Mês: Janeiro 2019

ετυμολογία: προέλευση, τρόπος σχηματισμού και η εξέλιξη μιας λέξης

De onde vêm as palavras dos dicionários? Trá-las a cegonha, como aos bebés

Nuno Pacheco
publico.pt, 17.01.19

 

Não tencionava voltar esta semana ao tema, mas três razões vieram impor-se: os argumentos invocados por alguns comentários à minha crónica anterior; uma notícia da Rádio Agência, de Brasília, sobre o acordo ortográfico; e a edição, recente, de mais um dicionário da Texto.

Comecemos pelos comentários. Num, diz-se que “o AO não é um instrumento perfeito. (…) Que tem bastantes incongruências, é verdade. Que muitas delas podem ser corrigidas, também o é.” Mas alguém as corrigirá? Outro: “Graças a si e aos demais como o sr. pensam e (pior) agem, a língua portuguesa daqui a menos de duas décadas estará num museu.” Engana-se, já está. Em São Paulo. E ainda ninguém se queixou.

Outro ainda: “É pena não ver algo muito mais importante (e preocupante!), que é a (cada vez menos) subreptícia [sic] instalação de anglo-americanismos no discurso diário [PÚBLICO incluído].” Uma coisa não exclui a outra: as aberrações da “nova ortografia” são, aliás, mais recentes do que as modas dos anglicismos (antes foram os galicismos), porque o papaguear “estrangeiro” sempre foi, desde há décadas ou até séculos, forma ridícula de nos imaginarmos “maiores”; enchemos a boca dos valores do Português, mas à mínima oportunidade ignoramo-lo. Isso enquanto permitimos que o Português se deforme até ficar irreconhecível à vista e à fala.

Por fim: “Qualquer entidade pública e até as empresas devia [sic] estar obrigadas por lei a aplicar somente o AO que esteja em vigor!” Pois se assim fosse, aplicariam o AO de 1945, único ainda em vigor por lei. O AO90 foi imposto por resoluções, do governo e da assembleia, e essas, como devia ser claro para todos, não têm valor para revogar tal lei. Fica claro?

Há, no meio de tudo isto, um justo alerta: o “quase desaparecimento do ensino do Latim e do Grego do ensino secundário português, e das consequências desta situação na qualidade do ensino do Português.” É verdade, mas até isso anda associado aos efeitos nefastos do dito acordo de 1990, com a deslegitimação da etimologia em prol da fonética.

Basta ver a mais recente edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Texto (já com o AO), das mesmas autoras do Dicionário Verbo de 2006 (ainda sem AO). Num e noutro, não há indicações etimológicas (ao contrário do que sucedia no Universal da Texto de 1995, ou no da Porto Editora de 2009). De onde vêm as palavras? Não dizem. Nem grego, nem latim, nem árabe, nem qualquer língua que haja influenciado a nossa. Podemos talvez arriscar esta explicação patética: Palavras? Trá-las a cegonha, como aos bebés. Tentem agora dizer isso às crianças.

Mas já que falamos deste dicionário, que só por si há-de merecer um texto (não por ele, em particular, mas pelas aberrações que o acordês lhe impõe), registe-se a reabilitação de óptico (relativo à luz, aos olhos, à visão), deixando o ótico aos ouvidos. E sem dupla grafia! Isto contradiz o AO, claro, mas alguém se importa?

Já a secção das “espetadas” ganhou curioso alinhamento. Assim: espetacular, espetáculo, espetada, espetador, espetar, espeto. No Brasil escreve-se espectador, cá não, e o Dicionário deixa isso claro, com um pêzinho ao lado de espetador, indicando que tem “uso privilegiado” [sic] em Portugal. Para quê isto, no entanto, se, como se afirma na Introdução, o AO “prevê o uso facultativo das variantes lexicais europeia e brasileira em todo o espaço lusófono”? Prevê mesmo? Olhe que não.

