AO90: “Areia na engrenagem” [Marco Neves, entrevista, SAPO24, 02.02.19]

Marco Neves: “O problema não é a correcção dos erros, é a arrogância com que isso se faz”

SAPO24, 02.02.19

Entrevista de Tomás Albino Gomes

Não é uma lista de erros, não é um ultimato àqueles que conjugam o verbo haver no plural fora das raras excepções em que é permitido ou que teimam em colocar uma vírgula entre o sujeito e o predicado. O “Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português”, da autoria de Marco Neves, publicado pela Guerra e Paz, é uma declaração de defesa.

“Não me chamem para lutas absurdas contra a boa língua portuguesa, como ela existe nos lábios de quem fala e nas mãos de quem escreve”, avisa Marco Neves, tradutor, revisor, professor, leitor, conversador. A luta do autor é outra, é pelas palavras e expressões que nos fogem da boca com a descontracção do dia-a-dia, pelo “deslargar”, “estájaver”, pelo “queria um copo de água” e “não há nada”; e contra todos aqueles que querem despojar a língua da sua riqueza oral numa atitude constante de apontar o dedo a qualquer deslize no português – que, como explica este Dicionário, não é um deslize. “Acho, aliás, curioso como alguns dos inventores de erros andam constantemente a lamentar o empobrecimento da língua, quando são os primeiros a querer limitar o seu uso”, sublinha.

Em entrevista ao SAPO24, casa onde é cronista e que conhece bem, Marco Neves fala de erros falsos, do vício e arrogância daqueles que apontam constantemente erros aos outros antes de olharem para os seus, numa conversa embrulhada pela evolução e compreensão de uma língua em que um povo embateu, com o novo Acordo Ortográfico, e que para se manter rica não deve esquecer a herança oral e as suas geografias.

Os livros sobre a língua portuguesa, na sua maioria, são páginas e páginas de combate aos erros mais comuns de ortografia, sintaxe ou oralidade. Mas este “Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português” é diferente, é uma arma de defesa para as pessoas a quem são apontados erros.

É um livro que contraria um pouco a tendência. É preciso corrigir os erros e todos nós, por vezes, temos dificuldade a escrever e a falar, mais a escrever do que a falar. No entanto, acho que uma certa obsessão por procurar o que é o erro nas outras pessoas. Nunca pensamos tanto naquilo que nós próprios fazemos e isso é mais importante do que andar a ver se os outros falam mal ou falam bem. Aqui tento, no fundo, mostrar o outro lado, defender algumas expressões que são consideradas erros e que eu digo que não o são, e tento explicar porquê. São expressões que fazem parte da nossa língua, fazem parte da riqueza dessa língua e por isso estão aí defendidas.

O Marco distingue no livro a diferença entre um erro, colocando-o, de maneira um pouco mais simples, sobre a forma de um erro ortográfico, por exemplo, e a riqueza da oralidade.

A ortografia é uma convenção, está definida até por lei cá em Portugal. Não acontece isso em todos os países, mas por cá temos essa discussão, se devemos usar ou não a ortografia anterior. Eu uso a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico, mas essa está definida, existe uma série de regras que estão no papel e por isso é relativamente fácil perceber quando estamos a errar ou não. No que toca à oralidade, e mesmo na escrita mais criativa, a língua já não é feita no papel. Começa na boca das pessoas, no cérebro dos falantes e só depois é que alguém vai registar quais é que são as regras. Há uma grande diferença entre um erro ortográfico e aquilo que nós podemos dizer que é um erro na oralidade – onde também existem, mas são muito mais difíceis de definir.

Aquelas pessoas que estão sempre a apontar erros no português dos outros irritam-no?

Se me irritam a mim? Eu tento ter uma visão da língua o menos irritada possível [risos]. O que me irrita não é tanto o apontar o erro, porque todos podemos estar enganados, dar erros de português, estar convencidos de que uma coisa é erro e afinal não ser. A questão é mais a arrogância que por vezes aparece neste tipo de discurso, em que quando se apanha alguma falta – que por vezes não é falta, como eu tento explicar aqui, é apenas a forma como a língua funciona – parece que há um certo prazer. E isso irrita-me, essa arrogância, não tanto o corrigir. Eu sou professor, tradutor e revisor, as minhas profissões implicam andar à procura de erros, o problema não é a correcção dos erros, que é necessária e que sempre houve e que sempre continuará a haver, o problema é por vezes a arrogância com que isso se faz.

Também é um livro contra a arrogância?

Aí passamos para o segundo nível, que é o grande combate deste livro, a arrogância com que por vezes algumas pessoas tentam encontrar erros onde eles não existem, quando são apenas uma forma normal da língua funcionar.

Os tais erros falsos do português.

