Mês: Dezembro 2019

«Jesus e a raiz portuguesa do Brasil» [Carlos Fino, “Público”]

Jesus e a raiz portuguesa do Brasil

Carlos Fino
publico.pt , 05.12.19

O súbito e inesperado triunfo de Jorge Jesus no Brasil à frente do Flamengo trouxe de novo para a actualidade – com o imenso impacto mediático de que só o chamado desporto-rei desfruta no “país do futebol” –​ a sempre polémica e ambígua questão do relacionamento bilateral.

Afinal, num país em que ainda persiste difusa a ideia do “português burro” – cultivada no anedotário desde finais do século XIX como forma de combater a concorrência dos imigrantes lusos no mercado de trabalho –, aí está o brilhante sucesso de um “portuga” para a desmentir em toda a linha: ainda por cima num domínio para o qual o Brasil se considera particularmente vocacionado e vive com paixão inaudita.

Um técnico português dirigindo com êxito excepcional um dos maiores clubes brasileiros – com uma “torcida” que ultrapassa os 40 milhões de adeptos, um quinto da população do país! – dá que pensar a muita gente, dentro e fora do futebol. Um colunista da Folha de São Paulo acusou mesmo o toque, escrevendo com acinte que “Jesus nunca superará complexo do padeiro”Caso para perguntar se os brasileiros conseguirão um dia superar o complexo de colonizados.

Seja como for, a verdade é que, desafiando o antigo preconceito num terreno de comprovada excelência brasileira, a consagração de Jesus fez mais, em poucos meses, pela diluição da imagem negativa dos portugueses do que anos e anos de porfiados esforços diplomáticos e outros traduzidos em múltiplas iniciativas que, por mais meritórias que sejam, nunca obtêm a mesma repercussão.

Mas não haja ilusões: por mais que o triunfo de alguns portugueses notáveis – hoje Jesus no desporto, ontem autores de renome na literatura, com destaque para Pessoa e Saramago – contenha e atenue o preconceito antilusitano, este não desaparecerá facilmente. Os brasileiros podem até apreciar o Portugal contemporâneo, para onde muitos vêm emigrando em busca de trabalho, segurança e tolerância, mas isso não elimina um sentimento de rejeição do passado colonial português, que está na própria origem da nacionalidade e foi persistentemente cultivado desde a independência, prolongando-se, com maior ou menor intensidade, até aos nossos dias.

Durante e depois do corte com Portugal, colocados perante a necessidade imperiosa de construírem uma nação até aí inexistente, os portugueses do Brasil, com o príncipe herdeiro D. Pedro e o “patriarca da independência” José Bonifácio à cabeça, alimentaram a narrativa do colonizado vítima do colonizador que se libertava, enfim, das correntes da opressão lusa. Logo eles, um nascido em Lisboa em berço de ouro e outro que estudara e passara a maior parte da vida em Portugal, lutara por Portugal contra os franceses e a si mesmo se considerava “bom vassalo e bom português” (Varela, 2006)!

A identificação com Portugal e com a nação portuguesa era tão grande que – dada a ausência de tradição cultural própria – “a única forma de definir o brasileiro era pelo que o termo excluía”. E naquela conjuntura (…) nenhuma ideia se oferecia com maior facilidade para exercer esse papel do que a do português, assim transformado no outro, no estrangeiro do qual a nova nação se queria distinguir (Ferreira & Neves, 2000, p. 228).

Nesse momento, os portugueses da América, em vias de se transformarem em brasileiros, cindiram-se em duas correntes – uma lusófoba, outra lusófila – que irão permanecer activas de então para cá, tornando assim profundamente ambivalente a atitude do Brasil em relação a Portugal. Por um lado, hostilidade; por outro, portas abertas à imigração portuguesa – considerada a mais adequada – e concessão aos portugueses de alguns privilégios, a começar pela atribuição da cidadania originária aos já residentes no momento da Independência – num reconhecimento implícito de que a nação fora até aí a mesma.

