Passar roupa a ferro

Como diabo terei ido parar a esta lista de spamming? Não faço a menor ideia. Talvez tenha comentado alguma coisa, lá no covil do spammer, muito provavelmente denunciando (como é de bom tom fazer-se quando se topa com “lusofonistas” da treta, passe a redundância) as suas manigâncias enquanto agente de viagens não encartado encapotado sob a pomposa designação de “colóquio da lusofonia”. Isto, bem entendido, no pressuposto de que esteja correcta a minha opinião: quem promove esses tais “colóquios da lusofonia” É mesmo só ele e só ele mesmo É os ditos “colóquios da lusofonia”.

Não sei como terá o meu endereço de email ido parar a semelhante lista de spamming, repito, mas a verdade é que recebo — amiúde e há já longos anos — a publicidade não solicitada remetida pela pessoa em causa. Por regra, quando algum spam consegue furar o “software” de detecção automática, envio imediata e directamente esse tipo de detritos electrónicos para o virtual balde do lixo mas, desta vez, não sei bem porquê, num simples relance, em milésimos de segundo, algo fez retinir aquela espécie de campainha mental que me nasceu entre as orelhas há mais de vinte anos; soou o sinal de alarme anti-acordista, portanto, repentino e instintivo, que por experiência sei nunca ou raramente falhar: alguma coisa grave ou algo muito errado constava daquele texto. Portanto, abrindo para o efeito uma tão dolorosa quanto necessária excepção, fui ler aquela porcaria.

E… pim! Cá está. É ali aquele nomezinho. E, olha, outro ali, outro nomezinho. Macacos me mordam. O que diabo vai esta gente, boa gente, gente decente, lá fazer ou lá dizer?

Será que deixaram-se apenas tentar pelo carácter turístico do evento, o qual desta vez contemplará uma das 9 ilhas dos Açores, qual delas a mais bela, mais edílica, mais bucólica e quiçá poética, rendendo-se eles por conseguinte aos encantos do “colóquio” (e à música do respectivo “host” ou agente) a troco de umas quantas palavrinhas coloquialmente debitadas?

Será que não fazem a menor ideia daquilo em que se estão a meter, em que assados, salvo seja, em que verdadeiro caldeirão fervente (não, não me refiro às Furnas) irão seguramente mergulhar caso acedam de facto a participar num daqueles “colóquios da lusofonia”, dos quais ninguém ouviu jamais falar, que não são noticiados em lado algum e cujo pretexto programático é mais falso do que uma nota de 3 dólares?

Será que irão mesmo prestar-se, aquelas duas (ou três) figuras de prestígio das Letras pátrias, a fazer o papel de idiotas úteis numa festarola privada cuja única finalidade — para além dos proventos que tocarão a unidades hoteleiras, restaurantes, companhias aéreas, agências de viagens e demais negócios envolvidos — é a promoção (descarada) da chamada “lusofonia”, ou seja, a colonização linguística brasileira e o extermínio cultural do Português-padrão e de tudo aquilo que o representa e que ele significa?

Já que não declinaram o convite, ao menos que dispensassem a “honra”. A simples presença  em semelhante fantochada já seria vergonha bastante, dispensava-se a humilhação — não a própria mas a alheia.

Em suma: será que nem desconfiam, aqueles “convidados de honra”, de que vão cair numa cilada?

Ou desconfiarão, afinal? Bem, tivemos pelo menos dois precedentes (1, 2) e num deles a coisa acabou por correr bem

Estou em crer, quero crer que sim, os convidados sabem perfeitamente ao que vão e não apenas desconfiam como até já terão delineado um plano de acção adequado, catita, jeitoso: dinamitar o “colóquio” por dentro, fazê-lo implodir denunciando claramente o seu carácter propagandístico e a sua real finalidade — proselitismo acordista.

Ir aos “congressos da lusofonia” ou, de resto, a qualquer outra patuscada com o “alto” patrocínio do Bechara e do Malaca? Cruzes, canhoto! T’arrenego, Satanás! Deusmalibre, carago!

Ou, como dizia “a” Manuela (nascida Manuel mas achando isso aborrecido), com seus maneirismos caricaturais, ai, filhinhas, mais valia passar roupa a ferro.

—– Original Message —–

From: info
To: undisclosed-recipients
Sent: Wednesday, January 16, 2019 1:50 PM
Subject: : 32º COLÓQUIO DA LUSOFONIA NA GRACIOSA: convite formal

 

CONVITE FORMAL A PARTICIPAR

A AICL [ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DOS COLÓQUIOS DA LUSOFONIA], tem o grato prazer de o/a convidar a estar presente (como ORADOR ou PRESENCIAL) no 32º Colóquio da Lusofonia cujas sessões terão lugar, de 2 a 7 de outubro na Sala de Conferências do Hotel Graciosa Resort em Santa Cruz da Graciosa, Açores.

Todos os detalhes em / http://coloquios.lusofonias.net/XXXII/

  • Teremos a presença do Prémio Nobel da Paz 1996, Dom Ximenes Belo e de José Ramos-Horta entre muitas outras personalidades de vulto.
  • Escritores de honra convidados TEOLINDA GERSÃO, JOSÉ LUÍS PEIXOTO e JOEL NETO
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