Mês: Outubro 2020

O fim da istória (3)

«É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia
inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa
disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente,
uma colectividade pacífica de revoltados.»
Miguel Torga (1907-1995)

Depois de já termos visto e revisto a situação mais actual, em jeito de balanço final, será talvez agora a ocasião ideal para as saudações que se impõem e para os mais do que merecidos cumprimentos, aos militantes da ILC-AO.

Apesar do recente trânsito em julgado, qual réu sem culpa formada nem qualquer acusação, a despeito da incrível denegação de justiça, perpretada pelo chamado “Bloco Central”, a sua miserável traição, os seus cozinhados político-partidários, à revelia de qualquer deliberação legal, sequer, e manifestando total indiferença para com o sentir e os anseios de quem elegeu tais deputados, todos temos — quanto mais não seja pelo triste, inesperado, desfecho canalha da Iniciativa, de reconhecer e saudar a longa luta e, em especial, de endereçar a quem lutou as mais do que merecidas coroas de louro.

Portanto, mesmo com (ou apesar de) a manobra perversa urdida pelos deputados, lacaios dos dois sobas do “centrão”, terá chegado a lamentável, porém merecida, ocasião para endereçar os parabéns pela resistência (que continuará, certamente), pela determinação, pela coragem e, numa palavra, pelo desprendimento na Causa que é — nisto não há pretérito — de todos os portugueses,

Parabéns às dezenas de activistas e militantes que de alguma forma ajudaram a lançar a ILC-AO em 2009.

Parabéns a todos aqueles que, ao longo de mais de uma década, mantiveram viva, activa e actuante esta Causa cívica nacional.

Parabéns às centenas de voluntários que dedicaram longas horas — e muito e muito duro trabalho — às mais diversas tarefas, desde a divulgação da Iniciativa à recolha presencial de assinaturas.

Parabéns a toda essa gente valorosa que, na maior parte dos casos, em completo e honroso anonimato, procedeu por diversos meios à distribuição de propaganda e à difusão — em textos em órgãos de comunicação social, nas chamadas redes sociais, em “blogs”, em eventos públicos ou em simples conversas pessoais — deste movimento único.

Parabéns aos largos milhares de subscritores que, em massa e sem outro interesse que não o da defesa da Língua Portuguesa enquanto património imaterial e histórico, contribuíram de forma simples mas militante para a perenidade intocável, o carácter intangível do Português-padrão, símbolo maior da nossa identidade enquanto Povo.

Parabéns, em suma, a todos os que fizeram o que tinha de ser feito, os que lutaram apesar de tudo, por aquilo que estava, está e continuará a ser a coisa certa.

Foram doze longos anos de uma luta, desigual e já perdida antes de sequer ter começado, o que demonstra bem o próprio conceito de resistência (contra tudo e contra todos ou apesar de ambas as coisas), o que é a epítome de resistência e aquilo em que consiste a exemplar demonstração da coragem que define os portugueses.

Começámos esta luta com determinadas regras e ao abrigo de uma lei determinada. Não sabíamos no início mas sabemos agora que as regras das ILC servem apenas para que o Parlamento as modifique amiúde (por divertimento se não alta recreação, ou pior) e que, saldo final, a própria figura legal, as ILC, em geral, enquanto instrumento de exercício de «democracia directa», está ao serviço dos cidadãos apenas no papel, é um chorrilho de palavreado sem qualquer espécie de aplicação prática. Em suma, nenhum de nós poderia sequer imaginar, nos idos de 2008, que uma ILC vale absolutamente zero, nada, não passa de palavreado oco, é um asqueroso fingimento, letra morta, conversa parlamentar (autocracia super-lotada) para enganar ignorantes. 

Como vimos (de forma espectacular e deprimente) foi exactamente este o resultado da nossa ILC: uma mão-cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Fomos todos enganados desde o início, ao longo de doze anos; vários deputados sabiam perfeitamente que a Iniciativa estava em curso mas a nenhum ocorreu entretanto a menor objecção e mesmo depois de receber todo o processo físico (assinaturas, documentos exigidos) não lembrou a qualquer dos parlamentares que havia aquela objecção (a golpada “constitucional”) que agora inventaram.

Este desfecho da questão, em pleno ano da desgraça de 2020, consistiu basicamente na aplicação do truque habitual entre parlamentares: torcem a questão para que ela encaixe em qualquer buraco da Lei fundamental e criam assim, por via de uma realidade paralela inventada ad-hoc, uma outra “realidade”, uma “realidade” novinha em folha, uma “realidade” alternativa a extinguir assim que esteja debelado o momentâneo embaraço. Isto, este fenómeno, esta curiosa prestidigitação “constitucionalista”, sucede quando o assunto lhes bule com o que de facto os move, quando a coisa arrisca-se a liquidar-lhes mordomias (vulgo, tachos), quando ameaça tornar-se um aborrecido engulho nos negócios (em especial se Estrangeiros), se determinada causa faz de alguma forma perigar estatutos ou quebrar alguma teia de interesses; então, se tal problemazinho acontece, para os tribunos é muito simplezinho: mate-se e esfole-se, pronto, e depois arquive-se. Ou arquive-se primeiro, depois o paleio arranja-se nas calmas.

