“Não é a mesma língua!” [Paulo Franchetti, “Facebook”, 10.06.20]

“Não é a mesma língua!”

 

Paulo Franchetti, “Facebook, 10.06.20

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Num 10 de junho da década de 1980, fui convidado para discursar junto à estátua de Camões que fica em frente à Biblioteca Mário de Andrade. O autor do convite foi Rodrigo Leal Rodrigues, então e sempre presidente da Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes – que parece ter morrido com ele.

Rodrigo era quase uma personagem de lenda. Poeta, pertenceu ao grupo da Távola Redonda, onde assinava como Marcos Leal. Depois de andar por África e boa parte do mundo, estabeleceu-se no Brasil. Aqui, foi um entusiasta da pintura naïf, que promoveu, idealizador de um Liceu Português, que nunca conseguiu erguer, alma da Academia, que funcionava na Casa de Portugal, e diretor de uma revista chamada Voz Lusíada, dedicada à promoção da cultura portuguesa e luso-brasileira. Era um homem de enorme energia e mais enorme interesse em promover a cultura. Graças a ele e à sua influência junto à comunidade portuguesa, fizeram-se no Brasil muitos eventos literários – e todos os que se dedicavam à cultura do seu país tinham nele amparo certo e providências rápidas. No fim da vida, escreveu uma autobiografia intitulada, já à brasileira, “Colcha de retalhos”, cuja leitura permite perceber por que era difícil não se deixar contaminar pelo seu entusiasmo e por era ainda mais difícil negar um pedido seu.

E sou prova (ainda viva) disso, pois não só escrevi vários artigos em cima da hora, só para que ele pudesse completar a revista, mas ainda aceitei integrar a sua Academia (depois de negar vários convites, disse-lhe que só iria no dia em que vagasse a cadeira de Oliveira Martins – o que, de alguma forma, aconteceu pouco depois, o que me deixou, entre o medo e o remorso, disposto a aceitar finalmente), e, por fim, concordei em fazer o tal discurso.

É fácil imaginar o que foi aquilo: num dia de semana, naquele lugar, o hino nacional brasileiro, o hino português, uma exibição de danças folclóricas em trajes típicos, discurso de um representante do governo do Estado, de um representante da Prefeitura, de alguém do consulado português e, por fim, um representante não da Academia ou da universidade, mas do próprio Rodrigo. Ou seja, eu.

Fiz o que pude, sob o olhar dos que moravam na praça, dos que trabalhavam nos prédios, dos passantes, dos motoristas irritados e da comitiva. Não me lembro do que disse, mas disse certamente que éramos unidos pela língua. Afinal, era o dia de Camões e o tema se impunha. E sei que disse isso porque depois do discurso, estava numa rodinha com o Rodrigo e os vários representantes oficiais, quando se aproximou um sujeito que, pelas roupas e pelo jeito, parecia um dos moradores da rua, que teria acordado com o barulho.

Aproximou-se e veio reto na minha direção. “Desculpe, mas não concordo!”, disse ele. Perguntei com o que não concordava e ele então declamou duas ou três estrofes de “Os Lusíadas”. E declamou bem. Muito bem. Depois de uma pausa bem pensada, declamou um poema, que não identifiquei. Também declamou muito bem, olhando o tempo todo na minha direção, como quem demonstra uma tese ou dá uma aula. Quanto terminou, ficou em silêncio, aguardando. Eu não sabia o que dizer da demonstração, então agradeci e lhe perguntei de quem era o segundo poema. Ele respondeu que era dele. E completou: “Não é a mesma língua! Por isso, discordo”. E fez menção de ir embora. Eu então lhe perguntei com quem tinha tido o prazer de falar e ele me estendeu a mão, dizendo: “Ah, desculpe. Muito prazer, Geraldo Vandré.” E foi embora.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Paulo Franchetti, publicado na rede anti-social Fakebook em 10.06.20. Evidentemente, nesta transcrição foi conservada a ortografia brasileira do original. Imagem inserida na transcrição de: http://www.jornal3idade.com.br/?p=9877. Imagem de topo de autoria desconhecida, copiada do site “Comunidade Cultura e Arte”.]

Marcos Leal – Poema sem Título

Com grafia levemente adaptada para o português falado no Brasil, trazemos neste momento um sublime poema de um poeta brasileiro de origem portuguesa, nomeadamente Marcos Leal, pseudônimo de Rodrigo Leal Rodrigues (1928-2004).

O poema faz alusão aos limites da palavra falada ou escrita, para expressar tudo o que vai no interno dos seres humanos. Por conseguinte, o poeta preconiza outras tantas possibilidades de linguagem, de exteriorização de sentimentos, de anseios, frustrações. Pelos gestos, pelas expressões faciais, pelo corpo em geral, pois há “urgência no amor”!

J.A.R. – H.C.

I

É preciso com urgência inventar novas palavras
porque as conhecidas estão gastas e já não dizem tudo.
Como iremos explicar nossos silêncios prolongados
e as emoções úmidas que sentimos no ar
quando estamos juntos?

Como iremos descrever a música que sentimos
e que enche todo o Universo quando nos olhamos?

E quando a minha pele toca a tua pele,
(às vezes só as mãos se reconhecem…)
toda a aritmética da vida cessa de ter sentido

E como iremos explicar a solidão do mundo,
se quando estamos juntos não descobrimos ninguém
e nos bastamos, como se basta à mãe a criança por nascer?

II

É urgente que falemos
É urgente que nossas mãos nos descubram
E urgente que a nossa pele encontre a paz que faltava
E urgente que os corpos se conheçam
e que a ternura os invada por não serem mais sós
É urgente colocar risos em nossas bocas
e sonho nos nossos olhos tantas vezes cansados
É urgente que nos demos
E urgente o amor amor

III

Povoas-me de insônia as noites
acenando com madrugadas que não chegam
Sou como pássaro cortando o espaço a quem o raio derrubasse
Morro a cada instante um pouco mais
enquanto espero

Povoam-me todos os seres que algum dia
Foram dentro de mim paz ou angústia
O peso de tudo que carrego tarda-me os voos
E falece-me a intimidade
– Vou com a manhã

Referência: LEAL, Marcos. (Poema sem título). CONGÍLIO, Mariazinha (Selecção e Coordenação)
Antologia de poetas brasileiros. 1. ed. Lisboa, PT: Universitária Editora, 2000. p. 134-136.

Transcrição/adaptação do autor do “blog” brasileiro “Blog do Castorp”

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