Mês: Junho 2021

Descolonização, já!

«Em exposição desde o dia 12 de junho, no Centro Cultural Brasil-Angola.
Escritor Ondjaki coordena programação cultural»

«Primeiro museu no mundo totalmente dedicado a um idioma, o Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado na Estação da Luz, prédio-símbolo de São Paulo, em 2006. Em quase dez anos de funcionamento recebeu cerca de 4 milhões de visitantes. Hoje está em reconstrução.»

«A exposição “A Língua Portuguesa em Nós” é uma iniciativa do Itamaraty, em parceria com o Governo do Estado de São Paulo, a Fundação Roberto Marinho, o Museu da Língua Portuguesa e o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, com coordenação da Expomus.»

«O Museu da Língua Portuguesa é uma iniciativa do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Estado da Cultura, concebido e realizado em parceria com a Fundação Roberto Marinho. Tem como patrocinador máster a EDP, patrocinadores Grupo Globo, Grupo Itaú e Sabesp e apoio do Governo Federal, por meio da lei federal de incentivo à cultura. O IDBrasil é a organização social responsável pela gestão do Museu.» [“Plataforma 9” (Brasil)]

Lá diz o ditado, mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo. Se bem que neste caso sejam vários os coxos e, ainda por cima, com a agravante de serem esses mesmos também os mentirosos. Ou, parafraseando não sei que “intelectual” de igual coturno, mas não coxo nem mentiroso, “isto anda tudo ligado”.

No que diz respeito ao AO90 e, portanto, no que respeita aos mentirosos que o engendraram e às mentiras que propagam, existem diversos factores comuns facilmente identificáveis.

O primeiro pressuposto a considerar, em especial quanto à matéria agora considerada, é que as empresas privadas às quais são adjudicadas arbitrariamente a montagem e organização de “exposições” sobre a língua brasileira limitam-se a criar ambientes de “espetáculo” onde actuam os palhaços do costume, também eles sempre os mesmos, os dos sapatões clássicos, trajados a rigor com seus casacos de lantejoulas e ceroulas turcas mai-lo inevitável remate do pom-pom vermelho a fazer de nariz “engraçado”.

As técnicas utilizadas nesses espectáculos circenses são igualmente sempre iguais e resumem-se a divertir o “honorável público” com umas “iniciativas”, umas “discussões” e, como presigo, fotografias de exemplares amestrados (os obedientes aprendizes de brasileiro) e de outros mais selvagens (alguns palavrosos anti-acordistas confusos), segundo acham os organizadores, mandantes da pantomina, tudo regado a aguardente de cana e outros acepipes regionais.

Uma dessas técnicas, porventura a mais especializada, é a da chamada “mesa-redonda”, ao redor da qual abancam 90% de acordistas, brasileirófilos em geral, agentes e bufos da polícia política e os inerentes cães-de-fila (ou farejadores ou Bloodhound), todos fingindo discutir o AO90, a CPLP, o IILP, “o” Camões, a “difusão e expansão da língua” brasileira no mundo, “o valor económico da língua” brasileira, que “ninguém é dono da língua” brasileira (exceptuando o Brasil, calculo), tudo coisas assim, penas de pavão pesando toneladas, halteres de cortiça erguidos com imenso esforço acima do cocuruto, toda aquela gentinha aferrolhando um ar sorumbático, grave e sério.

Por exemplo, aquilo que agora se pretende levar a cabo em Glasgow, segundo diz a agência BrasiLusa, não apenas tresanda a pura propaganda como não passará efectivamente (basta ler os nomes dos participantes) de mais uma sessão de intoxicação da opinião pública, promovida (e paga?) pelas entidades portuguesas que habitualmente, estruturalmente, ideologicamente, gananciosamente servem os interesses geo-estratégicos e político-económicos do Brasil. Na habitual proporção de 90% de acordistas, esta “discussão” não passará de mais uma das ratoeiras circenses que a seita acordista armadilha amiúde.

  • Tem a ver com o aspecto das variantes, dos sotaques, que na verdade são variedades do português, são línguas que são diferentes, mas são a mesma língua portuguesa
Não, não é uma questão de sotaque. O Português e o brasileiro “são línguas que são diferentes”, evidentemente, e por isso mesmo… não são a mesma língua! Aliás, ou uma coisa ou outra — as duas na mesma frase ou ambas como premissas da mesma ideia são incompatíveis entre si e auto-excludentes.
  • “Em certa medida, ainda há uma sensação de que Portugal é o dono da língua portuguesa, quando, na verdade, a maior parte dos países que falam português têm mais falantes do que Portugal, salvo algumas excepções. É uma questão que está muito presa na língua portuguesa, mais do que noutras línguas, como o inglês

Uma das patranhas favoritas deste tipo de prestidigitadores: a língua depende do número de falantes; a destruição liminar da Língua Portuguesa deverá ocorrer porque os Brasileiros são mais do que 200 milhões e Portugal apenas tem dez milhõezinhos de almas-penadas. Seria ocioso comentar de novo semelhante bojarda ou explanar de novo as mordentes evidências que por excesso servem para estraçalhar tão imbecil delírio.

  • «A apresentação do Dicionário do Português de Moçambique (DiPoMo) pela coordenadora, Inês Machungo, da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, vai abrir o simpósio e lançar o debate»

E pronto. Ora cá está. Aquilo é só mais uma sessão de propaganda do AO90. Qualquer “discussão” prévia é mero engodo. A rapsódia dos “dicionários” parcelares sempre foi uma “exigência” de anti-acordistas confusos e de outros confusionistas. Moçambique… check. Portugal, check. Brasil, check. O resto do “evento” será mais do mesmo, pura treta para enganar os alvos predilectos dos acordistas: papalvos.

A seu tempo farão outros dicionários, um por cada ex-colónia portuguesa, e assim, de mentira em mentira, de check em check, julga o estado-maior acordista que algum dia chegarão a checkmate.

Académicos no Reino Unido debatem descolonização da língua portuguesa

Simpósio realiza-se em Glasgow, na Escócia, com a presença de professores e académicos que vão discutir questões relacionadas com as “variedades, ou variantes, da língua portuguesa no contexto da descolonização do currículo”.

