Fia lux e fata lux es

Seria com certeza redundante, além de pretensioso e arrogante, especular sobre o que está por detrás disto. Que “sociedade secreta” (ou apenas “discreta”) e que ligações existirão porventura entre esta espécie de maçonaria católica e a sua congénere pretensamente secular; mais complexo ainda seria, a partir daí, determinar as relações de ambas as seitas, que facilmente se confundem, com outras organizações de características similares.

De uma coisa poderemos estar certos, porém, não apenas quanto a esta mas a respeito de todas as “famílias” e “irmandades” organizadas: não havendo para os seus membros o mais ínfimo risco ou a mais remota espécie de perigo, não sendo nem eles mesmos nem as respectivas “famílias” alvo de qualquer tipo de perseguição, de restrição de movimentos, de reunião, de expressão ou até de propagação das suas “ideias” (ou da sua total inexistência), pois então, por exclusão de partes, algo de muito difícil compreensão (ou de sinistro) compelirá tais “sociedades” a manter-se voluntariamente na clandestinidade. Se nada obsta a que se expressem ou manifestem, se ninguém pretende  segregá-los, denegri-los, caluniá-los, desonrá-los ou cometer contra eles qualquer espécie de violência — física, moral ou psicológica –, se não existe a mais ínfima reserva política ou condicionante jurídica especificamente dirigida a tais organizações, então, se se escondem por detrás do anonimato, se operam apenas nos bastidores, movimentando-se na sombra, como fantasmas ou demónios, algum motivo muito forte ou motivações quiçá inconfessáveis terão os “manos” para persistir no seu bizarro secretismo.

Não se tratando de organizações terroristas (se bem que, à semelhança dessas, também não divulguem  registos nem apresentem contas de espécie alguma) e não perseguindo objectivos de carácter subversivo (muito pelo contrário, já que todos os seus dirigentes pertencem à oligarquia dominante), torna-se para o comum dos mortais ainda mais “incompreensível” essa espécie de brincadeiras “discretas” das tais sociedades “secretas” (ou vice-versa). Ao fim e ao cabo, trata-se de adultos, nenhum deles conhecido por ser muito pobre, indigente, alienado ou particularmente ascético, praticando uma variante do infantil “vamos jogar ao esconde-esconde”. De repente, é facílimo, basta-lhes tirar o avental ou despir a batina e pronto, acabou-se a brincadeira, estão instantaneamente de volta ao seu elemento natural e ao seu ambiente habitual, os corredores do Poder, os “passos perdidos” da política, os recintos inexpugnáveis onde escorre o néctar borbulhante e se degustam canapés requintados enquanto se fecham negócios, compram-se nações e trespassam-se povos, decreta-se o apagamento de memórias inconvenientes e inventam-se “factos” indesmentíveis.

Terá decerto sido num desses lautos repastos que despacharam os confrades entre si, com a solícita participação de tribunos aspirantes, a chamada “questão ortográfica” — flagrante exemplo dos tais “factos indesmentíveis” inventados de raiz —  e como abichar mais uns milhões à conta daquela ridícula vigarice, distribuindo-os depois irmãmente (em sentidos lato e restrito) pelos demais convivas ali presentes e não esquecendo a aquiescência dos políticos envolvidos, a “neutralidade activa” dos respectivos lacaios (vulgo, deputados) e a anestesia, a passividade, a geral paralisia proporcionada pelo competentíssimo trabalho de lavagem cerebral realizado por “jornalistas” e “fazedores de opinião” a soldo. Ah, pois, contas são contas, meus amigos, e naquelas confrarias só pára gente de respeito, no que tange a metal sonante, pague-se o que se tiver de pagar, compre-se quem se tiver de comprar, até ao último centavo não há cá dívidas, raios, para alguma coisa servem os tampos das mesas, por baixo passa tudo.

