Dia: 22 de Julho, 2021

Aniversário fúnebre

Terminou aquela insuportável cerimónia fúnebre e, do cadáver adiado, em câmara ardente durante dois dias, sobraram pela 13.ª vez apenas os despojos do costume: discursos ocos de alguns convivas, os lugares-comuns rituais, com especial destaque para as baboseiras proferidas pelo primeiro-ministro António Costa e pelo Presidente Marcelo, e, para findar com um remate sinistro o geral vazio de ideias e a total ausência de princípios, foi oficializada a entrega das riquezas naturais de Angola aos interesses económicos do Brasil; o mesmo que sucederá, já de seguida, a Moçambique e a qualquer das outras ex-colónias portuguesas onde, por mero acidente da fortuna, para tremendo azar dos locais, porventura sejam descobertos filões de ouro, diamantes, petróleo, gás, pedras preciosas ou até madeiras exóticas, terras para cultura intensiva, mão-de-obra barata…

Na verdade, esta era de ultra-capitalismo — feroz, selvagem, virulento — ficará para a História do Esquecimento como sendo aquela em que a espécie humana ultrapassou, talvez irreversivelmente, a barreira da sua própria condição: o ser-humano deixará para a posteridade uma mole de gente indistinta, massas inertes infinitamente replicadas, peças de uma gigantesca máquina que sabe o preço de tudo e não conhece o valor de nada.

No artigo que se segue um cronista — português, logo, minimamente alfabetizado — irrita-se muito justamente com a aniversariante organização brasileira (paga, com magnanimidade, pelos impostos dos portugueses) e atira-se às canelas, em sentido figurado, note-se, do também ele optimista irritante Costa e do ainda mais irritante Marcelo, o Presidente-Rei que ficará para os anais com o cognome de O Baril.

Além de algumas preciosas (e tenebrosas) revelações, o autor utiliza (e bem) a Guiné Equatorial do ditador sanguinário Obiang como sendo um (ou o) problema fulcral da Comunidade dos Países de Língua Oficial brasileira. Pois sim, vale pela intenção, mas não, esse é o menor dos problemas da brasilofonia e da CPLB. Problemas reais são a neo-colonização às avessas e a extinção da Língua-matriz substituindo-a pela cacografia e o léxico e a prosódia e a sintaxe transitoriamente em uso no Distrito Federal de Brasília.

A CPLP irritante

João Gonçalves*

 

Se realizarmos uma sondagem fora do “meio” sobre o significado do acrónimo CPLP, poucos saberão – e não perdem nada com isso – tratar-se da “Comunidade dos Países de Língua Portuguesa“.

 

Esta CPLP reúne em “cimeiras”. Desta vez, coube a Luanda receber mais uma. Lá foram Marcelo e Costa, este devidamente parabenizado num jantar oferecido pelo general Lourenço. Consta que Marcelo “puxou” pelo “parabéns a você nesta data querida” e ambos, Costa e Marcelo, desmentiram existir qualquer “irritante” entre eles. Fizeram juras de acrisolado “amor” institucional que culminaram com Costa, no seu tradicional registo de brutalidade política, a insinuar que a Guiné Equatorial entrara na CPLP, em 2014, pela mão de Passos e de Cavaco. Vamos por partes. Logo à cabeça, a língua. Acerca da qual ninguém, na prosélita CPLP, se entende por causa do “acordo ortográfico” de 1990. No país do sr. Obiang, então, a questão nem se coloca. A Guiné Equatorial ignora por junto a democracia e a língua. Todavia, nada disso impediu que os ex-presidentes de Angola e do Brasil, respectivamente Eduardo dos Santos e Dilma Rousseff, tivessem forçado a mão dos outros a aceitar a presença de Obiang na CPLP. Sem a menor capacidade geoestratégica na Europa, ou seja onde for, a CPLP caiu definitivamente na irrelevância e na inutilidade que a caracteriza desde a sua brilhante “ideia” fundadora. Quanto a interesses e negócios – as determinantes não “irritantes” da exigência angolano-brasileira de incluir a Guiné Equatorial na CPLP e que os outros inalaram e engoliram com receio que se desfizesse tão ilustre agremiação -, Costa nada disse e desfez-se em retórica democrática. Por outro lado, se, em 2018, o Estado concedeu 1,5 milhões em isenções fiscais à filha de Obiang através da Zona Franca da Madeira, por que é que não se exigiu simultaneamente democracia e respeito pelos direitos humanos no “seio” da CPLP? Só agora é que se lembrou? Enfim, desta irritante CPLP, a única coisa que me interessaria seria a defesa da língua, matéria em que falha clamorosamente. E logo a matéria não petrolífera ou bancária, e um dos melhores meios de influência de Portugal, como Vasco Pulido Valente escreveu há sete anos. A CPLP será o que sempre foi. Um pretexto frívolo e inconsequente para o país lavar alguma má consciência “colonialista” que possa ter sobrado dos idos de 70 do século passado. O que representa nada, porque os “parceiros” se estão nas tintas para isso.

João Gonçalves

*Jurista

 

[Transcrição integral (incluindo destaques a preto) de artigo da autoria de João Gonçalves publicado no

O textículo seguinte reflecte, com as naturais limitações do analfabeto escrevente, aproveitando a fantochada da 13.ª cimeira, a posição oficial dos lobbies empresariais que suportam (e financiam, presumo) a política expansionista e neo-colonialista do Brasil.

Refere o deputado brasileiro o português Agostinho da Silva (vídeo em baixo) como sendo uma espécie de arauto, apoiante entusiasta da brasileirização da ex-potência colonizadora e das ex-colónias portuguesas em África. Este “exemplo” é citado como paradigma do conceito de “lusofonia” (o disfarce de “língua brasileira no mundo”), quando — que eu saiba, as minhas desculpas caso esteja equivocado — aquele professor tuga limitou-se a dar aulas no Brasil. Imagino a surpresa dos brasileiros, de facto, ao esbarrar num professor universitário da “terrinha”; isso não encaixa de forma alguma no arquétipo do portuguesinho no Brasil, esse “gigante” dos “coroné” e do preconceito chauvinista, “Seu Manuéu” padeiro, de bigode e cuspindo no chão, mais sua consorte D. Maria, anafada e brutal, igualmente de bigode e também padeira.

Os 25 anos da CPLP

“Pravda”, 19.97.21
José Fernando Aparecido de Oliveira

 

A CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – nasceu do objetivo de criar um diálogo tri-continental permanente entre os oito países de língua portuguesa espalhados pelo mundo, situados na África, Europa e América. Esse processo ganhou impulso decisivo na década de 1990, com o empenho do então embaixador do Brasil em Portugal, José Aparecido de Oliveira. José Aparecido dava vida ao antigo sonho visionário do português originário Agostinho da Silva.

 

O primeiro passo para sua consolidação foi dado em São Luís do Maranhão, em novembro de 1989, durante a realização do Primeiro Encontro dos Chefes de Estado e de Governo dos Países de Língua Portuguesa – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. O Encontro foi promovido pelo presidente José Sarney, com a mobilização de seu ministro da Cultura, o mineiro José Aparecido de Oliveira. Ali nasceu o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, que se ocupa da promoção e difusão do idioma, e tem sua sede em Cabo Verde.

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