“Público”, 26 de Junho de 2021, 12:41
Lusa

 

A “descolonização do currículo” e as variantes da língua portuguesa vão estar em debate este sábado em Glasgow, Escócia, num simpósio da Tropo UK, a Associação de Professores e Investigadores de Língua Portuguesa no Reino Unido.

Professores e académicos vão discutir questões relacionadas com as “variedades, ou variantes, da língua portuguesa no contexto da descolonização do currículo”, adiantou a organização, a cargo do departamento de Português da Universidade de Glasgow.

O tema surgiu do incentivo, sobretudo no último ano, da instituição britânica a docentes e alunos para analisarem o impacto da colonização no programa lectivo, tendo inclusivamente criado um centro de estudos sobre a escravatura.

Sensibilizado por esta questão, Luís Gomes, co-organizador e professor de Português naquela universidade, considera importante debater a descolonização do ensino do português como língua estrangeira, segunda língua e língua de herança. “Em certa medida, ainda há uma sensação de que Portugal é o dono da língua portuguesa, quando, na verdade, a maior parte dos países que falam português têm mais falantes do que Portugal, salvo algumas excepções. É uma questão que está muito presa na língua portuguesa, mais do que noutras línguas, como o inglês”, disse Luís Gomes à agência Lusa.

Isto reflecte-se, refere, na ideia existente em muitos dos membros da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP), como Moçambique, de que é mais correcto o “português de Lisboa ou o português de Viseu” do que a própria variante ou sotaque local. Outro exemplo é o facto de o português de Cabo Verde ser normalmente denominado por “crioulo” e não visto como uma variante do português ou português de Cabo Verde.

“Tem a ver com o aspecto das variantes, dos sotaques, que na verdade são variedades do português, são línguas que são diferentes, mas são a mesma língua portuguesa”, argumentou Luís Gomes, questionando: “Se há o português do Brasil e o português europeu, porque é que não há o português de Angola ou de Moçambique ou da Guiné?”. A discussão, acrescenta, não pretende influenciar necessariamente decisões políticas, mas contribuir para a forma como os professores trabalham, ensinando e aceitando diferentes formas de escrever e falar português.

A apresentação do Dicionário do Português de Moçambique (DiPoMo) pela coordenadora, Inês Machungo, da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, vai abrir o simpósio e lançar o debate. Numa mesa redonda vão estar a presidente do conselho científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), Margarita Correia, a directora da Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, Ciência e Cultura e antiga presidente do Instituto Camões, Ana Paula Laborinho, e rapper brasileiro Vinicius Terra, bem como os professores Fernando Venâncio (Universidade de Amesterdão), Francisco Calvo del Olmo (Universidade Federal do Paraná, Brasil) e Sílvia Melo-Pfeifer (Hamburgo, Alemanha).

[Transcrição integral. Publicação: “Ípsilon”, suplemento do jornal “Público”, em 26 de Junho de 2021. Imagem da exposição “deles” de: “Plataforma 9“. Fotografia de cão da raça Bloodhound de: “Vetstreet“. Destaques, sublinhados e “links” (se não constantes dos originais citados) de minha autoria, por regra a cor verde.]

Portugal dos piqueninos

Nada surpreendentemente, vistos os inúmeros casos aqui já citados, exumados e autopsiados in situ, o verdadeiro trabalho de “implementação” da língua brasileira é “obra” não de acordistas, mas, no fundamental, gratuita e alegremente executado por anti-acordistas ou então, pior ainda, por indefectíveis do NIM — a maralha sempre de bem com todos, os “tipos fixes” a quem jamais ocorre dizer NÃO seja ao que for nem SIM a coisa alguma; uma sub-espécie perigosa, a dos fiéis do abençoado e tranquilo “meio-caminho”, a terrível substância alucinogénia que tantos tóxicodependentes criou em Portugal.

Não deve ser muito difícil entender o mais elementar dos raciocínios a respeito das tácticas de contra-informação e de intoxicação da opinião pública e, portanto, do logro colossal veiculado e da geral anestesia induzida na propaganda, na “narrativa” da seita que se ocupa da demolição da Língua Portuguesa.

Fazer o jogo do adversário é algo que pode ser sintetizado numa relação de causa e efeito tão elementar, de resto, num silogismo de tal forma evidente que verbalizá-lo torna-se quase tão ridículo como explicar uma anedota: se tem alguma, perde a piada toda.

Atirar ao boneco, assim como fazer mira com os dois olhos fechados, sempre acertando ao lado e falhando por sistema, irritantemente, duas imagens que nada têm de metafóricas devem chegar e sobrar para ilustrar o conceito: o AO90 é uma manobra política (premissa maior) contra a qual apenas armas políticas podem e devem ser usadas (outra premissa maior), logo (conclusão), utilizar armas de outro tipo implica a menorização (ou a pura e simples abolição, através do “ruído”, das manobras de diversão) do objectivo que inicialmente se pretendia atingir, errando o alvo em que teoricamente se dizia pretender acertar.

Aqui está mais uma amostra do teorema, neste caso ainda mais flagrante do que o costume, quanto mais não seja pela quase alucinante profusão de encómios e a não menos generosa prodigalidade na adjectivação laudatória. Escrito em Português, ao menos isso, mas no resto quase um desastre.

Sem sequer ralar-se com os rituais da ordem, sem declarações de militância prévias contradizendo flagrantemente os disparos de Diana 50 que acertam no tecto da barraca de tiro-ao-alvo, sem referir uma única vez o AO90, prudentemente, lá vem a lenga-lenga da “universalidade” da língua (a brasileira, pressupõe-se, por exclusão de partes), das “potencialidades” da língua (idem, aspas) e de outras formas de pirotecnia becharo-malaquenha. Embora esteja de todo esgotada a paciência até do mais pachola, convirá ao menos ler de relance esta mescla de “patriotismo lusofónico” com “universalismo” (isto é, de idolatria de um quimérico e sumamente idiota Império “liderado pelo Brasil“), esta sopa de grelos romanescos com nabo grandiloquente, ah, caldinho catita porém um pouco insosso, uma pitadinha de sal era capaz de lhe “puxar” o sabor, chega-me daí o saquinho dos negócios estrangeiros, vai sal e apimenta-se de caminho.

