«Desacordos entre tentativas de acordo» [“Jornal de Angola”, 08.03.19]

Desacordos entre tentativas de acordo | Reportagem | Jornal de Angola – Online

Reportagem

Matadi Makola

jornaldeangola.sapo.ao, 8 de Março, 2019

 

Sob o lema “África e a normalização ortográfica da língua portuguesa”, a Academia Angolana de Letras promoveu, no Memorial António Agostinho Neto, em Luanda, na tarde da última quarta-feira, uma conferência, proferida pelo professor moçambicano Bento Sitoe.

Entre as várias figuras presentes no evento, destaque para o Vice-Presidente da República, Bornito de Sousa, e do presidente da Academia Angolana de Letras, Boaventura Cardoso.

Segundo o Professor da Universidade Eduardo Mondlane, a normalização passa pelo reconhecimento e o estabelecimento de regras que permitam acomodar e não deturpar as palavras de línguas nacionais que entram no vocabulário português, sendo esta a via para se estar em pé de igualdade para discutir o que quer que seja.

“A falsa ideia de que a adesão ao acordo ortográfico só traz prejuízos não é unânime entre os linguistas. Por exemplo, o Brasil abraçou este acordo, mas há um grande desacordo entre os intelectuais e académicos daquele país, que se batem até hoje. O mesmo acontece em Angola ou em Moçambique”, avaliou.

Contudo, afirma Bento Sitoe, o processo emperra nos momentos em que as pessoas misturam questões linguísticas com questões políticas, dado que a articulação entre as instituições PALOP e CPLP podem muito bem servir para distinguir o trigo do joio.

Em debate, o Professor aponta duas possíveis soluções para o problema. “Primeiro, seria divulgar este acordo a todos os níveis e em todos os países, para que o Governo tome decisões, sabendo que todos estão esclarecidos. Em segundo lugar, seria preciso, de facto, avaliar como este acordo não contempla os diferentes portugueses”, referiu.

Porém, não chega ao radicalismo de chamar imposição. A seu ver, houve precipitação na maneira como foi à aprovação. “Não se deu tempo suficiente para que se pudesse discutir isso com calma”, critica.

Uma audiência interventiva

Preenchida maioritariamente por professores renomados e estudantes da especialidade de Linguística e Literatura, muitas foram as intervenções que mereceram a atenção da mesa. A primeira foi da linguista Luísa Costa, que se posicionou a desfavor de Angola aderir à proposta do novo acordo ortográfico.

Já no acordo de 1990 não estávamos preparados e, neste, por tudo o que apresenta, acho que é um acordo ortográfico ilegal”, defendeu.

O escritor Fragata de Morais comungou da linguista, posicionando-se “em total desacordo com o acordo”, que acredita não ser mais do que um caso flagrante que chama de “imperialismo livreiro”.

Insatisfeito, o escritor e Professor universitário Abreu Paxe disse prestar menos atenção à adesão ou não, mas ser necessário aplicar severidade na interpretação e real significação dos termos.

“Dizer Maianga à maneira portuguesa pode somente remeter-nos ao bairro, mas dizer com o sotaque apropriado da língua de origem já nos remete à razão do nome do bairro: a fonte de água”, exemplificou.

Ao coro de vozes, juntaram-se Benedito Homem, linguista formado pela Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto. Na sua opinião, a discussão não pode parar, pois se trata de um acordo que não beneficia a todos os países. Porém, assume que os linguistas dos Países Africanos de Língua Portuguesa ainda não chegaram a um consenso no verdadeiro sentido da palavra.

“Devemos primeiro arrumar a casa e depois fazer um acordo interno, para posteriormente chegar a uma conclusão”, sugeriu. Contudo, visiona que Angola não perde nada em não aderir ainda. “O tempo é mestre. E só com o tempo é que vamos poder avaliar”, reforça.

Já Mbiavanga Fernandes, linguista afecto ao ISCED-Luanda, avalia positiva a iniciativa da normalização da escrita do português em África, porque pode causar desenvolvimento, principalmente, no que toca à escolarização. “Na minha visão, essa questão acarreta duas obrigações: devemos olhar para a perspectiva política, dado que somos um país e temos interesses a defender. Por outro lado, aderir ao acordo pressupõe que estejamos preparados o suficiente e bem organizados, que é o que ainda falta”, pontua.

Na opinião de Ezequiel Bernardo, mestre em Linguística Crítica, afecto ao ISCED-Cabinda, é urgente que o Estado angolano ratifique o acordo ortográfico, uma vez que a realidade do país assim o exige.

“Estamos dependentes de Portugal e Brasil e é destes dois que extraímos os diversos livros”, justifica.

Por outra, refere que o acordo ortográfico vem a representar o processo histórico dos povos, sendo, para todo os efeitos, uma questão de política da língua. A seu ver, já é hora de darmos espaço e território a essa realidade. “Agora, isso não pressupõe esquecer as línguas nacionais”, adverte.

A rebuscar um caso prático, o sociólogo Paulo de Carvalho provocou a plateia, colocando ao conferencista a questão de um famoso supermercado angolano, cujo nome é um exemplo que se enquadra nos atropelos ou não do português nas línguas locais.

