Mês: Agosto 2021

Feira do Livro – Lisboa 2021


Não tencionava fazer um mapa sobre a Feira do Livro de Lisboa deste ano, mas a verdade é que, depois de muito procurar, não encontrei um único mapa minimamente decente.

Se porventura existisse alguma coisinha do género, aliás, as pessoas normais teriam de levar com as barracas das editoras acordistas, coisa nada recomendável, como sabemos, por questões de gosto e, especialmente, de sanidade mental.

Portanto, à semelhança aliás do que sucedeu em 2018 e em 2019, aqui fica o mapa das editoras que, no evento já a decorrer no Parque Eduardo VII, dão todas ou pelo menos algumas garantias de que estão em Português e não em acordês (ou em brasileiro) as obras que editam e distribuem.

Ressalve-se que existem alguns casos, felizmente poucos, em que a edição de certas obras é feita à vontade do freguês; de facto, ainda existem uns quantos autores tugas que, alucinados e salivando de ganância, sonham com o dia de S. Nunca, aquele em que um qualquer anjinho faça o milagre de obrigar um só brasileiro a comprar um único livro (tout court ou) escrito em Português de Portugal, mesmo se traduzido para brasileirês.

Como texto de apresentação desta FdLL serve perfeitamente a transcrição do artigo publicado pelo (excelente) jornal “Portugal News”. Entre as folhas-de-couve pseudo-brasileiras — obviamente ilegíveis — e os jornais portugueses online com ortografia decente mas que se fazem pagar tripla e principescamente (publicidade, subscrições, subvenções), mais vale ler a imprensa em Inglês, Francês ou Castelhano.

Read all about it! Lisbon book Fair returns

This year’s edition of the Lisbon Book Fair, which runs from 26 August to 12 September, will feature 131 exhibitors, spread across 325 pavilions, making this the “second largest edition in the history” of the initiative.

By TPN/Lusa, in News, Lisbon

According to the organisation, “the Lisbon Book Fair [which takes place at Parque Eduardo VII] has the participation of 131 exhibitors (with 24 new presences) spread over 325 pavilions, bringing six hundred editorial brands to the event”. “This is the second largest edition in the history of the Fair, surpassed only by the one in 2019”, highlights the organisation.

Last year, according to data from the Portuguese Association of Publishers and Booksellers (APEL), which organises the fair together with Lisbon City Council, 117 participants in 310 pavilions were present at Parque Eduardo VII, representing 638 publishers, bookstores and brands.

This is the second consecutive year that the Lisbon Book Fair, which usually takes place between the months of May and June, has been postponed to the end of August and beginning of September, due to the lockdown periods and the containment measures adopted for the prevention of the spread of Covid-19. In 2020, the Lisbon Book Fair was held for the first time between the 27th of August and the 13th of September.

The Lisbon Book Fair will be open from Monday to Thursday, between 12:30pm and 10pm on Fridays, between 12:30pm and midnight, and on Saturdays, between 11am and midnight and on Sundays between 11am and 10pm.

Feira do Livro de Lisboa 2021

Pavilhões de editoras em Português

Gradiva

B64; B66
Rua Almeida e Sousa, 21 R/c Esq.
1399-041 LISBOA
vpatinha@gradiva.mail.pt

Alêtheia Editores

A80
Rua de São Julião, 140, R/c
1100-527 LISBOA
Tel: 210 939 748|9 – aletheia@aletheia.pt

Âncora Editora

B17
Av. Infante Santo, 52 – 3.º Esq.
1350-179 LISBOA
Tel: 213 951 221 – catarina.ferreira@ancora-editora.pt

Antígona

A42;A44
Rua Silva Carvalho, 152 – 2.º
1250-257 LISBOA
Tel: 213 244 170 – info@antigona.pt

Companhia das Letras

A105, A107, A109, A111, A113, A115, A117
(representado por PENGUIN RANDOM HOUSE)
Av. Duque de Loulé, 123 – Sala 3.6
1069-152 LISBOA
jose.carvalheira@penguinrandomhouse.com – Tel: 911749878

