Dia: 5 de Junho, 2021

As gordas

Neste admirável mundo novo em que vamos chafurdando alegremente é cada vez mais evidente que de facto não há almoços grátis. Ou seja, ao contrário do que parece significar a tradução do célebre título de Aldous Huxley, tantas vezes citado por — como de costume — gente que dele não leu uma única linha, rigorosamente nada de admirável existe nesse mundo premonitório a cuja materialização implacável vamos assistindo.

No qual mundo, aliás, além da lapidar máxima sobre gratuitidade, temos também de ir contando com os diversos corpos de polícia política (virtual, até mais ver, se bem que já brutal na acção) e respectivas organizações de bufos, denunciantes e colaboracionistas da “situação” que em conluio buscam o Nirvana da Verdade Oficial ou, em tradução para linguagem Orwelliana, o Grande Irmão — omnisciente, omnipresente e infalível — determina em nome dos cidadãos tudo aquilo que mais e melhor convém a estes, encarregando-se aquele da repressão “adequada” dos “desvios” e pecadilhos dos “renitentes”… alvos a abater.

«A República Portuguesa participa no processo mundial de transformação da Internet num instrumento de conquista de liberdade, igualdade e justiça social e num espaço de promoção, protecção e livre exercício dos direitos humanos, com vista a uma inclusão social em ambiente digital.» [Lei 27/2021]

Fazendo passar por intenções altruístas um chorrilho de lugares-comuns sem qualquer significado, apenas para “abrilhantar” com pétalas de palavreado os sinistros ditames do “Partido”, os “eleitos” da dita “situação” impõem com a força-bruta da sua condição de ungidos o que pode e não pode ser dito, o que deve ou não escrever-se, que reflexões ou ideias são banidas, o que é ou não é correcto, que significados podem ou não podem ser atribuídos aos significantes. E assim os insignificantes, ou seja, aquela entidade abstracta constituída por perfeitos idiotas incapazes de pensar ou de decidir por si mesmos seja o que for, passam a gozar de uma espécie de abençoada paz de espírito — o conforto digestivo do pão barato e o sossego divertido do circo histérico.

Nada de mais “normal”, por conseguinte, neste alucinante, alucinado e “moderníssimo” statu quo, a legalização do roubo puro e simples, do saque indiscriminado

Por exemplo, depois de nos Passos Perdidos — essa máquina de fabricar pechinchas — ter ficado selado um pacto de cegueira para que os Bancos possam cobrar aos depositantes sobre os seus próprios depósitos, o que é ilegal mas faz de conta que não, ou que os operadores de telecomunicações continuem a vigarizar os seus papalvos, digo, clientes, com todo o tipo de “taxas e taxinhas”, nos últimos tempos vamos assistindo também a uma nova “revolução” nos OCS (órgãos de comunicação social): à medida em que os títulos em suporte físico (papel) vão desaparecendo, os “media” em meios virtuais cobram assinaturas até por artigos de opinião (que os “gestores” 5G não pagam, é claro) informações e alertas de entidades sobre serviços públicos (que eles também não pagam, evidentemente), cópias em parcerias, etc., “assinaturas” essas que são cobradas aos clientes, digo, papalvos, porque além das receitas de publicidade online — intrusiva e amiúde abusiva — há que realizar receita, aumentar receita, sacar receita porque os aparelhos geram  novos ambientes de trabalho mas está fora de causa mexer nos ambientes porque isso dá imenso trabalho.

E assim, sob a cobertura de invenções nada virtuais como o copyright sobre conteúdos públicos ou sem encargos e as assinaturas parcelares à rédea-curta, à época ou ao ano, como as barraquinhas de praia,  já nos vamos habituando a “ler as gordas”, isto é, o título das notícias e os respectivos leads, quedando-se por aí mesmo (sob a ameaça do poder judicial, que isto ele os tribunais não brincam e nestas ingentes questões andam a jacto, o que é que julgam, estes assuntos não versam sobre minudências como os assassinatos, ou assim) a finalidade informativa dos órgãos de… informação. Em nome de “uma inclusão social”, a comunicação social exclui (evidentemente) os tesos em geral e os mais “renitentes” em particular, o que vem conferir todo um novo significado ao conceito de “social” que sistemática, nominativa e genericamente os diversos órgãos esvaziam de sentido.

Aqui estão, à laia de primeira dose, salvo seja, umas quantas “gordas” relativamente frescas: a primeira delas para arquivar na secção “Outros Detritos” e três sobre o A90, o contentor de “lixos indiferenciados” propriamente dito.

 

Povo pronto para todo o serviço

Clara Ferreira Alves – Escritora e Jornalista
“Expresso”, 21.05.21

Portugal regressou ao seu destino primordial, ser o oásis da Europa quando os outros estão fechados. Ser o país amável e vassalo que recebe os estrangeiros de avental e com um sorriso

 

Portugueses com vinte e poucos anos que não saibam explicar a razão do desembarque num aeroporto do Reino Unido e o que tencionam fazer no país, e não saibam responder que tencionam dar uma espreitada nas jóias da Coroa e ouvir as badaladas do Big Ben, têm à espera a deportação imediata ou a espera da deportação num centro de alojamento de migrantes ilegais. Será, na melhor hipótese, um daqueles edifícios de tijolo vitoriano, com arame farpado e vidros baços e sujos. Como outros jovens europeus na mesma situação, gregos, espanhóis, italianos, os latinos e sulistas do costume, para não mencionar os de Leste que são logo detectados e manuseados, não terão acesso a um advogado, direitos ou quaisquer serviços jurídicos até o país decidir o voo da devolução, e muito menos poderão pernoitar na casa de um familiar se o tiverem. Falar num familiar é má ideia, aí o interrogatório aperta e o jovem metendo os pés pelas mãos admitirá que teria ou gostaria de ter uma hipotética entrevista de trabalho ou um quimérico trabalho como ama ou criado de mesa. Uma cidadã espanhola com o namorado no Reino Unido passou três dias detida e foi devolvida a Espanha, tão traumatizada com a experiência que não tenciona voltar a Londres nunca mais. Aconteça o que acontecer, convém não mencionar a palavra trabalho, que implica um visto inacessível, e convém não ser jovem. Jovem cheira a migrante ilegal depois do ‘Brexit’.
(mais…)