Mês: Junho 2021

10 de Junho, Dia da Língua Portuguesa

Comemora-se hoje, 10 de Junho, o Dia de Portugal, da Língua Portuguesa, de Camões e da diáspora.

Esta é uma data a celebrar, efectivamente, e que nada tem a ver, pelo que em caso algum deve dar azo a quaisquer confusões, por lapso ou contaminação propagandística, com o dia da língua brasileira, a 5 de Maio; esta outra data, totalmente alheia a Portugal, aos portugueses e à sua Língua, consiste numa série de eventos artificiais patrocinados por brasileiros, pelo político profissional António Guterres, por uma organização brasileira (paga pelo erário público português) a que resolveram os implicados chamar “CPLP” e por uma pequena seita de fanáticos brasileirófilos misturados com alguns sôfregos capitalistas e um grupinho de rapazolas para ir apanhar as canas e servir umas caipirinhas.

Por exemplo (se bem que nestes casos exista um dever de observar alguma espécie de gravitas e de dignitas,  dado o estatuto de algumas das pessoas em causa), Cavaco, Malaca, Sócrates, Bechara, Lula, Reis, Santana e Canavilhas contribuiram — cada qual a seu modo e na medida das suas possibilidades políticas e das respectivas “influências” — não apenas para esgalhar o AO90, essa arma de destruição maciça da Língua Portuguesa, como também para inventar a festarola sambística do “5 de Maio“. Esta invenção ocorreu primeiramente em 2018 (caramba!, há três anos, mas que coisa antiga, vetusta, cheia de tradição e verdete) e no ano seguinte, 2019, a UNESCO, sabe-se lá por que bulas e a troco de quê, resolveu puxar o lustro àquela bota “proclamando” essa mesma data como “Dia Mundial” da língua brasileira.

Coisa estranha, esta suspeitíssima manobra diplomática junto da UNESCO, visto que parece ser esse “Dia Mundial” da língua brasileira, precisamente, um caso muito raro ou único. Existe naquele organismo supranacional o “Dia Internacional da Língua Materna”, o que consubstancia um conceito radicalmente diferente, por genérico e abrangente, mas qualquer pesquisa (interna ou via Google) por “Dia da Língua” (ou por “language day”) devolve apenas um resultado, no que respeita a línguas de países historicamente colonizadores: além do tal “5 de Maio”, o “Day” da “bambochata” do “pôrrtugueiss universáu”, não existe qualquer “Day” para qualquer outra Língua nacional. À excepção, evidentemente, dos dias dedicados às línguas de trabalho oficiais admitidas na ONU: Arabic (18 December), Chinese (20 April)English (23 April), French (20 March), Russian (6 June) e Spanish (23 April). Estes seis casos justificam-se por aquilo que representam (línguas de trabalho da ONU), mas o dia da língua brasileira é o único a fintar essa lógica formal.

Dever-se-á talvez rever a definição do verbo “tresandar”. Isto já não é uma história (muito) mal contada. Se a UNESCO e o próprio secretário-geral da ONU estão atolados em tão viscoso entroncamento de lamaçais, então estaremos não apenas perante uma das maiores burlas diplomáticas de sempre como vamos assistindo — muitos, com passividade ou indiferença — a um filme de encenação deprimente, péssimo guião, actores horríveis. Demasiado mau para ser verdade, de facto.

É hoje o único, o verdadeiro Dia da Língua Portuguesa. Eis uma certeza absoluta, séria e fiável.

Deixemos as alucinações para os imperialistas e os xenófobos, as mentiras para os desequilibrados e mitómanos, a verborreia para aqueles “intelectuais” em cuja cabeça apenas existe um preço escrito na testa.

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A arte de transformar uma ILC-AO numa ILCalem-se

Imagine-se o ridículo: pedir à AR que recomendasse ao governo que pedisse à AR que revogasse uma resolução da própria AR!

Nuno Pacheco
“Público”, 10 de Junho de 2021

Não há inspiração camoniana (“Cale-se de Alexandre e de Trajano…”) no título deste texto, apesar de hoje, 10 de Junho, se celebrar Camões, a par de Portugal e das Comunidades. Não, o motivo é outro e nada tem de metafórico; pelo contrário, é literal. Expliquemo-nos: há um “cantinho” reservado aos cidadãos na Assembleia da República (AR); não para se sentarem, para isso há as galerias, mas para intervirem na actividade parlamentar. É um espaço virtual onde podem ser apresentadas três tipos de iniciativas: legislativas, petições e referendos. E ali se acolhe o que a lei e as regras (há um manual do utilizador, com 23 páginas) permitem. Dia 7, por exemplo, estavam lá três iniciativas legislativas de cidadãos (ILC, com 3393, 3101 e 543 assinaturas, respectivamente) e 36 petições. A mais “pesada”, de Abril, tinha 192.129 assinaturas (para afastar o juiz Ivo Rosa), a segunda 10.625 e a última apenas 3.

