Mês: Março 2021

Uma questão de milhões

O que dizer sobre isto? Por vezes não é nada fácil conseguir, mesmo retendo com tremendo esforço os palavrões, apresentar ou sequer comentar aqui um artigo; bem sei que a principal “missão” deste modesto blog é constituir acervo sobre o AO90 (e outros detritos), e que, portanto, tenho mesmo de me aguentar à bronca, mas, porém, contudo, no entanto, bálhamedeus, já são demasiadas as ocasiões em que este masoquista exercício torna-se  absolutamente insuportável. Estes acordistas (e também os assimilados, ou seja, os que fingem ser contra) são, de facto, uns aldrabões do piorio; por regra, como agora de novo é o caso, mentem com quantos dentes têm na boca e apenas são capazes de debitar as tretas do costume.

Nem de propósito, como espectacular demonstração de tão inamovível quanto arrepiante premissa, eis aqui uma (inacreditável) entrevista de certa ex-governante, calculo, ex-Directora-Geral de Nãoseiquê, presumo, e ex-pessoa decente, imagino. Escusado será dizer, até porque isso é um vício comum entre os políticos em geral e os acordistas em particular, que mente por método e sistema, de cabo a rabo, sem ponta por onde se lhe pegue no paleio de chacha: um chorrilho, uma torrente, um tsunami de galgas.

Claro que o objectivo é promover os interesses geo-estratégicos do Brasil, aproveitando as raspas dos negócios (estrangeiros), se possível, isto é, correndo atrás das migalhas que porventura possam sobejar dos milhões traficados entre o “país-continente” e, por exemplo, o petróleo venezuelano, a carne argentina, as minas chilenas e até, se calhar, nunca se sabe do que são capazes os meliantes da “língua universáu”, produtos da Colômbia. Uma versão revista e aumentada da CPLP, por conseguinte, sustentadas ambas as teatralizações pela patranha fundamental, aquilo a que chamam “difusão da língua“; da língua brasileira, bem entendido, porque, dizem os mesmos, “eles são 220 milhões e nós somos só 10 milhões“. O Estado português, que paga a CPLP e as demais despesas das negociatas, incluindo os “pacotes” de “turismo linguístico” (ahahahah, boa malha, têm imensa piada com as desculpas para as roubalheiras, são uns pândegos), cala-se muito caladinho ou, mil vezes pior, alinha no caldinho.

Na promoção de eventos propagandísticos, sessões de esclarecimento de mentiras delirantes, igualmente escabrosas mas também hilariantes, o Estado português faz a todos nós, em nome da “expansão da língua” brasileira no mundo, o favor de torrar milhões sonegados aos nossos impostos.

Fica assim explicado, com todos os éfes e érres, esplendorosa e escarrapachadamente, o significado da expressão “valor económico da língua“, essa fulcral aldrabice que tanto os fascina e de que tanto se esticam nas suas ridículas prelecções.

Agora era capaz de citar o “jingle” do Euromilhões mas não queremos abusar, enfim, por algum motivo isto dos milhões (de dólares, por hipótese) provoca uns reflexos condicionados aborrecidos, é fácil, é barato e rima com aldrabões.

Já quanto a outro tipo de milhões, por assim dizer, ao que parece os 280 da CPLB (Comunidade dos Países de Língua Brasileira) afinal não chegam, agora o alvo da “difusão” é constituído por 800 milhões de alminhas, nada menos, soma aos tais 280 do Brasil e anexos (incluindo Portugal) os 50 de Espanha e os sobrantes 470 milhões acumulados no Uruguai, no Peru, na Argentina, na Colômbia, no Chile e nos restantes países da América do Sul e arredores.

Bem, convenhamos, de facto é um magote de respeito. E devem estar  todas elas, as referidas alminhas, da cordilheira dos Andes às Pampas, até aposto, lá estarão todos contentes, felizes da vida com esta coisa da OEI que uns señores simpáticos pariram, oh, extraordinário milagre, isto ele nem na América.

São tão altos dignitários — e destes, em especial, os que têm dedo para o negócio — realmente uns cómicos, por conseguinte (se bem que não tenham gracinha nenhuma) e, como se vê, essa chusma de maduros (salvo seja) apenas pretendem, segundo protestam — além da “difusão”, ou lá o que é –, o melhor para apascentar os povos: e estes outros, perdidos no meio de 800 milhões, agora também alardeiam com imenso salero e não menor precisão a vinda de tão fantásticos salvadores linguísticos da Pátria, oops, melhor dizendo, das pátrias.

