Portugal dos piqueninos

Nada surpreendentemente, vistos os inúmeros casos aqui já citados, exumados e autopsiados in situ, o verdadeiro trabalho de “implementação” da língua brasileira é “obra” não de acordistas, mas, no fundamental, gratuita e alegremente executado por anti-acordistas ou então, pior ainda, por indefectíveis do NIM — a maralha sempre de bem com todos, os “tipos fixes” a quem jamais ocorre dizer NÃO seja ao que for nem SIM a coisa alguma; uma sub-espécie perigosa, a dos fiéis do abençoado e tranquilo “meio-caminho”, a terrível substância alucinogénia que tantos tóxicodependentes criou em Portugal.

Não deve ser muito difícil entender o mais elementar dos raciocínios a respeito das tácticas de contra-informação e de intoxicação da opinião pública e, portanto, do logro colossal veiculado e da geral anestesia induzida na propaganda, na “narrativa” da seita que se ocupa da demolição da Língua Portuguesa.

Fazer o jogo do adversário é algo que pode ser sintetizado numa relação de causa e efeito tão elementar, de resto, num silogismo de tal forma evidente que verbalizá-lo torna-se quase tão ridículo como explicar uma anedota: se tem alguma, perde a piada toda.

Atirar ao boneco, assim como fazer mira com os dois olhos fechados, sempre acertando ao lado e falhando por sistema, irritantemente, duas imagens que nada têm de metafóricas devem chegar e sobrar para ilustrar o conceito: o AO90 é uma manobra política (premissa maior) contra a qual apenas armas políticas podem e devem ser usadas (outra premissa maior), logo (conclusão), utilizar armas de outro tipo implica a menorização (ou a pura e simples abolição, através do “ruído”, das manobras de diversão) do objectivo que inicialmente se pretendia atingir, errando o alvo em que teoricamente se dizia pretender acertar.

Aqui está mais uma amostra do teorema, neste caso ainda mais flagrante do que o costume, quanto mais não seja pela quase alucinante profusão de encómios e a não menos generosa prodigalidade na adjectivação laudatória. Escrito em Português, ao menos isso, mas no resto quase um desastre.

Sem sequer ralar-se com os rituais da ordem, sem declarações de militância prévias contradizendo flagrantemente os disparos de Diana 50 que acertam no tecto da barraca de tiro-ao-alvo, sem referir uma única vez o AO90, prudentemente, lá vem a lenga-lenga da “universalidade” da língua (a brasileira, pressupõe-se, por exclusão de partes), das “potencialidades” da língua (idem, aspas) e de outras formas de pirotecnia becharo-malaquenha. Embora esteja de todo esgotada a paciência até do mais pachola, convirá ao menos ler de relance esta mescla de “patriotismo lusofónico” com “universalismo” (isto é, de idolatria de um quimérico e sumamente idiota Império “liderado pelo Brasil“), esta sopa de grelos romanescos com nabo grandiloquente, ah, caldinho catita porém um pouco insosso, uma pitadinha de sal era capaz de lhe “puxar” o sabor, chega-me daí o saquinho dos negócios estrangeiros, vai sal e apimenta-se de caminho.

«Hoje Portugal já não é um império, nem Lisboa essa cidade global, mas é-o a sua língua», por exemplo, diz o senhor que redigiu a coisa. Caramba! Mas que festival!

