Os Bragança às turras

D. Pedro IV (1798-1834)

«Rei de Portugal entre 1826 e 1834, D. Pedro IV, O Libertador, foi o primeiro imperador do Brasil. Viajou para o Brasil com a restante família real em 1807, logo após a primeira invasão francesa. Na sequência da Revolução de 1820, em Portugal, as Cortes determinam o seu regresso à metrópole, mas D. Pedro recusa-se a embarcar para a Europa. Foi então que, como líder do movimento independentista daquela colónia, decide proclamar junto às margens do rio Ipiranga a independência do Brasil (1822). Logo depois é proclamado imperador do Brasil.»
«Após a morte de seu pai D. João VI, em 1826, D. Pedro é designado rei de Portugal pela regente D. Isabel Maria e outorga aos portugueses a Carta Constitucional de 1826. Quis abdicar em favor de sua filha, D. Maria da Glória (futura rainha D. Maria II), mas a guerra civil travada entre liberais, liderados por D. Pedro, e absolutistas, liderados por seu irmão D. Miguel, que também pretendia o trono, adiou a coroação de D. Maria até 1834.» [Parlamento (português)]

Bandeira do Império do Brasil Reino Unido de Portugal e Brasil Família Imperial do Brasil

Tomou D. Pedro I o titulo de Imperador do Brasil porque, azar, o de Rei já estava ocupado e, ainda por cima, o titular do dito era o seu próprio pai. Ora, com a família não se brinca, por um lado, e por outro seria aborrecido, digamos, liderar um golpe de Estado para depor o patriarca D. João, o VI do nome: os regimes monárquicos também têm suas regras, por vezes ainda mais confusas do que as republicanas, e uma delas é que não pode haver simultaneamente dois reis em linha sucessória directa. O jovem Pedro I do Brasil, como sucede por regra na juventude, seria talvez um bocadinho hiperactivo, não estava para esperar que seu papá batesse a real bota, de maneira que intitulou-se a si mesmo “imperador” para não abusar do título paterno e para evitar, em suma, meter-se em assados.

Enfim, para pouco interessarão estas histórias da História, apenas vêm a talhe-de-foice, salvo seja, visto que há novidades entre primos e primas, tios e tias, patriarcas já vagamente gagás e fedelhos de chupeta altamente candidatos a moderníssimos testes de ADN, que isto ele com sangue real há que, desde os primórdios, nunca fiar. Já houvesse nos tempos de Cleópatra, por exemplo, para não ir ainda mais longe, modernices tão maçadoras como os testes de paternidade e então bem poderíamos rasgar todos os velhos livros de História, aprendê-la novamente de fio a pavio, todos os calhamaços novinhos em folha, tudo outra vez desde o incipit. Muito provavelmente, dispersada bíblica mas não convenientemente a sementinha, as famílias reais (e, por maioria de razões, as imperiais) seriam hoje descendentes ou de outras, igualmente distintas e graves, ou de outros, isto é, pastores, moços de estrebaria, mordomos (ou aias, é consoante), guardiões pessoais de Suas Altezas, até bobos da Corte, cozinheiros, copeiros ou modestos artífices terão gerado alta descendência de altíssima estirpe, quem sabe se um Rei ou outro, um Imperador aqui, outro ali, dinastias inteiras cairiam na desgraça porque valores mais altos se levantaram, longe vá o agoiro.  

Ao que parece, agora a pretexto de um casinhoto com seu quê de fictício, diversos ramos dos Bragança, tanto de cá como de lá, patrícios e estrangeirados, todos enfileirados no tronco familiar comum, andam de novo às turras por causa daquilo que neste vale de lágrimas em exclusivo move montanhas: o dinheiro.

Longe vão os tempos de pretensa convulsão política, rapidamente apaziguada quando uns quantos tios e tias (de Cascais não, que ainda não estava na moda) assinaram um Tratado no Rio de Janeiro (1825), sendo agora — como desde então — as convulsões bragantinas mais ou exclusivamente de ordem económica; confesso que não sei ao certo dizer “cacau” em brasileiro (pilim?, massa?, ferros?) mas o facto é que este artigo tresanda não apenas a cacau, pilim, massa, ferros, mas também a guita, pasta e, principalmente, carcanhol.

O Museu da Língua Brasileira, pretexto central desta recente “polémica” entre os Bragança, reflecte o fulcro da questão – a terraplanagem do Português-padrão e sua substituição pela escrita pseudo-fonética brasileira — e demonstra que são imensas e das mais diversas formas as movimentações acordistas para a transformação de Portugal em simples anexo (e “porta dos fundos” europeia) do “gigante brasileiro”: além da Igreja Católica (e, em especial de algumas Ordens, como a Opus Dei, com a mais do que evidente militância de algumas “lojas” maçónicas, temos também que contar com o velho sonho e a horrorosa assombração neo-imperialista.