São assim mesmo, os “irmãos”, quando despojados de suas vestes comprometedoras e interrompendo a contra-gosto seus estilizados rituais, aquilo é tudo gente que honra com escrúpulo compromissos, venha o primeiro que duvide, nunca, jamais um único daqueles senhores deixou por liquidar o montante que prometeu, desonrou a palavra dada a outro envolvido, roeu a corda numa qualquer negociata ou sequer chibou-se quanto a qualquer das piquenas ilegalidades que sempre ocorrem quando se congeminam fraudes, sempre que se compra, vende ou troca o que não é trocável, vendável ou comprável.

E também, que diabo, vejamos, será que existe mesmo alguma coisa absolutamente imune a transacções porque, mesmo tendo um valor incomensurável, ainda assim — ou por isso mesmo — não tem preço?

E haverá de facto alguém que de todo não se venda? Mas então porquê, santo Deus?!

Porque não tem valor? Pois. Não se vende porque não tem valor. Só pode.

Há uma nova tradução da Bíblia para Português. E os leitores vão poder pronunciar-se

Ângela Roque
24 Março 2019 , rr.sapo.pt,

Conferência Episcopal Portuguesa apresenta, esta segunda-feira, a tradução de ‘Os Quatro Evangelhos e Salmos’, feita a partir das línguas originais, mas a opinião de quem lê vai ser tida em conta para uma próxima edição. Trabalho iniciado em 2012 envolve mais de 30 biblistas, incluindo dos PALOP.

 

A edição de ‘Os Quatro Evangelhos e Salmos’ faz parte do projecto de tradução de toda a Bíblia, promovido pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). O objectivo é conseguir um texto uniforme, traduzido directamente das línguas originais (hebraico, aramaico e grego), que possa ser usado na liturgia, na catequese e em todas as actividades da Igreja, quer em Portugal quer, futuramente, nos outros países lusófonos, que também colaboram neste trabalho. O projecto arrancou em 2012, e segue o acordo ortográfico.

A comissão coordenadora do projecto é presidida por D. Anacleto Oliveira, bispo de Viana do Castelo, e também ele biblista, e inclui vários elementos da Associação Bíblica Portuguesa (ABP).

Em entrevista à Renascença, o padre Mário Sousa, presidente da ABP e professor de Novo Testamento no Instituto Superior de Teologia de Évora, explica que já estava na altura da Bíblia ter uma nova tradução em Português, destacando, para além do grande número de colaboradores, o facto de se pretender sujeitar o texto à apreciação dos leitores antes de se avançar para uma versão definitiva.

Por que é que houve necessidade de uma nova tradução da Bíblia?

Porque sempre se sentiu, sobretudo nas traduções litúrgicas, que determinadas expressões não estavam, talvez, bem conseguidas, e que talvez fosse importante fazer-se uma revisão. Depois a Conferência Episcopal julgou ser pertinente em vez de se fazer apenas uma revisão e completar os textos – porque, de facto, nem todos os textos são usados na liturgia, e por isso nem toda a Bíblia estava traduzida a nível litúrgico -, fazer-se uma tradução de raiz, partido das línguas originais, ou seja, do hebraico e do grego, e também do aramaico, para determinadas passagens.

Portanto esta tradução é feita a partir dos originais?

Sim, a partir das línguas originais, e por especialistas. Mais de 30 biblistas, especialistas nos diversos livros. Naturalmente os livros foram divididos por diversas pessoas, não só portugueses, mas também dos PALOP, portanto acaba por se um trabalho muito abrangente a nível dos intervenientes.

Esta tradução tem essa preocupação da escolha mais correcta das palavras, mas abre também novas perspectivas de interpretação dos próprios textos?

Sim, porque cada vez mais há esta sensibilidade de perceber que os textos não existem por si só, mas que são fruto do mundo e de algo que está por detrás desse mundo. Ou seja, temos o texto, que é o que chegou até nós, mas por detrás desse texto está o mundo do texto, ou aquilo a que podíamos chamar hoje a ‘sociologia do texto’, que é preciso ter em conta também na tradução. E isto é muito fácil de ver, sobretudo a partir do grego. De facto, as palavras que nós temos no Novo Testamento são todas em grego, mas por detrás das palavras está um mundo que não é propriamente o mundo helénico. Embora as palavras sejam gregas, o tradutor tem que ter em conta que os conceitos são semitas, são judaicos, ou seja, são conceitos que nos vêm do Antigo Testamento. Embora a forma, digamos assim, seja grega, o conteúdo é judaico. Portanto, esta tradução procura ter estas três características em conta, não só o texto, mas o mundo do texto e o mundo por detrás do texto.