Não é só do português, todas as línguas que tenham uma norma escrita têm este tipo de controvérsias, certas expressões que certas pessoas consideram um erro, mas que são usadas por quase todos nós, algumas delas em situações mais informais, outras em situações também formais. Aparecem por vezes devido a certas análises simplistas ou por certos mitos, e por isso este dicionário também é um dicionário de mitos. Por exemplo, pensar-se que uma expressão tem de fazer sentido se olharmos para o significado de cada uma das suas palavras. Um dos erros falsos é a expressão “já agora”, que algumas pessoas combatem dizendo que não faz sentido porque “já” quer dizer “agora”, e por isso seria uma redundância. Mas, neste caso, “já agora” é uma expressão idiomática, é uma expressão em que as duas palavras em conjunto querem dizer outra coisa, e não querem dizer aquilo que cada uma delas quer dizer. Isto é uma coisa bastante básica do funcionamento da língua, todas as línguas têm expressões idiomáticas. Quando aprendemos uma língua estrangeira aprendemos não sei quantas expressões idiomáticas e às vezes esquecemo-nos de que a nossa própria língua também as tem.

Pegando aqui em alguns exemplos do livro, há um que me salta logo à vista: “deslargar”.

Aí temos uma expressão que não é adequada em certos registos. Eu não defendo que alguém diga esta palavra no parlamento ou numa situação mais formal, mas é uma palavra do registo informal, popular. E não é errada por ser ilógica. É apenas inadequada em certas situações, como há tantas palavras que também são inadequadas em tantas situações. Podemos começar pelos palavrões. Os palavrões são palavras que só devemos usar em certas situações, embora às vezes nos saiam fora do momento. No entanto, não são erros gramaticais, são palavras que têm um uso restrito em termos sociais.

Sou um defensor de que os palavrões têm um espaço na língua portuguesa.

Muito espaço, aliás. E fazem bem! Quando nós damos um pontapé numa cadeira ou numa porta dizemos um palavrão e aquilo alivia a dor. Mas como acontece em muitos casos, as palavras não são adequadas a todas as situações, depende do sítio, dependendo da situação. Às vezes também digo isto ao contrário, imagina uma palavra muito formal. Por exemplo, sua excelência. Não vamos utilizar isto em casa com os nossos filhos ou com os nossos. Mesmo as palavras formais podem não estar adequadas à situação. Todas as palavras têm um lugar. A acusação que se faz muitas vezes ao “deslargar” é que…

… é ilógico …

Porque o “des” é uma negação, mas não é só uma negação. Nós utilizamos, por exemplo, a palavra “desinquietar” que significa inquietar ainda mais do que é normal. Usamos “desfalecer” que também não é uma negação. O “des” tem vários sentidos e um deles é intensificar a palavra, não é um erro gramatical é um uso perfeitamente banal. Todos nós sabemos que há palavras com vários sentidos.

É uma grande luta esta. Basta pensar na quantidade de expressões idiomáticas que os regionalismos podem trazer à tona.

Tenho muitos regionalismos, que utilizei noutros textos, mas aqui, olhando para a pronúncia, há pessoas que acham que dizer “estájaver”, que é uma pronúncia que tem um território bem definido e não é comum em Lisboa – aliás, seria muito estranho que um lisboeta falasse assim -, é um erro, mas não é, é simplesmente a maneira como é pronunciada essa junção de palavras no norte, neste caso.

É muito engraçado porque eu não sou de Lisboa, sou de Leiria, e quando vim para cá havia muitas palavras que me faziam confusão. E nem vou pela antiga dialéctica do ténis/sapatilha. Há uma palavra que é “atilar” [ajeitar a roupar] que cá…

Atilar, sim, é na nossa zona [distrito de Leiria]. Mas essa não utilizamos em Peniche. Eu dou às vezes um exemplo de Peniche que se usava na minha altura que era “chincar” e que queria dizer “tocar”. E eu só quando vim para Lisboa é que percebi que não era uma palavra, digamos, nacional. Só vamos começando a perceber que as palavras mudam de região para região quando saímos da nossa terra, o que às vezes faz falta. Às vezes, os próprios lisboetas é que acabam por ter uma visão mais limitada porque acham que a língua é só aquilo que se fala cá.

O que acaba por limar muito a língua. Se pensarmos em jornalismo e em televisão, não é comum haver espaço para uma pessoa poder falar com o sotaque da sua terra.

Há pessoas que dizem que não têm um sotaque, mas têm o sotaque padrão. Este sotaque está cada vez mais espalhado, o país fala cada vez mais de forma uniforme. Curiosamente, Portugal tem esta característica em que é muito difícil haver tolerância para sotaques diferentes em televisão. Há excepções, Inglaterra, que é um país que até associamos a um certo snobismo, tem cada vez mais aberta a televisão a sotaques diferentes. Na Noruega, que é um país bastante curioso em termos linguísticos, tanto na escrita como na fala, se houver um deputado de uma região do país que tenha o próprio sotaque, o que as pessoas entendem como correcto é que ele use o seu sotaque no parlamento, na televisão, onde quer que seja. Cá não é bem assim, mesmo as pessoas do norte, quando vêm para o sul, apesar de terem muito orgulho no seu sotaque, começam a aligeirá-lo.