«Hoje Portugal já não é um império, nem Lisboa essa cidade global, mas é-o a sua língua», por exemplo, diz o senhor que redigiu a coisa. Caramba! Mas que festival!

Ele é um «universo que pensa e fala» onde, pelos vistos, haverá sacanas a «deixar-se contaminar, e hoje é uma língua com vários donos, ou sem dono», ou terei porventura entendido mal, o autor deve pretender expressar o contrário, ora bolas, terá sido talvez pela bofetada que levamos em plenas, atónitas faces, com aquela do «pequeno país» (Portugal, aposto), que o Brasil é “um gigante” (também aposto que esta outra ribombante constatação há-de constar com certeza do arrazoado), essa raramente falha nestas loisas encomiásticas. Enfim, não sei bem, ou seja, “de ciência certa”, devo ter ficado esmagado, abananado, ofuscado com qualquer outra frasezinha elegantérrima, talvez a que postula ser «São Salvador, a cidade mais africana do Brasil», ora toma, pim, ou a outra, também lapidar e tremenda, catando da História que a «população portuguesa foi formada e formatada a visualizar um mapa que mostrava um Portugal do Minho a Timor». Olha, cá está, “do Minho a Timor”, já tal se dizia no tempo da “Outra Senhora”, ele a gente nunca espera o que nos aparece pela proa, há quem diga que é o destino, para outros o azar será, pois eu cá lamento mas não faço a mínima ideia de o que raio quer aquilo dizer.

Assim como também não sei, só o escriba saberá, calculo, em quê depositar (quem?) a esperança em «2026, esse ano mágico», na demanda de uma hipótese em que “talvez” «consigamos ter revelado e reavivado a teia de cumplicidades». Linguagem codificada, quase de certeza, ou então estará reservada a membros e por isso é naturalíssima a reserva, existem assuntos assim mais para o sigiloso que é de bom tom conservar em latas estanques.

Sobre a “teia de cumplicidades” estamos já bem mais do que conversados; não resta qualquer sombra de mistério nem permanece a menor dúvida sobre onde e quando, qual foi ao certo o móbil do crime e quem teceu a aracnídea teia.

É absolutamente impossível redigir um texto tendo a Língua Portuguesa como tema único sem jamais referir a própria escrita em Português, a Gramática portuguesa em qualquer das suas componentes, sem ao menos vagamente aludir à ortografia (ou ao léxico, ou à sintaxe, ou à prosódia) e, portanto, sem referir uma única vez o AO90 (ou a CPLP ou o IILP ou “o Camões” ou a BrasiLusa ou a Wikipédjia), mai-la sua esmagadora parafernália de armas de intoxicação em massa e quem as opera, quem põe o dedo em que gatilho. 

Que farei com esta Língua: uma Aldeia Global ou o Portugal dos Pequenitos

Carlos Fragateiro
“Ípsilon” (jornal “Público”), 25 de Junho de 2021

 

Potenciar a língua obriga-nos a ser capazes de pensar o seu universo como uma realidade plural e com vários centros, os pilares da construção de uma cartografia do e para o universo que pensa e fala em português.

1. Há mais de 500 anos, os portugueses, os mais aventureiros, saíram de Lisboa e partiram para o mar, não para aquele que seria o mais cómodo e familiar, o Mediterrâneo, mas para o desconhecido, para o mais perigoso e ameaçador e que poderia levá-los em direcção ao abismo, o Atlântico. Essa decisão levou-nos ao encontro de e com outros mundos, até então desconhecidos para os europeus, conduziu à criação do que hoje se chama a primeira aldeia global, e permitiu que Lisboa se tivesse tornado no centro comercial do novo mundo.

Hoje Portugal já não é um império, nem Lisboa essa cidade global, mas é-o a sua língua que, pela sua profunda ligação ao mar, o espaço da não fronteira por excelência, construiu mais pontes que muros.

Porque vinda de um pequeno país, esta língua foi obrigada a dialogar, a fundir-se, a deixar-se contaminar, e hoje é uma língua com vários donos, ou sem dono, que é o que distingue os tempos de hoje dos do início da sua viagem há mais de 500 anos, altura em que o mapa da língua se desenhava a partir de um só lugar, de Portugal e Lisboa, mapa que hoje se desenha a partir de múltiplos lugares.

É o ser uma língua sem dono, e o trazer dentro de si todo o mundo e de estar em todo o mundo, que a torna num instrumento privilegiado para responder aos desafios que a pandemia está a colocar: deixar de olhar o mundo a partir da nossa casa ou do nosso país, como centro de tudo, pois não há muros ou fronteiras que defendam o nosso bem-estar, se esse bem-estar não existir em todo o mundo.

2. Potenciar a língua obriga-nos a ser capazes de pensar o seu universo como uma realidade plural e com vários centros, os pilares da construção de uma cartografia do e para o universo que pensa e fala em português. Pilares de que, entre outros, são exemplos: São Salvador, a cidade mais africana do Brasil; Manaus, que, ao lado da Reserva da Biosfera da Ilha do Príncipe, pode ser o grande centro internacional da ecologia e do ambiente e da defesa das culturas e das línguas minoritárias; Goa a cidade/estado de encontro entre o ocidente e o oriente; o Faial, com o Café Peter e o centro de Oceanografia, que, tal como Cabo Verde, é uma plataforma no Atlântico. Estes pilares, porque têm já no seu ADN os gérmenes deste mundo global da língua, são, em cada país ou comunidade, os espaços de cruzamento de ideias e lançamento de projectos que liguem os diferentes pilares e construam as pontes que darão densidade à rede com que o universo da língua portuguesa atravessará todo o mundo.

Reforçar esta rede, e a sua capacidade de intervir globalmente, obriga à construção de uma plataforma onde se cruzem os diferentes projectos e se simulem os cenários para o futuro ou os futuros possíveis. Plataforma que não se limite a descrever o mundo como ele é, mas a criar uma nova forma de o ver, imaginando o inimaginável, sonhando o impossível e fazendo com que ele aconteça.

3. Há uns tempos, num seminário maioritariamente frequentado por europeus, pediram a um doutorando angolano para desenhar o mapa do mundo e, para surpresa de todos, ele começou a desenhá-lo pelo continente africano, e não pela Europa como nós, portugueses e europeus, o fazemos. Fizeram o mesmo pedido a um brasileiro que desenhou o mundo a partir do continente americano.