É sobretudo isso que diferencia este vosso trabalho, por exemplo, da tradução que foi feita por Frederico Lourenço, a nova tradução da Bíblia, publicada em 2016?

São trabalhos semelhantes, mas ao mesmo tempo diferentes. Frederico Lourenço fez um trabalho muito meritório, que foi fazer uma tradução da chamada ‘Bíblia dos Setenta’, ou seja, no século II A.C., quando já havia uma grande diáspora judaica e os judeus viviam num mundo que falava grego, e já quase ninguém falava hebraico, sentiu-se a necessidade de fazer uma tradução do hebraico para o grego. O trabalho de Frederico Lourenço, que é de facto um trabalho que em Portugal ainda não estava feito, foi fazer uma tradução desta tradução.

O nosso trabalho que agora vem à luz – mas que já começou há alguns anos, em 2012 -, é um bocadinho diferente: pega no hebraico, e nos textos que são em grego no Antigo Testamento, e no aramaico, e no grego no Novo Testamento, tendo em conta este enquadramento. Porque nunca nos podemos esquecer de duas coisas, em primeiro lugar, que embora as palavras sejam gregas temos que ter a formação judaica para perceber os conceitos que estão por detrás daquela palavra, que não são conceitos gregos, na maior parte dos casos.

Por outro lado, que os Evangelhos são as obras que não são apenas meras narrativas, mas que são narrações teológicas, ou seja, a comunidade cristã expressou a sua fé nestas obras a que nós hoje chamamos Evangelhos. Dito de outra forma, os Evangelhos olham para a história de Jesus descobrindo nela a intervenção salvífica de Deus, e também o cumprimento de toda a história da salvação, ou seja, de todo o Antigo Testamento. O que que é que isto significa? Que os Evangelhos são obras que são consequência da fé das comunidades, e que se destinam a alimentar a fé das comunidades. Portanto, estas duas características são uma moldura constante sem a qual não podemos fazer uma tradução fiel, não só à origem, como à finalidade destas obras a que chamamos Evangelhos, ou a qualquer um dos outros livros da Sagrada Escritura.

Um dos objectivos desta nova tradução é ajudar mais quem lê a Bíblia a entender melhor o que lê?

É sempre um trabalho que procura encontrar um equilíbrio entre dois pratos da balança, por um lado sermos fiéis àquilo que nos foi dito, e que são as orientações da Santa Sé, ou seja, que a tradução seja o mais fiel possível ao texto grego e hebraico, e que, por outro lado, seja perceptível. Precisamente para que quem não sabe, e não tem acesso a estas línguas originais, possa perceber que aquela palavra que é traduzida sempre da mesma maneira, é a mesma palavra que está no original, quer hebraico, quer grego. Isto às vezes torna o texto de difícil tradução. Mas, porque o texto se destina ao leitor – e só se torna Evangelho quando chega ao seu destinatário e é recebido como tal -, surgiu a ideia de fazermos esta edição ad experimentum.

O que é que isso significa?

Que o texto vai aguardar pelo eco que vai suscitar no leitor. Queremos que as pessoas agora, ao receberem este primeiro fruto deste trabalho de tradução, ‘Os Quatro Evangelhos e Salmos’, possam ler e depois pronunciar-se. Que digam ‘esta expressão não é perceptível’, ou ‘esta palavra não é de fácil entendimento’, para que o resultado final, a tradução final, aquela que depois se destinará à Liturgia, possa ser resultado de uma tradução feita em sinodalidade, ou seja, em conjunto, os tradutores, mas também com o povo de Deus.

Então, esta edição que vão apresentar não é, ainda, a versão definitiva?