“Entre escrever ‘Candando’ e não ‘Kandando’, já que a ideia é aportuguesar o nome, seria coerente escrever mesmo abraço”, defende, para grande riso dos presentes.

Bornito de Sousa explica troca de “K” pelo “C”

Na primeira fila, o Vice-Presidente da República, Bornito de Sousa, contribuiu significativamente para a temática. Disse que tomou a palavra não no sentido de obter resposta, mas de polemizar, para que a discussão continue satisfatoriamente.

“Eu também já fiz provocações no sentido de se perceber qual seria o sentido do acordo ortográfico, quando um país praticamente tem dez milhões de habitantes e o outro tem quase duzentos milhões. Que peso teriam os dez sobre os duzentos, quando não são acolhidos os elementos específicos, sobretudo das línguas culturais dos países africanos? Mas ficando fora, qual é a capacidade de sobrevivência”? Provocou assim a audiência, acrescendo que é um trabalho que deve contar com a colaboração de todos, quer enquanto países (PALOP), quer enquanto estudantes, docentes e indivíduos chamados à discussão.

Factualmente … sobre a normalização ortográfica da Língua Portuguesa em África, Bornito de Sousa manifestou estranheza no caso de se suprimir o “C” antes do “T”, facto que, na sua opinião, não é pelo falar em si, quando dois terços das línguas mantêm essa grafia, como é o caso do Inglês.

“Ora, se o argumento é a pronúncia, o muito teríamos que ter um ‘N’ ou algo assim”, sentenciou.

Um outro caso que lhe constituiu preocupação é a termo “Cokwe”, um exemplo que deve ser salvaguardado no processo de normalização da Língua Portuguesa.

“Para nós, falantes da Língua Portuguesa, ver isso num texto que não está diferenciado ou em itálico, a tendência é ler como está escrito. Qual seria a solução? Mudaríamos a grafia? Um outro caso é o termo ‘Muxima’. Será que escreveremos com x ou ch? Portanto, há um conjunto de questões que continuarão a ser debatidas”, destacou.

Os polémicos “K” e “C”

Bornito de Sousa não terminou a sua intervenção sem frisar o caso da substituição do “K” pelo “C” no nome de determinadas províncias. A alteração feita pelo Ministério da Administração do Território, à época por si dirigido, gerou alguma polémica.

Bornito de Sousa argumentou que chegaram a enfrentar sérias dificuldades na toponímia, sobretudo quando apareciam nomes ou designações a começar com a letra “K”, a exemplo de Kwanza-Norte ou Kuando Kubango. Contudo, foi com o processo de registo eleitoral que a necessidade de se estabelecerem regras mostrou-se imperiosa. Em consequência, aprovou-se uma lei que, basicamente, estabeleceu três regras. A primeira, visava que as denominações das localidades que vieram do tempo colonial mantivessem em regra a grafia latina.

“Porque, a não ser assim, teríamos que começar por mudar o nome do próprio país, porque o nome é uma corruptela do original ‘Ngola’, que veio a ser Angola”, justificou.

A segunda lei obrigava aos “procedimentos legais”. Ou seja, explica Bornito de Sousa, ninguém pode chegar e escrever o nome de uma localidade ora com “K” ora com “X”, conforme a sua apreciação momentânea. “Não seria possível. Era preciso seguir procedimentos legais”, reforça.

A terceira consistia em “escrever correctamente em línguas nacionais” e aconselhava a “proceder a consultas junto das academias ou do Instituto de Línguas Nacionais. Explicou que esta última lei acautelava exactamente o interesse legítimo de ter os nomes locais, mas a escrita não seguia regras científicas.

“A questão era mesmo a regra. Por exemplo, no caso dos ‘Kwanzas’, muitas já causavam confusão, por serem escritas ora com ‘U’ ora com ‘W’, aponta.

Minucioso, defende que, caso se escreva em língua nacional, não se pode escrever “Kwanza Sul ou Norte”, mas, sim, Kwanza-ya-Tunda e/ou Kwanza-ya-Luiji. Assim se colocaria correctamente o nome em língua nacional.

“Se vou escrever ‘Kuando-Kubango’ e ponho o ‘K’, o ‘Kuando’ talvez esteja correcto, mas não será o caso de ‘Kubango’, que já não se trata de uma língua nacional, mas sim uma corruptela. É o mesmo caso que se dá à chegada dos portugueses, quando ‘Ngola’ lhes soava ‘Angola’, ‘Vié’ soou-lhes ‘Bié’ e ‘Okavango’ soou-lhes ‘Kubango’. Pôr o ‘K’ só por pôr não significa língua nacional. Está errado. Temos que seguir regras e é o que a lei diz. O mesmo se aplica a ‘Menongue’, que não é ‘Gue’, mas sim ‘G’”, exemplifica.

Sobre as reacções, partilhou que esta postura levou indevidamente as pessoas a interpretarem-no como estando contra as línguas nacionais.

“Mas não! O sentido é escrever correctamente as línguas nacionais. Quem é filho de um linguista, um pastor que traduziu a bíblia para uma das línguas nacionais, seria o último a estar contra as línguas nacionais”, defendeu-se.

A terminar, reiterou que o seu subsídio não foi tecido com a intenção de contestar, tampouco polemizar, mas desejar que o trabalho da normalização do Português em África conte com a participação de todos.

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