Dia: 24 de Fevereiro, 2021

Alves dos Reis

O ex-Reitor da Universidade Aberta diz nesta entrevista, por entre muitas outras imaginativas mentiras, que “foi insultado” por gente decente mas que ele “nunca insultou ninguém”. Uma verdadeira avis rara, este ex-Magnífico, capaz de afirmar uma coisa com denodo e empenho e logo a seguir jurar o contrário, o exacto oposto da tese inicial, proferindo ambas, a tese e o seu contrário, com a mesmíssima cara-de-pau. Mesmo a pedi-las, portanto, este outro Alves dos Reis.

Evidentemente, será mera coincidência que ambos os “amigos do alheio”, ora mencionados pela comum esperteza saloia, batam na aldraba os mesmos apelidos; porém, caso para tal sejamos servidos dos favores de Themis (ou Justitia, para os romanos e os amigos), há-de ser algo interessante interpretar certos sinais comuns, por assim dizer. De resto, se nos restringirmos ao essencial, podemos estabelecer um paralelo entre um roubo do século (XX) e outro roubo do século (XXI).

Alves dos Reis emitiu em nome do Banco de Portugal um camião cheio de notas de 500 escudos com a efígie de Vasco da Gama. Este outro Alves dos Reis, o ora entrevistado, participou activa e selvaticamente na eliminação administrativa do Português-padrão e sua substituição por uma espécie de cacografia fonética, a da língua brasileira.

Não resulta claro a qual dos dois será mais justo atribuir o “troféu” de Maior Roubo de Sempre, mas estou em crer que o assalto à Ortografia portuguesa tem uma preponderância que nem carece de comparação com a performance do outro vigarista profissional, o que forjou para si mesmo um diploma de “engenheiro” e que deixou para a História o inegável legado de ter lesado o próprio Banco de Portugal, num quantitativo obsceno representado por notas mais falsas do que o “leão” de Rio Maior ou as camisolas Lacoste das feiras.

Liquidar a Língua Portuguesa a golpes de garganta e com requintes de malvadez é, de facto, uma coisa para constar dos anais (salvo seja) que ameaça transformar-se na mais miserável traição à pátria de todos os tempos, na mais malévola manobra de demolição do património identitário nacional, na perversão radical do próprio conceito de Cultura e da consciência daquilo que o saber envolve.

Ou seja, porque o AO90 contende com tudo e é parte integrante da nossa memória colectiva, isto é, da nossa própria identidade enquanto povo, com uma História a preservar e verdadeiros tesouros ancestrais a defender, quem participou nas secretas negociatas do “acordo” deveria ao menos — caso tivesse um pingo de honestidade intelectual e mais do que dois neurónios — cobrir-se de vergonha.

Nesta matéria, nem a pusilanimidade característica dos auto-intitulados “anti-acordistas” explica tudo. Aliás, essa tibieza ilustrada não explica absolutamente nada mas a verdade é que toda a gente baixa as orelhinhas e segue cantando e rindo, lambuzando-se de vez em quando com uma ou outra pilhéria sobre o gang de meliantes que pretende acabar com o Português e “adotar” os sinais gráficos do falar brasileiro. Nem uma só palavra agora, ou as que há são escassas e tipicamente fraquinhas, nem mesmo um simples soerguer de sobrancelha quando, como sucede nesta entrevista, um dos patronos do AO90 mente com imensa lata e não menor cagança.

Mente quando diz que nunca insultou fosse quem fosse, à boleia do AO90, mas acusa todos os anti-acordistas de serem “autistas”.

Mente quando usa a cartilha da propaganda oficial, esse rol de pseudo-argumentos, todos eles inventados e todos eles ridículos por igual.

Mente quando garante ser um purista da língua, um “conservador” empedernido das enciclopédias “puras”, sempre equipado com uma faca nos dentes para estripar anglófonos, estrangeiristas e bárbaros, quando afinal pára em todos os sinais de “STOP” e se calhar tem já em casa um nada desprezível STOCK de livros em puro brasileiro.

Mente quando estabelece um paralelo, como se houvesse nisso algum nexo causal, entre um simples erro — uma das inúmeras bacoradas com que nos presenteiam intelectuais da corda e até ministros sem pasta nem tino — com a abominável caterva de aleijões sortidos que inventaram os malacas e os Reis deste vale de lágrimas.

Mente ao garantir que o “acordo” é um facto consumado, qual maldição divina, qual “decisão irrevogável” do Mafarrico, como se o embuste colossal  fosse um simples bilhete caducado, uma franquia carimbada, um pacote de bolachas já bolorentas.

Mente quando fala em “reajustar” o que sabe perfeitamente ser imutável, segundo os ditames dos brasileiros. O AO90 é uma golpada estritamente política, sem ponta de ortografia por onde se lhe pegue, portanto não é “reajustável” — é somente rasgável.

Enfim. Basta! Até espiolhar patranhas na cabecinha do ilustre cromo, como quem cata piolhos, acaba por transformar-se num exercício danado, cruel, excruciante, porque de facto na referida cabecinha vai um festival de piolheira, mentiras a rodos, aquilo morde, aquilo dá uma coceira danada, aquilo é às centenas de bichinhos. O homem é o cúmulo da bajulação ao “país-continente” e ao patronato das famílias paulistas e cariocas.

Que fique a penosa leitura da longuíssima (e chatérrima) entrevista — ou então só do pequeníssimo excerto aqui citado —  pelas alminhas de quem teve a sorte de ir arejar para mais razoáveis paragens, ou que por simples curiosidade antropológica, exercício de subtil masoquismo, caso a alguém porventura apeteça conferir as tangas deste Alves “dos” Reis que, ao invés do outro, não tem nada que saber, é só ler e constatar o óbvio: mas que aldrabão, Deus me perdoe.

Ou Belzebu, que bem mais é entendido na matéria, nos nada misteriosos descaminhos das palavras.

[…]

sA — Como é que a literatura, que é essa arte da paciência, vai resistir às sociedades impacientes, apressadas, fragmentadas que já substituem as palavras por abreviaturas?

CRHá indicadores que nos dizem que continuam a publicar-se muitos livros. O caso Harry Potter é um fenómeno interessante. Milhões de livros vendidos e fanaticamente lidos por jovens fazem-nos pensar em duas coisas: uma é que há esperança, afinal não há falta de leitores; a outra é que a leitura não será para toda a gente. E temos de saber viver com isso.

sA — E o que pensa dessas hipóteses que coloca?

CR — Quando digo que o acto de ler não será para toda a gente, faço a afirmação não no sentido elitista, mas na perspectiva da predisposição cognitiva individual. Encaro isso do ponto de vista técnico, não sócio-económico. Haverá pessoas com predisposição para os vídeos jogos, por exemplo, outras para outro tipo de interesses. É nesse sentido.

sA — Referia-me também ao uso crescente de abreviaturas, à perda de hábito da escrita completa. Considera que esta tendência conduz a um empobrecimento da linguagem e, com ela, do próprio pensamento?

CR — Existe, claro, esse risco. Devo dizer que eu não sou capaz, escrevo tudo direitinho, as palavras todas e completas, com pontuação, etc. Agora, o que é preciso é dizer às pessoas que há contextos em que essa forma mais simples de escrita não é correcta. Porque o que a linguagem tem, ao mesmo tempo, de complexo e de muito rico é a sua maleabilidade para se adaptar a diferentes contextos de comunicação.
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