E ainda podemos saltar para o caso das ilhas.

Aí não é só um sotaque como a própria língua já tem estruturas gramaticais próprias. Este livro tenta também ser uma defesa dessa variedade regional e social.

No fundo, é tudo isto que enriquece uma língua.

Sem toda a variedade social, geográfica, familiar e até de cada pessoa, [a língua] acaba por ser só uma série de fórmulas que todos nós repetimos da mesma maneira. Acaba por ser mais pobre. A literatura, o teatro… mais até a literatura, porque há uma certa tendência para associar o teatro a uma determinada maneira de falar muito própria. Se for assistir a uma peça e vir vários sotaques, várias formas de falar, sotaques não só regionais, mas também registos diferentes, como formas que nós associamos a certos grupos sociais, é mais rico do que uma peça de teatro em que todas as pessoas falam da mesma maneira. Fazia-me confusão, há uns anos, penso que agora esteja um bocadinho melhor, ver uma telenovela, uma série ou um programa em que todas as pessoas falavam da mesma maneira em qualquer parte do país. Podíamos estar a assistir a um diálogo entre dois transmontanos e eles falavam como se estivessem no Chiado, o que é um pouco estranho e muito pouco realista. Isso fazia-me confusão e acaba por ser uma visão mais pobre da língua e da sociedade.

E para a literatura.

A literatura, ao contrário do que as pessoas dizem, não é o sítio onde a norma está defendida. A norma é parte da literatura, mas um bom escritor usa toda a língua, desde os registos mais populares aos mais formais, os palavrões e até aos erros têm lugar na literatura. Os bons escritores raramente se limitam a um registo ou a uma língua muito bem comportada. Eu tenho um interesse especial por José Cardoso Pires, que era um escritor que, na própria cidade de Lisboa, ele que mesmo não tendo nascido na capital era muito lisboeta, mostrava algo curioso, que há muitas formas de falar diferente. Talvez isso se esteja a perder agora um pouco, mas antes havia formas diferentes de falar de bairro para bairro e quase de prédio para prédio. Isso tudo existia e existe ainda, mas em menor grau. Algumas pessoas hoje ficam muito irritadas quando percebem que têm de contactar com pessoas que têm um vocabulário diferente. No entanto, curiosamente, isso está a apagar-se. Ou seja, o país está a falar de forma mais uniforme. Se nós formos a uma região qualquer de Portugal e falarmos primeiro com as pessoas de 15 anos e depois com os bisavós, digamos que as pessoas que têm 15 anos ainda têm algumas marcas regionais, mas cada vez menos. É um fenómeno que não é só português, acontece na Europa toda.

Quais é que são os erros falsos que lhe saltam mais à vista?

Aquele famoso, que todos nós conhecemos, do “queria um copo de água”, que acaba por ser quase uma piada no restaurante ou no café.

Onde também entra o também clássico “queria? então já não quer?”

Eu até certa altura assumi isto como uma piada, mas depois falei com algumas pessoas, não só em cafés e restaurantes, e elas achavam mesmo que era um erro e que temos de utilizar o tempo verbal correcto que é o presente. O que é curioso é que com este livro uso estes erros falsos para depois tentar perceber como é que a língua funciona — e às vezes funciona de forma diferente do que aquilo que nós pensamos. Nós raramente usamos o presente do indicativo para dizer qualquer coisa que está a acontecer agora, não digo “falo contigo aqui”. Digo: “estou a falar contigo aqui”. Uso outro tempo verbal. Às vezes até usamos o próprio pretérito, se uma pessoa entrasse aqui agora e se estivesse ao telefone dizia “olha, entrou o não sei quantos”. Usava o pretérito perfeito para qualquer coisa que acabou de acontecer, é muito raro utilizarmos o presente do indicativo. É um tempo que nós usamos em algo como “eu falo inglês”, qualquer coisa que eu costumo fazer, que eu sei fazer. Agora quando quero dizer, “quero um copo de água”, se usar o presente do indicativo estou a dar-lhe ali um certo cariz de ordem que não é o que nós queremos, nós queremos amaciar o pedido.

O livro está aqui aberto e não posso deixar de lhe pedir que desconstrua mais um dos erros.