Com imensos e muito imaginativos tratos de polé, manifestando um supremo desprezo pelos portugueses (uma Causa que os representa, no caso), os directórios partidários de Dupond e Dupont (bastavam os 5 líderes partidários “eleitos”, o que fazem lá 230 figurantes?) rapidamente — sem discussão, sem notícia, sem absolutamente nada ter sequer transpirado para a opinião pública — a “constitucional descoberta” veio, de repente, sub-repticiamente, como uma das cobras aos pés de D. José, emaranhar-se, simbolicamente a contrario mas na mesma sibilante, cuspir o seu veneno ou partir os ossos num breve abraço a este desiderato nacional.

Tudo isto é passado. Para o Futuro, teremos sempre uma frase lapidar cujo autor já não recordo: quem não desiste não perderá nunca uma luta.

Ou, também dessa classe de autores cujo nome foi levado pelo tempo mas não varrido pelo vento, dito de outra forma, «o impossível é só uma palavra».

Era, foi, continua a ser e assim será para sempre. 

Bem, vá, “para sempre” será talvez exagero. Só até à morte.

Imagem de topo copiada de: blog “A Viagem dos Argonautas

“Inculta e Bela”

Inculta e Bela…

Num dos seus últimos exercícios, o Enem nos presenteou com frases do tipo dois neurônios; confira

Num dos seus últimos exercícios (nem se sabe quando será o próximo) o Enem nos presenteou com frases do tipo dois neurônios. E, apesar disso, avaliadas com notas diferentes do zero que bem mereciam. Como as pérolas abaixo:

– “Onde nasce o sol é o nacente, onde desce é o decente”…

E o indecente que escreveu isso ainda passou no exame.

Ou: “Bigamia era uma espécie de carroça usada pelos gladiadores e puxada por dois cavalos”…

Não seria a tal “bigamia” puxada também pelo asno que a definiu?

– “A história se divide em quatro: Antiga, Média, Momentânea e Futura, a mais estudada hoje em dia…”

Por essas e outras anedotas “históricas”, os portugueses ameaçam proclamar a sua independência idiomática, alegando que o português que aqui se gorjeia não tem mais nada a ver com a sintaxe e a semântica do que se fala (e escreve) na matriz.

Nosso português brasileiro anda mesmo um tanto sovado e maltratado pelas novelas, pelas gírias urbanas e pelas cáries de nervo exposto do “internetês” de rede.

O desencontro com o português d’além mar não está apenas na vulgaridade expressa nos “grafitis”, nos barbarismos perpetrados nos muros, nos “cifrados” espalhados pela internet. De Portugal, chega um coral de vozes insatisfeitas com o acordo ortográfico assinado pelos países lusófonos, que suprime acentos diferenciais e de sílaba tônica, admitindo um sem-número de neologismos.

O “Aurélio”, revisto e ampliado, sem a ajuda lusitana, por exemplo, acaba de incorporar palavras novas do “brasileiro corrente”, como: petrolão, panelaço, geladinha, portunhol, porteiro eletrônico, malufar e “dobradinha” – esta última, anteriormente restrita à sua semântica culinária.

Agora, está lá: “Dobradinha: [bras]. Dupla. Chapa eleitoral”. Dupla que na eleição de 2014 foi formada por Dilma e Temer” – hoje encarnando outros papéis, o de inimigos figadais na pele da “simplória impedida” e do “golpista traidor”…

Tantos significados tem a palavra em cada cultura que o melhor mesmo é deixarmos as línguas livres, desamarradas e sem leis forçadas, que pretendam o atrevimento de unificá-las.

No Brasil, fala-se o “brasileiro”. Em Portugal, o “português”. E pronto. Deixemos assim.

***

O português luso pode escrever “al-ca-goidas” para expressar “amendoim”. E sabem como se traduz a nossa “meia”, essa prosaica roupa do pé? Em português d’além-mar, “meia” é “peúgas”…

Se há um oceano Atlântico entre essas duas línguas – que tipo de mar separa ambas as pátrias das redações do Enem?

[Transcrição integral de artigo, da autoria do escritor brasileiro Sérgio da Costa Ramos, publicado no “site” «nd+» em 26.09.20. Destaques e sublinhados meus.]

‘Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: «Meu filho!»
E em que Camões chorou, no exílio amargo
O génio sem ventura e o amor sem brilho!’

Olavo Bilac