Ensaio sobre a Pepineira

«Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.» [Fernando Pessoa, “Livro do Desassossego” de Bernardo Soares]

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«Decorre daqui uma outra questão, bem mais controversa e potenciadora de conflitualidade: a que consiste em postular a existência de um idioma brasileiro, também ele autonomizado em relação à matriz linguística que é o português, enquanto língua de difusão e implantação colonial.»
«Não posso aqui entrar na problematização desta tese. O que digo é que esta é uma questão com gente implicada, a gente que vive a língua como eixo de afirmação identitária, às vezes com forte orientação nacionalista. Nos últimos tempos – e curiosamente sobretudo do lado de cá do Atlântico – acentuaram-se as manifestações desta deriva que traz consigo uma perturbadora controvérsia. O Acordo Ortográfico é o cavalo de Troia[sic] que no seu bojo transporta tão melindrosa confrontação, mal disfarçada nos debates inflamados que ele[sic] tem suscitado. Porque é disso mesmo que se trata, de uma confrontação intercultural que, com base num bem conhecido texto que adiante reencontraremos, bem pode adotar[sic] o seguinte lema e motivo de análise: a ortografia também é gente.» [Carlos Reis, “A ortografia também é gente.Falar como os brasileiros ou com os brasileiros?”, ‘Letras de Hoje’, Porto Alegre, v. 46, n. 4, p. 89-96, Out./Dez. 2011]

Relembrado o dito lapidar de Pessoa, revista a triste cena do Presidente da República a falar em “brasileiro” numa praia portuguesa, e lido, à laia de uns quantos canapés de pão com tostas, aquele naco de prosa de Carlos Reis, deixemos os preâmbulos e passemos então ao alheio artigo de hoje (espero que não me acusem, à conta deste maldito vício, de ser amigo do alheio).

A coisa vai agreste, abreviando razões. Já estivemos mais longe, ao que parece, de à conta ou a pretexto da inacreditável pepineira a que alguns chamam “acordo ortográfico” pegar-se tudo (sem grandes floreados) à porrada. Pancadaria, sim, um verdadeiro arraial, mas na modalidade mais tolhida, o bofetão académico, a canelada intelectual e um ou outro murro em ilustres ventas, vá; pelo menos até ver em sentido figurado será, bem entendido, ainda que aos acordistas — como sucede com os entupidos em geral — não desagradem bufos, rufias e bófias como “facilitadores” de serviço.

Deste agrestemente perorar está o novo artigo de AJ Pascoal cheio, o que é uma sorte, haja alguém, que lhe não doam as mãos, isto é, as meninges, e que sobretudo não lhe tremelique a escrita.

Dar troco a um fulano como o tal Rui Tavares (fundador, Secretário-Geral, telefonista, único militante e singelo votante do PRT – Partido do Rui Tavares), ah, não, isso é que me parece ter sido uma ideia pessimamente esgalhada. Lamento. Isto é só a minha opinião, claro, a qual, além de singela (‘e tão modesta quanto eu’),é absolutamente inocente.

Como, de resto, tudo aquilo que digo sobre o AO90 e os gajos que evacuaram semelhante excrescência. Os três leitores deste modestíssimo “blog”não têm dúvidas de que me não movem quaisquer intenções malévolas e que não pretendo de forma alguma incorrer nos pecadilhos “fascistas” que irritam a Direcção Nacional do PRT e o tipo da Universidade Aberta (ou de Coimbra, ou lá o que é).

Mas “prontos”, como diz nosso povo, siga, as citações que AJ Pascoal pesca no charco do Tavares valem ao menos pela piada. Tavares esse que, ao contrário do restaurante homónimo, é realmente um cómico (em flagrante contraste com a referida casa-de-repasto, onde os preços não têm piada nenhuma) e demonstra também ser portador de uma síndrome confusionista (ou confucionista, tanto faz) um bocadinho violenta. Mas só um bocadinho, hem, que aquilo é tudo a fingir.

“Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia” – Eça de Queirós

Em suma, para variar, pouco (ou nada) há a dizer de negativo sobre este texto. É de facto um ensaio sobre a pepineira, para variar, claro e incisivo.

Deixemos aos acordistas o encargo de tentar ao menos disfarçar um pouco sua atávica brutalidade mental fingindo não entender nem as mais comezinhas evidências. Se acham que, por exemplo, um simples acento diferencial é indiferente ou que, pior ainda, é um pretexto “reaccionário” ou “passadista” ou até “de orientação nacionalista”, pois bem, então essa atitude de altamente suspeito “negacionismo” sendo questão de cacete, então vamos a isso; mental ou cavernícola, melífluo ou com pregos na ponta, vem a dar no mesmo.

Enfim. Dando de barato, por irrelevância do adversário, o duelo verbal com o tipo dos óculinhos à  intelectualóide e suas bojardas brasileirófilas, este texto de Pascoal vale pela objectividade, pela consistência e pela coerência.

Só qualidades, portanto, até pela raridade de qualquer delas nestes tempos de mentiras oficiais e de geral tibieza na denúncia do logro, da trapaça, da colossal mentira de Estado.

O AO90 é o exemplo mais flagrante de como os tempos são outros e inverteu-se a ordem dos factores: sobre o manto obscuro da fantasia, a nudez forte da verdade.

Micropsiquia

Para Rui Tavares não importa muito como se fale ou escreva, desde que nos entendamos – brasileiros, moçambicanos, portugueses, angolanos, por aí adiante. Estará, portanto, disposto a sacrificar a forma pelo valor instrumental da língua.