Ele é um «universo que pensa e fala» onde, pelos vistos, haverá sacanas a «deixar-se contaminar, e hoje é uma língua com vários donos, ou sem dono», ou terei porventura entendido mal, o autor deve pretender expressar o contrário, ora bolas, terá sido talvez pela bofetada que levamos em plenas, atónitas faces, com aquela do «pequeno país» (Portugal, aposto), que o Brasil é “um gigante” (também aposto que esta outra ribombante constatação há-de constar com certeza do arrazoado), essa raramente falha nestas loisas encomiásticas. Enfim, não sei bem, ou seja, “de ciência certa”, devo ter ficado esmagado, abananado, ofuscado com qualquer outra frasezinha elegantérrima, talvez a que postula ser «São Salvador, a cidade mais africana do Brasil», ora toma, pim, ou a outra, também lapidar e tremenda, catando da História que a «população portuguesa foi formada e formatada a visualizar um mapa que mostrava um Portugal do Minho a Timor». Olha, cá está, “do Minho a Timor”, já tal se dizia no tempo da “Outra Senhora”, ele a gente nunca espera o que nos aparece pela proa, há quem diga que é o destino, para outros o azar será, pois eu cá lamento mas não faço a mínima ideia de o que raio quer aquilo dizer.

Assim como também não sei, só o escriba saberá, calculo, em quê depositar (quem?) a esperança em «2026, esse ano mágico», na demanda de uma hipótese em que “talvez” «consigamos ter revelado e reavivado a teia de cumplicidades». Linguagem codificada, quase de certeza, ou então estará reservada a membros e por isso é naturalíssima a reserva, existem assuntos assim mais para o sigiloso que é de bom tom conservar em latas estanques.

Sobre a “teia de cumplicidades” estamos já bem mais do que conversados; não resta qualquer sombra de mistério nem permanece a menor dúvida sobre onde e quando, qual foi ao certo o móbil do crime e quem teceu a aracnídea teia.

É absolutamente impossível redigir um texto tendo a Língua Portuguesa como tema único sem jamais referir a própria escrita em Português, a Gramática portuguesa em qualquer das suas componentes, sem ao menos vagamente aludir à ortografia (ou ao léxico, ou à sintaxe, ou à prosódia) e, portanto, sem referir uma única vez o AO90 (ou a CPLP ou o IILP ou “o Camões” ou a BrasiLusa ou a Wikipédjia), mai-la sua esmagadora parafernália de armas de intoxicação em massa e quem as opera, quem põe o dedo em que gatilho. 

Que farei com esta Língua: uma Aldeia Global ou o Portugal dos Pequenitos

Carlos Fragateiro
“Ípsilon” (jornal “Público”), 25 de Junho de 2021

 

Potenciar a língua obriga-nos a ser capazes de pensar o seu universo como uma realidade plural e com vários centros, os pilares da construção de uma cartografia do e para o universo que pensa e fala em português.

1. Há mais de 500 anos, os portugueses, os mais aventureiros, saíram de Lisboa e partiram para o mar, não para aquele que seria o mais cómodo e familiar, o Mediterrâneo, mas para o desconhecido, para o mais perigoso e ameaçador e que poderia levá-los em direcção ao abismo, o Atlântico. Essa decisão levou-nos ao encontro de e com outros mundos, até então desconhecidos para os europeus, conduziu à criação do que hoje se chama a primeira aldeia global, e permitiu que Lisboa se tivesse tornado no centro comercial do novo mundo.

Hoje Portugal já não é um império, nem Lisboa essa cidade global, mas é-o a sua língua que, pela sua profunda ligação ao mar, o espaço da não fronteira por excelência, construiu mais pontes que muros.

Porque vinda de um pequeno país, esta língua foi obrigada a dialogar, a fundir-se, a deixar-se contaminar, e hoje é uma língua com vários donos, ou sem dono, que é o que distingue os tempos de hoje dos do início da sua viagem há mais de 500 anos, altura em que o mapa da língua se desenhava a partir de um só lugar, de Portugal e Lisboa, mapa que hoje se desenha a partir de múltiplos lugares.

É o ser uma língua sem dono, e o trazer dentro de si todo o mundo e de estar em todo o mundo, que a torna num instrumento privilegiado para responder aos desafios que a pandemia está a colocar: deixar de olhar o mundo a partir da nossa casa ou do nosso país, como centro de tudo, pois não há muros ou fronteiras que defendam o nosso bem-estar, se esse bem-estar não existir em todo o mundo.