Os beijinhos grandes. Ainda há pouco tempo vi em jornais dizer que é um grande erro porque se são pequenos não podem ser grandes e no entanto nós utilizamos o diminutivo por muito mais razões do que apenas o pequeno. Quando digo “o meu filhinho” não é que ele seja pequeno. Se for preciso, a minha avó olha para o meu pai e diz “o meu filhinho”. Portanto, beijinhos tem um significado próprio que começou pelo diminutivo, mas que hoje já não é esse o sentido da palavra. Eu achei curioso que quando escrevi isto, também o fiz num blog, onde defendia a expressão, houve alguém que veio dizer que isto é um erro até porque só as mulheres é que usam. Bem, mas só o facto de só as mulheres usarem não faz disso um erro. Às vezes são ideias muito simples, as pessoas não gostam da expressão, estão no seu direito, ninguém é obrigado a gostar de nenhuma destas expressões, mas, no fundo, é esta lógica, e posso estar a ser cruel, mas é o que eu vejo, [é esta ideia de] “sou mais esperto do que os outros logo acho que isto é erro, porque percebi uma coisa que os outros não perceberam, então os outros são estúpidos”. Às vezes é este o discurso que nós vemos e essa é que é a tal arrogância que deve ser evitada. E até o “sorriso nos lábios”, há aquela ideia de que nós não podemos usar redundâncias…

Os “há muito tempo atrás” desta vida?

O subir para cima, descer para baixo… Enfim, todos nós sabemos que é quase uma regra de etiqueta evitar esses pleonasmos, mas a língua tem muitas redundâncias. Quando nós fazemos uma coisa tão simples como concordar o sujeito com o verbo isso não deixa de ser uma redundância. O verbo está a dizer qual é a pessoa verbal que já tínhamos visto no sujeito. O sorriso nos lábios é um pleonasmo porque o sorriso só pode ser nos lábios… mas é óbvio que não, sorrimos com os olhos, toda a cara pode estar a sorrir! Parece de facto haver aqui uma tendência para querer cortar a língua para só dizer as palavras que são estritamente necessárias e isso mais uma vez vai contra o uso criativo da língua, uma conversa interessante tem sempre mais palavras do que são necessárias.

Faz-se do português matemática?

Não tenho nada contra a matemática, mas são coisas completamente diferentes. Nós não vamos andar a contar o número de letras para ver se podemos reduzi-las, a língua não é matemática e é muito mais do que essa pequena contagem. Eu também dou aqui um exemplo, não é um erro falso tão comum, mas aparece e está escrito em websites e livros, [a ideia de] que não devíamos usar a expressão “não há nada”, porque usa duas palavras para dizer a negativa. No entanto, é assim que o português funciona, como tantas outras línguas, e a verdade é que não há nenhuma confusão nas nossas cabeças, se eu disser “não há nada que não me aconteça”. Estou a usar duas negativas, a primeira tem duas palavras, a segunda tem só uma, e no entanto o nosso cérebro interpreta bem e percebe que eu estou a dizer “acontece-me tudo”. Estas pessoas têm um mito na cabeça de que se forem corrigir a gramática as [outras] pessoas começam a pensar melhor, mas isso não acontece. Ou seja, se nós usarmos a expressão “há nada” não estamos a pensar de forma mais lógica, estamos simplesmente a falar mal português, porque não é assim que a língua funciona. Podemos pensar, “então por que é que são precisas duas palavras?”, tal como também são necessários os artigos que não existiam no latim, portanto não são supostamente necessários. Há línguas que não os têm, nós temos e ninguém se vai lembrar de achar que não são necessários.

Parece-me que se este livro já tivesse sido publicado há mais tempo poderia ter posto fim a muitas discussões.

Não vai pôr de certeza, porque uma das características das línguas e destas discussões é que são eternas. Uma pessoa pode ler este livro, concordar com umas coisas, não com outras, e vai continuar sempre a discutir, mas isso não é mau. É bom que falemos sobre a língua, isto é mais um passo nesta discussão, puxar a discussão para uma visão que eu considero mais saudável, menos focada nos erros, menos extremista e menos limitada, porque é assim que se fala em certos sítios e pronto. A língua é mais complicada do que parece, ou seja, tem mais coisas por baixo do capô, como eu digo a certa altura, do que aquilo que nós pensamos. Até para mim, alguns dos erros, quando fazia a pesquisa para escrever o livro, foram uma surpresa. Eu não fazia a mínima ideia de que havia pessoas para quem “voltar a trás” é um erro e, no entanto, lá aparecem várias a dizer que “voltar” é sempre para trás.

E não é?

Não, podemos voltar para muitos sítios. Acaba por ser, para certas pessoas, quase um desporto andar há procura de expressões e achar ali uma qualquer maneira de encontrar um erro. O que me parece estranho.

Tem medo dos erros?