Mas, antes delas, uma outra ILC foi fazendo um longo e duro caminho até estar composta, aceite e pronta à votação. Se não tivesse esbarrado, antes, num muro. Falamos da ILC-AO, respeitante ao Acordo Ortográfico (AO90) e de que já aqui se falou mais do que uma vez (declaração de interesses: sou um dos subscritores). As raízes de tal iniciativa remontam a 2008 e centram-se no segundo protocolo modificativo do dito: “[o AO90] entrará em vigor com o terceiro depósito de instrumento de ratificação junto da República Portuguesa.” Isto, que muitos políticos acharam natural, foi um golpe inadmissível. Um acordo que envolve oito países (depois de se lhes juntar Timor-Leste) não podia entrar em vigor só com o “sim” de três; ou melhor, só poderia se todos os oito tivessem ratificado essa alteração de fundo. Só que, de facto, quatro nem sequer ratificaram o acordo, quanto mais os dois protocolos modificativos; e os restantes fizeram-no com métodos e em datas bastante duvidosas, como também oportunamente aqui se demonstrou em Agosto e em Dezembro de 2019. Mas a verdade é que a Assembleia da República aprovou, pela Resolução n.º 35/2008, de 29 de Julho, esse inominável segundo protocolo. Objectivo da ILC-AO? Que a AR o revogasse.

Nestes muitos anos, e enfrentando mudanças de leis e regras, a ILC fez o seu caminho. Foi recolhendo assinaturas, entregou-as em Abril de 2019 (21.206 validadas, feitos os acertos) e foi transformada oficialmente em projecto de lei, com o número 1195/XIII. Datada de 30 de Outubro de 2019, a Nota de Admissibilidade concluía: “A apresentação desta iniciativa cumpre os requisitos formais de admissibilidade previstos na Constituição, no Regimento da Assembleia da República e na Lei sobre a Iniciativa Legislativa dos Cidadãos.” Tudo certo?

Sim e não. Porque depois o assunto emperrou. Em 6 de Novembro, baixou à Comissão de Cultura e foi como se tivesse baixado à terra, na acepção funerária do termo. Debateu-se, contrariou-se, pediram-se pareceres e… ignorou-se a Lei das ILC, a n.º 17/2003, que diz expressamente que o respectivo relatório e parecer devem ser elaborados no prazo de 30 dias e, esgotado tal prazo, a ILC deve ser agendada “para uma das 10 reuniões plenárias seguintes”. Ora o relatório/parecer só foi enviado ao Presidente da AR em 29 de Junho de 2020, com muitos 30 dias já gastos e só em 16 de Setembro de 2020 é que foi discutida em Conferência de Líderes, órgão ao qual cabe decidir a agenda do Plenário. E o que sugeriram os líderes em conferência? Que a ILC fosse transformada em petição. Imagine-se o ridículo: pedir à AR que recomendasse ao governo que pedisse à AR que revogasse a resolução da própria AR!
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European Portuguese

É inevitável, dizem eles: mais tarde ou mais cedo, a língua do Brasil será o padrão do “portugueiss”, a “língua universáu” e única, pela simples razão de que o Brasil tem “mais de 200 milhões” e Portugal apenas 10 milhões de indígenas; e é “pobre”, oh, raio de paíseco, desprezível chafarica, ainda por cima cheio de fulanos maçadores, tem portanto apenas o que merece, ou seja, será perfeitamente justo que o monstro brasileiro engula a “terrinha” e que, por conseguinte, a língua brasileira seja entronizada como língua nacional neste já retalhado quintal à beira-mar arroteado; quanto a nós, os ditos indígenas, “ignorantes” e “sem História”, devemos engolir (com gosto?) a afronta, há que ficar caladinho e agradecer aos neo-colonos a maçada de ocupar esta “porcaria” atrasadinha, miserável, paupérrima, começando por “adotar” a cacografia da “linda língua” em que se “canta” o samba e se cultiva o barulho com denodo e dedicação à “causa” dos trajes “tipo” fio dental.

Bem entendido, este texto do “The Portugal News” — um dos jornais publicados em Portugal para os residentes (e turistas) de língua inglesa, por acaso muito recomendável para qualquer português que se preze — não passa de um singelo exemplo, se bem que em vários aspectos, tanto de conteúdo no artigo propriamente dito como (ou principalmente) nos comentários que o acompanham (e enxovalham, por arrastamento, na enxurrada de insultos anti-portugueses de alguns trogloditas brasileiros); estes “comentários”, apesar da corajosa resistência de ingleses, são aqui apresentados a título meramente ilustrativo; muitas centenas de outros “mimos” endereçados por zucas aos seus primos tugas podem ser encontrados, por exemplo, no YouTube ou em comentários no Fakebook e no Twitter. São uns compinchas, os brasileiros, adoram-nos.

Esta matéria em concreto, em especial as eructações redigidas a propósito de Desculpem Brasileiros -We want European Portuguese!”, é algo carecendo de pinças para lhe pegar, devido à tendência para o vómito que da sua leitura resulta, já estava por aqui há mais de um ano, ficou a marinar, por assim dizer, mas pronto, é agora, noblesse oblige.