2. Potenciar a língua obriga-nos a ser capazes de pensar o seu universo como uma realidade plural e com vários centros, os pilares da construção de uma cartografia do e para o universo que pensa e fala em português. Pilares de que, entre outros, são exemplos: São Salvador, a cidade mais africana do Brasil; Manaus, que, ao lado da Reserva da Biosfera da Ilha do Príncipe, pode ser o grande centro internacional da ecologia e do ambiente e da defesa das culturas e das línguas minoritárias; Goa a cidade/estado de encontro entre o ocidente e o oriente; o Faial, com o Café Peter e o centro de Oceanografia, que, tal como Cabo Verde, é uma plataforma no Atlântico. Estes pilares, porque têm já no seu ADN os gérmenes deste mundo global da língua, são, em cada país ou comunidade, os espaços de cruzamento de ideias e lançamento de projectos que liguem os diferentes pilares e construam as pontes que darão densidade à rede com que o universo da língua portuguesa atravessará todo o mundo.

Reforçar esta rede, e a sua capacidade de intervir globalmente, obriga à construção de uma plataforma onde se cruzem os diferentes projectos e se simulem os cenários para o futuro ou os futuros possíveis. Plataforma que não se limite a descrever o mundo como ele é, mas a criar uma nova forma de o ver, imaginando o inimaginável, sonhando o impossível e fazendo com que ele aconteça.

3. Há uns tempos, num seminário maioritariamente frequentado por europeus, pediram a um doutorando angolano para desenhar o mapa do mundo e, para surpresa de todos, ele começou a desenhá-lo pelo continente africano, e não pela Europa como nós, portugueses e europeus, o fazemos. Fizeram o mesmo pedido a um brasileiro que desenhou o mundo a partir do continente americano.

É em momentos como estes que nos sentimos incapazes de visualizar o mundo de outra forma da que era apresentada no mapa que estava sempre presente nas nossas escolas, com a Europa no centro a América tão distante da China, de tal modo que hoje, sabendo claramente que a terra é redonda, ainda pensamos nas longas viagens que os americanos têm de fazer para chegar perto da China, ignorando completamente o oceano Pacífico e que as viagens não têm necessariamente de passar pela Europa, podendo fazer-se pelo outro lado do mundo.

Tal como o que acontece com a percepção do mapa, o mesmo acontece com a história de África, que se escreveu tendo os europeus e colonizadores no centro, como se essa história só tivesse começado com a sua chegada. É com essa mesma história que os africanos cresceram, uma história contada na perspectiva dos colonizadores, contada por aqueles que tiveram os meios e o interesse necessários para o fazer. Por isso é natural a estranheza que sentimos quando somos confrontados com a publicação de dois livros sobre personalidades africanas, a Rainha Jinga e Gungunhana. A primeira era-nos totalmente desconhecida, já o Gungunhana associamo-lo a uma foto dos tempos de escola, onde um negro enorme estava sentado no chão e com as mãos presas, demonstrando o poder dos portugueses em África e sobre os africanos.

Esta forma como interiorizámos o mundo é, para nós portugueses, o maior obstáculo e a maior dificuldade para assumirmos a dimensão do universo da língua como uma realidade pluricêntrica. Uma parte significativa da população portuguesa foi formada e formatada a visualizar um mapa que mostrava um Portugal do Minho a Timor, mapa que, por muito que não o queiramos, está profundamente enraizado em cada um de nós, e as gerações posteriores ao 25 de Abril não foram sensibilizadas para pensarem uma cartografia do mundo onde o potencial do universo da língua esteja presente e seja potenciado.

4. As comemorações do Dia Mundial da Língua Portuguesa que se organizaram um pouco por todo o mundo reafirmaram declarações de intenções que há muito tempo vêm sendo anunciadas, não podendo deixar de referir a desilusão que foi, entre nós, o Lisboa 5 L, um festival literário que poderia ter marcado a diferença e não passou dum conjunto de retalhos mal ligados, a quase ausência dos Teatros Nacionais, que deveriam ser os palcos privilegiados desta língua, e a falta de comparência do futuro Museu da Língua Portuguesa de Bragança.