No site brasileiro Português à Letra (que aplica e pretende “explicar” o AO) diz-se claramente: “Quando duas formas são indicadas como válidas, embora sejam ambas corretas [sic], não são necessariamente recomendadas em todos os países.” E mais adiante: “Por seguirem até agora a mesma norma que Portugal, considera-se que os PALOP e Timor apresentarão formas idênticas [no pós-acordo]. ”

E aqui vem, em todo o esplendor, a monumental farsa que é o AO90. Continuamos a ter duas normas, a portuguesa e a brasileira, e jamais uma ortografia “unificada”. Se tivéssemos mantido as normas portuguesa de 1945 e a brasileira de 1943 podíamos fazer o mesmo exercício, com a vantagem de não termos de ler notícias como a que publicou no dia 10 de Janeiro a Rádio Agência, de Brasília (que transmite as sessões da Câmara dos Deputados): “Não há acordo sobre Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.”

Na reportagem radiofónica (e também escrita), diz-se que o AO “só se tornou obrigatório no Brasil em 2016. Em Portugal e Cabo Verde o acordo também já é obrigatório. Mas isso ainda não ocorreu nos outros países que falam português.” Mais: “Apesar de todos os esforços, não há acordo sobre o AO, nem mesmo no Brasil.” Uma professora de Letras afirma que, “na verdade, não precisaríamos de um acordo ortográfico. (…) É alguma coisa na contramão do desenvolvimento da escrita”; um professor universitário diz, a favor do AO, que este quis “eliminar a duplicidade de ortografias que havia em português” [só que não as eliminou, pelo contrário, mudou-as para pior]; e a presidente da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, Raquel Muniz (do PSD) afirma que é este o “momento para revisão da norma.”

Querem parar de brincar com a nossa paciência, de uma vez por todas?

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de crónica do jornal “Público”, da autoria de Nuno Pacheco, publicada em 17.01.19. Os “links” a verde são meus. Título do “post” em Grego moderno) composto em: Greek Language Portal. ]

Más notas em que setor, setor?

Como mais uma vez se constata, a julgar pelo teor “derrotista” do estudo, pelo tom “reaccionário” do artigo e pela chatice que é a chamada “realidade”, o Ensino da Língua Portuguesa, em Portugal e arredores, vai de vento em popa… para o desastre.

A tal aborrecidíssima “realidade” persiste em contrariar as eufóricas afirmações de acordistas militantes, que ele isto agora com o “acordo ortográfico”, dizem, é só facilidades, que a degola de consoantes “mudas”, dizem, torna para qualquer mentecapto muitíssimo mais fácil a aprendizagem do Português, que o AO90 facilita bué, dizem, os estudos das criancinhas, coitadinhas.

E dizem “criancinhas” com quem diz criancinhas ligeiramente crescidas, médicos ou até professores, porque não, ao fim e ao cabo um professor — mesmo ou especialmente um professor de Português — foi também, em tempos, uma criancinha, roçou seus fundilhos nos bancos da escola e ali andou uns anos a levar com as “técnicas pedagógicas” malaquenhas, as “facilidades” acordistas, pois está claro, há que torcer o pepino enquanto é pequenino, mais tarde ele receberá com uma média fantástica seu canudo de professor de skate ou de surf (com especialização em tubos), mestre em estupidificação maciça e doutor e tudo.

Bom, bom, bom, tenhamos tento na bola, já sabemos que os malacaristas abrasileirados, dizem umas alarvidades porque não sabem o que dizem mas sabemos nós que o que eles dizem não se escreve.

 

Futuros professores têm pior desempenho a Português do que aqueles que serão médicos

Clara Viana
publico.pt, 10.01.19

Os alunos que escolhem cursos do ensino superior da área da Educação e esperam, portanto, vir a ser professores, estão entre os que têm pior desempenho a Português, indica um estudo da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), agora divulgado.

 

Mais concretamente, os alunos que em 2016/2017 ingressaram em cursos de Educação tiveram uma classificação média de 10,2 valores no exame nacional de Português, ficando em penúltimo lugar numa lista que identifica as dez áreas de formação oferecidas pelo ensino superior. Em último, com uma nota média de 10 valores numa escala de 0 a 20, encontram-se os estudantes que optaram por cursos da área de Serviços (Turismo, Serviço Social, Restauração).

No extremo oposto estão os estudantes que ingressaram nos cursos da área da Saúde, como Medicina, que têm o melhor desempenho a Português: 12,4. Os que ingressaram em cursos de ciências sociais, jornalismo e informação ficam em quarto lugar, com uma média de 11,8.