Entre outros aspectos, não desfazendo nas demais manifestações ultra-nacionalistas

ou xenófobas e os sumamente imbecis “gritos do Ipiranga” ao contrário, o factor comum à “opinião” dos brasileiros é a sua estranha obsessão pelo micro-manifesto, isto é, pelas frases soltas curtas (pejadas de erros, apesar da brevidade) endeusando o Brasil e diabolizando simultaneamente Portugal; julgam os zucas cumprir o seu desiderato histórico, uma espécie de II Império, mas agora em versão festiva, com tambores e carros alegóricos; numa espécie de bizarro silogismo, acrescentam, se eles são os maiores,  então a sua língua é proporcionalmente avassaladora, portanto o tuga — esse “xenófobo” que resiste à pax brasiliensis — que fale e escreva em brasileiro (para isso foi feito o AO90) e que se cale, meta a viola no saco (não sei dizer isto em brasileiro) e até agradeça à santinha do Corcovado pela benesse. Quando não, os xenófobos brasileiros, os maníacos anti-portugueses das cavernas paulistas ou cariocas atiram imediatamente com aquele epíteto que tanto agrada aos brasileirófilos tugas: os xenófobos somos nós, não eles; eles limitam-se a insultar tudo o que mexe em Portugal mas esse camartelo é para nosso “bem”, nós é que somos uma cambada de mal-agradecidos.

Se (ou quando) Portugal tomar a iniciativa de se tornar no 28.º Estado brasileiro (e os diamantes de Angola o 29.º e o gás de Moçambique o 30.º), então por fim tudo reentrará nos eixos, ali está o Paraíso, mesmo ao virar da esquina do tempo, a memória por fim extinta pela estupidez supremacista, esmagada pelo peso dos milhões.


Portuguese and brasilian Portuguese.
They are two separate languages, make no mistake about that.
So I agree that portuguese should be distinguished from Brazilian portuguese.
By Anabela from Lisbon on 06-03-2020 07:27

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Amei este Blog – I live in Brasil and my wife is Portuguesa and we plan on going to Portugal in two years -so I speak Portugues Brasileirobut also understand European Portugues Loved this Blog – !! Nota 10 !! By the way I as born in New Zealand
By Stephen Thomas from Other on 14-05-2020 03:00

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Portugal is the mother of the Portuguese language. Moreover, Brazil cannot compare to Portugal in living standard, wages, health care and so on. Brazil is a basket case like most other South American countries. And yes, I find it very difficult to understand Brazilians.
By John from Other on 10-03-2020 07:15

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Thanks for the article, but it should be marked as a sponsored piece or as advertising, not as news. As a US-born world citizen who has lived and worked in many countries, like my UK born husband, who lived and worked for many years in Southern Africa, our priority in coming to live permanently in Portugal was to learn the language, customs and values of our neighbours. We are the exceptions. Most of our friends are Portuguese and few speak any English. The other native English speakers we know also try hard to assimilate. We welcome information about any and all language techniques and take regular classes in Portuguese. Our goal is to become Portuguese citizens, because we love this place and its people, who welcomed us and help us every day. Obrigadinha maravilhoso Portugal.
By Jude Irwin from Beiras on 08-03-2020 09:26

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I’m a Brazilian journalist, and have always wondered why Portuguese-language countries ever signed the Ortographic Agreement back circa 2009 or sooner,  once all other Portuguese-language countries would keep on using their very particular words  like “puto” for boy, which is a very offensive term down here in Brazil. Just like Britons say lorry for truck. Just like they write s instead of z, colour instead of color, and so on. People in Portugal still write many words with a double c, as in acção, inspite of said “Agreement”. Scads of dictionaries were sold, for nothing, after all. Anyways, I can perfectly understand European Portuguese, just like an American would understand BE.The differences are just some words and the accent, in both cases.
By Luiz Leitão da Cunha from Other on 08-03-2020 12:08

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Interesting concepts, the truth is there’s is only one official Portuguese, as it was made standard a few years back, and the Brasilian Portuguese is deemed to be the official one, so eventually the younger generations growing in Portugal today, will be learning Brasilian Portuguese.
As for the brasilians making adjustments on how to speak when in Europe, it’s simple, depends where you’re from in Brasil, they will sound at lot like the Portuguese people.
And let’s be real, the Portuguese themselves cannot understand each other, from one region to another.
By Paulo Medeiros from Other on 07-03-2020 10:33

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Brazilian Portuguese is more evoluted and rich.The pronouce is easier and also Brazil is now one of the most counyry in the world.
By Antonio Heitor Santoro from USA on 07-03-2020 02:40

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On Brazil we are more then 200 millions so sorry Portugal the Portuguese is Brazilian already we even google accept that !
By Tomas Turbano from Other on 07-03-2020 10:57

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All these stupid comments give the sense of a certain “inferiority complex”. See, Portugal is an underdeveloped nation in Europe, economically, financially speaking. People are rude and that is reflected on the way they deal with the prevalence of Brazilian Portuguese. 210 millions people speaking an accent will prevail over the other 10 million folks, mostly when the latter are poorer. There’s no way around.Gotta accept it and deal with it with lots of resilience…
By G.O.A.T. from USA on 07-03-2020 10:50

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Primeiramente, a TV globo não representa o BRASIL, pois trata-se de uma concessão estadunidense que faz política e cultura em verde-amarelo.
Sou professor , e agora há pouco comentava com uma professora de língua portuguesa na escola em que trabalho sobre o idioma português que é falado no Brasil. Bem, assim como o idioma francês , o espanhol , o italiano e a língua lusa derivaram do Lácio romano, e, por consequência da evolução e transformações lingüísticas, se transformaram em expressões idiomáticas genuínas , acredito que o idioma português se transformará no Brasil em uma língua única, sob todos os pontos de vista e escrita. Somos diferentes, mui diferentes, patrícios. O mundo mudou , somos nações, hoje, que falam línguas diferentes, apesar da origem romano. Saúde à lusa Portugal !
By Francis Campos – Amazônia- Pará- Brasil from Other on 07-03-2020 02:15

“Desculpem Brasileiros -We want European Portuguese!”