É em momentos como estes que nos sentimos incapazes de visualizar o mundo de outra forma da que era apresentada no mapa que estava sempre presente nas nossas escolas, com a Europa no centro a América tão distante da China, de tal modo que hoje, sabendo claramente que a terra é redonda, ainda pensamos nas longas viagens que os americanos têm de fazer para chegar perto da China, ignorando completamente o oceano Pacífico e que as viagens não têm necessariamente de passar pela Europa, podendo fazer-se pelo outro lado do mundo.
(mais…)

O tubarão fantasma

«Sucedeu que as instruções do Ministério das Relações Exteriores à Delegação do Brasil na ONU chegaram por telegrama, causando grande impacto. O embaixador chefe da missão recusou-se a pronunciar o voto constrangedor, o seu número dois teve a mesma atitude. Sobrou um, então, jovem diplomata, marxista conhecido, António Houaiss, que declarou a surpreendente posição do Brasil, sob aplausos dos países da Cortina de Ferro, incluindo Cuba. Houaiss foi afastado do Itamaraty quando da Revolução e dedicou-se à grande obra que foi um dicionário, em associação ao filho do, então, chanceler Afonso Arinos.» [1963 e o voto do Brasil contra Portugal – Jornal “O Diabo” (jornaldiabo.com)]

Hydrolagus colliei (Chimaera), peixe cartilaginoso; nome vulgar em Português: quimera ou tubarão-fantasma.A chamada “lusofonia” não existe. É uma quimera. Ou será, quando muito, wishful thinking (passe o barbarismo). Embora possuindo o mesmo ar sinistro do peixe homónimo e, como este, navegue na total obscuridade das profundidades oceânicas, a “lusofonia” não cumpre qualquer papel na cadeia trófica — ou seja, não serve rigorosamente para nada na cadeia alimentar (e nas outras) — nem executa a mais ínfima das funções no que à Língua Portuguesa diz respeito. “Lusofonia” é pura entropia, portanto, algo que, por completamente inútil e sem o menor significado, apresenta num embrulho palavroso o caos da ideia fixa.

No entanto, como sucede neste caso, ainda há quem se agarre com unhas e dentes a essa espécie de quimera (não o peixe, a esperança vã), argumentando pontualmente com surpreendente coerência sobre essa “piquena maravilha” que será (seria) uma “mundovisão” em que toda a gente, “do Minho a Timor” e arredores (incluindo aquele piqueno enclave a que chamaram Brasil) falasse uma espécie de “português universal”.

Baseando-se em alguns dos falsos pressupostos que Houaïss, esse benemérito “promotor” do AO90, inventou para vender os seus calhamaços (e logo ele, valha-me Deus, um fulano tão desprendido, isto é, nada agarrado ao vil metal, um académico marxista, tão desapegado dos bens, terrenos, propriedades, contas bancárias e tudo, um tipo tão fixe, ganda bacano), os “lusofonistas” insistem nos méritos da causa lusofonista com denodo e dedicação extremas.

Afinal, se virmos bem, isto é, se nos artilharmos com todo o arsenal de condescendência do planeta, a tal “lusofonia” até não é assim tão má ideia. Coisa antiga, aliás, que durou até 1975 e finou-se de vez em 1999; a ex-colónia de Vera Cruz não conta, pelo menos desde 1822, neste âmbito, visto ter-se tornado independente sob a forma de Império, com língua própria e com um tremendo ressaibo para com Portugal, “a terrinha”.

Claro que na demanda de uma hipotética “expansão”, torna-se difícil imaginar uns quantos voluntários daquilo a “promover” e a “difundir” a Língua nas ruas de, por exemplo, New York, Paris, Ouagadou, Calcutá ou Pyongyang. Assim como não será muito fácil imaginar a “lusofonia” fazendo notar aos mercados financeiros internacionais o “valor económico da língua” e as respectivas “oportunidades de negócio”.

Pôr uns vendedores a chatear peões em grandes cidades do mundo, assim como quem impinge “time sharing” a transeuntes, bem, uma coisa dessas correria sérios riscos de se tornar um bocadinho ridícula e ligeiramente estúpida.

Quanto aos negócios, pois tende paciência, senhores lusofonistas, isso já está tudo tomado: o Brasil agradece, está claro, se bem que pela calada e em absoluta surdina, e até parece que nos estão fazendo um grande favor quando passam a ocupar, à conta do AO90 e sob o disfarce da CPLP, as nossas posições económicas (e políticas e culturais) um pouco por todo o mundo, nos países e territórios a que outrora aportaram nossos maiores; “do Minho a Timor”, sim, passando por Macau (China) e em breve por Goa (Índia), o novo império dos negócios brasileiros segue pujante e das migalhas sobrantes vão debicando os vendidos tugas, esses galináceos com muito cócórócó na garganta e imenso cocó na cabeça.

Evidentemente, aos tais lusofonistas — alguns deles anti-acordistas convictos — jamais terá ocorrido que a sua “lusofonia” acaba afinal por fazer o jogo (e, em parte, o trabalho) dos acordistas, contribuindo com o seu entusiasmo “lusofónico” para encobrir as negociatas da nomenklatura becharo-malaquenha, usando a suposta irmandade entre um pigmeu com História e um monstro nascido ontem para “justificar” a “liderança do Brasil” no processo de demolição da Língua Portuguesa.

Não lhes podem ser assacadas culpas, pelo menos aos inocentes bem intencionados, assim como aos próprios brasileiros também não, se já não hoje por hoje, pelo menos quanto à genese e ao lançamento da marabunta cacográfica; esta sucedeu por absoluta e exclusiva responsabilidade dos agentes tugas a mando da oligarquia dominante, o “centrão” político-partidário. Foram estes tipos quem, perante a estupefacção e a incredulidade dos brasileiros, surpreendidos por tanta e tão asquerosa bajulação tuga, delinearam toda a tramóia, montaram a estratégia da mentira matraqueada e venderam, em suma, ao próprio Itamarati, o esquema para dissimular os futuros negócios da China (e de Angola). Está claro, do ponto de vista da tradição  brasileira, “tá tudo légau”, valeu, primeiro riram-se dos tugazinhos graxistas (os “puxa-saco”, em brasileiro) mas depois começaram a abrir a pestana e hoje em dia é o que se vê, estão por todo o lado e em tudo fazem comércio, traficam influências e trocam “favores” (via CPLP, por exemplo), vão paulatinamente empochando o “bolo” lusófono — sucessivas camadas de História que nasceram do rasto das caravelas.

