Dia: 31 de Dezembro, 2018

Dicionários em acordês? Servem nos “dabliúcês”!

Aviso higiénico

O artigo seguidamente transcrito contém falas, ditos e piadas (foleiras) que podem irritar gravemente as meninges das pessoas normais. A mais do que óbvia manobra publicitária para vender papel higiénico acordista (passe a redundância) pode, pela sua toxicidade, originar situações de agressividade nos mais susceptíveis. Não me responsabilizo por quaisquer danos que os leitores possam provocar, como consequência da leitura e em reacção (natural, compreensível) às insanidades ali regurgitadas, nos seus teclados, ecrãs de computador, cadeiras ou mesas de trabalho e demais utensílios de trabalho (ou lazer). Desta vez, em suma, o Governo não adverte coisa nenhuma, sou eu mesmo quem adverte o pessoal: pessoal, tenham lá calma, ok? Não se enervem. Como podem ver ali em cima, naquele anúncio, o papel higiénico de marca branca está caro, caríssimo, pela hora da morte. Haja poupança, com mil raios, salvemos umas árvores, ou assim, vamos lá dar alguma serventia ao papel acordista.

 

Dicionários em papel para quê? (e para quem?)

Dão-nos informação completa e de confiança e são instrumentos imprescindíveis para qualquer falante de uma língua, sobretudo em ambiente pedagógico. A Texto Editora lançou há pouco tempo o Dicionário da Língua Portuguesa — Léxico, Gramática, Prontuário. Para alunos, professores e para quem não se contenta com a superficialidade dos dicionários online.

Rita Pimenta (texto) e Miguel Feraso Cabral (ilustração)
“Público”, 30 de Dezembro de 2018

 

“Um bom dicionário em papel é o poema primitivo da língua”, diz a escritora Lídia Jorge. “Uma alegria”, segundo a editora e escritora Maria do Rosário Pedreira. “Um companheiro”, afirma o tradutor Francisco Agarez. Afirmações retiradas da divulgação pela Texto Editora do novo Dicionário da Língua Portuguesa.

“Verbetes”, “lexicografia” e “contexto frásico” fazem parte da linguagem específica dos dicionaristas. Há palavras “difíceis” no depoimento conjunto que Aldina Vaza e Emília Amor, autoras do recentemente lançado Dicionário da Língua Portuguesa — Léxico, Gramática, Prontuário (Texto Editora), nos fizeram chegar por correio electrónico. Caso escape ao leitor o significado de algum vocábulo ou expressão, sabe o que tem a fazer: consultar um dicionário. Em papel.

Porque é de linguistas que se trata, respeitámos[nota] a grafia escolhida por estas profissionais que há mais de 20 anos se dedicam a coligir e descodificar as palavras que nos ajudam a comunicar. Assim sendo, a prosa que surgir nas respostas segue o Acordo Ortográfico de 1990, a outra, não. Um espelho actual das letras portuguesas.

Mas comecemos pela resposta de Carmo Correia, directora de Edições Escolares da Leya (que integra a Texto), quando se lhe pergunta se ainda vale a pena publicar dicionários em papel. “Obviamente que sim. Os dicionários online disponibilizam habitualmente uma informação mais curta do que os dicionários em papel. E, sobretudo, são utilizados para uma consulta mais rápida, mais imediata. A existência deste dicionário em papel justifica-se por se tratar de uma obra que apresenta uma informação mais completa, para uma consulta menos superficial.”

Esta responsável informa que a tiragem inicial do dicionário foi de 2 mil exemplares e diz que quem compra dicionários em papel são “os professores, os alunos, os encarregados de educação, os profissionais da língua — jornalistas, escritores, tradutores, editores, … — e as pessoas que, de um modo geral, pretendem conhecer e usar correctamente a língua portuguesa”.

Carmo Correia diz ainda que “este dicionário tem uma vocação escolar assumida”. Pelo que “os programas e metas curriculares do ensino básico e do ensino secundário e o Dicionário Terminológico de Língua Portuguesa foram tidos em linha de conta na selecção de entradas do dicionário, para que esta obra corresponda às necessidades lexicais e de aprendizagem dos alunos”.

Damos agora voz às autoras Aldina Vaza e Emília Amor.

Este dicionário é para quem? 
A delimitação do público-alvo e a identificação das suas necessidades e interesses estão entre as preocupações dominantes de quem se propõe fazer um dicionário. O perfil desse público tem o papel de guia na produção de toda a obra, desde a definição da nomenclatura até aspectos como qualidade e tipologia das definições, exemplos, marcas de uso, etc.

Este dicionário, que se assume como de aprendizagem, tem como público-alvo privilegiado os alunos dos ensinos básico e secundário, mas, pelas suas características, serve também um público muito mais vasto, em que cabem todos os que usem a língua portuguesa como instrumento de estudo ou de trabalho e os que desejem aumentar os seus conhecimentos sobre a língua e esclarecer dúvidas sobre o seu bom uso.

Como é que se escolhe o que se “põe” num dicionário?
O que incluir num dicionário e como fazê-lo são outras das preocupações dominantes da actividade dicionarística. Para produzir um dicionário original, não basta socorrer-se de alguma da informação fornecida por outro(s) dicionário(s) já existente(s), acrescida de mais dados e efectuados os necessários ajustamentos. É preciso muito mais.

Um dicionário feito de raiz, original, impõe outro percurso: elaborar um corpus, ou recorrer a um já existente, mas reconstruindo-o e explorando-o de uma forma inovadora, com critérios e instrumentos adequados ao perfil do dicionário pretendido. Seleccionar uma lista de palavras (nomenclatura) que constitua a base de um dicionário de aprendizagem, como o nosso pretende ser, é um trabalho complexo e moroso. A nossa experiência testemunha-o.

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