By Advertiser, In Business · 06 Mar 2020, 01:00 · 54 Comments

Whether you’ve just arrived to Portugal or have already been here for decades, as a non-native, you’re sure to run into daily challenges with understanding the language when it’s spoken in real-life situations.

That’s why PracticePortuguese.com was created back in 2013, and quickly became the most popular method for learning European Portuguese online.

Combining Canadian native Joel Rendall’s practical estrangeiro perspective with Rui Coimbra’s passion for helping foreigners overcome plateaus as they learn his native language, these young co-founders have struck a balance between making online learning effective, while keeping it humourous, relatable and engaging.

Their online platform helps learners master the practical elements of European Portuguese, while improving comprehension skills using short, addictive bursts of practice, with their 1-2 minute “Shorties”; or their new video clips feature, featuring Portuguese natives of all ages speaking thousands of useful phrases.

“We know that there’s no one-size fits all approach to language learning”, explains Portuguese co-founder Rui Coimbra. “Everyone has different reasons for learning the language, different interests, and learning styles. That’s why we provide a wide variety of material for all of our members, and we strive to keep things simple and approachable.
We empower the adult learner by letting them go at their own pace, on their own schedule, all while choosing their own unique path. For example, if you’re buying a Portuguese property, then your language learning needs will be very different from someone who is vacationing for a week. That’s reflected in the flexibility of our platform.”

Based in Lisbon while serving the globe, Practice Portuguese is currently offering 15 percent off their monthly and annual subscriptions, at practiceportuguese.com/PortugalMag

The Portugal News

«Desculpem, brasileiros. Nós queremos Português europeu!»

Por Dep. Marketing, em “Business” · 06 Mar 2020, 01:00 · 54 Comentários

«Quer tenha acabado de chegar a Portugal, quer já cá esteja há décadas, não sendo aqui nascido, pode ter a certeza de que irá lidar com segurança nas mais diversas situações do quotidiano, compreendendo a Língua tal como ela é usada.»

«Foi por isso mesmo que PracticePortuguese.com foi criado, em 2013, tornando-se rapidamente no método mais procurado para aprender Português europeu online.

Combinando a perspectiva de um estrangeiro como é Joel Rendall, nascido e criado no Canadá, com a paixão de Rui Coimbra por ajudar estrangeiros a ultrapassar etapas na aprendizagem da Língua Portuguesa, estes co-fundadores estabeleceram um padrão de eficácia numa aprendizagem online objectiva, relacionada e envolvente.

A plataforma que montaram ajuda os explicandos a dominar os elementos práticos do Português europeu, desenvolvendo em simultâneo a compreensão através de exercícios curtos, quase viciantes, com os seus “Shorties” de 1 a 2 minutos ou através dos seus novos vídeos em que nativos de Português, de todas as idades, utilizam milhares de exemplos de frases mais significativas.

“Sabemos que não existe uma abordagem padronizada na aprendizagem de línguas”, explica o co-fundador Rui Coimbra.

“Cada pessoa tem os seus próprios motivos para aprender a Língua, tem interesses diferentes e diversos tipos de  aprendizagem. Por isso mesmo oferecemos a todos os nossos membros uma gama variada de matérias e esforçamo-nos para transmitir conhecimentos de forma simples e atractiva.”

“A formação de adultos acompanha o ritmo de cada qual, pelo que incentivamos cada um deles a seguir uma calendarização individual e a cada passo decidir que via e métodos mais lhe convêm. Por exemplo, se pretende comprar uma propriedade em Portugal, então os requisitos na sua aprendizagem da Língua serão muito diferentes dos de alguém que está a gozar uma semana de férias. Estes exemplos ilustram a flexibilidade da nossa plataforma.”

Com sede em Lisboa mas acessível a partir de qualquer ponto do Globo, a plataforma ‘Practice Portuguese’ está presentemente a oferecer um desconto de 15% nas subscrições mensais ou anuais. Ver em practiceportuguese.com/PortugalMag»

[Tradução de original em Inglês publicado em The Portugal News. Imagem de topo: página de Beethoven no Facebook.]

As gordas

Neste admirável mundo novo em que vamos chafurdando alegremente é cada vez mais evidente que de facto não há almoços grátis. Ou seja, ao contrário do que parece significar a tradução do célebre título de Aldous Huxley, tantas vezes citado por — como de costume — gente que dele não leu uma única linha, rigorosamente nada de admirável existe nesse mundo premonitório a cuja materialização implacável vamos assistindo.

No qual mundo, aliás, além da lapidar máxima sobre gratuitidade, temos também de ir contando com os diversos corpos de polícia política (virtual, até mais ver, se bem que já brutal na acção) e respectivas organizações de bufos, denunciantes e colaboracionistas da “situação” que em conluio buscam o Nirvana da Verdade Oficial ou, em tradução para linguagem Orwelliana, o Grande Irmão — omnisciente, omnipresente e infalível — determina em nome dos cidadãos tudo aquilo que mais e melhor convém a estes, encarregando-se aquele da repressão “adequada” dos “desvios” e pecadilhos dos “renitentes”… alvos a abater.