Eu escrevo bastante no meu blog e confesso que estou sempre com muito medo de dar erros. Todos devemos ter muita atenção com aquilo que escrevemos. A minha questão é com aqueles que andam a apontar os erros só aos outros e esquecem-se dos seus próprios erros. Não há ninguém, e eu já encontrei muitas pessoas convencidas de que isto é falso, mas é verdade, que não dê erros. Quanto mais nós escrevemos, mais hipóteses temos de dar erros. Sim, quanto mais escrevemos menos erros damos, quanto mais lermos menos erros damos. Mas se escrevermos muito, mais tarde ou mais cedo, vamos dar um erro. Eu já dei erros mesmo em público, e fico muito aborrecido comigo mesmo. O facto de uma pessoa ter uma visão mais aberta e mais realista da língua não quer dizer que aceite os erros, antes pelo contrário. Provavelmente, até é uma pessoa que está mais atenta à maneira como a língua funciona.

Isto tem tudo a ver com a forma como as pessoas corrigem os erros umas às outras.

Já tive leitores no blog que me escreveram uma mensagem privada a dizer “distraiu-se, tem ali uma gralha ou outra” e eu fico contentíssimo e agradeço e por vezes ficamos a conversar sobre outras coisas. Estes acabam por ser os melhores leitores.

É tudo uma questão de tom, portanto.

Outra coisa é uma pessoa ir para o Facebook, uma praça pública, e dizer que isto ou aquilo é inadmissível, com pontos de exclamação e por aí fora, o que me parece ser a pior forma de corrigir o erro. Aí o que é que acontece? Das duas uma, ou a pessoa corrige e não diz nada, ou responde mal e não corrige. Enquanto se a mensagem fosse em privado o erro provavelmente desapareceria. E depois há ainda outro tipo de correcção de erros que é mesmo de evitar. Imaginemos que estamos a discutir qualquer questão que não tem a ver com português – ou até pode ter a ver com português, mas é outra coisa. E, de repente, o opositor dá um erro. Eu acho que é de muito mau tom, quase um golpe baixo, estar a apontar para o erro naquele momento. Isso é quase tirar o tapete à outra pessoa. Se estamos a discutir outra questão, podemos discutir essa questão em público e depois, se quisermos, ter a hombridade de dizer à outra pessoa em privado “enganou-se ali em qualquer coisa”. [isso] Tudo bem, agora estar a usar isso como arma de arremesso quando estamos a discutir outra coisa…

É uma questão interessante. Conteúdo vs. Forma.

Eu até posso fazer aqui um contraste. Se eu estou numa discussão e estamos os dois a concordar um com o outro, não há grande problema em apontar uma gralha. O problema é utilizar isto como arma numa discussão em que o conteúdo não tem a ver com esse problema. Claro que estamos aqui quase a falar da ética da discussão no Facebook, o que é uma coisa um pouco estranha, mas todos nós estamos a aprender a lidar com estas discussões à distância, que são muito difíceis porque nós estamos a discutir em público, o que é estranho. Há 15 anos não havia o Facebook, aquilo que nós fazemos por vezes hoje, em que estamos duas ou três horas a discutir num post sobre isto ou aquilo, era como se há 15 anos estivéssemos num palco com os nossos amigos todos a ver. Digamos que a dinâmica e que a maneira como encaramos as coisas é muito diferente do que uma conversa particular ou privada. Por outro lado, é por escrito e isso também é estranho e é difícil, porque não estamos a ver a outra pessoa, não estamos a ver se está a ser irónica, se está só a encolher os ombros. Hoje, se eu estiver a discutir com um amigo no Facebook é difícil terminar a discussão. Como é que eu acabo a discussão? Ou eu digo “tens razão” ou ficamos ali pendurados e com um bocadinho de indisposição. Se eu estiver num café a falar com ele chega ao fim e dizemos para o outro: “vamos mas é beber qualquer coisa e depois falamos”, e a coisa corre melhor. Aqui não tem a ver com a língua, mas sim com as nossas relações pessoais. Eu acho que estamos a ter alguma dificuldade em aprender a viver nestas redes sociais de forma saudável.

As discussões que antes eram orais hoje são escritas e há muito mais propensão para apontar aquele erro aqui e ali. É mais tentador para algumas pessoas…

Tal como há mais propensão a dar mais erros. Tal como se fossemos ao caderno de rascunhos de um escritor do século XIX íamos encontrar lá gralhas, qualquer pessoa dá gralhas. Só que ele não mostrava isso a ninguém, ele não punha aquilo no Facebook. Por isso acho que também temos de ter um bocadinho mais de ponderação nessa forma de apontar para os erros dos outros.

Para um amante da língua portuguesa, o que é mais importante, a técnica com que um texto é escrito ou a clareza? Por vezes uma pode ser inimiga da outra.