“Não constitui surpresa. Esta era já uma leitura intuitiva que se fazia a partir das notas mínimas exigidas para determinados cursos e universidades”, comenta a presidente da Associação de Professores de Português (APP), Filomena Viegas, frisando que os alunos para entrarem, por exemplo, num curso de Medicina, “têm de ter resultados superiores em todas as disciplinas para conseguirem chegar à média de acesso que é pedida”. A média de acesso a Medicina tem rondado os 18 valores, enquanto a dos cursos de Educação anda à volta dos 12 valores.

Para chegar aos dados agora apresentados a DGEEC foi analisar quais as classificações obtidas em 2016 no exame nacional de Português do 12.º ano pelos alunos que, nesse ano, ingressaram no ensino superior através do regime geral de acesso. O exame de Português é o único obrigatório para todos os alunos.

O universo abrangido por este estudo foi de cerca de 40 mil estudantes, o que segundo a DGEEC, “representa aproximadamente, 77% do total de ingressos no 1.º ano de cursos de licenciatura e de mestrado integrado, através do regime geral de acesso de 2016/2017”.

Como os dados já referidos deixam antever, os alunos com melhores desempenhos são aqueles que se candidatam a cursos do ensino superior em que o Português não é exigido como prova de ingresso, o que sucede por exemplo na área da Saúde ou das Engenharias. A média no exame de Português para os cursos que não têm esta disciplina como prova de ingresso ronda os 11,9 valores, descendo para 11,3 quando estão em causa os cursos que têm este requisito.

Também na mesma linha pode-se constatar que as melhores classificações médias a Português não se encontram no curso de Línguas e Humanidades do ensino secundário (11,1), mas sim nos cursos de Ciências e Tecnologias (12,2) e de Ciências Socioeconómicas (11,8).

Filomena Viegas adianta que esta é uma situação que costuma ser comentada nas escolas e que a sua origem é também a da pressão que as opções para o ensino superior exerce sobre o percurso dos alunos no secundário: “É um sistema de vasos comunicantes. Os alunos dos cursos de Ciências acabam por ter notas melhores a Português para conseguirem chegar à média exigida para entrarem nos cursos que escolheram”.

(mais…)

Prémio António de Macedo – Edição 2019

De forma a promover a ficção especulativa em Portugal na forma de romance em Língua Portuguesa e homenagear um grande nome da nossa literatura e cinematografia, a Editorial Divergência abre as inscrições para a segunda edição do “Prémio António de Macedo”.

Apenas podem concorrer textos inéditos, em língua portuguesa, respeitando o Acordo Ortográfico de 1945 e submetidos pelos próprios autores.

Source: Prémio António de Macedo – Edição 2019 – Editorial Divergência


António de Macedo (5 July 1931 in Lisbon − 5 October 2017 in Lisbon, Portugal) was first a filmmaker and later a writer, university professor and lecturer.[1]

He gave up from filmmaking in the nineties as he felt systematically excluded from the state support programs of the Portuguese Ministry of Culture, the only financial source for film production in Portugal in that time. As a consequence, he dedicated himself entirely to writing, investigation and teaching. He published several books, essays, philosophy and fiction.

Wikipedia

 

(ver “post” sobre a 1.ª edição do prémio)

Vende-se História

Um dos mais esforçados da linhagem, Lourenço, por alcunha o Cortador, colaço de Afonso Henriques (com quem na mesma noite, para receber a pranchada de cavaleiro, velara as armas na Sé de Zamora), aparece logo na batalha de Ourique, onde também avista Jesus Cristo sobre finas nuvens de ouro, pregado numa cruz de dez côvados. No cerco de Tavira, Martim Ramires, freire de Santiago, arromba a golpes de acha um postigo da Couraça, rompe por entre as cimitarras que lhe decepam as duas mãos, e surde na quadrela da torre albarrã, com os dois pulsos a esguichar sangue, bradando alegremente ao Mestre: — «D. Paio Peres, Tavira é nossa! Real, Real por Portugal!» O velho Egas Ramires, fechado na sua Torre, com a levadiça erguida, as barbacãs eriçadas de frecheiros, nega acolhida a El -Rei D. Fernando e Leonor Teles que corriam o Norte em folgares e caçadas — para que a presença da adúltera não macule a pureza estreme do seu solar! Em Aljubarrota, Diogo Ramires o Trovador desbarata um troço de besteiros, mata o adiantado-mor de Galiza, e por ele, não por outro, cai derribado o pendão real de Castela, em que ao fim da lide seu irmão de armas, D. Antão de Almada, se embrulhou para o levar, dançando e cantando, ao Mestre de Avis. Sob os muros de Arzila combatem magnificamente dois Ramires, o idoso Soeiro e seu neto Fernão, e diante do cadáver do velho, trespassado por quatro virotes, estirado no pátio da Alcáçova ao lado do corpo do Conde de Marialva — Afonso V arma juntamente cavaleiros o Príncipe seu filho e Fernão Ramires, murmurando entre lágrimas: «Deus vos queira tão bons como esses que aí jazem!…»