«A República Portuguesa participa no processo mundial de transformação da Internet num instrumento de conquista de liberdade, igualdade e justiça social e num espaço de promoção, protecção e livre exercício dos direitos humanos, com vista a uma inclusão social em ambiente digital.» [Lei 27/2021]

Fazendo passar por intenções altruístas um chorrilho de lugares-comuns sem qualquer significado, apenas para “abrilhantar” com pétalas de palavreado os sinistros ditames do “Partido”, os “eleitos” da dita “situação” impõem com a força-bruta da sua condição de ungidos o que pode e não pode ser dito, o que deve ou não escrever-se, que reflexões ou ideias são banidas, o que é ou não é correcto, que significados podem ou não podem ser atribuídos aos significantes. E assim os insignificantes, ou seja, aquela entidade abstracta constituída por perfeitos idiotas incapazes de pensar ou de decidir por si mesmos seja o que for, passam a gozar de uma espécie de abençoada paz de espírito — o conforto digestivo do pão barato e o sossego divertido do circo histérico.

Nada de mais “normal”, por conseguinte, neste alucinante, alucinado e “moderníssimo” statu quo, a legalização do roubo puro e simples, do saque indiscriminado

Por exemplo, depois de nos Passos Perdidos — essa máquina de fabricar pechinchas — ter ficado selado um pacto de cegueira para que os Bancos possam cobrar aos depositantes sobre os seus próprios depósitos, o que é ilegal mas faz de conta que não, ou que os operadores de telecomunicações continuem a vigarizar os seus papalvos, digo, clientes, com todo o tipo de “taxas e taxinhas”, nos últimos tempos vamos assistindo também a uma nova “revolução” nos OCS (órgãos de comunicação social): à medida em que os títulos em suporte físico (papel) vão desaparecendo, os “media” em meios virtuais cobram assinaturas até por artigos de opinião (que os “gestores” 5G não pagam, é claro) informações e alertas de entidades sobre serviços públicos (que eles também não pagam, evidentemente), cópias em parcerias, etc., “assinaturas” essas que são cobradas aos clientes, digo, papalvos, porque além das receitas de publicidade online — intrusiva e amiúde abusiva — há que realizar receita, aumentar receita, sacar receita porque os aparelhos geram  novos ambientes de trabalho mas está fora de causa mexer nos ambientes porque isso dá imenso trabalho.

E assim, sob a cobertura de invenções nada virtuais como o copyright sobre conteúdos públicos ou sem encargos e as assinaturas parcelares à rédea-curta, à época ou ao ano, como as barraquinhas de praia,  já nos vamos habituando a “ler as gordas”, isto é, o título das notícias e os respectivos leads, quedando-se por aí mesmo (sob a ameaça do poder judicial, que isto ele os tribunais não brincam e nestas ingentes questões andam a jacto, o que é que julgam, estes assuntos não versam sobre minudências como os assassinatos, ou assim) a finalidade informativa dos órgãos de… informação. Em nome de “uma inclusão social”, a comunicação social exclui (evidentemente) os tesos em geral e os mais “renitentes” em particular, o que vem conferir todo um novo significado ao conceito de “social” que sistemática, nominativa e genericamente os diversos órgãos esvaziam de sentido.

Aqui estão, à laia de primeira dose, salvo seja, umas quantas “gordas” relativamente frescas: a primeira delas para arquivar na secção “Outros Detritos” e três sobre o A90, o contentor de “lixos indiferenciados” propriamente dito.

 

Povo pronto para todo o serviço

Clara Ferreira Alves – Escritora e Jornalista
“Expresso”, 21.05.21

Portugal regressou ao seu destino primordial, ser o oásis da Europa quando os outros estão fechados. Ser o país amável e vassalo que recebe os estrangeiros de avental e com um sorriso

 

Portugueses com vinte e poucos anos que não saibam explicar a razão do desembarque num aeroporto do Reino Unido e o que tencionam fazer no país, e não saibam responder que tencionam dar uma espreitada nas jóias da Coroa e ouvir as badaladas do Big Ben, têm à espera a deportação imediata ou a espera da deportação num centro de alojamento de migrantes ilegais. Será, na melhor hipótese, um daqueles edifícios de tijolo vitoriano, com arame farpado e vidros baços e sujos. Como outros jovens europeus na mesma situação, gregos, espanhóis, italianos, os latinos e sulistas do costume, para não mencionar os de Leste que são logo detectados e manuseados, não terão acesso a um advogado, direitos ou quaisquer serviços jurídicos até o país decidir o voo da devolução, e muito menos poderão pernoitar na casa de um familiar se o tiverem. Falar num familiar é má ideia, aí o interrogatório aperta e o jovem metendo os pés pelas mãos admitirá que teria ou gostaria de ter uma hipotética entrevista de trabalho ou um quimérico trabalho como ama ou criado de mesa. Uma cidadã espanhola com o namorado no Reino Unido passou três dias detida e foi devolvida a Espanha, tão traumatizada com a experiência que não tenciona voltar a Londres nunca mais. Aconteça o que acontecer, convém não mencionar a palavra trabalho, que implica um visto inacessível, e convém não ser jovem. Jovem cheira a migrante ilegal depois do ‘Brexit’.
(mais…)

Gente que não tem noção [por Rui Valente]

 

Gente que não tem noção

 

No já longo percurso da ILC-AO [Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico] temos falado do AO90 como um “corpo estranho” no seio da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Se o objectivo da CPLP é aproximar os diversos povos que, de algum modo, foram tocados pela Língua portuguesa, faz todo o sentido que cada povo preserve, nesse encontro, a variante da Língua com que se identifica e que sente como sua.