Aqui vai ter de depender do tipo de texto. Num livro de António Lobo Antunes (ALA) o mais importante é a técnica e por vezes a própria falta de clareza faz parte do efeito que ele quer dar. Digo ALA porque é um escritor muito conhecido e com um estilo muito particular. A falta de clareza, neste caso, faz parte daquilo que o autor quer fazer com o texto, enquanto que se eu estiver a escrever algo em que tento explicar qualquer coisa sobre ciência ou até sobre a língua a clareza é mais importante, e por vezes é importante ter técnica para chegar a essa clareza. Às vezes a clareza é muito mais difícil do que a falta de clareza. Escrever um texto com muitas palavras caras, que pareça muito inteligente, mas que não quer dizer nada é relativamente fácil. Escrever um texto que seja claro e que mostre ideias complexas de forma simples já é um bocadinho mais difícil.

O que é um erro?

Eu diria que é quando nós fazemos qualquer coisa com a língua que não queríamos fazer. Por exemplo, se eu dou um erro ortográfico estou a dar uma imagem má da minha forma de escrever, agora se eu uso, porque de facto eu quero usar, aquela expressão, dificilmente isso será um erro, se for bem pensado. Mesmo um escritor se usar um erro gramatical na fala de uma personagem, ele, enquanto escritor, não está a dar um erro, está simplesmente a mostrar a fala com um erro. Portanto a essa pergunta, sobre o que é mais importante, a técnica ou a clareza, a resposta é mesmo: depende do texto e daquilo que nós queremos fazer com a língua naquele texto. Eu quando escrevo sobre a língua tento ser claro e às vezes dá trabalho, agora se eu escrever um texto literário pode acontecer que eu possa querer ser um pouco obscuro e queira até esconder alguma coisa, ou mostrar a língua noutro registo usando técnicas que não têm a ver com clareza.

Não há uma versão perfeita do português, portanto.

O português é uma junção de muitas pessoas a falar e a escrever, de muitas regiões, origens, muitas famílias e cada pessoa em si tem também muitas situações diferentes em que fala de maneira diferente. Eu estou aqui a falar de uma maneira, se eu falar com os meus filhos será de outra, se falar com a minha mulher é de outra maneira. E às vezes nós não reparamos, porque isto é algo espantoso em relação às línguas, até nos próprios sotaques. Todos nós fazemos isto um pouco. Se uma pessoa vem de uma região que tem um sotaque muito marcado, acontece muitas vezes que de regresso à terra dos pais fale com um sotaque um pouco mais marcado e diferente do lisboeta, digamos assim, e se voltar para Lisboa muda. E isto é feito de forma inconsciente, ou seja, a pessoa nem sempre está a pensar “eu vou falar com este sotaque aqui”. É algo perfeitamente natural, porque eu estou com uma pessoa e vou-me aproximar da forma dela falar. Acontece o contrário quando estamos numa situação de hostilidade, os linguistas já estudaram isto. Imaginemos que duas pessoas de duas regiões diferentes se encontram e começam a discutir de forma muito quente. Acontece em muitos casos que comecem a marcar o sotaque da sua terra porque querem afastar-se da outra pessoa. É inconsciente também, mas acontece. Agora, o normal, felizmente, não é que as pessoas andem por aí a discutir todas umas com as outras, é que nós tentemos aproximar-nos e depois acontece isto: vou para a minha terra, falo mais com o sotaque da minha terra; venho para Lisboa, falo um pouco mais para o sotaque de Lisboa.

O Marco fala de erros falsos, mas de certeza que há erros que o chateiam. Qual é o erro que mais o irrita no português?

Ultimamente o erro que mais me tem irritado é que muitas pessoas e empresas escrevem “contacto” sem “c” porque estão convencidas de que estão a escrever com o novo acordo ortográfico quando, na realidade, aquela palavra tem o “c”. É uma vontade tão grande de usar o acordo, o que me parece um pouco estranho, que acabam por tirar o “c” onde deve estar porque nós dizemos o “c”, tal como dizemos “facto”.

Com o aparecimento do acordo perdeu-se essa atenção para sequer entender se as letras eram pronunciadas ou não. Foi uma razia aos c’s e p’s.

É um óptimo argumento contra o acordo, eu de facto não falo disso neste livro, sem ser de passagem, mas acho que o acordo acabou por desestabilizar uma coisa que neste caso é ortografia, uma convenção. Não temos de estar a mexer nas convenções por razões que não sejam muito, muito fortes. E o acordo acabou por criar esta situação muito desagradável em que, de repente, temos erros ortográficos onde eles não existiam com tanta frequência. Por exemplo, o Diário da República aparece agora com não sei quantos “fatos” em vez de “factos”, quando não há razão nenhuma. Era mesmo isso que estavas a dizer, ou seja, aquilo que as pessoas puseram na cabeça foi que os c’s caem, então caem em todo o lado mesmo onde não deviam. Não é fácil, de facto, mas quer dizer, é uma questão de pronunciar e perceber que nós dizemos “contacto”, e acho que aí não conheço nenhum português que não diga “contacto”.

