‘Nem me lo digas’

Por estas e por outras que tais é que a gente apanha pedras na visícula e úrsulas no diodene ou inclusível algum câncaro no colombo, ou assim. Tudo derivado aos nerves, claro, que já não há paciência pra levar cas asneiras do pessoal. Isto, estrafegar a própria ingnorância nas fuças do pagode, é como controlar uma retunda só pra gastar pitroil e mostrar ós pategos que se ganha bilhões sem saber ler nem escrever.

Não tem nada a haver e não me falem o contráiro.

Então, é assim: tamém, tamém e já vou ter com vocês

Patrícia Reis
“Sapo 24”, 29.11.18

A língua evolui, contamina-se, é um tecido vivo e não pretendo ser purista da língua, longe de mim. O que me aborrece é perceber que diminuímos o vocabulário à conta da facilitação da leitura e da escrita e que não temos cuidado com a língua que nos dá identidade.

Eu pasmo com a utilização da preciosa Língua Portuguesa e pasmo todos os dias. Muitas vezes, acontece-me admirar aquela palavra que faz parte do vocabulário de alguém e que não ouvia há muito, palavras que me surpreendem, que se mantêm vivas. Tenho um amigo cuja adversativa favorita é “não obstante”. Esta terminologia está incorrecta e antes que me peguem por aí, já que há sempre quem queira ser hostil ou jocoso, pois faço a emenda e faço jus ao dicionário que tenho à mão: não obstante, uma locução conjuntiva cujo significado se refere a uma situação de oposição a uma outra ideia apresentada, mas que não impede sua concretização.

Hoje tive o infeliz acaso de me cruzar com uma dama de boas famílias, casa posta e anéis de ouro verdadeiro no dedo, bom relógio, fatinho de marca francesa, mala a condizer. No espaço de meia hora, a dita senhora, com quem não me cruzarei nunca mais, o que, verdade seja dita, facilita muito esta minha opção de tema para a crónica desta semana, bombardeou-me com vários “tamém” e, sem excepção, todas as frases que proferiu começaram com “é assim”. Faltou-me, no final do encontro, o “então vá”, mas não se pode ter tudo.

Como é que uma pessoa com estudos e tal, todo o pedigree que reclama educação, consegue falar assim? É certo que as pessoas falam mal, todos nós. Engolimos palavras, a nossa dicção é um desastre, a construção frásica está contaminada com inglesismos e afins, está repleta de opções linguísticas que herdámos, na sua maioria do tal país irmão, o Brasil. Portanto, hoje há muita gente que opta pelo verbo “falar”, quando na verdade o que pretende dizer se ajusta ao verbo “dizer”.

E a senhora disse: “Ele falou que o verde era melhor”. Com sotaque ficaria perfeito, assim foi só mais um arrepio que me sacudiu a alma e, a certa altura, admito sem pudor, deixei de perceber qual era o objectivo da nossa reunião, mantive-me concentrada nas calinadas do português e pasmei. Pasmei por me pasmar, pasmei por me parece estranho que assim fosse. Sim, as pessoas não são o que vestem, mas são também (com b!) a forma como falam (aqui do verbo falar!). Quando virei as costas à dita cuja assassina da língua mãe ainda tive esta pérola: “Já vou ter com vocês e, para além disso, olhem eu sou uma ovelha ranhosa”.

Morri com tanto ranho a escorrer – diz-se ovelha ronhosa, ou pelo menos deveria ser assim – e matutei naquela ideia de que “para além” está a metafísica. Comentei esta minha aventura sociológica e linguística com um adolescente. Este, atento, disse-me ficar perturbado com frases que começam assim. “tenho um amigo meu” ou “há uns anos atrás”. Ficámos os dois à cata de mais erros praticados com a regularidade matemática que a asneira sem punição permite. Assim, debatemos o verbo “realizar” e “o protagonista principal” e, ainda, onde e como usar o verbo “pôr” e o verbo “colocar”.

A língua evolui, contamina-se, é um tecido vivo e não pretendo ser purista da língua, longe de mim. O que me aborrece é perceber que diminuímos o vocabulário à conta da facilitação da leitura e da escrita – sim, cá estou eu a bater nas redes sociais por terem mais poder do que a Literatura, mas tenham paciência, aceitem que custa menos, eu sou assim – e que não temos cuidado com a Língua que nos dá identidade, que nos projecta na História e nos une. Aprende-se a falar melhor quando se é bom leitor? Não é discutível. Aprende-se a falar e a escrever melhor.

