Dia: 10 de Dezembro, 2019

O complexo da metrópole

Eis (mais) um “estudo”, de (mais) uma “investigadora” descaradamente brasileirófila, cuja finalidade única é a promoção da versão propagandística da brasileirofonia. Torna-se então “natural” que a senhora Chatti, armada com tais e tão suspeitas motivações, se entretenha a discorrer inversamente, pondo ao contrário um fenómeno inerente, simples, natural e comum a qualquer ambiente académico, em Portugal, no Brasil ou em Mogadishu.

De facto, só padecendo de miopia mental aguda é possível trocar “brasileiros” — entidade concreta — por “lusófonos” — entidade abstracta — e, destes, com enfoque total nos estudantes brasileiros, servindo os demais estrangeiros como simples engodo político.

Mas não são estes os únicos truques mentalóides da senhora Chatti, evidentemente. Há mais cores no texto além de preto e branco, sobretudo o cinzento — a tonalidade com mais peso cromático na narrativa anti-portuguesa.

“Fala português!”, dizem professores para alunos brasileiros, africanos e timorenses

Há “choque de culturas” e discriminação nas universidades portuguesas relata um estudo sobre o acolhimento de estudantes estrangeiros.

 

Choque de culturas”, “casos de discriminação”, “não aceitação da língua portuguesa falada e escrita por estudantes lusófonos“, “falta de sensibilização dos professores” – são algumas das conclusões de um estudo da investigadora científica do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) e Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa.

Juliana Chatti Iorio, uma brasileira a viver em Portugal há 20 anos, admite que “muita coisa tem sido feita para atrair os estudantes internacionais”, mas alerta para a falta de preparação das universidades para o actual ‘boom’ de alunos estrangeiros que já são a maioria em alguns cursos.

Num artigo intitulado “O acolhimento de estudantes internacionais: brasileiros e timorenses em Portugal”, publicado na Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM), em co-autoria com Silvia Garcia Nogueira (Universidade Estadual da Paraíba, Brasil), Juliana Chantti disse, numa entrevista à agência Lusa, que não ficou “surpreendida” com os resultados dos estudos.

“Quando entrei para o mestrado, em 2003, havia cinco estrangeiros na minha sala. Era outra realidade. Hoje, há cursos em Portugal que têm mais estudantes estrangeiros do que portugueses, e eu penso que muitas faculdades ou institutos não estavam preparadas para isso”, afirmou. A investigadora considera que estas instituições “não estavam preparadas para receberem esse ‘boom’ de estudantes internacionais e, como tal, o acolhimento fica a desejar”.

Culturas inferiorizadas

“Não me refiro só a logística, mas sobretudo a compreensão das diferentes culturas que pretendem receber. Se estão abertas para receberem estudantes de diferentes culturas, os professores, funcionários, enfim, a comunidade docente e discente tem que estar aberta para conhecer e procurar entender estas diferentes culturas”, defendeu.

A investigadora mostra-se especialmente preocupada com as relações humanas entre os estudantes estrangeiros e os professores, destacando que o choque de culturas, acaba por ser um problema, uma vez que muitos funcionários e professores não conhecem a cultura desses alunos e muitos desses alunos também não conhecem a cultura em Portugal”.

No artigo lê-se que “a não aceitação da língua portuguesa falada e escrita por esses estudantes, bem como os casos de discriminação sofridos em sala de aula por parte de alguns professores, evidenciou que ainda muito trabalho deverá ser feito para desconstruir a representação de que o português é imune ao racismo e possui uma predisposição para o convívio com outros povos e culturas”.

“Fala português” e o ‘complexo’ da Metrópole

A investigadora explica que, à chegada, os alunos brasileiros depararam-se com algumas dificuldades que não estavam à espera, nomeadamente ao nível da compreensão do português. “Muitas vezes, os próprios professores não aceitam a língua portuguesa falada e escrita no Brasil, discriminando mesmo o seu uso em sala de aula e não permitindo o uso de livros cuja tradução seja feita no Brasil”, disse.

Nesse sentido, prosseguiu, “a discriminação é notada quando um professor se vira para um aluno brasileiro e diz, por exemplo, ‘fala português!’, ou quando um professor diz que as traduções feitas por editoras brasileiras não têm qualidade“.

“Portugal não dá o devido valor à língua portuguesa a partir do momento em que permite o uso do inglês em sala de aula, que não luta pela afirmação da quinta língua mais falada no mundo e a partir do momento em que possui muito mais ferramentas em inglês para acolher os estudantes Erasmus do que para acolher os estudantes lusófonos”, considerou.

E, acrescentou, “ainda age como se fosse a ‘metrópole’ a ditar as regras do uso da língua portuguesa às suas ‘colónias’, quando inferioriza a maneira como a língua portuguesa é utilizada pelos outros países lusófonos”.
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