Infiltrados nos meios empresariais e políticos, governamentais, parlamentares e diplomáticos, elementos provenientes das diversas estirpes, seitas, grupos e famílias, todos eles traidores e vendidos, manobram — na sombra socorrendo-se de todos os meios, mesmo os mais inconfessáveis — para esmagar qualquer veleidade, toda a oposição ou simplesmente seja quem for que ousar enfrentar o II Império brasileiro.

Os vendidos financiam o que for preciso.

Braganças brasileiros desunidos

Aristóteles Drummond

Jornal O DIABO, 15.04.21 – jornaldiabo.com

O Museu Nacional, palácio que serviu de residência a D. João VI e depois aos imperadores do Brasil, quase destruído por um incêndio em 2018, reunia acervo arqueológico e zoológico colectado desde o Império. Inclui uma das mais completas bibliotecas de ciências naturais do mundo, com cerca de meio milhão de volumes, muitos raros. Algo de significativo foi salvo. E ali, sob a responsabilidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro, são ministrados cursos de pós-graduação e realizados estudos de qualidade. O sector já possui outra instalação próxima ao Rio.

Ocorre que esse conjunto pode ser reunido em qualquer outro imóvel, inclusive no “campus” universitário a poucos quilómetros, na Ilha do Fundão, próximo ao Aeroporto Internacional do Rio.

Assim, surgiu a ideia de um grupo de monárquicos, apoiados pelo deputado Príncipe D. Felipe de Orleans e Bragança, de o tornar num museu dedicado à Família Bragança, incluindo, no caso, os príncipes Saxe-Coburgo, descendentes da princesa Leopoldina de Bragança e do Príncipe Augusto Saxe-Coburgo-Gota, muitos vivendo no Brasil.

A ideia encontra resistência no meio académico, que é naturalmente hostil à monarquia, pela forte influência marxista. E, para surpresa geral, encontrou eco no Príncipe D. João, o fotógrafo, conhecido por D. Joãozinho, filho do Príncipe D. João, já falecido, que foi oficial da Força Aérea na última grande guerra, e da Princesa egípcia D. Fátima Tousson. D. João é o nobre com melhor cobertura nos “media”, sempre com posições progressistas, como agora que afirma que a família sempre serviu o Brasil e que seus antepassados ficariam felizes de verem o palácio servir a cultura e a ciência. Contudo, D. João, defensor da monarquia, não participa nos movimentos monárquicos, quase todos de orientação conservadora. O movimento de criar o museu dedicado à Família Bragança sofreu uma perda com a saída do executivo de Ernesto Araújo, diplomata de simpatias monárquicas, que apoia o projecto.

Os monárquicos já estão em campanha para que o governo altere o destino do Palácio-Museu, tendo em vista os festejos dos 200 anos da separação do Brasil de Portugal, em 2022, quando as obras de restauro devem ficar prontas. Afinal, a independência deve-se a D. Pedro I – IV de Portugal –, que ali morou e onde criou os filhos. E D. Pedro II reinou durante meio século.

O Palácio-Museu ocupa um belo terreno, conhecido como Quinta da Boavista, vizinho ao Jardim Zoológico do Rio, e conta com um restaurante luso-brasileiro referenciado nos guias gastronómicos. Fica também próximo ao estádio Mário Filho, conhecido como Maracanã.

Outro museu com presença da Casa de Bragança situa-se em São Paulo, o Museu do Ipiranga, no local em que o então Príncipe Regente rompeu com as Cortes portuguesas.

Deve-se observar o grande interesse popular que o assunto vem merecendo, uma vez que o Museu Imperial, em Petrópolis, nas imediações do Rio, na região serrana, é, desde sempre, o mais visitado do Brasil.

Mas o fenómeno das esquerdas internacionalistas de quererem ignorar e negar o passado é hoje, em todo mundo, a palavra de ordem. Cabe resistir! ■

Aristóteles Drummond

[Transcrição parcial do artigo, da autoria de Aristóteles Drummond, publicado no Jornal “O DIABO” de 15.04.21. Destaques, sublinhados e “links” meus. Bandeira do Império do Brasil: Tonyjeff, based on work of Jean-Baptiste Debret., Public domain, via Wikimedia Commons. Escudo de Armas Reino Unido Portugal, Brasil e Algarves  via Wikimedia Commons. Brasão da Família Imperial do Brasil: Tonyjeff, based on work of Jean-Baptiste Debret., Public domain, via Wikimedia Commons.]

https://inforex.com.br/editorias/industria/museu-da-lingua-portuguesa-tem-sistema-de-combate-a-incendio-reforcado/

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