Não, ainda não é a versão definitiva, precisamente para que o texto final possa ter este contributo imprescindível, e penso que muitíssimo importante, do leitor. E penso que esta é uma metodologia nova, que nunca terá acontecido em parte alguma, pelo menos que nós tenhamos conhecimento.

Estipularam um prazo para essa auscultação dos leitores?

Haverá um e-mail para que as pessoas possam fazer chegar os seus ecos, as suas opiniões, naturalmente fundamentadas. Não podemos dar opiniões generalistas que depois não ajudam na revisão do texto. Mas, de facto não se propôs ainda uma data, porque penso que agora as pessoas também recebendo o texto o vão saborear, e depois farão chegar as suas conclusões e as suas sensibilidades.

Cada livro vai incluir notas explicativas. Isso também ajuda à interpretação?

Exactamente. Procurou-se que as notas fossem explicativas, que não se pusesse muitas notas para não tornar a leitura pesada, mas que se pusesse as notas consideradas importantes para um enquadramento, neste sentido que há pouco dizia, do mundo do texto e do mundo por detrás do texto. Para além disso, quando a tradução não foi possível ser muito literal, em nota também se põe a tradução literal, para que a pessoa entenda o que é que está mesmo no texto grego.

Este trabalho foi feito a pedido da Conferência Episcopal. Demorou quantos anos?

Nós começámos os trabalhos em 2012. Quando digo ‘nós’ digo a Associação Bíblica Portuguesa, a quem a Conferência Episcopal pediu a orientação deste trabalho. Abriu-se imediatamente o grupo de tradutores aos PALOP, e temos também a trabalhar connosco gente de Angola, de Moçambique, e de todos os outros países de língua oficial portuguesa. Depois procurou-se, sobretudo em relação aos Evangelhos, fazer uma harmonização, porque naturalmente tradutores diferentes fazem resultar um texto diferente, a mesma palavra traduzida por pessoas diferentes, nunca será igual. Portanto, o que fizemos, nestes últimos tempos, foi procurar a harmonização para que cada palavra seja, dentro do possível, sempre traduzida da mesma maneira. E Isto é que deu um trabalho imenso.

No total há quantas pessoas envolvidas?

Para já, nesta primeira edição de ‘Os Quatro Evangelhos e Salmos’ foram quatro pessoas, três que traduziram os Evangelhos e uma que traduziu o livro dos Salmos. Depois há uma Comissão que fez a revisão, no Livro dos Salmos uma Comissão Científica do Antigo Testamento, e uma Comissão Científica para o Novo Testamento. Cada uma das comissões é constituída por três pessoas. No total dos trabalhos, que continuam – alguns tradutores já entregaram as suas traduções, outros continuam a fazê-las -, são mais de 30 pessoas, mais de 30 tradutores.

E o que se segue agora? Quando é que este trabalho estará totalmente concluído?

Isso não lhe sei responder. Nós esperamos que não demore muito tempo, mas se há livros que já estão traduzidos e entregues à Comissão Coordenadora, outros livros estão a ser ainda a trabalhados pelos tradutores. A nossa esperança é que esta primeira edição também sirva de incentivo a que possamos muito proximamente ter a Bíblia toda traduzida, e pronta.

E esta primeira edição já pode ser adquirida?

A edição é do Secretariado Nacional da Educação Cristã, penso que já está em todas as livrarias diocesanas, e que as encomendas podem ser feitas directamente ao Secretariado ou nas livrarias.

Depois desta apresentação a ideia é que este texto uniforme possa ser usado por todos na Igreja, na liturgia, na catequese, e noutras actividades?

Sim, a ideia que está na origem deste trabalho é precisamente essa, termos um texto que sirva para todas as acções e todas as actividades da Igreja portuguesa e depois nos PALOP, se esse for o entendimento das Conferências Episcopais dos outros países de língua oficial portuguesa.

[Transcrição integral. Entrevista de Ângela Roque, “Rádio Renascença”, 24 de Março de 2019. Destaques e “links” meus.]
[Imagem de topo: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:The_seal_of_Opus_Dei.svg]

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