Tudo se agravou, entretanto, com a instauração da República, em 1889, quando a lusofobia, alimentada pela corrente jacobina, virou hegemónica e a herança lusa – que a Monarquia de alguma forma preservava e estimava – se tornou, aos olhos de muitos, num “pesado fardo” do qual o Brasil teria de se desfazer para poder progredir.

Em finais do século XIX, atiçado pelo desagrado com a vinda em massa de imigrantes lusos, o confronto com os portugueses acentua-se e o antilusitanismo atinge o auge, num movimento que chegaria ao ódio e se consolidou, no plano simbólico, já no começo do século XX, com a Semana de Arte Moderna de São Paulo (1922), em que pela primeira vez o Brasil mental se propôs construir a imagem de si próprio sem referência a Portugal. No processo de elaboração da identidade nacional brasileira passam então a ser valorizadas todas as outras raízes que não a portuguesa: a indígena, a africana, a europeia de diferentes proveniências, a sírio-libanesa, a japonesa… Quanto ao português, passou a ser sistematicamente desvalorizado e até esquecido, a ponto de hoje muitos brasileiros não associarem sequer a língua que falam com o país que somos.

Contra Gilberto Freyre, que nos anos 30 ainda exaltou O Mundo que o Português criou, toda uma tradição académica de inspiração weberiana e marxista, consolidada nos anos 50 a partir da Universidade de São Paulo, com destaque para Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, acabou por consolidar a imagem negativa da herança lusa, responsabilizada por tudo o que há de mau no país – da destruição da mata atlântica à burocracia e à corrupção, passando pelo genocídio dos índios e pela escravidão.

Apesar das contradições assinaladas, a visão negativa do passado colonial, cultivada ad nauseam no ensino – de onde os jovens saem com uma péssima imagem de Portugal – e nos media, acabou por se impor, penetrando o senso comum; a ponto de se ter tornado inconsciente e não ser sequer problematizada, ainda que os seus efeitos negativos na própria identidade sejam manifestos. É o contraponto brasileiro do desinteresse português pela sua própria história no Brasil, o que leva a um virar de costas mútuo que o natural desenvolvimento das relações bilaterais não chega a pôr em causa.

É neste pano de fundo que se insere o triunfo de Jesus no Brasil. Devemos naturalmente saudá-lo; mas sem ilusões de que tais êxitos isolados e esporádicos – por mais impacto que tenham – consigam fazer o que as pacientes diligências diplomáticas também não alcançam: vencer o estranhamento que se instalou entre os dois países ao longo dos últimos dois séculos. Para isso, outras condições seriam necessárias – um interesse que não se vê, um debate que não se trava, uma estratégia que não há, uma persistência que falta e – the last but not the least – uma presença mediática lusa no Brasil, hoje praticamente inexistente. Mudará tudo isto um dia?

Carlos Fino

 

Notas bibliográficas
Varela, A. G. (2006). “Juro-lhe pela honra de bom vassalo e bom português” – análise das memórias científicas de José Bonifácio de Andrada e Silva (1780-1819). São Paulo: Annablume.

Ferreira, T. M. T. B. & Neves, L. M. (2000). As relações culturais ao longo do século XX. In A. Cervo & J. C. Magalhães (Eds.), Depois das Caravelas – As relações entre Portugal e o Brasil 1808-2000. Brasília: Editora UnB.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

 

[O artigo transcrito, da autoria de Carlos Fino, foi publicado no jornal “Público” de 5 de Dezembro  de 2019. Os destaques são meus. O texto foi automaticamente corrigido com a solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do browser.]

Nota: a reprodução deste texto, como sucede com todos os aqui transcritos, tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessa ou diz respeito ao chamado “acordo ortográfico” e/ou a “outros detritos”, como é o caso do anti-portuguesismo brasileiro.

