Não invocarás o nome de Deus em vão de escada

Muito bomEkbom, 1981 texto, este de Nuno PachecoNuno Pacheco, jornal “Público”, 2019. Com muita pena minhaO Peninha [n. Fethry Duck], Walt Disney, 1964, nunca viStevie Wonder, “I Just Called To Say I Love You“, mil novecentos e oitenta e picos um único cagãoAntónio Lobo Antunes, O Próprio, vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2119 que não enchesse qualquer das suas grandessíssimas merdas(como diria Miguel Esteves Cardoso, um bacano à séria) com um monte de citações ou de referências a uns gajos de quem nunca ninguém ouviu sequer falarDomingos Monteiro, 1903 e que os próprios cagões(“tipo” João Baião mas em versão por escrito, iach, que horror) jamais leram, aquilo é tudo a fingir, a ver se cola, uns nomezinhos catitasEça de Queirós, “Cartas de Inglaterra”, ed. Ferro&Filhos, Rua de S. Paulo, 14, Lisboa, 1888 para tentar impressionar o pagodeMao Tse-tung, 1949.

Uma finalidade subsidiária da referencite aguda (ou bibliografite mórbida) é esconder a ignorância dos próprios, daqueles cromos que se dizem “autores” mas que nem ler sabem, quanto mais escrever; destarte (adoro escrever “destarte”, é muntafixe e dá imensa pinta de jurista), sepultando a sua triste prosa, o seu exíguo domínio da Língua e, sobretudo, a sua assustadora pobreza de espírito, sob diversas camadas de nomes sonantes e polvilhando toda a superfície da sua poia em prosa com umas citações avulsas e desconexas, o vigarista da escrita julga ter ascendido — como se tivesse apanhado um elevador — às alturas estratosféricas onde imagina irá confraternizar com os verdadeiros deuses da Literatura, cavaquear com Eça, estender o bacalhau a Camilo, jogar à bisca lambida com toda a Geração de 70 e até conversar em “estrangeiro” com um Zola, com um Murakami, com dois (ou três) Cervantes.

Não adianta sequer — mais resultará espetar um prego na parede e dar-lhe cabeçadas — tentar fazer ver a tal raça de cretinos que as citações e notas bibliográficas, quando inseridas no corpo do texto, funcionam na leitura como travões a fundo num carro, na compreensão como cubos de gelo atirados às pázadas, na fluidez narrativa como a entrada súbita de um marido ciumento quando estávamos muito entretidos a “conhecer” sua digníssima esposa.

É o mesmo que ouvir música enquanto alguém vai papagueando o nome dos instrumentos (e o respectivo fabricante), como se chama cada um dos executantes (com indicação do respectivo número de contribuinte), qual é o tempo e o tom de cada acorde, que horas são e quando é que se come. Corta o ritmo, raios, estraga tudo, nem assim  entendem?! 

Pobres diabos, tão tristes citadores, sobre os quais é vão e inútil e redundante e, sobretudo, imensamente estúpido perorar. Nem de insultos são merecedores. Ou de que a seu propósito se gaste nosso Latim.

Enfim, vale pelo divertimento. Acho-lhes imensa piada, valha-me Deus.

Deus, Fernando Pessoa ou McLuhan: cuidado com as citações

Nuno Pacheco
publico.pt, 14.02.19
Citar substitui a leitura, tal como a vaga ideia substitui o pensamento.

Se o texto apócrifo é uma praga antiga, como se recordou aqui há uma semana, a citação abusiva não o é menos. Há criaturas que, para justificarem uma tese ou tornarem credível um texto, recorrem a frases alheias, muitas célebres e já feitas cliché, venham elas de Platão ou Churchill, Pessoa ou Lacan, Homero ou Lincoln. Citar substitui a leitura, tal como a vaga ideia substitui o pensamento. Há vários livros e sites de citações, e deles não vem mal ao mundo; mas já o seu uso leviano ou acéfalo é, pelo contrário, coisa a evitar.

Se há palava usada e abusada, é esta: a de Deus. Não falta quem se arrogue a invocá-lo para justificar tudo, mesmo as ideias mais pérfidas ou os actos mais criminosos. E esta “cegueira” começa por ser exaltação. No Brasil, um deputado conhecido como Pastor Sargento Isidório apresentou, na primeira sessão legislativa da era Bolsonaro, um projecto de lei para tornar a Bíblia “património nacional, cultural e imaterial do Brasil e da Humanidade”. Corresponde, por alto, a decretar que a água é líquida ou que uma esfera é redonda, já que a Bíblia não precisa de leis para se tornar património universal. Mas Isidório, ex-militar que diz ter curado a sua homossexualidade com “a palavra de Deus” (pena que não tenha curado o que o levou a tal afirmação), quis chamar a si a profética tarefa. Ora num congresso onde as facções dominantes já são conhecidas por BBB (Bíblia, Boi e Bala), imagina-se o efeito disto.

Sobre a Bíblia, há um interessante texto de Frei Bento Domingues, no PÚBLICO, em 2016, intitulado “Não invocar o nome de Deus em vão”. Escreveu ele: “Nunca temos acesso à ‘Palavra de Deus’ de modo imediato. Estritamente falando, a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas um conjunto de testemunhos de fé de crentes que se situam numa tradição particular da experiência religiosa.”

O pior, fora dessa experiência, é que muitos dela se apropriam no sentido mais vil. E o que deveria ser inspiração benigna passa a justificação de tormentos.

Noutro campo, há entre as simplificações do pensamento uma particularmente irritante: o abuso de Fernando Pessoa na já estafada frase “A minha pátria é a língua portuguesa” ou até, neste caso mal citado, “A minha pátria é a minha língua.” O que escreveu Pessoa, a coberto do seu heterónimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego? Na íntegra, e na ortografia original, anterior à grafia oficial decretada em 1911, escreveu isto (corresponde aos 2 últimos parágrafos, de 5, do trecho 259):

“Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m’a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”

É bem menos cómodo e romântico do que a frase tirada do seu contexto, não é verdade?

Por último, uma cena de um filme que é um achado. Woody Allen, no seu Annie Hall (1977), inventa um diálogo que põe em causa o abuso do pensamento de outrem. Na fila de um cinema, o personagem que ele interpreta (Alvy Singer) ouve alguém atrás de si (o actor Russel Horton) dizer para a namorada: “O Marshall McLuhan trata a questão em termos de alta intensidade. Estás a perceber? Um medium quente…” Allen diz que ele não faz a mínima ideia do que diz MacLuhan, mas Horton defende-se: “Ai é? Por acaso até dou uma cadeira em Columbia sobre TV, Media e Cultura. E acho que as minhas ideias sobre o sr. McLuhan têm imensa validade.” Allen riposta: “Ai acha? Calha bem, porque tenho aqui o sr. McLuhan.” E Marshall McLuhan, o próprio, surge em cena e diz: “Ouvi o que disse. Não sabe nada do meu trabalho. (…) É espantoso que o deixem dar uma cadeira do que quer que seja.”

É nesse momento que Woody Allen, na pele de Alvy Singer, se vira para os espectadores e diz: “Se a vida fosse assim…” Infelizmente não é.

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