O Acordo acaba por ser um pouco inimigo dos exemplos das oralidades de que falávamos há pouco.

As pessoas às vezes fazem alguma confusão, olham para o acordo como se fosse uma junção da língua portuguesa de Portugal e do Brasil quando o acordo é apenas, como próprio nome diz, a dica ortográfica, e por isso é que eu digo que é desnecessária. A ortografia portuguesa e brasileira tinham e tem diferenças, e o acordo não acabou com as diferenças que podia ter acabado. Elas continuam lá em muitos casos, não juntou as duas variantes da língua porque isso é impossível. Ninguém vai dizer aos brasileiros para usar outras palavras, nem ninguém nos vai dizer para usarmos as palavras brasileiras. Isto só acontece de forma natural, não por imposição. No entanto, a ortografia, que tinha as suas diferenças, não era uma barreira, eu nunca tive problemas em ler textos brasileiros. Tinha menos um “c” ali, um diferente acolá… O que acabou por acontecer [com a adopção do Acordo Ortográfico] foi um processo que pôs areia na engrenagem, e de repente as pessoas andam chateadas com isto.

Foi uma aproximação falhada?

Posso mesmo dizer que sinto que houve um maior afastamento em relação ao português do Brasil, no sentido em que as pessoas agora irritam-se mais a ler textos brasileiros — o que é uma pena porque é bom nós podermos ter textos do outro lado, é uma literatura muito rica. São milhões e milhões de falantes com quem não devemos ter uma barreira mental. E, no entanto, o acordo acabou por cimentar essa barreira, o que me parece ser exactamente o contrário da intenção. Como o livro mostra, tento ter uma visão muito aberta e muito saudável da língua no que toca à gramática e à oralidade. No que toca à ortografia, é uma convenção. As convenções só devem alterar-se se for necessário e é muito mais difícil mudar a ortografia, é uma mudança que só devia ter sido feita com razões muito muito fortes e não vejo, não encontro essas razões.

No meu entender, o acordo leva a que haja mais erros. Porque as pessoas agora, não podendo, obviamente, misturar os dois, tentam enveredar pelo acordo sem terem lido o suficiente sobre ele… e acabam por misturar os dois. É um autêntico rebuliço.

Nesse ponto houve uma desestabilização daquilo que é perfeitamente estável, não é algo que tenha de ser alterado. Diz-se muitas vezes, e o livro fala muito disso, que a língua evoluiu e evolui com os próprios mecanismos e ao seu próprio ritmo. No caso da ortografia é um disparate andar a escrever por cima. Ou seja, dizer que agora vamos escrever assim quando já estava estabilizado, não havia qualquer barreira à compreensão de um lado e do outro. Não podíamos ter a certeza absoluta que isto ia acontecer, mas é um facto óbvio quando olhamos para textos escritos com o acordo ortográfico que há erros onde eles não existiam se não houvesse o acordo como ‘facto’, ‘contacto’…

Olhando bem para isto, eu próprio dou alguns ‘erros falsos’. No SAPO24 publicamos segundo o novo Acordo Ortográfico, escrevo segundo o mesmo, mas há situações, como com a palavra ‘para’, que eu receio que os leitores não percebam ou achem que é um erro com a ausência do acento e quase inconscientemente acentuo a palavra.

O ‘para’ é uma daquelas coisas… e há uma certa incoerência porque o ‘pôr’ também tem um acento que só lá está para distinguir do ‘por’, e esse continuou lá. O ‘pára’ tinha um acento para distinguir do ‘para’ e saiu… haverá uma justificação num dos documentos, mas essa justificação esbarra contra a parede da realidade. Nós acabamos por ter mais dificuldades em saber como escrever bem, no que toca à ortografia, e eu aí acho que é uma pena. Neste momento vai ser sempre uma situação difícil de resolver porque mesmo que andemos para trás, como acho que ainda podíamos fazer, já vamos ter uma geração de miúdos que aprenderam com o novo acordo. Como é que vamos resolver? Aí terão de ser aqueles que criaram esta situação a ter de descalçar a bota, mas é uma bota escusada, digamos assim. É pena que isto tenha acontecido.

Este não é o primeiro livro sobre português que o Marco escreve. De onde surgiu esta paixão?