Bem, longa história, abreviemos. A ver se a Espanha cai desse cavalo abaixo. Palpita-me que não.

Y olé, olé, ¡arriba, arriba! ¡Ándale, ándale!

 

A Estratégia da OEI para a língua Portuguesa

raiadiplomatica.info, 05.03.21

 

Em 2017 foi inaugurada a delegação em Portugal da Organização dos Estados Ibero-americanos para a Ciência, Educação e Cultura (OEI). Em entrevista à Raia Diplomática, Ana Paula Laborinho, directora da OEI em Portugal, contou-nos a estratégia desta organização internacional para a difusão da língua portuguesa no espaço ibero-americano. Para além disso, ainda houve tempo para falar da dimensão científica, cultural…e da cidadania ibero-americana.

Quais foram as razões para a abertura de uma delegação em Portugal da Organização de Estados Ibero-americanos para a Ciência, Educação e Cultura (OEI)?

Portugal é Estado membro da OEI desde 2002 e, nesse sentido, desde essa data se perspectivava a abertura de uma representação nacional. Portugal tem participado desde [o] princípio nas Cimeiras Ibero-americanas e tem reforçado o seu interesse pelo espaço ibero-americano onde tem dois parceiros relevantes – Brasil e Espanha – mas também tem havido um aumento das relações com outros países da região, seja económica, seja cultural como foram os casos das Feiras do Livro de Bogotá (2013) e de Gu[a]dalajara (2018) em que Portugal foi o país convidado.

Durante vários anos foi a Directora do Instituto Camões. Quais são as diferenças nas suas competências na promoção da Língua Portuguesa como directora em Portugal da OEI com as anteriores funções de Directora do Instituto Camões?

As minhas actuais funções têm um âmbito centrado na região ibero-americana, o que desde logo se distingue das anteriores funções. Também se concentram nas áreas de actuação da organização – educação, ciência e cultura – enquanto as responsabilidades na área da cooperação da instituição que dirigi são muito mais alargadas. Fui recentemente nomeada Directora-Geral de Bilinguismo e Difusão da Língua Portuguesa da OEI, sendo a minha primeira acção melhorar a cooperação entre línguas em áreas em que a sua relevância é grande, desde logo a educação, incluindo o ensino superior, mas também ao nível da produção científica aberta e plurilingue, área fundamental para o reconhecimento internacional das duas línguas. Estamos também a desenvolver um grande esforço para tornar a OEI verdadeiramente bilingue, desde logo produzindo toda a sua documentação nas duas línguas, incluindo relatórios técnicos, mas também conferências, reuniões técnicas, o que tem possibilitado o envolvimento da CPLP, de que somos Observadores Associados e que também é Observador Associado da OEI.
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Os encantos da corrupção

«Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como n’um resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu paiz nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma idéa. Pacheco era entre nós superior e illustre unicamente porque tinha um immenso talento. Todavia, meu caro snr. Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente acclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa, visivel! O talento immenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco!»
[Eça de Queirós, “A Correspondência de Fradique Mendes”]

 

Chame-se-lhe nepotismo, amiguismo, compadrio ou qualquer outra ternurenta designação do género, a verdade é que nessa alegre actividade, para variar e por excepção, Portugal e Brasil são de facto “países irmãos”; oh, sim, sim, sem dúvida, no que toca a usurpar cargos à conta de “cunhas” ou arrumar tachos consoante a seita, ah, caramba, em tal mister tanto os tugas  como os zucas são verdadeiros especialistas; e se alguém disser que na Itália ainda é pior, isso só pode ser por uma lamentável (e imbecil) carga de ingenuidade: os meliantes que integram organizações de crime organizado como a Mafia (ou a Camorra ou a Ndrangheta) são verdadeiros meninos de coro quando comparados com o crime desorganizado em Portugal e no Brasil.

Vem este intróito a propósito da geral orgia tachista que deu origem ao “acordo ortográfico”, abreviando uma longa história, inventado por agremiações informais de ladrões — de ambos os lados do Atlântico — mas suportado, incentivado e promovido por instituições formais, esses ninhos de compadres, correlegionários, compinchas, tachistas a granel.