Sophia

Porque os outros se mascaram mas tu não Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não. Porque os outros são os túmulos caiados Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo. Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia, “A Menina do Mar” e as partidas dos meninos da terra

Nuno Pacheco
publico.pt 05.12.19

 

 

Está a chegar ao fim o ano em que se têm vindo a celebrar os centenários do nascimento de Jorge de Sena (1919-1978) e Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). E se em Setembro essa celebração os juntou em pelo menos dois momentos (um colóquio no Brasil, no Rio de Janeiro, e um ciclo na Cinemateca, dedicados a ambos), agora é a vez dos Encontros Imaginários criados no grupo de teatro A Barraca darem voz a um “diálogo” entre os dois, com Maria do Céu Guerra a encarnar Sophia e José Manuel Mendes na pele de Jorge de Sena. A moderação, como sempre, cabe ao criador destes encontros, o encenador Helder Costa. Dia 16 de Dezembro, às 21h30.

Falando apenas de Sophia, este último trimestre tem sido pródigo em apontamentos sobre a sua vida e obra. Matosinhos dedicou-lhe um dia, na Biblioteca Municipal Florbela Espanca (onde agora, de 6 a 8, celebra Sophia e Sena na Festa da Poesia). E o Centro Cultural Vila Flor, de Guimarães, recebeu a adaptação para teatro e música do conto A Menina do Mar, pelo Teatro do Eléctrico, com encenação de Ricardo Neves-Neves e direcção musical de Martim Sousa Tavares (neto de Sophia). Anuncia-se ainda para 13 de Dezembro o espectáculo multimédia O Mundo de Sophia, pela Lisbon Poetry Orchestra, no Auditório Renato Araújo da Universidade de Aveiro. É o queimar dos últimos cartuchos. Oxalá não lhes suceda, depois, o silêncio.

Mas ainda falando de Sophia, foi recém-lançada uma “edição muito especial” do conto A Menina do Mar, pela Valentim de Carvalho. E o “muito especial” justifica-se por juntar àquele que foi o primeiro livro infantil de Sophia (de 1958) duas leituras dramatizadas distintas: a que dele fizeram, em 1961, os actores Eunice Muñoz, Francisca Maria, António David e Luís Horta, com direcção de Artur Ramos e música de Fernando Lopes-Graça (aqui incluída em CD); e o espectáculo estreado em Fevereiro no São Luiz, em Lisboa, interpretado por Carla Galvão e Filipe Raposo (ao piano) a partir de música de Bernardo Sassetti (1970-2012), com direcção de Paula Diogo e animações de Beatriz Bagulho, também chamada a ilustrar o livro (o espectáculo surge aqui em DVD). Para dar um ar ainda mais “especial” à edição, pensada e produzida por Rui Portulez, o texto introdutório é de Marcelo Rebelo de Sousa, que sublinha estarmos perante “diferentes leituras, diferentes gerações e diferentes métodos de revisitar um texto fundador.”

A única estranheza resulta desta pequena nota incluída na ficha técnica: “Considerando a sua possível leitura em contexto escolar, este livro respeita as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assumindo a Porto Editora a responsabilidade desta adaptação”. É curioso, porque nem a ficha nem o texto do Presidente da República têm essa preocupação, lendo-se, neles, palavras “proibidas” como “direcção” ou “espectáculo”. Será porque pensam que estes não serão lidos “em contexto escolar”? Vamos então conferir o trabalho de adaptação feito no texto original de Sophia. “Hei-de” passou a “hei de”; “Outono” a “outono” (3 vezes); “Verão” a “verão”; “Primavera” a “primavera” (2 vezes); “Inverno” a “inverno”; “projecto” a “projeto”; “vêem” a “veem”. E é só. Dez alterações, ao todo. Justificava o trabalho? Justificava a nota?