Todos nós temos, mesmo que achemos que não, um certo interesse pela língua. Às vezes o interesse vai para palavrões, se for preciso, ou expressões curiosas, mas todos nós gostamos de saber mais sobre a língua que falamos. Eu acabei por ter como profissão ser tradutor e também dar aulas sobre tradução. O que é que acontece quando uma pessoa é tradutora? Acaba por escrever muitos textos de outras pessoas, temos de traduzir e escrever em português textos que foram escritos por outros, e acabo por ter necessidade de escrever qualquer coisa minha, e essa necessidade acaba por ser orientada para o próprio material que eu uso todos os dias que é a língua portuguesa. Acabou por ser quase natural, quando comecei a ter um blog e a tentar escrever, que o tema fosse o português, que é o material profissional. Mas não só português, também escrevo muito sobre outras línguas, gosto muito do tema. Já na faculdade e na escola tinha muita inclinação para a questão das línguas e da linguística, mas foi esta necessidade muito grande de escrever que me levou a escrever estes três livros sobre o português.

E para dar ferramentas a quem quer escrever melhor e falar melhor.

O que eu tento dizer neste livro e nos outros é que a pessoa tem que ter muito cuidado com os erros, mas acima de tudo não pode também ter medo de escrever. A certa altura, com todas estas pressões, com algumas pessoas a dizer que estão mal, cria-se uma certa insegurança, que é a pior forma de aprender a escrever. Se a pessoa tiver esse medo nunca vai aprender. Nós para conseguirmos fazer seja o que for temos de errar. Portanto, os erros de português vão ter de aparecer quando começamos a escrever, nos primeiros textos. Não há nenhum miúdo que comece a escrever na primeira classe e escreva logo de forma perfeita. Uma pessoa que queira ser escritor, no sentido de escrita criativa, também tem de tentar, errar, escrever maus textos e só a partir daí é que vai começar a escrever cada vez melhor. Estes livros tentam, no fundo, desatar a língua. Ou seja, [fazer com] que a pessoa não tenha medo. Não temos de ter tanto medo de escrever, temos de ter um certo cuidado, respeito, tentar procurar como é que se escreve bem, mas não temos de ter medo. Mais vale escrever muito e depois ir começando a melhorar.

E ler muito

Isso já está implícito. Essa já é uma daquelas coisas que nem precisamos de estar a dizer. Ninguém consegue escrever bem se não ler muito, vai ter de ler sempre mais do que escrever. Nestes livros, não sei se o consegui, isso terão de ser as pessoas a dizer, também tento que sejam agradáveis à leitura. Que a pessoa leia, que aprenda alguma coisa, mas que também goste do que está a ler e que se ria um pouco.

Este género de livros tende, a maioria, a ser chato. São livros muito técnicos e baseiam-se simplesmente em exemplos. Não sabem ser apelativos. O Marco, no entanto, foi por um caminho diferente, criou uma narrativa. Parece uma conversa em que o autor está ali a falar connosco.

Esse era um objectivo. Atenção, nada contra os livros técnicos, porque os livros técnicos são necessários, aliás são a base de muito do conhecimento que está aqui.

Sim, mas aqui consegue transformar o conhecimento técnico num diálogo com o leitor.

Esse era o meu objectivo, que a pessoa sentisse que estava a conversar. E no final há uma ligação ao blog onde pode ir depois comentar e discutir, no bom sentido, espero eu, todas as expressões. É um livro para conversar, é também aí que está o grande prazer do uso da língua portuguesa, em escrever, em ler, mas também em conversar.

Quando estava a preparar esta entrevista, esbarrei num artigo, o resultado de um estudo publicado na Globo, de 2016, que dizia: “as pessoas que corrigem a gramática dos outros são menos sociáveis”. Confere?

Isto também pode ser uma inclinação profissional, que eu sou tradutor e revisor, e todos nós neste mundo da revisão temos tendência para isso. Andamos atentos às coisas. Há uns anos, quando comecei a trabalhar na legendagem, estagnei um pouco a minha própria visão de filmes porque andava a ter mais atenção à legenda do que ao filme, porque era aquilo que eu andava a fazer. E quando nós somos revisores profissionais há uma certa tendência para que a pessoa encontre erros onde outras pessoas não encontrariam. Isto será a razão profissional, mas também há pessoas que não têm nada a ver com a língua, que não trabalham com isso, e que têm como passatempo andar a corrigir os erros dos outros. Estas pessoas estarão convencidas de que é algo muito necessário. Não me deixa de parecer que às vezes há uma certa compulsão a qualquer coisa que é difícil de explicar. Ouvi falar de um estudo, não sei se é o mesmo, mas enfim… O que eu tento com este livro é orientar essas pessoas que têm muito interesse pela língua para outros temas. Ou seja, isso dos erros é importante, mas falemos também de outras coisas, como dos erros falsos.

[Transcrição integral. Entrevista de Tomás Albino Gomes a Marco Neves. Publicada por “SAPO24” em 02.02.19. “Links”, destaques e sublinhados meus. Imagem de topo de: Wook. Texto automaticamente corrigido pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”.]

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