Dia: 21 de Dezembro, 2018

Lá foi

Uma coisa é o estilo, outra é a marca de cigarros. Esta pretendia ser uma (fumegante) homenagem àquele, mas nem o arquitectónico tributo salvou a marca, pela intenção, das chamas ateadas pela Nova Inquisição. Os velhos maços de “Português Suave”, com ou sem filtro (eu cá pelava-me por ambas as modalidades), foram amputados do segundo termo pelos crentes fanáticos da SLPC (Santa Linguagem Politicamente Correcta).

Pois então, lá diz o povo, não há duas sem três, ou que uma desgraça nunca vem só, chiça, que o povo é lixado, com a mesma designação temos agora algo bem mais modesto e que certamente não deixará marca, este artigalho sobre um livrinho da autoria de certo gajo porreiríssimo. Trau, tomai lá, portuguesitos, este é o ‘Lá Fora´, obra primorosa, não desfazendo, a qual tem toda a pinta de autobiografia ou será, no mínimo, não sei bem porque não li nem vou saber porque não faço (agora) tenções disso, uma espécie de auto-retrato.

Português suave“, a peça jornalística, é, de facto, laudatório título a condizer com o criador de “Lá Fora“, a criatura, pois assim deviam ser todos, suavezinhos e bonacheirões, uns barilaços que fazem questão de estar de bem com Deus e com o Diabo, tudo gajos (e gajas) tipo Marcelo — a propósito, é estranhíssimo não ter o Presidente da República estado presente no lançamento da obra, sendo o autor desta seu “consultor cultural” e tudo — que têm sempre uma palavrinha solidária para dar, abracinhos a gastar e milhões de selfies para tirar.

Acho que já vi este filme, daí a irritação. Em Portugal, que é uma aldeia (ou uma pequena cidade, vá), onde toda a gente se conhece e conhece os grupos aos quais é conveniente pertencer (ou, ao menos, não hostilizar), as “causas” não passam de simples produto de consumo que se usam enquanto convêm (e convém) e que se deitam fora quando deixam de convir.

O livro foi publicado em Março de 2018. Teve desde então direito a inúmeros artigos, textos e entrevistas, tudo em acordês, à excepção desta última, no “i”: por exemplo, na Visão, no Observador, no DN, entre outras. Teve ainda direito a… direito de antena: na Antena 2, na Antena 3 e na Feira do Livro de Lisboa.

Foi bonita a promoção, pá! Nada a objectar, bem entendido. Escrever é preciso, divulgar também é preciso. Mas… e o Português? Nem uma palavra, agora, sobre o “acordo”, nada a respeito da Língua, sequer? Gastaram-se todas as palavras entre 2010 e 2013 (ou 2015), o assunto deixou de interessar — ou seja, já não convém — e pronto, toda a gente foi à sua vidinha, assobiando, vamos lá ver se o guisado está encruado ou se terá ficado recozido? O AO90 “já era”, Maria, olha, procura aí no Google uma  “causa” que esteja a dar?

Mas… ora vejamos… irra, que até fico entupido, digo, estúpido.

Não teriam sido todas estas ocasiões, ou qualquer delas, artigos e entrevistas de um “Português Suave” promovendo o seu “Lá Fora”, excelentes oportunidades para defender — referir, no mínimo, raios! — o Português Correcto? Queda-se por nada de nada elevado ao cubo, opta por zero absoluto? Nem uma palavrinha, caramba?!

Não fui lá, mas quem sou eu, ui, iria dar péssimo aspecto à tertúlia, que horror, mas se tivesse sido convidado, se calhar, ao lançamento da obra até iria, para ouvir falar de “Lá Fora” lá fora. Assim, nada feito, “Lá Fora” lá foi.

E palpita-me que Mexia também, seu estilo e sua marca.

Pedro Mexia. Português Suave

João Oliveira Duarte
jornal “i”, 12/12/2018

Em «Lá Fora», conjunto de crónicas editadas este ano, Pedro Mexia dá largas a uma tonalidade que se vem tornando cada vez mais comum nas letras portuguesas: uma tristeza vaga, levemente nostálgica, cuja razão de ser não se entende. Um mundo declinado em português suave.

Antigo director interino da Cinemateca, comentador político na televisão e na rádio, crítico literário e cronista do jornal Expresso, director de uma colecção de poesia da editora Tinta da China, consultor cultural da Presidência da República, júri de inúmeros prémios literários e, encimando um já extenso currículo político-cultural, poeta, Pedro Mexia publicou, em Abril deste ano, «Lá Fora», um conjunto de crónicas com prefácio de outro nome maior da cultura em Portugal, António Mega Ferreira.

Maioritariamente escritos para o Expresso, estes pequenos textos vão do bucolismo da Serra da Lousã à placidez da Figueira da Foz, passam por África, Brasil, Havana ou Londres e englobam histórias menores e pequenos apontamentos que tanto podem versar sobre temas mais mundanos (a ponte «25 de Abril», o «Café Império» ou Robert Falcon Scott, o segundo homem a atingir o Pólo Sul, por exemplo) como sobre literatura, cinema, música pop ou mesmo política – um dos melhores textos deste volume é, sem dúvida, «A sauna da democracia».

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