A Lusofonia não precisa de ser salva, apenas de ser desadiada (II)

Renato Epifânio
jornal “O Diabo”, 17.06.21

 

 

Espremido o texto, porém, a grande questão que ressalta é, de novo, a questão do Acordo Ortográfico e da relutância portuguesa em segui-lo, o que merece do jornalista e escritor brasileiro a seguinte sentença: “está claro que o português não deseja se tornar uma língua sem centro, com 270 milhões de falantes e algumas variedades nacionais. Chega de perder tempo!”.

É verdade que no Brasil essa relutância portuguesa em seguir o Acordo Ortográfico não é de todo compreendida, como eu próprio já pude testemunhar. Em Maio de 2018 – há precisamente três anos –, coordenei, como Presidente do MIL (Movimento Internacional Lusófono), um debate sobre as “as visões da Lusofonia no Brasil”, integrado num Encontro Científico promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira na cidade brasileira de Mariana, em Minas Gerais. Pois bem: perante um público particularmente culto e qualificado, a grande questão que emergiu ao longo do demorado debate foi precisamente essa: por que razão em Portugal havia tanta relutância em seguir o Acordo Ortográfico? E se essa relutância não deveria ser interpretada como uma atitude anti-lusófona da parte de Portugal, desde logo em relação ao Brasil?

Esse sentimento é pois real, ainda que, como procurei então aduzir, a conclusão seja, também aqui, “manifestamente exagerada”. Sim, é verdade que há em Portugal uma manifesta relutância em seguir o Acordo Ortográfico. Mas não é de todo verdade que isso deva ser interpretado como uma atitude anti-lusófona da parte de Portugal, desde logo em relação ao Brasil. Como sempre defendi, a Lusofonia não depende de nenhum Acordo Ortográfico como condição necessária – por mais que este pudesse ser útil, em teoria, assim ele tivesse cumprido a sua promessa de uma real “uniformização ortográfica” (o que ficou muito longe de acontecer, como é sabido). E há em Portugal muitos exemplos de pessoas que, sendo contra o Acordo Ortográfico, não são por isso contra a Lusofonia. Bem pelo contrário.

Extravasando este “irritante diplomático”, há de facto muito a fazer, como refere Rui Tavares, a começar pela dinamização da própria CPLP, que nem sequer face à tragédia em curso no norte de Moçambique tem dado uma resposta à altura (ainda que aí as responsabilidades maiores estejam a montante). Quanto ao mais, as ideias que lança são em geral boas, ainda que nem todas originais. Apenas um exemplo – precisamente a propósito do artigo de Rui Tavares, António Braz Teixeira, Presidente do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e ex-Vice-Presidente da RTP (entre muitos outros cargos relevantes que ocupou), recordou-me que, em 1987, ele próprio teve a iniciativa de promover uma TV Cultura da CPLP, tendo sido até fundada, em 1991, em Cabo Verde, a Organização das Televisões de Língua Portuguesa, com Estatutos aprovados e Órgãos eleitos. Trinta anos depois, o projecto está ainda por concretizar. Caso para dizer: a Lusofonia não precisa de ser salva – apenas de ser desadiada… ■

[Transcrição integral. Destaques, sublinhados e “links” meus. Foto de Pyongyang, imagem de: Wikipedia.]
[Agradecimentos a Luís Mendes pela ajuda (sobre peixes).]

Os Cinco

Mais um artigo sobre “o uso e abuso” de anglicismos. A coisa já cansa, sejamos francos, mas não deixa de ser uma curiosa espécie de fenómeno… anti-linguístico, digamos assim. De facto, e nisso reside a sua “curiosidade”, a questão, sendo radicalmente contra-producente, é por regra apresentada agora (porquê agora?) como a única maleita que afecta a Língua Portuguesa; ou seja, igorando olimpicamente (quando não ostensivamente) o AO90 — este sim, o verdadeiro cancro que vai minando a nossa Língua nacional.

A sanha extrema com que os agentes ao serviço das negociatas brasileiras vão destruindo a Língua Portuguesa é uma excepção no âmbito do movimento mundial pela instauração obrigatória da Novilíngua, se bem que os princípos basilares e as técnicas de demolição sejam as mesmas, num caso e no outro: adulterar a Língua, seja ela qual for, implica a alteração radical do raciocínio e, por consequência, do próprio indivíduo, o que incluiu a revisão da História e a liquidação sumária da consciência. Disto mesmo é exemplificativo o mais recente banimento das obras de Enyd Blyton; sem necessidade de quaisquer juízos de valor, a verdade é que a rotulagem desta autora como “racista e xenófoba”, incluindo-a numa extensa lista de autores “inadmissíveis”, implica o apagamento de boa parte da nossa memória, especialmente de períodos da puberdade e da adolescência de milhões de leitores em todo o mundo.

A imposição selvática da linguagem “politicamente correcta” implica igualmente a proibição, a erradicação, o abate de palavras — mesmo ou principalmente no quotidiano, por fluidez discursiva, sem qualquer carga ideológica ou política — pressupõe um tipo de empobrecimento que, por indelével, equivale a um ditame tão binário quanto imbecil: isto podes dizer, aquilo não podes. 

E não podes escrever e não podes sequer pensar.

Banir o pensamento é afinal possível. Basta adulterar as palavras, tornar obrigatória a obsolescência de conceitos e a caducidade da memória, extinguir por decreto o passado de um  indivíduo, de um povo, de uma nação.

Evidentemente, a neo-colonização de Portugal (e PALOP) pela língua brasileira (AO90) é em tudo semelhante, a começar pelos métodos e processos, à selvática imposição do pensamento único através da “destruição das palavras”, para usar uma expressão do próprio Orwell, o visionário que previu o horror agora tornado realidadePorém, mesmo provindo ambas as formas de ditadura mental da mesma “escola” de estupidificação em massa, e embora sejam similares os métodos e as respectivas finalidades, entre a obrigatoriedade da Novilíngua e a imposição da língua brasileira existem algumas diferenças de pormenor.