Mas eis que Portugal se faz aos mares! E raras são então as armadas e os combates do Oriente em que se não esforce um Ramires — ficando na lenda trágico-marítima aquele nobre capitão do Golfo Pérsico, Baltasar Ramires, que, no naufrágio da Santa Bárbara, reveste a sua pesada armadura, e no castelo de proa, hirto, se afunda em silêncio com a nau que se afunda, encostado à sua grande espada. Em Alcácer Quibir, onde dois Ramires sempre ao lado de El-Rei encontram morte soberba, o mais novo, Paulo Ramires, pajem do Guião, nem leso nem ferido, mas não querendo mais vida pois que El-Rei não vivia, colhe um ginete solto, apanha uma acha -de-armas, e gritando: — «Vai -te, alma, que já tardas, servir a de teu senhor!» entra na chusma mourisca e para sempre desaparece. Sob os Filipes, os Ramires, amuados, bebem e caçam nas suas terras. Reaparecendo com os Braganças, um Ramires, Vicente, Governador das Armas de Entre Douro e Minho por D. João IV, mete a Castela, destroça os Espanhóis do Conde de Venavente, e toma Fuente Guinal, a cujo furioso saque preside da varanda dum Convento de Franciscanos, em mangas de camisa, comendo talhadas de melancia. Já, porém, como a nação, degenera a nobre raça…

‘A Ilustre Casa de Ramires’, Eça de Queirós


Publicado por Eça de Queirós em Domingo, 13 de janeiro de 2019


Designação
Torre da Lagariça

Outras Designações / Pesquisas
Torre da Lagariça (Ver Ficha em www.monumentos.gov.pt)

Categoria / Tipologia
Arquitectura Civil / Torre

Divisão Administrativa
Viseu / Resende / São Cipriano

Endereço / Local
EN 222 (ao km 95,5, e a 100 m, por
caminho rural) – Lagariça

Protecção

Situação Actual
Classificado

Categoria de Protecção
Classificado como IIP – Imóvel de Interesse Público

Cronologia
Decreto n.º 129/77, DR, I Série, n.º 226, de 29-09-1977 (ver Decreto)




[Imagem de topo de: O Buquineiro – livros raros (Brasil) ‘A Ilustre Casa de Ramires’ – 1ª Edição, Eça de Queiroz, R$ 750,00]

A neo-colonização transformada em lei

Radioagência

11/01/2019 17h46 – Atualizado em 11/01/2019 18h52

Não há acordo sobre Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

O acordo ortográfico entrou em vigor no Brasil no início de 2009. São dez anos de tentativas de enquadrar a língua escrita nos oito países que falam português e assinaram o acordo

Assinado em 1990, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entrou em vigor no Brasil no início de 2009. Considerando esse último marco, são dez anos de tentativas de enquadrar a língua escrita nos oito países que falam português e assinaram o acordo: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

São mais de 280 milhões de falantes do português em todo o mundo, unidos pela língua, mas separados pela geografia e pelas particularidades de cada cultura. Apesar de todos os esforços, não há acordo sobre o Acordo Ortográfico, nem mesmo no Brasil, com o maior número de falantes e, supostamente, o maior interessado no assunto.

