Não há cachupas grátis


Este indivíduo, um intelectual cabo-verdiano notabilíssimo no meio dos 5 ou 6 cabo-verdianos que já ouviram falar dele, aparece de repente a lançar uma campanha de promoção tipo “Amigos do Livro” ou “Círculo de Leitores” (não desfazendo em tão prestigiadas marcas de literatura a peso ou a metro), com o intuito de vender papel brasileiro — especialmente material escolar, subentende-se — nas dez ilhas daquele belo arquipélago.

Serve-se, para o efeito, o referido indivíduo, das patranhas do costume (a “internacionalização do português”, a “economia da língua”, etc.), mas pescando agora um “argumento” absolutamente inovador, novinho em folha: Cabo Verde deve “adotar” exclusivamente uma aberração (o AO90), extinguindo administrativamente qualquer vestígio do Português-padrão, porque, diz ele, no seu extraordinário “raciocínio”, a coexistência de ambas as formas de escrever, a correcta e a aberração,  é… uma “aberração”!

Tem sua piada, não tem?

Bom, ele de facto há gente para tudo, até para achar graça a coisas tristes. Pois cá p’ra mim parece-me demasiado, acho cruel isso, rir-se a gente dos pobres de espírito, fazer troça da indigência mental.

É certo que a veigana “aberração” invertida não lembraria à mulher da fava-rica mas o delírio não se queda por aí, há mais, existem neste desembestado folheto de propaganda outras semelhantemente — em género, grau e gravidade — vertiginosas alucinações.

Manuel Veiga classifica de “aberração” uma comunidade com a mesma língua com códigos de escrita diferentes

22 Novembro 2018

O presidente da mesa da assembleia-geral da Academia Cabo-verdiana de Letras (ACL), Manuel Veiga, disse que é uma aberração ter uma comunidade com a mesma língua e com códigos de escrita diferentes.

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O presidente da mesa da assembleia-geral da Academia Cabo-verdiana de Letras (ACL), Manuel Veiga, disse que é uma aberração ter uma comunidade com a mesma língua e com códigos de escrita diferentes.

O linguista e investigador cabo-verdiano, ex-ministro da Cultura, fez essas considerações em entrevista à Inforpress a propósito do novo Acordo Ortográfico, tendo realçado que ter uma comunidade com a mesma língua e com códigos de escrita diferentes “não facilita a internacionalização do português e tem incidências gravosas na economia da língua”.

Manuel Veiga, explicou, no entanto, que não é a primeira vez que a escrita do português sofre alteração citando como exemplo o caso de 1911 ocorrido em Portugal, que na sua óptica “foi uma das alterações mais significativas”.

Theatro” passou a ser representado por “teatro”, “philosofia” para “filosofia”; “pharmácia” para “farmácia”, “assucar” para “açucar”; “abysmo” para “abismo”, enumerou o linguista lembrando que nessa altura, a decisão de Portugal foi unilateral.

Por isso, Manuel Veiga diz-se certo de que o actual acordo da língua portuguesa “não vai ser o último”, porque outras modificações, a seu tempo, voltarão a ser feitas. “A língua é viva e dinâmica. A escrita que a representa tem que ser dinâmica também”, reforçou.

Segundo esse investigador, neste novo acordo, por razões ligadas à internalização[sic] do português, e outras ligadas à economia do produto linguístico, o mesmo livro editado no Brasil pode servir nos outros espaços da comunidade e vice-versa.

Entretanto, acrescentou ainda que por razões linguísticas ligadas à funcionalidade e à economia na representação gráfica em “acção, director” e outras palavras similares, o “c” é inútil, do ponto de vista linguístico.

Quanto à[sic] uma nova revisão, Manuel Veiga acredita que Cabo Verde não se vai posicionar isoladamente, no presente o no futuro, porque nunca o fez no passado.

No entanto, defendeu que uma provável revisão deve ter uma base científica, tal como aconteceu antes, em que a base foi preparada pela Academia de Ciência de Lisboa, pela Academia de Letras do Brasil, com a colaboração de linguistas e estudiosos de Cabo Verde, da Guiné-Bissau e de S. Tome[sic] e Príncipe.

Lembrou que em Cabo Verde, participou juntamente com linguistas e investigadores cabo-verdianos no processo da preparação da base científica para o Acordo Ortográfico de 1990.

“Eu próprio, na qualidade de linguista e investigador, Corsino Fortes, na qualidade de escritor, Moacyr Rodrigues, na qualidade de estudioso, estivemos a representar Cabo Verde nos debates e reflexões científicas do Acordo, promovidos pelas Academias de Ciência de Lisboa e de Letras do Brasil”, exemplificou.

Quanto à opinião do ministro da Cultura e Indústrias Criativas, Abraão Vicente, segundo a qual tal decisão não pode resultar de opiniões de políticos “transitoriamente nos cargos”, Manuel Veiga sustentou que assim como existiu no passado, existe também no presente. E sendo os Governos legítimos, democraticamente eleitos, têm também a legitimidade para assinar acordos e respeitar os compromissos internacionais assumidos, ontem e hoje, reforçou.

Conforme o presidente da mesa da assembleia-geral da Academia Cabo-verdiana de Letras, Cabo Verde assinou, em Lisboa, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, juntamente com Portugal e o Brasil, entre outros, a 16 de Dezembro de 1990.

Através do Decreto número 26, de 01 de Abril, Cabo Verde ratificou o Acordo Ortográfico, no âmbito do que aconteceu no Brasil, Portugal e S. Tome e Príncipe.

Em Julho de 2004, o Presidente de Cabo Verde, na Cimeira de S. Tome e Príncipe, juntamente com os seus homólogos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), aprovou o Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico. O mesmo, juntou, estipulava que para a entrada em vigor desse Protocolo, bastava a ratificação de três dos países-membros da Comunidade.

E com o Decreto 4/2005, de 30 de Março, Cabo Verde, na sequência do Brasil e S. Tomé, ratificou o protocolo modificativo e Portugal fez o mesmo logo a seguir.

Através do Decreto 10/2009, de 14 de Dezembro, BO 47, I Série, o Governo de Cabo Verde determinou um período experimental de seis anos, na aplicação do Acordo. “Note-se que o período experimental do Brasil era de 4 anos. Para Portugal o mesmo era também de seis anos (2009-2015)”, explicou o linguista e investigador Manuel Veiga.

 

A Semana/Inforpress

[Transcrição integral de: “Manuel Veiga classifica de “aberração” uma comunidade com a mesma língua com códigos de escrita diferentes”“A SEMANA” online (Cabo Verde), 22 Novembro 2018. Destaques, sublinhados e “links” meus. Imagem de topo (“Cachupa”, prato típico cabo-verdiano) de: Bimby World.]

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