Como, por exemplo, retomando o fio à meada, alvos errados e tiros falhados: atirar sobre “o uso e abuso” da língua “cámone” é um exercício de puro (e vesgo) laxismo, ou coisa ainda pior, dependendo da figura que vocifera a sua espécie de nacionalismo oral e a sua estranha concepção de purismo linguístico, visto que tais pruridos puristas são tão ineficazes como eliminar a estupidez por decreto e tão inúteis como engessar as pernas a alguém que está com uma valente gripe.

Em suma, o “tiro ao anglicismo” está, ao contrário do que sucede no “tiro ao boneco”, nos arraiais, infalivelmente condenado a acertar sempre ao lado.

Acresce que alguns destes (aparentemente) azelhas do tirinho nem mesmo tentam disfarçar que usam uma espingarda torta: o seu verdadeiro alvo é fazer passar o AO90 por “facto consumado”, algo com que as pessoas normais já nem devem ralar-se, está feito, está feito, agora (porquê agora?) aguentem-se à bronca. Esta táctica de desvio de enfoque, truque manhoso e aldrabice velha e relha que os vendidos aprendem no seu 1.º ano de formação intensiva, socorre-se primordialmente do falso pretexto “anglófono” mas apresenta outras variantes, diversas manobras de diversão para os mesmos fins: por exemplo, listas e mais listas de “aberrações” (como se o AO90 não fosse, todo ele, de cabo a rabo, uma aberração), “discussões” amenas, tertúlias e “mesas-redondas” em vários órgãos de comunicação social, textículos sobre assuntos “linguísticos” sortidos, qual deles o mais irrelevante e frívolo. 

Nesta acepção, quem, ainda que movido de boa-fé e de todo inocente, colabora em tais manobras acordistas, ou quem às ditas confere sequer um mínimo de credibilidade, então estará — lamentavelmente, tristemente — a ser conivente de alguma forma com tais expedientes, com tais vendidos, com tal traição.

Bem, as papas e os bolos não enganam todos.

Pode bem ser que estejamos nós outros utilizando uma simples espada mental, pode até essa espada estar já romba, ou até quebrada de tanto golpear armaduras de coriáceos acordistas, mas não será por isso que deixaremos de a empunhar e contra eles investir, agora como sempre.

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Perdão? Final demasiadamente lírico?

Ah, OK, não vi o sinal de STOP. Oops, “STOP” é Inglês, não posso. Oops, “oops” também.

Como diz “em português” a nossa juventude nas redes anti-sociais, LOL.

 

O vírus do anglicismo

Joaquim Miguel de Morgado Patrício
Centro Nacional de Cultura, 18.06.21

 

Saber inglês é hoje uma ferramenta necessária para quem estuda, investiga, trabalha, viaja e tem de ter acesso ao mundo globalizado. Em todas as épocas há uma língua franca, sendo a de hoje o inglês. Os avanços técnico-científicos permitiram uma globalização que possibilitou uma maior proximidade, em que o inglês foi promovido a língua dominante nas empresas que controlam a produção, beneficiando-o nos impressos e folhas de instruções, nas etiquetas, caixas, distribuição, transportes, publicidade, ou seja, em todas as apresentações e disponibilização do produto desde a origem ao consumidor.

Esta permissividade tem condições especialmente favoráveis em países que têm falta de autoestima ou uma fraca imagem de si em termos económicos, onde o estrangeiro associado aos mais ricos é que é bom, sinónimo de culto, moderno, desenvolvimento e prestígio. Por vezes há ausência de legislação obrigatória quanto ao uso da língua materna ou oficial nas instruções e nos rótulos dos produtos importados. E quando há legislação, nem sempre os entes competentes a fazem cumprir, sendo injustificável que se invoquem dificuldades na sua implementação ou fiscalização. Não fazer cumprir uma lei também é uma opção e estratégia, tida como uma mera exigência do politicamente correcto, sem conteúdo prático.

Por questões de imagem e de redução de custos, a língua da empresa é a da casa-mãe, que não se compadece com traduções, com perda de tempo e de dinheiro, o que é agudizado pelo facto de, no actual momento económico, a sua sede ter a maior probabilidade de ser num país anglófono, ou que tenha tão só o inglês como língua de comunicação global.

Opta-se quase sempre pelo idioma tido internacionalmente como mais conveniente, o das empresas multinacionais, em que a língua da empresa é a do país onde está a inovação criativa e o dinheiro, sendo a língua do poder.

Esta imposição do inglês como língua económica, cultural e política, é tida, por vários autores, como imperialismo linguístico e um vírus do anglicismo.
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Portsoc

Pretendia-se que quando a Novilíngua fosse adoptada de uma vez por todas e a Velhalíngua esquecida, um pensamento herético  fosse literalmente impensável, pelo menos na medida em que o pensamento depende das palavras. [George Orwell, “1984”]


Como anteriormente aqui disse, e repito, e que me perdoe pelo calão algum mais comichoso dos três leitores deste manual de diatribes contra o AO90 (e outros detritos), estou-me altamente nas tintas para a cagança dos idiotas profissionais que abusam da Língua Inglesa. Por regra e definição, essa pandilha é constituída por tecnocratas que pouco ou nada sabem dizer (e muito menos escrever) em Inglês (e muito menos em Português), além de jargão técnico, tipinhos com uma pronúncia desgraçada (sotaque das Amoreiras, digamos), yuppies do século XXI cuja “pinta” de lorpas se topa a léguas. Enfim, que se danem os inguelishes e que se inglixe a jactância.

Esse estranhíssimo fenómeno (tipos que tentam impressionar a pategada com “buéda” tecnicismos no original) poderia interessar alguma coisinha caso tivesse a ver com assuntos sérios em geral, como a Ortografia, a Gramática portuguesa, a História de Portugal, o nosso património cultural, a independência nacional ou a soberania que estrangeiros nos sonegaram; ou seja, com o “acordo ortográfico”.

O AO90 contém igualmente algo de soluços de vaidosos e muito de tiques de autoritaristas, além de outro tanto de radical imbecilidade, porém é caso único, uma hecatombe que ameaça não deixar pedra sobre pedra dos nossos castelos no ar e apagar para todo o sempre o mais ínfimo vestígio de tudo o que prezamos, valorizamos e, em suma, somos; aquele horrendo crime de lesa-inteligência pretende derrubar todos os que, durante novecentos anos, construíram o que a última geração de estrangeirados ameaça abrasileirar.