Acontece que, em rigor, o “Português universal” do Acordo Ortográfico não só não é universal como não é mesmo de ninguém. Como é possível promover-se a troca de experiências ou o verdadeiro conhecimento do “outro” se a própria Língua utilizada, pretexto e mote desta ligação, é adulterada pelos participantes? Imagine-se um encontro internacional de gastronomia em que todos os intervenientes, independentemente da sua origem, apresentam aos congéneres a “sua” receita de pizza.

A frase lapidar de Sérgio Rodrigues — “o Acordo Ortográfico é gasolina no fogo do anti-brasileirismo em Portugal” — é apenas mais um reflexo deste trágico equívoco em que chafurda o Acordo Ortográfico.

Através das lentes embaciadas do AO90 não é possível conhecermos este “outro” que temos diante de nós — torna-se difícil, desde logo, percebermos o que representa para esse “outro” o próprio Acordo Ortográfico.

Neste campeonato da “falta de noção”, os brasileiros dão cartas. É lendária a intervenção de Amini Hauy, doutora em Filologia e Língua Portuguesa no debate sobre o Acordo Ortográfico promovido pela Câmara dos Deputados do Brasil: a propósito das “cedências” do Brasil no Acordo Ortográfico a emérita professora da Universidade de São Paulo ia enumerando(minuto 53): perda do acento nos ditongos (como “européia”), 1-0 para Portugal; perda do acento em “pára”, 2-0 para Portugal…

É claro que nada disto faz sentido. As “cedências” do Brasil no Acordo Ortográfico são acentos de que o país já tinha abdicado em 1945 e correspondem, na prática, a uma acentuação “que já ninguém usa”, para citar outro linguista brasileiro. Aliás, apresentar a perda do acento em “pára” como uma cedência do Brasil é particularmente caricato, tendo em conta que é em Portugal que a falta desta diferenciação se faz sentir.

Mas o que importa destacar no discurso de Amini Hauy é a retórica de confronto. É certo que a professora abomina o Acordo Ortográfico. Mas consegue, no meio de muitas críticas certeiras, introduzir a espantosa pirueta de apresentar o AO90 como prova do neo-colonialismo português.

De facto, é possível que alguém, no lado português, tenha cometido o absurdo de pensar o AO90 como forma de mantermos “algum controlo” da Língua. Mas é preciso muita falta de noção, no lado brasileiro, para percepcionar a aplicação do Acordo Ortográfico como uma imposição portuguesa e, como tal, neo-colonialista.

De forma mais moderada, o próprio Sérgio Rodrigues incorre nesta falta de noção, quando diz que, resistindo ao AO90, os portugueses recusaram a ideia de um “Português sem centro”. Só um brasileiro muito centrado em si próprio poderia acreditar que o AO90 iria ser visto como “coisa neutra” em Portugal. Além do Brasil, Portugal é o único país onde a Língua portuguesa é Língua materna. Qualquer português minimamente ciente das suas raízes sabe que o AO90 implicaria sempre um rude golpe na nossa identidade. Mas, na prática, a sua aplicação está a resultar num cenário ainda mais desastroso: à boleia da ortografia, intensificou-se a pressão sobre outras características identitárias do Português Europeu, como o nosso vocabulário e a nossa sintaxe. Na prática, a aplicação do AO90 em Portugal tem resultado na terraplanagem pura e simples, do Português Europeu, seguido da sua substituição pelo Português do Brasil.

Do ponto de vista da ortografia e do vocabulário, a meia dúzia de “peculiaridades” que se quis preservar (“facto” em vez de “fato” ou “aplicação” em vez de “aplicativo”) é de tal modo irrisória que não resiste à enxurrada.

Na reportagem que motiva o texto original de Sérgio Rodrigues dá-se conta de uma realidade em que brasileiros altamente qualificados vêem o seu trabalho reconhecido noutros países europeus, mas descartado em Portugal. “Para que serviu o Acordo Ortográfico, afinal”? Boa pergunta.

O facto é que nenhum brasileiro pensaria chegar a França ou à Alemanha, por exemplo, e singrar no mercado de trabalho escrevendo e falando em Português do Brasil.

Mas, em Portugal, graças à ilusão de unidade promovida pelo Acordo Ortográfico, esse desiderato parece ser possível. E as tais “peculiaridades”? Valerá a pena a diáspora brasileira em Portugal aprender, pelo menos, essa meia dúzia de excepções? Bem… para quê? Quando nós próprios enchemos o Diário da República de “fatos”, quando permitimos que empresas de “streaming” legendem o seu catálogo num “Português” que é afinal Português do Brasil, porque há-de um brasileiro preocupar-se com essas miudezas? Foi assim que, quando há dias consultei uma empresa que promove visitas guiadas ao Pico, nos Açores, tive de preencher um formulário de “registro”.