Aqui podem sempre brandir-se dois argumentos. Um, a favor do Acordo, que dirá: estão a ver, quase não se nota. Outro, contra, que oporá: se quase não se nota, para quê mexer? Sobretudo quando se sabe que Sophia foi declaradamente contra o Acordo Ortográfico? Teve até uma argumentação em dez pontos, em entrevista ao JL, em 1991. Recordemo-la, na íntegra:

“1. A cultura é feita de exigência e este acordo é feito de transigência. 2. Vai alterar, em muitos casos, a dicção oral. 3. Vai desfigurar o carácter emblemático e a estética da escrita. 4. Vai-nos separar da tradição grega e latina e, assim, para os estrangeiros que falam línguas românicas, o Português vai-se tornando mais difícil. 5. Vai destruir a modulação das vogais, tornando algumas delas surdas. 6. O acordo nada unifica, pois constantemente recorre a alternativas. 7. A escrita nunca pode coincidir com a fala. 8. A ortografia pertence ao número de coisas que só raríssimas vezes devem ser modificadas, pois também na forma gráfica nos reconhecemos. 9. É verdade que as línguas evoluem, mas evoluem dentro das leis que lhes são próprias e segundo o espírito criador do tempo. O mesmo é verdade para a escrita que, por isso, não pode ser modificada por comissões nem por estratégias políticas. 10. A única palavra portuguesa cuja ortografia precisa de ser mudada é dança que se deve escrever com ‘s’ como era antes, porque o ‘ç’ é uma letra sentada.”

Tirando esta última sugestão poética, que os defensores do Acordo costumam usar como caricatura, a argumentação de Sophia é clara. Corrigi-la postumamente é indefensável, pelo que o livro, para honrar a sua memória, deveria ser mantido na grafia original da autora. Porque não são as dez palavrinhas que estão em causa, mas sim uma questão de princípio. Ou sugerem atirar à fogueira as edições anteriores, não vão as crianças ter um choque ao lê-las?

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de artigo da autoria de Nuno Pacheco publicado no jornal “Público” de 05.12.19]

 

O portuñol e a “língua universal” brasileira

Quem quer jogar no português, uma língua a criar excêntricos? Anda hoje à roda

A bonomia da aproximação actual entre o português e o espanhol faz-se de um entendimento de oportunidade com um pé na cultura e outros nos negócios.

Nuno Pacheco
“Público”, 29 de Novembro de 2019

Anda por aí uma onda de euforia em torno do português que, num passe de mágica, ofusca todos os problemas que existem à sua volta. O mais recente feito, celebrado pelos nossos governantes, foi a promulgação, pela UNESCO (na sua 40.ª Conferência), do dia 5 de Maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa. “Passo importante” para tornar língua de trabalho da ONU, veio logo dizer António Costa. Ele estava lá, em Paris, ele sabe. Além do mais, levava números no bolso, que não andavam longe do que ficou expresso na declaração da UNESCO: “O português é a linguagem de nove estados-membros da UNESCO, (…) língua oficial em três organizações continentais e da Conferência Geral da UNESCO e é falada por mais de 265 milhões de pessoas, sendo uma das mais faladas no hemisfério norte”.

Ora isto sucedeu dez anos depois de a CPLP ter escolhido o 5 de Maio como Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (o que entre nós é sempre motivo para mais um sarau), coincidindo agora ambas as datas num todo harmonioso e exuberante. Foi a parte que nos coube na lotaria, até porque, como a própria UNESCO confessou, a ONU anda a encorajar “a celebração de um dia nacional para cada uma das línguas oficiais da organização”. Portanto, força que a data é nossa!

Mas quantas línguas existem no mundo? Segundo a própria UNESCO, umas seis a sete mil. Só que, ainda segundo a UNESCO, apenas 4% dessas línguas (entre 240 a 280) são faladas por cerca de 97% da população mundial, ficando os restantes milhares (muitas delas línguas indígenas ou de populações muito reduzidas) para entendimento e uso de uns escassos 3% da Humanidade. O que levou, já, a uma espécie de SOS para salvar as línguas ameaçadas de desaparecimento.