A ABL, de que fala um brasileiro no artigo agora reproduzido, o qual, aliás, versa exclusivamente sobre o nepotismo ali vigente, tem o seu lamentável paralelo em membros da tuga ACL; não oficialmente na instituição, propriamente dita, cujo presidente pretende “despiorar” o AO90, mas em alguns bacanos que alegre e ociosamente envergam o traje cerimonial da lisboeta agremiação.

De certa forma, a colaboração — seja ela activa ou passiva — desses académicos na “adoção” em Portugal da cacografia brasileira torna-se compreensível: o papel de tais gerontes brasileiros e portugueses, tradicional e sumamente desocupados, isto é, sem nada que fazer, resume-se a produzir de vez em quando umas papeladas sobre o “acordo” e a mandar umas bocas pseudo-científicas para tentar justificar o AO90. Exercício fútil (e cretino), é claro, dada a impossibilidade técnica (e pragmática) de justificar o injustificável.

Sucede que o AO90, como bem sabemos, não contou na sua atrapalhada feitura com qualquer das duas Academias; quando muito, alguns dos “notáveis” de ambos os tugúrios (como Bechara, por exemplo e desgraça) juntaram umas papeladas à letrada aberração, a ver se porventura conseguiriam aldrabar algum patego ou catolizar um ou outro retardado.

Como sabemos também, ou ainda melhor, o AO90 foi exclusivamente cozinhado entre políticos indiferenciados, governantes (Cavaco, Lula da Silva, José Sócrates) e deputados do PS e do PSD.

Suas académicas sumidades não se meteram na marosca, pelo menos não de forma a comprometer-se em semelhante alhada, guardando assim nas profundidades de si mesmos, gravemente, prudentemente, o que talvez fosse da sua competência mas que o seu imenso talento emudeceu então e agora cala.

Os encantos da Academia Brasileira

jornaldiabo.com

O século XXI marca o fim de uma instituição que passou mais de cem anos no melhor do imaginário popular e das aspirações dos homens ligados de alguma forma à cultura. Trata-se da Academia Brasileira de Letras (ABL), criação de um grupo efetivamente de grandes valores intelectuais, liderados por Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Graça Aranha e outras referências da cultura em sua época.

Tendo a Academia Francesa como modelo, a ABL procurou sempre reunir aqueles que se destacavam, especialmente na criação literária. Mas sempre teve espaço para notáveis, como o caso dos presidentes da República, desde Getulio Vargas, eleito por aclamação em pleno Estado Novo, a José Sarney, com obra compatível, e Fernando Henrique Cardoso, sociólogo de esquerda, cuja contribuição à cultura foi ter tido nos seus dois mandatos um ministro da Cultura eficiente, Francisco Weffort, que, curiosamente, a Academia não elegeu. Mas, em troca de favores para a formação de seu património, hoje robusto, derrotou Juscelino Kubitscheck, campeão da pura democracia no Brasil. Não foi de direita nem de esquerda. A Academia sempre foi sensível a abrigar os donos de ‘Media’, como foram os casos de Assis Chateaubriand e Roberto Marinho.
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Malhas que o II Império não tece

Este artigo de “The Language Nerds” não é de simples opinião, não contém qualquer palpite e não é — evidentemente — propagandístico. Isto é pura constação de factos — consensuais entre todos os linguistas ou seja quem for que de alguma forma se interesse pelo assunto — e consiste no alinhamento lógico dos elementos exactos que suportam, documentam e explicam o título; título esse que, por mera técnica de escrita para captar a atenção dos potenciais leitores, está em forma de pergunta mas que afinal, pois claro, é uma afirmação: sim, toda a gente no mundo há-de acabar por falar Inglês.

Todo este conteúdo, portanto, é o oposto diametral do discurso anárquico (e sumamente enganador) dos acordistas brasileiros e dos seus obedientes lacaios portugueses. De resto, para uns e para outros a “cassette” é de todo indiferente; para essa espécie de vigaristas profissionais, mentirosos patológicos, basta dizer qualquer coisa, seja o que for, pela simples razão de que adoram ouvir-se a si mesmos e deliram com as bojardas que escrevem. Não é de todo necessário dizer alguma coisa de jeito ou que faça o mínimo sentido, basta babujar as tangas do costume sobre a sua querida cacografia “universáu”.

Não aceitam factos ou dados ou evidências, como sabemos, e por conseguinte odeiam que a realidade, essa abominável chatice, lhes estrague a bela teoriazinha, a “língua universal” brasileira, o “valor económico da língua” brasileira”, o II Império brasileiro, enfim, todas as “políticas oficiais” da treta que os tipos propagandeiam geralmente sem se rir.