Na avaliação de Josenia Antunes Vieira, professora titular do Instituto de Letras da Universidade de Brasília, o acordo foi feito por interesses políticos:

Um acordo ortográfico ele é altamente, digamos assim, impositivo, ele é ditatorial, digamos assim. Ele vai impor mudanças que não seriam, nesse momento, o que aconteceriam, talvez até nunca acontecesse. (…) Nós temos diferenças culturais e também ideias diferentes sobre a cultura, tanto em Portugal como em outros países que falam a língua portuguesa no mundo. Na verdade, não precisaríamos de um acordo ortográfico. (…) É alguma coisa na contramão do desenvolvimento da escrita. Porque a fala, ela segue um processo de mudanças muito mais célere que os processos de escrita. A escrita é muito mais conservadora, ela é muito mais permanente e ela retém as mudanças.”

Por conta da hegemonia do Brasil entre os falantes da língua portuguesa, segundo a professora Josênia, muitos portugueses têm se sentido “injuriados” com o Acordo.

Já o linguista Carlos Alberto Faraco, da Universidade Federal do Paraná, defende a necessidade do acordo:

“Olha, não é um problema de saber se o Brasil precisa. Na verdade, a língua portuguesa precisava disso. Ela vinha desde 1945, pelo menos, com duas ortografias diferenciadas: a portuguesa e a brasileira. Sempre foi uma intenção aí dos filólogos, principalmente do professor Antônio Houaiss, a unificação da ortografia. Chegar a uma ortografia com um único regimento. Então, o acordo teve essa finalidade: eliminar a duplicidade de ortografias que havia em português. Pensando principalmente numa ideia de internacionalização da língua.”

Para a presidente da Comissão de Cultura da Câmara, a deputada Raquel Muniz, do PSD de Minas Gerais, os dez anos do Acordo Ortográfico são um momento para revisão da norma:

“Mudanças, elas não ocorrem só através de uma norma fria. Elas têm que vir a partir de modificações que ocorrem de acordo com os nossos costumes. E ao longo dos anos, da colonização, a gente percebe essa mudança, e isso acaba se transformando em lei. Esses dez anos, eu acho que seria pertinente, dentro da Câmara, a gente fazer um trabalho pra avaliar o que que efetivamente aconteceu com essas normas, se algumas precisam ser revistas e, com certeza, eu acho que é um marco importante se fazer uma revisão de tudo isso.”

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa só se tornou obrigatório no Brasil em 2016. Em Portugal e Cabo Verde o acordo também já é obrigatório. Mas isso ainda não ocorreu nos outros países que falam português.

Reportagem – Newton Araújo

[Transcrição integral (conservando, evidentemente, a ortografia brasileira do original) de “peça” publicada na folha-de-couve do governo brasileiro e emitida pela respectiva “Emissora Nacional” em 11.01.19. Destaques e “links” meus.]

‘Improba vita, mors optabilior’

Irreversível, o acordo ortográfico? Só uma coisa é irreversível: a morte

Nuno Pacheco
publico.pt, 10 de Janeiro de 2019, 7:30
(actualizada às 11:25)

 

Chegado a 2019, o grupo Cofina decidiu estender a aplicação do acordo ortográfico de 1990 (AO90) às restantes publicações do grupo. Já aplicado no Correio da Manhã, no Destak, no Record e na CMTV, ei-lo agora no Jornal de Negócios e nas revistas Sábado, Máxima e TV Guia.

Razões? Porque “é inegável que a sua aceitação está estabilizada e é irreversível”, disse o director do Jornal de Negócios. Já a Sábado, na pequena nota que escreveu sobre o assunto, quis deixar bem claro que “o novo acordo não é perfeito, foi mais político do que técnico, mas é hoje uma realidade incontornável e definitivamente assimilada na sociedade portuguesa”. Mais: “Quando várias gerações de jovens estudantes já estudam por manuais adaptados à nova grafia e toda a administração pública está vinculada a ele, não faz sentido persistir numa atitude de resistência anacrónica.”

Recuando seis anos, há alguma similitude com o argumento invocado pelo Correio da Manhã para “adotar” (sic) o AO90 a partir de 2 de Janeiro de 2013. “Já é seguido nos manuais escolares, nos livros, na legendagem”, diziam. Para concluir: “Nunca seremos um obstáculo à mudança.” Portanto, toca a “tornar a comunicação mais fácil”. Como? Escolhendo o que mais lhes convinha, claro! “Nas palavras que admitem dupla grafia optámos por manter tal como na ‘escrita antiga’.”

