Dia: 21 de Fevereiro, 2019

Á tramoço e minuins

«Hoje temos “esta grande controvérsia do acordo ortográfico”, mas “os romanos já tinham resolvido isso”, ao não pronunciarem na oralidade certas letras que apareciam na escrita culta.»

Ou não disse exactamente isto ou, se, ainda que vaga e confusamente, proferiu tal bacorada, então  estamos perante um número circense — abrilhantado pelo inerente “palhaço rico” — que ficará decerto nos anais, salvo seja, do anedotário gramatical. 

Eu cá, notório ignorante (e insuportável fã de minhoquices), confesso que nunca ouvi alguém a pronunciar seja o que for de outra forma que não “na oralidade”. Como debitar asneiras, por exemplo, sem as deitar pela boca fora? Linguagem gestual, claro, pode ser, mas isso não é bem “na oralidade”. E então? Como pronunciar (ou omitir na pronúncia) “certas letras que aparecem na escrita culta” (ou na escrita inculta, “tipo” menus das tascas) sem ser pela “oralidade”? Fala-se pelas orelhinhas? Utiliza-se qualquer outro orifício corporal para “soprar” umas letrinhas (e omitir outras)?

Insondável mistério. Estou sem palavras. E nem sei por que buraco as faria sair, caso me ocorresse algo para dizer a respeito.

A tautologia, de um ponto de vista gramatical, possui — ao contrário da escatologia, na acepção biológica que remete para a coprofilia, longe vá o agoiro — uma piadética intrínseca de impagável hilariedade. Redundâncias tão comuns como subir para cima, descer para baixo, entrar para dentro, sair para fora ou opinião pessoal, por exemplo, constituem uma espécie de 1.ª Classe do Ensino Primário, de tal forma são… primárias. Mas formulações pleonásticas como esta, “pronunciar na oralidade”, ah, bem, isto é realmente de outro nível, é pleonástico majestático, é abundantemente redundante, é coisa para sair no exame não da 1.ª mas da 4.ª Classe, ou então ainda mais arriba, upa, upa. 

Escreviam como falavam“, afirma Lourenço. Vai daí, toca a “desempoeirar” a gramática latina que, segundo garante, “será para todos“. Argumentum ad baculum, bem entendido, que estendem acordistas por arrevesada analogia sobre o AO90: “escrever como se fala”, “o que não se pronuncia não se escreve“, “facilitar a aprendizagem“, é isso o que significa “desempoeirar” no hiper-acordista jargão TAP (Tretas para Aldrabar Pategos).

Bom, vejamos: se houver por aí quem passe bem sem semelhante coisa, quem aprecie “poeira” na sua gramática e estime “empoeirados” todos os seus livros, pois então que levante o braço.

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A gramática latina “desempoeirada” de Frederico Lourenço será para todos

| Livros | PÚBLICO, 18.02.19

Nova Gramática do Latim irá para as livrarias a 15 de Março numa edição da Quetzal. Agora o sonho do Prémio Pessoa 2016 é… fazer uma gramática do grego.

A gramática latina mais usada em Portugal teve a sua primeira edição há mais de 50 anos e reflectia ainda os programas e as metodologias do ensino do latim nos liceus antes do 25 de Abril. Mas a partir de 15 de Março estará nas livrarias portuguesas a Nova Gramática do Latim, um volume de 500 páginas preparado por Frederico Lourenço, Prémio Pessoa em 2016, docente de línguas clássicas desde que se licenciou, em 1988, tendo começado o seu percurso profissional como professor de Latim no ensino secundário. A novidade foi apresentada esta segunda-feira de manhã pelo director editorial da Quetzal, Francisco José Viegas, e pelo próprio Frederico Lourenço, num encontro com os jornalistas na Cinemateca, em Lisboa.

“Não sou o primeiro tradutor português da Bíblia a publicar em simultâneo uma gramática de latim porque no século XVIII António Pereira de Figueiredo, o primeiro tradutor da Bíblia completa para português, também foi autor de uma gramática de latim muito utilizada ainda no século XIX”, contou Frederico Lourenço aos jornalistas.

Essa gramática “foi feita com aqueles parâmetros que eram habituais no século XVIII e XIX, em que o latim fazia parte da escolaridade”, lembrou. “Hoje uma gramática como a de António Pereira de Figueiredo não seria útil para ninguém. Era necessário pensar numa gramática do latim feita noutros termos e foi isso justamente que eu quis fazer”, acrescentou Lourenço.

O novo volume será uma gramática moderna e actualizada destinada aos professores e alunos do ensino secundário, aos universitários e também a quem não sabe nada daquela língua mas gostaria de poder olhar para um excerto em latim e perceber o que lá está escrito.

“Muitas pessoas gostariam de saber latim – até pessoas que não estão ligadas às Letras. Outras – historiadores, arqueólogos, linguistas, teólogos, filósofos e lusitanistas – têm consciência de que deveriam saber (bastante mais) latim. E outras, ainda, estão de facto a aprendê-lo em Portugal, na escola ou na universidade, mas sem se darem conta de que, muito provavelmente, usam recursos para o estudo do latim que ainda reflectem, em pleno século XXI, os programas e as metodologias dos liceus no tempo da ditadura de Salazar. Este livro pretende oferecer a todas estas pessoas uma gramática nova, cujo objectivo é sistematizar de forma desempoeirada os tópicos essenciais para a leitura de textos latinos em prosa e em verso”, escreve, no Preambulum deste livro, o seu autor, que está a fazer a tradução mais completa da Bíblia para português e é também tradutor da Odisseia e da Ilíada (e das respectivas versões para jovens).

“Escreviam como falavam”

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