Estarei a ser picuinhas? Para o colunista Rui Tavares, sem dúvida. Não foi por ler “registro”, “usuário” ou “setembro” que deixei de perceber o que me foi pedido. O que importa é que a gente se entenda, não é verdade?

Mas… quem é o colunista Rui Tavares para decidir o que é e não é importante?

ILC-AO

Diz-nos a experiência que, hoje em dia, sempre que há contacto entre Portugal e o Brasil, o esforço de comunicação e de inteligibilidade é quase todo nosso — porque vemos novelas, porque os nossos filmes não são dobrados, porque a nossa escolaridade não será assim tão má, os portugueses têm geralmente mais “ouvido” e estão quase sempre mais capacitados para fazer as despesas do entendimento.

Do nosso ponto de vista, o Acordo Ortográfico não tem outra utilidade que não seja facilitar ainda mais a vida dos brasileiros em Portugal. Não admira, portanto, que, volta e meia, alguém diga “assim, não”. E daí a “acusação” de anti-brasileirismo ou xenofobia.

Mas não tenhamos ilusões. Num mundo feito de acções e reacções, este recém-descoberto anti-brasileirismo não é mais do que a resposta possível ao gigantesco acto de anti-portuguesismo que constituiu o Acordo Ortográfico. E, disso, os brasileiros não têm culpa.

Pela parte que me toca, sempre me senti próximo da cultura brasileira. Na infância, lia “O pato Donald” da Editora Abril. Em adulto li todo o teatro de Nelson Rodrigues, todas as biografias de Ruy Castro. De Manoel de Barros a Ruben Fonseca, de Caetano Veloso a Chico Science, do MASP à terça-feira aos teatros da Praça Roosevelt, a cultura do Brasil resiste a tudo e é incontornável. Sempre gostei da ideia de falarmos duas variantes da mesma Língua, bebendo do “outro” aquilo que mais nos encanta. Mas há uma diferença abissal entre uma proximidade que é querida pelas duas partes e a situação actual, em que o “outro” nos é imposto em doses cavalares, sem hipótese de escolha e em detrimento da nossa própria identidade.

Se a única hipótese de retomarmos o controlo da nossa variante da Língua — e o nosso amor-próprio enquanto portugueses — for a separação oficial das duas variantes, então, obviamente, prefiro a separação. Eis aqui, finalmente, um resultado concreto do Acordo Ortográfico!

Chegados a este ponto, para os movimentos independentistas brasileiros a minha mensagem só pode ser esta: andem lá com isso! E se os rótulos de “neo-colonialistas” ou de geradores de “preconceito linguístico” ajudarem, venham eles.

Mas depressa! — não vá algum iluminado do Acordo Ortográfico lembrar-se de manter em Portugal a ortografia do AO90, mesmo quando já não houver (oficialmente) acordo algum.

Rui Valente

A Carta

«Aproximou-se e veio reto na minha direção. “Desculpe, mas não concordo!”, disse ele. Perguntei com o que não concordava e ele então declamou duas ou três estrofes de “Os Lusíadas”. E declamou bem. Muito bem. Depois de uma pausa bem pensada, declamou um poema, que não identifiquei. Também declamou muito bem, olhando o tempo todo na minha direção, como quem demonstra uma tese ou dá uma aula. Quanto terminou, ficou em silêncio, aguardando. Eu não sabia o que dizer da demonstração, então agradeci e lhe perguntei de quem era o segundo poema. Ele respondeu que era dele. E completou: “Não é a mesma língua! Por isso, discordo”. E fez menção de ir embora. Eu então lhe perguntei com quem tinha tido o prazer de falar e ele me estendeu a mão, dizendo: “Ah, desculpe. Muito prazer, Geraldo Vandré.” E foi embora.» [Paulo Franchetti]

Aqui vai mais um texto de cariz independentista e, por conseguinte, identitário, na sequência da mais recente (e justa) ofensiva anti-acordista que tanto em Portugal como no Brasil vão definindo — sem tergiversações, sem  mentiras e sem sequer “considerandos”, por regra manhosos — a única saída possível para o AO90: essa manobra política não serve para nada, a “língua universal” é um absurdo impraticável, portanto anule-se o “acordo” e que a língua do Brasil siga por si mesma, separando-se finalmente da matriz portuguesa. Ou, para utilizar a expressão de Paulo Franchetti, mais um dos autores brasileiros*** a constatar a definição da expressão portuguesa “óbvio ululante”, “não é a mesma língua!”.

À semelhança do anterior, este outro artigo de outro autor brasileiro, foi também ele publicado num jornal do lado de lá. Lado de lá esse que, no caso vertente, isto é, a luta pela independência da língua brasileira, em nada difere do lado de cá: quanto a isso, sim, as pessoas do lado de lá, do Brasil, estão em perfeita sintonia com as do lado de cá, de Portugal. Finalmente, em suma, estamos uns e outros de acordo quanto a todos os assuntos relacionados com a Língua de cada qual, afinal era (é) facílima — e mais do que evidente — a solução: agora que já não é criança nenhuma, cresceu, desenvolveu-se durante dois séculos, a natureza das coisas segue apenas as coisas da Natureza, a língua do Brasil seguirá o seu próprio caminho, basta que corte de uma vez por todas o cordão umbilical que à força alguns — de lá e de cá — tentaram remendar.

Remendar um cordão umbilical é tão absurdo como banir uma recordação, como rasgar uma carta, como emendar o passado. E emendar o passado é tão impossível como reescrever a História.

