque todos os países de língua portuguesa, apesar de terem uma cultura diferente, usam a mesma língua para expressar essa cultura.

Por isso, os acordos são sempre bons porque não há interesse que haja no futuro uma dispersão de tal maneira que cada um tenha uma língua, ajuntou.

O escritor não acredita que o novo acordo tenha sido uma imposição, mas acredita que há pessoas que não estavam interessadas na sua feitura e depois de publicado resolveram protestar. No seu entender, não há dúvidas que há um certo conservadorismo, mas lembrou que ″a língua é uma coisa viva″.

″Lembro-me que quando eu fui para a escola estudar a primeira classe a palavra quisesse escrevia-se com “z”, farmácia escrevia-se com “ph”, mas agora ninguém escreve desta forma porque a língua é evolutiva.

De acordo com Germano Almeida, não se deve estranhar uma evolução da língua, mas o que se pode defender é uma evolução convincente, o que não acontece neste novo acordo. ″Este acordo tem muitas coisas que não são convincentes″.

[Transcrição integral de:Germano Almeida diz-se a favor de uma revisão do novo Acordo Ortográfico com base científica” (c/áudio),InforPress” (Cabo Verde), 21/11/18. Destaques, sublinhados, “links” e comentários meus. Imagem de topo de: Sema Pak.]

Não há cachupas grátis


Este indivíduo, um intelectual cabo-verdiano notabilíssimo no meio dos 5 ou 6 cabo-verdianos que já ouviram falar dele, aparece de repente a lançar uma campanha de promoção tipo “Amigos do Livro” ou “Círculo de Leitores” (não desfazendo em tão prestigiadas marcas de literatura a peso ou a metro), com o intuito de vender papel brasileiro — especialmente material escolar, subentende-se — nas dez ilhas daquele belo arquipélago.

Serve-se, para o efeito, o referido indivíduo, das patranhas do costume (a “internacionalização do português”, a “economia da língua”, etc.), mas pescando agora um “argumento” absolutamente inovador, novinho em folha: Cabo Verde deve “adotar” exclusivamente uma aberração (o AO90), extinguindo administrativamente qualquer vestígio do Português-padrão, porque, diz ele, no seu extraordinário “raciocínio”, a coexistência de ambas as formas de escrever, a correcta e a aberração,  é… uma “aberração”!

Tem sua piada, não tem?

Bom, ele de facto há gente para tudo, até para achar graça a coisas tristes. Pois cá p’ra mim parece-me demasiado, acho cruel isso, rir-se a gente dos pobres de espírito, fazer troça da indigência mental.

É certo que a veigana “aberração” invertida não lembraria à mulher da fava-rica mas o delírio não se queda por aí, há mais, existem neste desembestado folheto de propaganda outras semelhantemente — em género, grau e gravidade — vertiginosas alucinações.

Manuel Veiga classifica de “aberração” uma comunidade com a mesma língua com códigos de escrita diferentes

22 Novembro 2018

O presidente da mesa da assembleia-geral da Academia Cabo-verdiana de Letras (ACL), Manuel Veiga, disse que é uma aberração ter uma comunidade com a mesma língua e com códigos de escrita diferentes.

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O presidente da mesa da assembleia-geral da Academia Cabo-verdiana de Letras (ACL), Manuel Veiga, disse que é uma aberração ter uma comunidade com a mesma língua e com códigos de escrita diferentes.

O linguista e investigador cabo-verdiano, ex-ministro da Cultura, fez essas considerações em entrevista à Inforpress a propósito do novo Acordo Ortográfico, tendo realçado que ter uma comunidade com a mesma língua e com códigos de escrita diferentes “não facilita a internacionalização do português e tem incidências gravosas na economia da língua”.

Manuel Veiga, explicou, no entanto, que não é a primeira vez que a escrita do português sofre alteração citando como exemplo o caso de 1911 ocorrido em Portugal, que na sua óptica “foi uma das alterações mais significativas”.