António Jacinto Pascoal
publico.pt, 23.05.21

Deixei de acreditar no ensino sério do Português, desde a implementação do acordo ortográfico (AO90) nas escolas. Tenho algum respeito pela habilidade de espírito, argúcia e credulidade de quem ajudou a conceber esse acordo, mas uma admiração incondicional pela inteligência e sensatez de quem persiste em querer livrar-nos dele.

Há poucos dias, recebi provas de avaliação de alunos do 12.º ano, contendo expressões como “que lhe causou decessão” e “todos sem excessão”. Uma das piores chagas da língua escrita, sabemo-lo, é a incorrecção ortográfica: ora, há coisa mais insensata do que abrir caminho a nova vaga de erros ortográficos? A memória visual das palavras, provou-se já, determina a qualidade da ortografia e, até nisso, as consoantes mudas são auxiliares preciosos: seria, há bem poucos anos, raríssimo deparar com qualquer tipo de hesitação gráfica na transcrição sibilante de vocábulos como “concepção” ou “recepção” (sendo esta última palavra geradora da célebre ambiguidade receção/recessão) – o grupo consonântico não deixava margem para dúvidas. Líamos e escrevíamos com os olhos.

O que aqui me traz são os dois mais recentes artigos de Rui Tavares, no PÚBLICO: a propósito da lusofonia, numa das vezes, e da pretensa micrologia da língua (que o cronista imputa aos críticos do acordo), na segunda. Bom, deixo cair o primeiro dos artigos, aliás de uma singeleza só explicável pela candura de alma do autor ou por inflexível convicção das ideias de que se vangloria.

No artigo “Amar a língua até a asfixiar”, adoptando outro tom, Rui Tavares aparenta ter como objectivo único o de desvalorizar quem refuta o AO90, apondo-lhe o rótulo de inferioridade, picuinhice e narcisismo. Há um provérbio notabilíssimo, para recorrer a Erasmo, admitido por muitos: “É óptimo simular ter aquilo que se não tem.” Digamos as coisas como são: para Rui Tavares não importa muito como se fale ou escreva, desde que nos entendamos – brasileiros, moçambicanos, portugueses, angolanos, por aí adiante. Estará, portanto, disposto a sacrificar a forma pelo valor instrumental da língua. Numa palavra: as suas “sugestões”, que incluem sapientes deambulações pela antiga Grécia, resumem-se a considerarmos o sentimento de amor à diversidade da língua, desde que não nos apliquemos às palavras mas ao conteúdo. Brilhante.

Que vale mais a pena esconder? As coisas ditas ou as não ditas? Quando se garante ser indiferente ao detalhe – o que, por si só, favorece a pobreza da língua –, há sempre razões ponderáveis para ver nisso um sinal de indisfarçável arrogância. A indiferença de Rui Tavares (parecendo assumir a blindagem do inefável ministro Augusto Santos Silva), na sua subtileza, é a que se preocupa em reforçar a muralha dos silenciosos (mudos?) defensores deste “acordo”. É ainda a indiferença, travestida de modernidade e desburocratização, que tem como estreito limite da própria casa e coluna de opinião o nome, note-se, de “Consoante muda”. A outros imputa o autor “negar a realidade e ficar encafuados na micrologia”. A sua indiferença – como a dizer que não tem vagar para bagatelas – esquece que o que o idioma tem de bom foi ter sido parido num lugar, para poder respirar livremente noutros e que isso não nos rouba a alma, antes acrescenta o sentido vital e autónomo que anima os falantes e cultores da língua portuguesa, sem lugar a exibicionismos e produtos da imaginação imperial e tributária.

Se de minudências se tratasse, editoras como a Gradiva, Objectiva, Antígona, Guerra e Paz ou Cotovia não estariam à margem do AO90. Se não houvesse obsessão pelo “narcisismo das pequenas diferenças”, e achando-nos bem conosco, poderíamos, de oje em diante, enveredar por escrever em armonia com a voz umana. Não fôssemos nós picuinhas, e guardaríamos, sem os inevitáveis pruridos, “O prêmio lá no fim, bem merecido, (…)”, tal como nos não chocaria misturar cor-de-rosa e cor de laranja na mesma paleta. Se não assumíssemos a nossa “micrologia”, obedeceríamos ao destino cego e desapegado de quem empalidece a língua, a trai e reduz à indigência, esquecendo como “a ortografia também é gente”.

Posto isto, espreito Séneca, citando Antípatro: “Quando falamos em pobreza não temos em vista a posse, mas sim a privação” (ou orbatio, como se dizia antigamente; στέρηση, como se diz em grego). (…) A pobreza não consiste em possuir poucas coisas, mas em haver muitas coisas que se não possuem.” Precisamente aquilo a que condenamos a língua: malbaratar os recursos que detém. Há quem lhe chame desperdício. Eu diria estupidez. Um erro equivalente ao dos pais que gostam tão pouco dos filhos que querem que eles sejam adultos desde sempre.

António Jacinto Pascoal

[Transcrição integral de artigo, da autoria de António Jacinto Pascoal, publicado no jornal “Público” (em publico.pt) no dia 23.05.21. Sublinhados, destaques a “bold” e “links” (a verde) meus. Imagem do violino de: página Facebook de Ludwig Van Beethoven. Imagem da estátua de Eça: WikimediaManuelvbotelho, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons]

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