Sim? Fizeram-no em pára e “para”. Mas é bom recordar o resto: se entre espectador e “espetador” e ceptro e “cetro” escolheram as primeiras, no mais fizeram o contrário do que prometiam, optando por “aspeto” em lugar de aspecto, “carateres” em vez de caracteres, “receção” em vez de recepção, “perentório” em vez de peremptório, “setor” em vez de sector, sendo os restantes exemplos falsas escolhas, porque apresentavam como “dupla grafia” palavras que nunca existiram em Portugal, sendo usadas apenas na fala e na escrita brasileira: anistia (amnistia), indenizar (indemnizar), suntuoso (sumptuoso), fato (como facto) ou até gênio (génio)!

É isto optar pela “escrita antiga”? Não leram sequer o que escreveram? Não devem ter lido, senão não deixavam passar esta “dupla grafia” extraordinária: “​fémea” [sic] e fêmea. Escolheram a segunda, claro. Aliás, era fácil, porque a primeira não existe em lado nenhum. Ia assim a brincadeira, nos idos de 2013. Agora, por decisão cofineira, alastrou. Teme-se o pior.

Mas, para lá desta mudança, que só irá contribuir para ampliar o caos ortográfico reinante a que alguns chamam “nova ortografia” (embora não passe de uma ridícula mistura de grafias a esmo, sem freio nem norte), pesemos os argumentos. O AO90 é mesmo uma “realidade incontornável e definitivamente assimilada na sociedade portuguesa”? E é verdade que “a sua aceitação está estabilizada e é irreversível”?

Para palavras, antes tivessem escolhido “enfermeiros”, como fez a Porto Editora. Era mais aplicável neste contexto, até porque a ortografia da língua portuguesa, na forma que lhe foi imposta em Portugal (não por lei, mas já lá iremos), precisa mais de cuidados médicos do que de palavras como “incontornável”, “assimilada”, “estabilizada” e “irreversível”. Todas falsas, como a realidade demonstra.

Mas recuemos a 2011, quando o XIX Governo (PSD-CDS) dizia no seu programa que “acompanhará a adopção do Acordo Ortográfico” (assim mesmo, sem AO90, senão teriam escrito “adoção”) com vista à “crescente universalização” da língua portuguesa. Na mesma altura, o então secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, declarava ao Diário Digital: “O acordo ortográfico é uma nova norma do acordo a que se chegou e é para ser implementado. Vamos prosseguir o trabalho de implementação porque é um caminho sem retorno.”

Dois anos depois, já ex-governante, o mesmo Francisco José Viegas afirmava ao jornal Record (25/3/2013): “Já não suporto falar do acordo ortográfico, acho que já ninguém o suporta. Portugal e o Brasil já não suportam o acordo ortográfico. E o que acontece é que para fechar o acordo é preciso fechar o vocabulário. Agora isso ainda não aconteceu. E o Governo anterior quis correr mais depressa, ser pioneiro nessa matéria, e impôs a entrada em vigor para 2012. Sem Angola ter dito que sim e sem o vocabulário estar concluído.”

Chegados a 2019, eis o panorama: o dito “vocabulário” está “concluído”, não um mas vários e contraditórios entre si; Angola, tal como Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste não entregaram os instrumentos de ratificação do AO90, logo não lhe disseram “sim”; e o AO90, que inventou para Portugal um grande número de palavras que ninguém aplica noutro país (mudando até muitas que aqui e no Brasil se escreviam da mesma maneira), está “em vigor” por resoluções do Conselho de Ministros e da Assembleia da República, enquanto o acordo de 1945 se mantém em vigor por lei – que não foi revogada, nem podia ser, por resoluções ministeriais ou parlamentares.

A finalizar, e parafraseando Francisco José Viegas, se já ninguém suportava o acordo ortográfico em 2013, o que devemos dizer agora, em 2019? Talvez isto: como várias asneiras outrora cometidas e felizmente corrigidas, esta só espera por um momento de clarividência. Porque irreversível, neste mundo, só mesmo a morte.

Errata: Por lapso (já corrigido), escrevi inicialmente, no segundo parágrafo, Visão onde deveria estar, como é óbvio, Sábado. As minhas desculpas aos leitores e às revistas visadas.

Nuno Pacheco

[Os “links” a verde são meus.]