Theatro” passou a ser representado por “teatro”, “philosofia” para “filosofia”; “pharmácia” para “farmácia”, “assucar” para “açucar”; “abysmo” para “abismo”, enumerou o linguista lembrando que nessa altura, a decisão de Portugal foi unilateral.

Por isso, Manuel Veiga diz-se certo de que o actual acordo da língua portuguesa “não vai ser o último”, porque outras modificações, a seu tempo, voltarão a ser feitas. “A língua é viva e dinâmica. A escrita que a representa tem que ser dinâmica também”, reforçou.

Segundo esse investigador, neste novo acordo, por razões ligadas à internalização[sic] do português, e outras ligadas à economia do produto linguístico, o mesmo livro editado no Brasil pode servir nos outros espaços da comunidade e vice-versa.

Entretanto, acrescentou ainda que por razões linguísticas ligadas à funcionalidade e à economia na representação gráfica em “acção, director” e outras palavras similares, o “c” é inútil, do ponto de vista linguístico.

Quanto à[sic] uma nova revisão, Manuel Veiga acredita que Cabo Verde não se vai posicionar isoladamente, no presente o no futuro, porque nunca o fez no passado.

No entanto, defendeu que uma provável revisão deve ter uma base científica, tal como aconteceu antes, em que a base foi preparada pela Academia de Ciência de Lisboa, pela Academia de Letras do Brasil, com a colaboração de linguistas e estudiosos de Cabo Verde, da Guiné-Bissau e de S. Tome[sic] e Príncipe.

Lembrou que em Cabo Verde, participou juntamente com linguistas e investigadores cabo-verdianos no processo da preparação da base científica para o Acordo Ortográfico de 1990.

“Eu próprio, na qualidade de linguista e investigador, Corsino Fortes, na qualidade de escritor, Moacyr Rodrigues, na qualidade de estudioso, estivemos a representar Cabo Verde nos debates e reflexões científicas do Acordo, promovidos pelas Academias de Ciência de Lisboa e de Letras do Brasil”, exemplificou.

Quanto à opinião do ministro da Cultura e Indústrias Criativas, Abraão Vicente, segundo a qual tal decisão não pode resultar de opiniões de políticos “transitoriamente nos cargos”, Manuel Veiga sustentou que assim como existiu no passado, existe também no presente. E sendo os Governos legítimos, democraticamente eleitos, têm também a legitimidade para assinar acordos e respeitar os compromissos internacionais assumidos, ontem e hoje, reforçou.

Conforme o presidente da mesa da assembleia-geral da Academia Cabo-verdiana de Letras, Cabo Verde assinou, em Lisboa, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, juntamente com Portugal e o Brasil, entre outros, a 16 de Dezembro de 1990.

Através do Decreto número 26, de 01 de Abril, Cabo Verde ratificou o Acordo Ortográfico, no âmbito do que aconteceu no Brasil, Portugal e S. Tome e Príncipe.

Em Julho de 2004, o Presidente de Cabo Verde, na Cimeira de S. Tome e Príncipe, juntamente com os seus homólogos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), aprovou o Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico. O mesmo, juntou, estipulava que para a entrada em vigor desse Protocolo, bastava a ratificação de três dos países-membros da Comunidade.

E com o Decreto 4/2005, de 30 de Março, Cabo Verde, na sequência do Brasil e S. Tomé, ratificou o protocolo modificativo e Portugal fez o mesmo logo a seguir.

Através do Decreto 10/2009, de 14 de Dezembro, BO 47, I Série, o Governo de Cabo Verde determinou um período experimental de seis anos, na aplicação do Acordo. “Note-se que o período experimental do Brasil era de 4 anos. Para Portugal o mesmo era também de seis anos (2009-2015)”, explicou o linguista e investigador Manuel Veiga.

 

A Semana/Inforpress

[Transcrição integral de: “Manuel Veiga classifica de “aberração” uma comunidade com a mesma língua com códigos de escrita diferentes”“A SEMANA” online (Cabo Verde), 22 Novembro 2018. Destaques, sublinhados e “links” meus. Imagem de topo (“Cachupa”, prato típico cabo-verdiano) de: Bimby World.]