Dia: 3 de Fevereiro, 2021

Passar a ferro

«Depois, há para considerar o fator tempo que altera todas as coisas. Assim, não existe razão para que a língua escape a essa lei universal. A língua, igualmente as pessoas, quer palpitar, crescer, tornar-se flexível e colorida, enfim, viver.»

Valha-me Deus. Mas que cretinice.

Bem entendido, já sabemos que o “argumento” da “evolução” — com mais ou com menos ornamentos, como é o caso citado, pejado de palavras sem absolutamente significado algum — é um dos mais martelados pelos acordistas em geral. Usar verbos e adjectivá-los aos pulinhos, com imensa solicitude, numa construção frásica cheia de floreados do piorio, como se a rapariga autora do esgalhanço escrito estivesse a falar de plantinhas, coitadinhas, bem, convenhamos, bálhamedeus, repito, dá vómitos, é um nojo. Mas paradigmático, é claro; qualquer labrego acordista tende sistematicamente para os “simbolismos” pindéricos, a metáforazinha catita, o estilo… hum… estiloso.

A Língua não é exactamente um malmequer ou um girassol, nem na escrita peganhenta do poeta mais foleiro da Via Láctea e arredores. Mas isto ele para os brasileiros, mai-la sua verborreia tipo culto do vácuo, em especial se a coisa mete graveto (pilim, cacau, guito, c’roas), em suma, em cheirando-lhes a dinheiro vai mesmo tudo raso, até a língua deles passa por uma mui elegante (e quiçá periclitante) tulipa verde e amarela.

Note-se que o artigalho não começa por uma pergunta. A ausência do ponto de interrogação no título denuncia de imediato, sendo aquilo a constatação de um facto, o carácter tóxico-propagandístico do textículo (salvo seja) desta Bruna e demais Brunas e Brunos. Esta espécie de elegia histérica cheia de paleio a armar aos cucos (ou às catatuas) merece, portanto, para mais fácil entendimento do fenómeno, ser genericamente designada por brunismo.

A toxicidade da propaganda brunística ressalta imediatamente, “de fato” e gravata, pela “conclusão” implícita no “pensamento” veiculado: por exemplo, americanos, ingleses e canadianos, franceses, argelinos e tunisinos, espanhóis, mexicanos e chilenos, para já não falar em chineses, indianos, russos, japoneses, filipinos e coreanos, etc., essa malta toda, cerca de 99% da população mundial é constituído, segundo o brunismo, por uma cambada de imbecis, burros como cepos:  mantêm inalteradas há séculos as suas línguas nacionais, nativas ou adquiridas, que horror, que “retrógrados”, que “reaccionários” que “velhos do Restelo”. Extremamente espertinhos, por exclusão de partes e por paradoxalmente se entreterem a “mudar a língua brasileira tantas vezes”, são eles, os brasileiros (e os seus “camaradjinha” tugas), porque mudam amiúde a sua caótica escrita. De 20 em 20 ou de 30 em 30 anos lá vem mais «uma repaginada com o passar do tempo», como diz a Bruna. Caramba! Não é um crânio, a Bruna, não é mesmo uma maravilha, o brunismo? Légáu, né? Hem? “Oi”?

Oh, raio de texto, o que me havia de tocar pela proa! Canoijo. Bem perto da genialidade, realmente, e expondo — ainda por cima — sua inatacável premissa com artistices de fazer inveja ao cromo mais pintado. A florzinha pretende «crescer, tornar-se flexível e colorida, enfim, viver», oh, mas que lindo, que bela imagem, é fantástico, um gajo até parece que está vendo o malmequer a crescer, a tulipazinha a tornar-se flexível e colorida, ui, que beleza, enfim, isto não é bem escrever, enfim, «isto é viver».

Enfim, enfim, enfim.

É mais do que evidente o que pretendem impor-nos. Neste texto brunístico, ainda que de cariz comercial — ou por isso mesmo –, não é referido Portugal uma única vez. Claro. A língua brasileira é deles, portanto têm todo o direito a assassiná-la, ui, caríssimos, à vontade, chateiem lá os Tupi, os Guarani e os Zé Carioca, não venham é para cá brunir (passar a ferro, literalmente) a Língua Portuguesa. Nem em Portugal nem em qualquer dos PALOP. Xô.