(Des)Acordo Ortográfico

Nelson Valente

www.diariodaregiao.com.br, 27.05.21

 

Quantas vezes na vida você já perguntou: Como se escreve tal palavra mesmo? É com z ou com s? Tem acento? (assim mesmo sem circunflexo, pois o chapeuzinho só vai na cabeça antes de plural), tem hífen? Essas dúvidas sempre existiram e vão continuar existindo, só que o novo acordo ortográfico, que de novo não tem nada, pois começou a ser elaborado há 29 anos, mas só entrou completamente em vigor em 2016, ao invés de ajudar, parece ter atrapalhado ainda mais a escrita.

Quer um bom exemplo? Quando uma criança está fazendo a lição de casa e tem uma dúvida, pergunta para quem? Os pais, é claro. Só que a grande maioria desses pais foi educada na transição do acordo ortográfico, portanto cresceram com as mesmas dúvidas. Aí a solução é dar um “google” e eis que a quantidade de explicações é tão extensa, muitas citando outras regras gramaticais, que geralmente a dúvida não é esclarecida e ainda aumenta.

Claro que em educação nada acontece em curto espaço de tempo, mas a demora e o sentimento de que o Acordo Ortográfico dos países de Língua Portuguesa se tornou uma nau sem rumo está criando gerações com grave déficit de escrita. Quando os jovens são chamados aos concursos públicos, o que, infelizmente, está ocorrendo com frequência cada vez maior, a falta de familiaridade com a norma culta da língua tem levado a resultados desastrosos, como assinalam os famosos Exames de Ordem da OAB. As reprovações acontecem em massa (às vezes o índice é de 80%). Lê-se pouco e escreve-se mal, o resultado só pode mesmo ser deprimente. Isso infelizmente alcança também os exames para o magistério. É fácil imaginar o que ocorre quando o indivíduo se expressa verbalmente, em que as agressões ao vernáculo doem em nossos ouvidos.

O português brasileiro precisa ser reconhecido como uma nova língua. E isso é uma decisão política. A língua é uma força biológica: não se pode modificá-la com uma decisão política. É preciso dizer, com todas as palavras, em alto e bom som: o português brasileiro é uma língua e o português europeu é outra. Muito aparentadas, muito familiares, mas diferentes. Já existe outro sistema linguístico totalmente diferente do português lusitano no português falado hoje no Brasil.

Sabemos que 75% da população brasileira é analfabeta funcional. São 218 milhões de pessoas e, entre elas, estão nossos docentes de língua portuguesa. Não vamos nos iludir. O Brasil não tem tradicionalmente uma política linguística. A difusão do português brasileiro no exterior ocorre quase por inércia, mais pela importância que o Brasil vem assumindo geograficamente, geopoliticamente e economicamente. Portugal, ao contrário, tem uma política linguística, tem o Instituto Camões, com mais de mil professores espalhados pelo mundo todo, enquanto o Brasil tem 40 leitorados. Cria-se aí, já, uma diferença.

Nós que tínhamos de ter uma política linguística mais agressiva, mas temos uma posição de colonizados, de que, se Portugal já está lá, não precisamos ir. Precisamos, sim. Nós somos 90% de quem fala português no mundo e somos a 7ª economia mundial. Portugal, ao contrário, está no fundo do poço, com essa crise horrível que acontece por lá. Nós que temos de investir e brigar pelo nosso espaço, porque as pessoas de fato querem aproveitar as oportunidades que nós oferecemos.

Não dá para impor uma língua de uma hora para outra a um povo. O padrão da língua no Brasil deve ser a língua falada pela maioria da população brasileira contemporânea, que é o português brasileiro. O que ocorre com o dito Novo Acordo Ortográfico é que na verdade Portugal “colonizador” quer colonizar a língua portuguesa. O que ocorre é um conflito entre português de Portugal e português brasileiro nas escolas. Pois quando um aluno diz que não sabe português, na verdade, está dizendo que não sabe as normas da gramática do português ensinado na escola.

A implementação do dito Acordo é simplesmente uma bagunça, é o caos linguístico; é uma desgraça! É a bancarrota da Língua! E a consequência é o caos linguístico que se está verificando nas escolas, na comunicação social, falada/escrita/ouvida e lida. Para que não ocorra um desacordo na nossa língua, quem sabe daqui a alguns anos apaguemos o “português” e fique só o “brasileiro”.

Nelson Valente
Professor universitário; jornalista; escritor

[Transcrição integral de artigo, com o título “(Des)Acordo Ortográfico”, da autoria de Nelson Valente, publicado no jornal brasileirowww.diariodaregiao.com.br em 27.05.21. Destaques e sublinhados meus. Inseri “links” e imagens. Imagem de topo(no artigo): por Pedro Américo – Martins, Lincoln. Pedro Américo: pintor universal. Brasília, Federal District: Fundação Banco do Brasil, 1994 ISBN 85-900092-1-1, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=20218656. Imagem de topo de: VortexMag (Brasil).]
[Nota: quando os autores são brasileiros é aqui conservada (evidentemente) a ortografia dos originais.]
[*** Outro nome incontornável, de entre os oposicionistas-independentistas brasileiros, é também o do professor, doutor em filologia, linguista e escritor Marcos Bagno.]