No processo de aniquilação em curso, pretendem eles substituir a Língua portuguesa pelo brasileiro utilizando a táctica da novilíngua, isto é, a invenção literal de uma nova língua para eliminar a existente; isto não implica apenas chamar os bois por outros nomes, trata-se de reescrever a História e de “reformar” o próprio pensamento: conceitos, idiossincrasias, ideias simples ou raciocínios complexos, anseios individuais ou colectivos, devaneios ou desejos e mesmo os erros, as falhas, as faltas, os equívocos, as coisas hilariantes e as tristes, até a língua em que sonhamos; tudo, rigorosamente tudo será alterado, adulterado, “corrigido” segundo os sacros mandamentos dos oficiais do Partido, os donos da língua e, portanto, da vontade dos proletas — cujas funções consistirão exclusivamente em gerar outros escravos do Grande “país-Irmão”.

Proibir a língua “velha” (a velhice é já um demónio ao serviço da Nova Igreja) faz parte, obviamente, deste hediondo plano de terraplanagem linguística e cultural através da massificação da catatonia e contando já com o geral estado comatoso que caracteriza a indígena chusma de “pensadores”. As patranhas colossais, as mentiras descabeladas propaladas por alguns traidores e vendidos portugueses, contando com a nacional apatia (uma patologia ancestral), tentam impingir a todo um povo de descendentes de colonizadores a cacografia e, em última análise, a língua dos ex-colonizados. Caso único no mundo, evidentemente, “fundamentado” nesta coisa extraordinária: eles são 210 milhões e nós somos 10 milhões. Ou seja, a língua é só uma questão de contar cabeças; mesmo que os novos colonos provenham de um país a 7.500 km de distância, com o oceano Atlântico de permeio, mesmo que o Brasil seja uma ex-colónia portuguesa independente desde 1822 (e Portugal desde 1143), mesmo que do lado “dji” lá a pronúncia (não confundir com “sotaque”) seja para nós alienígena, a sintaxe abstrusa e a cacografia completamente anárquica, pois ainda assim uma mão-cheia de alucinados — isto é, de gulosos vigaristas — insiste na “adoção” por Portugal do brasileiro como Língua nacional, extinguindo em simultâneo o Português.

George Orwell era um inglês que escrevia, evidentemente, em Língua Inglesa. A sua obra mais genial é, sem dúvida, Nineteen Eighty-Four (1984). Isto sim, é Inglês que se pode (e deve) citar até à exaustão.

Nem sempre utilizar expressões inglesas serve só para impressionar (pategos). Há coisas que fazem parte da Língua em que foram criadas mas que acabam por se tornar património do universo inteiro.

Como a austera, apagada e vil tristeza de Camões, Hamlet (Shakespeare) reflectindo sobre to be or not to be ou, pela inversa, contrariando a sentença lapidar de “1984”,

Victory is possible

Os malefícios de um provincianismo mental acrítico e fascinado pelo novo

Nem a TLEBS, com as suas fastidiosas e aberrantes descrições, nem o AO 90, com os “seus erros, imprecisões e incoerências”, propiciam uma reflexão sobre a Língua.

Maria do Carmo Vieira
“Público”, 11 de Junho de 2021

 

O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.
Fernando Pessoa

 

Regresso a um tema que me é caro e sobre o qual me tenho repetido porquanto, a meu ver, permanece o absurdo que o caracteriza, bem como a doença de que padece e à qual se refere a epígrafe escolhida. Refiro-me à Reforma curricular de 2003, cujo espírito e metodologias se mantêm porquanto “o princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro”, o que ainda não aconteceu.

Não posso deixar de confessar que o presente texto nasceu do livro do Professor Jorge Calado (IST),Limites da Ciência (2.ª edição, 2021), da Fundação Francisco Manuel dos Santos, “redigido com o Acordo Ortográfico de 1945”, conforme se lê em nota. Será imprescindível transcrever as palavras do autor, a propósito de “A Língua e a linguagem”, para evidenciar a relação com a Reforma de 2003 acima referida e entusiasticamente anunciada. Eis a transcrição, longa, mas imperiosa: “Alguns cientistas, isolados nas suas torres de marfim, pensam que, se ninguém os entende, fazem figura de seres supremamente inteligentes. A verdade é que a construção de uma linguagem hermética, entendida por poucos e benéfica para nenhum, não passa, muitas vezes, de mais um sintoma de impreparação. A nudez da ignorância disfarçada com o manto espesso do artifício. […] A snobeira do falar difícil e pseudocientífico encontrou terreno fértil nas humanidades. […] que dizer da relativamente recente (2004) substituição da velha Nomenclatura Gramatical Portuguesa dos artigos, substantivos, adjectivos, verbos, pronomes, advérbios, preposições, etc., pela pretensiosamente científica Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), entretanto suspensa? Uma salgalhada de variáveis, determinantes, auxiliares aspectuais e modais e preciosidades como ‘Um Nome tem um funcionamento não contável quando necessita de um suporte (discretizador ou enumerador) que o discretize ou enumere.’ Ciência, isto?”

Haverá que esclarecer o Professor Jorge Calado que a TLEBS não foi suspensa, apenas “corrigida” (imagine-se o desconforto do vocábulo para os “cientistas” que a trabalharam) continuando activa nos seus “disparates”, em programas e exames de Português. Na tentativa de apagar a polémica e o desastre intelectual que representou, a TLEBS transfigurou-se em Dicionário Terminológico, sendo seu obstinado mentor o Professor João Costa, de há longa data Secretário de Estado da Educação, e obviamente um fervoroso impulsionador da Reforma de 2003 da qual se salienta, no que à disciplina de Português diz respeito, a apologia de textos funcionais, o menosprezo pela Literatura, mormente pela Poesia, o amaldiçoamento de aulas expositivas, bem como do uso da memória e a pseudo-novidade da “Reflexão sobre a Língua” que a TLEBS proporcionaria, segundo “explicaram”, em acções de formação. E acções de formação porquê? Pela constatação da impossibilidade de os professores compreenderem as “inovadoras” descrições terminológicas. Eu própria assisti apenas a uma sessão, não estando inscrita, e foi o suficiente. Perante uma dúvida, a formadora repetiu vezes sem conta a mesma explicação, com o mesmo vocabulário, aberrante e impenetrável, apontando no final, e ostensivamente, a minha “impreparação”.
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Lirismos