Mas não é isto que nos traz aqui, antes a euforia nacional. Sim, temos um dia Mundial, que até coincide com um Dia Internacional. O que fazemos com ele? Discursamos. E fazemos contas: já somos 260 milhões de falantes, havemos de ser 500 milhões no final do século XXI. E lá veio o primeiro-ministro, feliz, repetir, como tantos outros, que o português “é a língua mais falada no hemisfério Sul e cuja dinâmica demográfica vai ter um certo crescimento no final do século”. Este “certo crescimento” é a contar com África, não exactamente com a língua. Números.

E é de números que estas coisas vão vivendo. Nos dias 21 e 22 de Novembro, na Gulbenkian, reuniu-se a Conferência Internacional das Línguas Portuguesa e Espanhola, sob a sigla “Ibero-América: uma comunidade, duas línguas pluricêntricas” e aí também os números imperaram. Já não os 260 milhões (a querer ser 500) da CPLP, mas os 800 milhões (a querer ser mil milhões) dos ibero-falantes, seja lá o que isso for, que, espalhados pelo mundo, farão da união destas línguas uma coisa poderosa. Não houve palestrante que não tirasse uns números da algibeira, para sustentar esta coisa avassaladora: hoje somos milhões, amanhã seremos mais (o espanhol, ou castelhano, anda particularmente feliz com a sua expansão vocal nos Estados Unidos).

Quer isto dizer que, a prazo, mais cidadãos de outras nacionalidades falarão, voluntariamente e com prazer, o espanhol e o português (línguas “de cultura”, “de ciência”, “de negócios”, etc.)? É melhor refrear os ânimos. No caso português, era aconselhável começar pela casa-mãe e, pelo menos, traduzir para português o que aqui se vai escrevendo em inglês para sermos “modernos”.

Não era mau princípio. Na Gulbenkian, a escritora brasileira Nélida Piñon (presença recorrente neste tipo de encontros, até porque tem antepassados na Galiza) disse que as duas línguas ali irmanadas numa sala deixaram “um legado benigno e mortífero, ao mesmo tempo.” Sim, todos sabemos do sangue derramado e também das lágrimas, da escravidão e da conquista, dos ódios e das batalhas que fizeram a história dos séculos antecedentes. Mas a bonomia da aproximação actual faz-se de um entendimento de oportunidade com um pé na cultura e outro nos negócios.

E se na América do Sul esse entendimento linguístico é corrente entre o Brasil e os países seus vizinhos, na Europa ele tem sido mais distante e lento, devido não só às especificidades da fala portuguesa (mais cerrada e seca) mas também à renitência espanhola a aprender outras línguas. Os projectos-piloto bilingues (português-espanhol) em escolas de fronteira são um bom passo para ultrapassar este afastamento, que é circunstancial, como muito bem explica um livro recente que todos deviam ler: Assim Nasceu Uma Língua, de Fernando Venâncio (Guerra & Paz, 2019).

Onde entra África, nisto tudo? Mais uma vez na plateia, a assistir, já que a CPLP é observadora da OEI (Organização de Estados Ibero-Americanos). O espanhol castelhano (porque Espanha abarca outras línguas, como o galego, o basco e o catalão) e o português multiplicaram-se em variantes, mas estas tardam a ser reconhecidas como parte legítima e comum de cada língua.

Quase anedoticamente, António Costa disse em Paris que o português “hoje é uma língua que pertence a muito mais pessoas no Mundo do que só a nós portugueses e isso traduz-se em formas diversas de escrever”. No entanto, temos um Acordo Ortográfico a fingir (e afirmar) o contrário. Talvez seja boa altura de levar a sério aquelas últimas palavras e livrarmo-nos dele, de vez.

 

[Tradução integral de: Quem quer jogar no português, uma língua a criar excêntricos? Anda hoje à roda | Opinião | PÚBLICO, por Nuno Pacheco. 29.11.19. “Links” a verde meus.]