Dia: 22 de Fevereiro, 2021

The choldragate

«Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilos, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos de alfândega:e é tudo em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas…»
Eça de Queirós, Os Maias

Para baixar o manual do usuário tem de logar e subir o material viral que depois pode embedar ou deletar se há estoque.

A frase anterior não faz qualquer sentido, evidentemente, mas é uma pequena demonstração de uma das tendências concomitantes da “adoção” do AO90: no Brasil não apenas se utiliza terminologia inglesa (especialmente a técnica) como também, obsessivamente, são literalmente “traduzidos” os termos originais em Inglês (usuário, logar, subir, embedar, deletar, estoque e outras centenas ou milhares de verbos, substantivos, adjectivos e advérbios).

Dado que o “acordo ortográfico” não passa da extinção integral do Português-padrão e sua (selvática) substituição por uma espécie de ortografia fonética brasileira, somos obrigados, ainda por cima, a engolir “efeitos colaterais” em transliteração da cacografia brasileira; este “fenómeno” é especialmente (e asquerosamente) visível na legendagem de filmes ou documentários e também em páginas de Internet ou nos manuais do “usuário” feitos por… portugueses!

Não é exactamente o Inglês — a actual língua-franca, inócua e utilitária –, é o brasileiro imposto pelo AO90 aquilo que está a destruir o Português.

A adopção de termos técnicos em Inglês é comum a todas as Línguas ocidentais (com excepção, talvez, da muito patriótica França) e difunde-se tanto mais quanto a Internet, os “smartphones” e os computadores se democratizam e evoluem. A contaminação da Língua por estrangeirismos em geral e por anglicismos em particular é uma inevitabilidade, tanto quanto a mudança das estações do ano ou o “inescapável” pagamento de impostos. Não é por aí que virá algum mal ao mundo. Exceptuando os sistemas de escrita das Línguas pictográficas ou simbólicas orientais, a estrangeirização (ou barbarização) é um fenómeno comum e universal, com passado, evolução e tradição. Fica absolutamente impossível falar de comida, por exemplo, sem utilizar termos franceses (soufflé, mousse, etc.); ou de tauromaquia sem o Castelhano (chicuelina, capote e outros); e o mesmo já sucedia nos séculos XVIII, XIX e XX com o Inglês (just-in-time, football, lobby, bacon, whisky, spleen e assim por diante).

Nesta ordem de ideias, estabelecendo uma relação de causa e efeito, podemos concluir que o voluntarismo acérrimo dos puristas da Língua — linguisticamente anglófobos ou apenas sem outro entretém — esbarra no mais elementar raciocínio, o qual, funcionando como uma parede contra a qual se estampam consecutiva e repetidamente os ditos puristas, transforma a sua bela teoria num desastre pragmático. Acidentes deste tipo costumam suceder, por exemplo e por maioria de razões, a adeptos fanáticos de um qualquer clube de futebol; ora, maus tratos da bola é cousa tão diversa dos maus tratos na Língua que as pretensões ultra-nacionalistas terminam em puro e simples ridículo.

A arma de destruição linguística em massa é o AO90, epítome da estupidez, não é o estrangeirismo — esse incontornável  mal menor. Este, que é um fenómeno universal, não mata nada —  ao invés da língua brasileira “universáu”, que tudo arrasa e destrói.

Tá ligado, cara? Liga não pro anglicismo. Cê si cuida e si preocupa com aquilo que interessa pra você e pra todo mundo porrtugueiss: the choldragate. That’s the real thing: how did they do it?

Erradicar o Português: ponto de situação

Alexandre Borges

“Observador”, 20 Fev 2021

Tenho a certeza de que sabe que estamos praticamente a caminhar sobre um cadáver. Que nos sirvamos do Português roça a profanação de sepultura – deveria dizer: a necrofilia? A língua portuguesa caminha para a extinção mais depressa do que o rinoceronte e, no fim, embora possamos sempre resguardar em cativeiro porventura um bibliotecário macho e uma linguista fêmea, ou vice-versa, com vista à continuação da espécie, eu não depositaria demasiada fé na operação. Sabe-se lá que língua falarão então. E que líbido lhes restará.

Não culparei o infame acordo ortográfico, nem o Instituto Camões, nem as telenovelas, nem os sucessivos governos, nem as pessoas com necessidades especiais que a televisão filantropicamente emprega na inserção de caracteres com vista à criação no indivíduo de um sentimento de dignidade e amor-próprio. Não culparei os professores, nem os alunos, nem os Brasileiros, nem os Portugueses, nem o fado, nem o kuduro, nem ao menos a quizomba, nem necessariamente a televisão, que é capaz de ainda morrer primeiro. O português está prestes a bater a bota pela mesma razão que todas as outras línguas que não o inglês estão prestes a bater a bota: a monocultura do sucesso.

O que é a monocultura do sucesso? A forma mais curta que o presente autor encontrou de descrever a convicção generalizada de que: a) a felicidade individual é não só possível como o objectivo último da vida; b) a felicidade reside no sucesso; e c) há uma e uma só forma de lá chegar. E essa forma implica teses estruturantes como o trabalho estar acima de tudo e o crescimento ser um fim em si mesmo, e outras aparentemente acidentais, mas de que ninguém abdica, materializadas num comportamento de rebanho ou manada, e que significam, mormente: comermos todos a mesma coisa, fazermos todos o mesmo tipo de exercício, consumirmos todos o mesmo entretenimento, visitarmos todos os mesmos lugares, falarmos todos a mesma língua, através até das mesmas expressões.

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