«O tal Acordo Ortográfico serve apenas para semear grandes desacordos». Exacto. É para isso mesmo que serve. Exclusivamente. “Para semear grandes desacordos” será porventura uma formulação tímida, soa quase como se o autor deste texto estivesse a pedir desculpa pelo atrevimento, mas, enfim, não se pode ter tudo: no fundamental, o que o dito autor adianta — com alguma surpresa sua mas sem surpresa nenhuma para nós outros, que já conhecemos de ginjeira a patranha da “língua universáu” — colide de frente e em cheio, como dois camiões TIR numa picada, com pequenos pormenores como, por exemplo, o Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC).

Esta legislação protege primordialmente a integridade da obra publicada; ou seja, para os leigos em matérias legais ou para os que se aborrecem sempre que lhes cheira a “trapalhadas” jurídicas, a edição, a composição tipográfica e a impressão de todos os exemplares de uma obra têm de respeitar na íntegra o original (equivalente, para todos os efeitos, a manuscrito).

Está absolutamente vedado, por conseguinte, a qualquer editor, o direito de modificar seja o que for (ortografia, sequência, cronologia, palavras, expressões, destaques, sublinhados, pontuação, sinais gráficos, qualquer didascália ou nota) no original de uma obra escrita, seja esta literária ou não.

A não ser, evidentemente, quando se trata de uma tradução. Ora, o facto é que qualquer livro brasileiro tem de ser literalmente traduzido para Português, no Brasil, assim como carecem de tradução as obras cujo original esteja escrito em Inglês, Francês, Espanhol, Checo, Farsi, Mandarim ou Catalão, por exemplo. Outro tanto é feito no “país-Continente”, onde obras de Fernando Pessoa, Eça de Queirós ou José Saramago, também por exemplo, são literalmente traduzidos para a língua brasileira.

Aliás, no Brasil não apenas traduzem as obras de Português para brasileiro, como chegam até ao ponto de  inserir  legendas no peito de qualquer tuga quando ele abre a boca perante uma câmara de TV e fala usando aquela estranha Língua que para os brasileiros é  incompreensível e que entendem ainda pior, uma palavrita aqui, outra acolá, do que o Espanhol ou o “americano”. As três são línguas estrangeiras — logo, alienígenas — com algumas semelhanças entre si (Francês é que “pricisa naum”) e que de vez em quando parecem-se vagamente com o brasileiro, enfim, dá para desenrascar se “o cara” for de férias para a Florida, Madrid, Buenos Aires ou o Algarve.

As “aberrações” que Lira Neto refere, à imagem e semelhança daquelas que citam alguns portugueses que se dizem “anti-acordistas”, constituem o fulcro de um dos truques de prestidigitação inventados por Malaca y sus muchachos: nos casos em que anteriormente ao “acordo” em Portugal (e PALOP) se grafavam sequências consonânticas (“corrupção”, “espectador”, etc.) que aqui são mudas mas no Brasil são articuladas, então — dizia a firma Malaca & Bechara e dizem ainda hoje alguns indígenas da tugalândia — há que repor cá essas consoantes “mudas” (para nós), sonoras no Brasil.

E, à boleia dessa vigarice, pretende-se que uma putativa CTR (Comissão Técnica de Revisão) apresente mais essa imposição brasileira como sendo outra “cedência” do Brasil. Este expediente permitirá que a cacografia brasileira imposta pelo AO90 passe de 98% para um número redondo, ou seja, 100%; nisto consistirá o “trabalho” dessa CTR, para cujas cadeiras e mordomias inerentes já se vai perfilando uma longa fila de intelectualóides tachistas, passe a redundância.

A forma “desprendida”, displicente ou “à desprezo” como este autor refere a adulteração praticada nas suas obras editadas em Portugal — imitando o mercenarismo de alguns vendidos tugas que impingem livrecos estropiados — vem comprovar dois factos: primeiro, que, ah, ganhar a vida custa muito, toca a vender livros, o que é preciso é pategada que os compre, pouco ou nada importa que mexam na escrita, estejam à vontade, alterar um original é ilegal… a não ser que o autor se esteja nas tintas; segundo, que, de entre todas as tangas com que tentam impingir o AO90 a tenrinhos, a “facilidade de publicação” (o mercado de livros “globáu”) não passa de uma das maiores de todas as fraudes apregoadas pelos escritores e editores acordistas — essa repelente borra de batido de bananas.

O tal Acordo Ortográfico serve apenas para semear grandes desacordos

Lira Neto
“Diário do Nordeste” (diariodonordeste.verdesmares.com.br) (Brasil), 25.05.21

 

Os livros publicados por editoras brasileiras costumam trazer, na página de créditos, a informação de que foram editados conforme o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa — tratado internacional que, firmado em 1990, por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e, posteriormente, Timor Leste, entrou em vigor em nosso país a partir de 2009. Por isso não deixa de ser curioso que obras de autores brasileiros precisem ser “adaptadas” ao serem publicadas em Portugal.

Acabo de passar por essa experiência insólita. Arrancados da terra, meu trabalho mais recente, começa a chegar na próxima semana às livrarias lusitanas. Ao ler as provas da edição portuguesa, constatei que muitas palavras estão grafadas de forma distinta da edição original. Onde escrevi “trajetória”, “incômoda”, “retangular” e “rebatizado”, por exemplo, os leitores lusos lerão, respectivamente, “trajectória”, “incómoda”, “rectangular” e “rebaptizado”.

Minha estimada e criteriosa editora em Lisboa, Eurídice Gomes, chefe da Divisão Literária do braço português do grupo editorial Penguin Random House, já havia me avisado que tal iria ocorrer. É uma praxe da casa, pelo menos para os gêneros de não ficção, ela me explicou. Respondi-lhe que em nada isso me incomodava, já que o propósito — óbvio e perfeitamente justificável — é proporcionar maior legibilidade ao texto para o público local.
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