Marcaram as comemorações o anúncio da edição do primeiro dicionário de português de Moçambique e as comemorações organizadas pelo Museu da Língua Portuguesa em São Paulo que mostraram mais uma vez como o projecto do Museu é sólido e tem sentido. Um projecto que só é possível porque o Brasil se libertou há muito das amarras coloniais, e, por isso, está muito mais solto para trabalhar na afirmação e cruzamento das várias realidades existentes, fazendo pontes com os países e os continentes donde muitas das suas famílias são originárias, procurando a importância que a África, e os muitos escravos que de lá vieram, tem na formatação do Brasil como ele é hoje, sem esquecer os nativos que sobreviveram à colonização.

5. Até 2026, a data mágica em que se vão sentir os efeitos dos investimentos realizados com os fundos europeus, vão realizar-se em Lisboa, em 2022, a 2.ª Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos, em 2023, as Jornadas Mundiais da Juventude e, em 2024, comemoram-se os 50 anos do 25 de Abril. Acontecimentos que têm África em comum: a 2.ª Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos é organizada conjuntamente por Portugal e o Quénia; as Jornadas que o Vaticano quer que sejam uma abertura para o continente africano, onde nunca se realizaram; e o 25 de Abril que representou o início duma relação entre parceiros com os novos países africanos independentes.

Estes encontros e comemorações podem ser a oportunidade para o reencontro urgente com África, uma África que, apesar de todas as violências que sofreu, foi capaz de nos oferecer líderes exemplares como Mandela, um exemplo de diálogo e respeito pelo outro, e uma filosofia da humanidade como o ubuntu. E ao reencontrarmo-nos com África, o continente dos 3 mares, tal como ocorre com a língua portuguesa, vamos ter a possibilidade de ligar todo o mundo e abordar as questões com que a nossa Casa Comum, a nossa Terra Mãe, se confronta:

– as migrações, que transformaram o Mediterrâneo, o mais importante da humanidadeo mais civilizado dos mares, como escreveu o historiador britânico David Abulafia, ou o epicentro da história do ocidente desde os fenícios, como o diria Fernand Braudel, num mar de migrantes desesperados que procuram na Europa os braços abertos do humanismo que lhes vendemos durante séculos e que hoje lhes negamos;

– o ambiente, pois no Atlântico há pulmões através dos quais o mundo respira: a Amazónia e a Mata Atlântica no Brasil, o Parque Natural de Òbo em São Tomé e Príncipe, as florestas tropicais da África lusófona, a floresta Laurissilva da Madeira;

– a juventude e o futuro, pois os países onde a juventude é dominante, a economia é cada vez mais pujante e a inovação tecnológica tem um papel determinante, estão situados no Índico.

Com o objectivo de que em 2026, esse ano mágico, consigamos ter revelado e reavivado a teia de cumplicidades, mostrando que nos diferentes mapas há territórios com potencialidades únicas e que esta língua, que está em todo mundo e que transporta todo o mundo dentro dela, é um instrumento para a invenção de outras formas de nos relacionarmos com esta casa mãe, com o nosso planeta.

[Transcrição integral. Autoria: Carlos Fragateiro. Publicação: “Ípsilon” (jornal “Público”), 25 de Junho de 2021. Imagem de carabina Diana 28 de: “Il Mercatino Del Tiro“. Citação de Sófocles, imagem de página Facebook: “Poets“. Citação de Marco Aurélio, imagem de página Facebook de: “Thinking Humanity“.]

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1 Comment

  1. Permito-me reproduzir aqui o comentário que enviei para o jornal a propósito deste artigo de opinião:
    “Caro Carlos Fragateiro: por favor, não se iniba — escreva em acordês, homem! Causa alguma impressão ler tamanha apologia do Acordo Ortográfico escrito em Português correcto. Quererá porventura convencer-nos de que a Língua que enaltece neste texto (apesar de nunca o referir) é a mesma com que o escreve?”

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