Ora, em especial para os imensamente letrados brasileiros que esgalharam ou apoiam o AO90, coisa de 0,000001% em 200 milhões, o anti-inglesismo é um pouco estranho, visto que eles usam substantivos, verbos, adjectivos em Inglês (americano) usando uma “ténica” bizarra: adaptam à matroca (e a martelo) os termos americanos originais ou traduzem-nos literalmente para brasileiro. Daí as sua pérolas de “coltura” como deletar, usuário, subir (upload), baixar (download), etc.

Gostariam imenso de trepar num qualquer “ranking” das línguas mais faladas, ou coisa que o valha, mas não têm sorte nenhuma: a língua brasileira jamais terá a menor hipótese, nunca passará das suas próprias fronteiras; invadiu Portugal, pretende extinguir a nossa Língua, começa já a contaminar as ex-colónias portuguesas, mas nem assim o seu neo-imperialismo linguístico passará de um ridículo, inconsequente e irrelevante linguajar.

Pretendem empurrar o Português para fora da História, para o precipício do esquecimento. A “revisão” do AO90, implícita no próprio texto do “Tratado” desde a primeira versão (de 1986), conduzirá ao mais do que evidente objectivo final (Endlösung) que meia-dúzia de brasileiros e uma mão-cheia de vendidos portugueses desejam com ganância: incluir o Português-padrão no clube das línguas mortas, enterrá-lo na honrosa companhia dos honoráveis cadáveres dos idiomas minoritários extintos.

Will Everyone In The World Eventually Speak English?

thelanguagenerds.com

We can’t predict the future, but we can certainly learn from the past. And the answer to the above question is a resounding NO. Of course, you may have a difference of opinion, but consider the line of reasoning first. While it is true that more than 50% of the 6000-7000 languages in the world are endangered and will be dead in a matter of a century, that still leaves billions of people speaking the rest of the remaining languages, which can be numbered between 600-700. Compared to one, this is a huge number.

Not only that. The concern that is spreading now with the popularity of English and that it could replace other languages is not a new thing. In fact, people throughout history thought the same could happen with other languages. Let’s see some of them below.

1. Greek:

We all know the flourish that Greek enjoyed in the last three centuries BC. Its prestige and practical value, especially to the peoples in the Mediterranean basin, were immense. It was the primary language in which science, commerce, and art were carried out. Important matters such as trade and politics were discussed overwhelmingly in Greek, similar to English today, and with few real competitors than English has. Then rose Rome, and the political situation eventually changed. The popularity of Greek started to shrink. It gradually decreased and now used only in the eastern Mediterranean. Then, after the Muslim conquests, it shrank even more, as it was spoken only in Anatolia and Greece. Then, it shrank even further after the Ottoman conquests. Then, after the population exchanges in the 1920s, Greek met its ultimate semi-demise and was confined to Greece only. Although Greek didn’t completely die out, it didn’t replace other languages and was not even close. It didn’t replace even the languages in the area in which it had been spoken for three millennia.


2. Latin:

The spread of Latin was enormously accelerated with the rise of the Roman empire, which disseminated Latin across a wide area including western Europe, North Africa, and parts of the Balkans. But again, the equation of power changed. The Arabs took over North Africa, the Slavs took over the Balkans, the Germanic tribes took over England, Rhineland, Austria, and Switzerland. This resulted in the total displacement of Latin from these areas, and ultimately the colloquial verities that remained disintegrated into unintelligible varieties that we know today as Spanish, French, Italian, etc, with Classical Latin a completely dead language. (Read about how Latin is not dead and still spoken today [here]).

The distribution of Latin

3. Arabic

Arabic had gained a tremendous status and prestige in the 7th century not just in the Arabian Peninsula, but throughout the whole of the Middle East and far out into North Africa. Muslim conquests played a major role in spreading Arabic in these areas, exploiting the unprecedented weakness of Byzantium and Persian empires. It replaced Greek in the major cities and many Afro-Asiatic languages like Aramaic and Coptic in the countrysides. Briefly after two or three centuries, however, the Muslim Caliphate collapsed, and with it collapsed the status and prestige of Arabic. Now Arabic shrank into a language mostly used for religious purposes.

The distribution of Arabic. From Wikipedia

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