O nexo de causalidade, reitere-se o que amiúde aqui é dito, aparece agora de novo espectacular e obscenamente nítido: o AO90 teria sido, quando muito, uma tentativa de normalização das várias desortografias fonéticas brasileiras, um acordo entre Estados, sim, mas estabelecido apenas entre os 27 Estados brasileiros, acabou por tornar-se, depois de desenterrado por Cavaco, Lula e Sócrates, numa fantochada inaudita à escala mundial. 

Impor a sete Estados soberanos um “Tratado” para transformar a língua de um oitavo país na “língua nacional” de todos eles (com a subscrição de apenas três), isso, repito, semelhante desconchavo, o “acordo” imposto pelo Brasil e propagado, propagandeado e pago por Portugal, é algo que  jamais ocorreu a qualquer dos “restantes” 191 Estados-membros da ONU.

Esta “ideia”, ó Brunas do universo, é um dos motivos pelos quais a língua brasileira muda tanto na acepção de tantas vezes e porque a sua cacografia varia infindavelmente.

Infelizmente, o brunismo medra. E não há peito ilustre que o mande ao anagrama de medra. 

Vão brunir longe.

Por que a Língua Portuguesa muda tanto

por Bruna Eckel
28 de janeiro de 2021

 

As pessoas se perguntam por que uma língua não permanece estável no curso da vida? Uma língua muda porque é falada segundo os costumes, a cultura, as tradições, modernização tecnológica e o modo de viver da população. Depois, há para considerar o fator tempo que altera todas as coisas. Assim, não existe razão para que a língua escape a essa lei universal. A língua, igualmente as pessoas, quer palpitar, crescer, tornar-se flexível e colorida, enfim, viver.

A mudança que se observa numa dada língua, no decorrer do tempo, tem paralelo na mudança dos conceitos de vida, na mudança das artes, da filosofia, da ciência e até da própria natureza. Essa evolução temporal, mudança diacrônica ou história, é um dos aspectos mais evidentes da variação ou mudança que se processa em toda e qualquer língua. Antigamente, no Brasil, se falava cutex ao invés de esmalte, petisqueira no lugar de armário, penteadeira ao invés de cômoda, ceroula ao invés de cueca. São exemplos que ilustram a mudança diacrônica ou histórica.

Considera-se, também, que a língua varia no espaço, razão porque a língua portuguesa apresenta variedades nacionais e internacionais. É a mesma língua, mas com traços peculiares das regiões, dos países como Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola, Cabo Verde, Timor Leste, Brasil.

A língua é viva

Como sabemos bem, a língua portuguesa foi trazida ao Brasil no século XVI em virtude do Descobrimento. O português era imposto como língua oficial às línguas nativas que havia aqui ou modificava-se dando origem a outros dialetos. Mas houve um longo processo para estabelecer o idioma no território brasileiro. O contato entre os indígenas, os africanos e os vários imigrantes que vieram de algumas regiões da Europa contribuiu para o chamado multilinguismo. Assim, além da fase bilíngue pela qual passou a nossa língua, o multilinguismo contribuiu – e continua contribuindo – para a formação da identidade do português brasileiro.

Assim como os demais idiomas, a nossa língua é viva, ou seja, se transforma e se reinventa com as pessoas ao longo do tempo, expressando uma maneira de organizar o mundo em nomes e estruturas linguísticas. Algumas alterações ocorrem naturalmente; outras são determinadas formalmente, como o Acordo Ortográfico implementado pela CPLP, em 2009, com o objetivo de facilitar o intercâmbio cultural e científico entre os países que têm o português como idioma oficial e ampliar a divulgação do idioma e da literatura em língua portuguesa.

Diferenças e exemplos de variações

As variedades nacionais de um idioma não apresentam uma uniformidade interna, são constituídas por variantes geográficas que os dialetólogos denominam dialetos. Também há as variações decorrentes dos diferentes grupos sociais a que pertencem os falantes, tal como variações de faixa-etária, sociocultural e sócio profissional.

São exemplos de variações por faixa-etária:

Idoso – coroa – velho;

Homem – rapaz – tiozinho;

Baile – festa – balada.

São exemplos de variações socioculturais:

Festa – arrasta-pé ou piseiro;

Briga – confusão – furdunço – baixaria – barraco;

Namorar – ficar;

Moça – mina.
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