“Uma doença cultural”

Praça do Império

 

De facto. O brasileirismo parolo, ou o brasileirismo tout court, sem adjectivação, é uma “doença cultural”. E dessa maleita, disfarçada de “reforma” ortográfica e com andrajos de “acordo”, que resulta da indigência mental de alguns políticos, o que resta afinal é um concerto ao desafio entre vigaristas e ladrões que à desgarrada se esganiçam a tentar explicar o inexplicável e justificar o injustificável.

Para a já larga massa de tugas deslumbrados pelo “gigantismo” do Brasil, os admiradores — tão indefectíveis quanto feroz e alegremente ignorantes — de um putativo Império do qual iriam apanhar as sobras, o que importa é debitar suas inanidades, seja como for, por qualquer meio, tentando abalar ou ao menos bulir com a firme determinação das pessoas normais que, por definição e inerência, combatem a cacografia, o neo-imperialismo latente, o conceito brasileiro de lusofonia (isto é, o expansionismo político-económico zuca) e o supino desprezo de muitos brasileiros por tudo aquilo que cheire a português.

Será bom, por conseguinte, ao menos por um módico de decência e um mínimo de respeito — por eles, porque por nós isso parece ser impossível –, que o Brasil institua de uma vez por todas a sua própria Língua nacional.

Nestes tempos de pandemia, por maioria de razões, ao menos que tenhamos de ambos os lados do Atlântico aprendido que a contaminação — logo, a violência e a virulência da doença — varia na razão directa dos elementos envolvidos, em contacto, e na inversa das medidas de prudência e de racionalidade tomadas de forma transparente e racional. Não se trata de confinamento, e muito menos de isolamento, é tudo uma questão de bom-senso.

O primado da razão está hoje mais vivo do que nunca; não se extinguiu no século XVIII nem ardeu numa qualquer prateleira de museu. 

Viva a língua brasileira!

Viva a Língua Portuguesa!

 

Lusofonia, adeus!

 

Olá, meu nome é Sérgio e eu já acreditei no mito da lusofonia. Embaraçoso, eu sei. Defendia o acordo ortográfico e tudo. Essas coisas costumam ter raízes fundas na história da gente.

Lembro que lia Fernando Pessoa e sentia que o sujeito, além de frequentar o café A Brasileira no Chiado (onde ainda se encontra em forma de estátua), poderia ter tido um heterônimo brasileiro se quisesse.

Era tão grande minha identificação que, ao publicar em 2016 o livro “Viva a Língua Brasileira!”, usei o homem para me declarar contrário à ideia do português brasileiro como idioma autônomo – ideia amparada por um caminhão de argumentos linguísticos, à espera apenas de uma decisão política.

A defesa que o livro faz da língua falada aqui é cada dia mais atual, mas já não creio na miragem de uma comunidade internacional em que nossas diferenças fossem encaradas como riqueza e não como defeitos.

Eu via beleza naquilo. Pregava uma língua brasileira “sem submissão ao jeito lusitano, mas ao mesmo tempo sem esperneios de independência que pudessem transformar (que horror!) a poesia de Fernando Pessoa em terra estrangeira”.

Transformar a poesia de Fernando Pessoa em terra estrangeira me parece inevitável hoje. Se o “acordo” ortográfico serviu para algo, foi para deixar isso claro.

Já implantado no Brasil de cabo a rabo, seria ridículo que o revogássemos, além de um desperdício de dinheiro. Mas convém tratar como reforma brasileira o que não passou de desacordo, gasolina na fogueira do antibrasileirismo em Portugal –onde a nova ortografia foi rejeitada em peso pela sociedade– e motivo de confusão na África.

Com receio de estar reagindo com o fígado depois de ler na Folha sobre a discriminação sofrida por alunos brasileiros em escolas portuguesas, achei melhor consultar quem é mais sábio do que eu –no caso, dois dos principais linguistas do país.

Carlos Alberto Faraco trabalhou para fazer o acordo funcionar, como coordenador da comissão brasileira do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP). “É uma comunidade ilusória, perdida em picuinhas”, reconhece hoje.

No livro Português ou Brasileiro?” (Parábola), de 2001, Marcos Bagno faz uma denúncia bem fundamentada do entulho lusófilo que deixa a língua-padrão ensinada nas escolas brasileiras tragicamente distante da vida real.

“Eu defendo a autonomia do português brasileiro com argumentos de ordem fonética e morfossintática”, declara, dizendo-se “muito triste mesmo” com os relatos de preconceito em Portugal.

Está claro que o português não deseja se tornar uma língua sem centro, com 270 milhões de falantes e algumas variedades nacionais. Chega de perder tempo.

Mesmo porque temos pela frente um trabalho gigantesco de pesquisa, sistematização, faxina e reforma do ensino, se quisermos tornar a língua falada no Brasil –português brasileiro ou brasileiro só– um espelho menos distorcido para 210 milhões de falantes.

Nossa esquizofrenia linguística leva o sentimento antibrasileiro que está em alta em Portugal a dar as caras também por aqui o tempo todo, até em artigos de gente que, tida como esclarecida, não se envergonha de suspirar por um passado linguístico mítico – lusófilo, claro– e lamentar nossa “decadência”.

Trata-se de uma doença cultural antiga que a miragem da lusofonia, por vias tortas, só fez agravar. Mas agora estou curado. Viva a língua brasileira!

[Transcrição integral do artigo com o título “Lusofonia, adeus!”, da autoria de Sérgio Rodrigues, publicado pelo jornal “Folha de S. Paulo” (Brasil) em 12.05.21. www1.folha.uol.com.br. Adicionei “links” (a verde). Destaques e sublinhados meus. Imagem de Fernando Pessoa copiada de: “Modernismo” – Arquivo Virtual da Geração de Orpheu]

ardeu o "Museu da Língua" brasileira

Incêndio numa estação de combóios (desactivada) no Brasil em Dezembro de 2015: https://cedilha.net/ap53/2015/12/ardeu-a-lingua-passada-dos-carretos-por-rui-valente/

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