Conclusão? É assim, tamém com vocês, há uns anos atrás, não tinham realizado isto, certo?

[Source: Então, é assim: tamém, tamém e já vou ter com vocês, por Patrícia Reis“Sapo 24”, 29.11.18.]

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2 Comments

  1. Maria Oliveira

    Ei… Ei… Espera. Ooooouuu. Parou! É parar já tudo, por favor!
    Como…?

    Patrícia Reis? Esta senhora é aquela que – deixa cá ver, tenho isto (aqui) registado no iPad desde… 26 de Setembro de 2012, sob o triste título “Erros de escritores” – escreveu “A Felicidades deles”?… Pois é, a mesma senhora que – li, com riso cínico, numa revista para pseudo-intelectuais, sobre livros – “fez estágio na revista norte-americana Time, em Nova Iorque”?… Uma que é “escritora”?… Exactamente, confirma-se.

    Ora, ora!
    Que anotei eu, naquela data? 3 erros horripilantes de estrutura frásica, daqueles mesmo decalcadinhos do “cámones”, do estilo “janela de oportunidade” ou “põe-te nos meus sapatos”!

    A saber:
    1.”A miúda dera um salto de fé (“Leap of faith”) tão violento que derrubara a sua vontade”;
    2.”Não pretendia possuir casas e contas em bancos diversos; não era sobre isso. (de “it was not about that”)”;
    3.”Não, Teresa, estás a fazer com que eu tenha uma vida (…)”, (da expressão cámone “to have/to get a life”.

    E que tal
    1.tivera um assomo de coragem / fizera uma derradeira tentativa / dera um tiro no escuro…
    2.não era (esse) o caso / não era essa a questão / essa questão não se punha / não era isso que estava em causa;
    3.estás a fazer com que eu me decida / estás a forçar-me a reagir, a tomar uma atitude.

    Pelo início do texto que aqui li, a banalidade vocabular e de construção frásica, a pobreza de argumentos, a falta de beleza emanada do antigo desenrolar da tinta pela esfera-gráfica e hoje tornada alfabeto teclável, HESITO (como diria o saudoso António Feio) em considerar aquela senhora uma escritora.

    Num assomo de pequeno resquício por Patrícia Reis, faço pastiche da sua sofrível-quase-péssima escrita: chamar à senhora “escritora” é mero “wishfull-thinking”, “fools gold”… “whatever…”

    Neste país, ser escritor é uma questão de currículo, contactos, “show off”. Recordo um concurso literário de há uns anos após o qual, publicada a acta “online”, tinham os jurados escolhido o paleógrafo de uma alminha porque… Escrevia bem? NÃO! Era original? NÃO! Venceu porque… demonstrava um bom conhecimento da geografia europeia, pelas viagens feitas! Pimba! Hoje, valha-nos S. GoogleEarth!

    Que Patrícia Reis seja jornalista e a escrita lhe assome ao caco e à pena de forma despojada e seca, ainda vá, compreende-se, deformação profissional, pouco esforço, escrita de passo escorreito, apressado e árido, mas daí a uma pobreza como a que o texto acima tão claramente plasma… dói. Escrevem sumamente melhorzinho alguns dos meus alunos do secundário (mais precisamente, do ensino profissional). Se esta senhora é escritora, saia um prémio Nobel aqui p’rá minha mesa, se fazem favor. No kidding…

  2. Desconhecia fosse o que fosse sobre a autora. A “ideia” desta transcrição (sem qualquer destaque ou sublinhado, excepcionalmente) foi ilustrar com um exemplo a flagrante contradição entre o “cuidado com a língua”, de que ela fala, e a total ausência de cuidado com a mesma língua, que não refere uma única vez; ou seja, o contraste flagrante entre os vários exemplos de “calinadas” que enumera e o facto de jamais mencionar o AO90, este sim, o mais alienígena dos “estrangeirismos”, o mais bárbaro dos “barbarismos”, a mais destrutiva das imbecilidades.

    É para mim novidade o triste curriculum da autora mas encaixa que nem uma luva no perfil de ignorância triunfante em que tipicamente (e alegremente) chafurdam acordistas.

    Confere.

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