Edições Avante

A18
Campo Grande, 220 A
1700-094 LISBOA
Tel: 218 161 760|8 – isimoes@paginaapagina.pt

Edições Colibri

A30;A32
Faculdade de Letras de Lisboa
Alameda da Universidade
1600-214 LISBOA
Tel: 217 964 038 – colibri@edi-colibri.pt
http://www.edi-colibri.pt/ – 21 931 7499

E-Primatur

D66; D68; D70
Rua Oceano Atlântico, 5
2560-510 SILVEIRA
Tel: 912 192 454 – pbernardo@e-primatur.com

Fundação Francisco Manuel dos Santos

Praça da Fundação
Auditório Sul
C02 – C03
Lg. Monterroio Mascarenhas, 1 – 7.º piso
1099-081 LISBOA
Tel: 938 045 034 – snorton@ffms.pt

Guerra e Paz Editores

A50; A52; A54
Rua Conde Redondo, 8 – 5.º Esq.
1150-105 LISBOA
Tel: 213 144 488 – guerraepaz@guerraepaz.net

Sabooks Editora – Lusodidacta

B25; B27; B29
Sabooks Editora – Lusodidacta – Livros técnicos de saúde
Rua Dário Cannas, 5 A
2670-427 LOURES
http://www.lusodidacta.pt/ – 926 803 798

Nova Vega

A20; A22
Rua do Poder Local, 2 – Sobreloja A
1675-156 PONTINHA
Tel: 217 781 028|217 786 295 – info@novavega.pt

Sistema Solar

A10: A12
Rua Passos Manuel, 67 B
1150-258 LISBOA
Tel: 210 117 011 – editora@sistemasolar.pt

Tinta-da-China

C14; C16; C39; C41; C43
Rua Francisco Ferrer, 6 A
1500-461 LISBOA
Tel: 217 269 028 – rdias@tintadachina.pt

Zéfiro

C22; C24; C26
Rua Casal da Ligeira, 20, Armazém 4 Ral – Terrugem
2705-830 SINTRA
Tel: 914 848 900 – zefiro@zefiro.pt

Editorial Divergência

D20
«Cria edições acessíveis e de qualidade, com regularidade e sem acordo ortográfico de 1990.»
https://divergencia.pt/quem-somos/
Estrada Militar de Valejas, n.º 66
2730-226 Barcarena, Oeiras
E-mail: geral@divergencia.pt – Telemóvel: 962083369

Desordem de Camões

Artigo 3.º
Finalidade geral das Ordens Honoríficas Portuguesas

1 – As Ordens Honoríficas Portuguesas destinam-se a galardoar ou a distinguir, em vida ou a título póstumo, os cidadãos nacionais que se notabilizem por méritos pessoais, por feitos militares ou cívicos, por actos excepcionais ou por serviços relevantes prestados ao País.
2 – Quando a condecoração se destine a galardoar feitos heróicos em campanha é concedida com palma.
3 – De harmonia com os usos internacionais, as Ordens Honoríficas Portuguesas podem ser atribuídas a cidadãos estrangeiros, como membros honorários de qualquer grau, não se lhes aplicando as condições da sua concessão a cidadãos nacionais.
4 – Os corpos militarizados e as unidades ou estabelecimentos militares podem ser declarados membros honorários de qualquer das Ordens Honoríficas Portuguesas, sem indicação de grau.
5 – As localidades, assim como colectividades e instituições que sejam pessoas colectivas de direito público ou de utilidade pública há, pelo menos, 25 anos podem também ser declaradas membros honorários de qualquer das Ordens Honoríficas Portuguesas, sem indicação de grau.
6 – Em todos os casos previstos nos números anteriores, respeitam-se sempre as finalidades específicas de cada Ordem, conforme resultam da presente lei.

Ordem de Camões
Artigo 30.º-A
Finalidade específica

A Ordem de Camões destina-se a distinguir quem tiver prestado:

a) Serviços relevantes à língua portuguesa e à sua projecção no mundo e à intensificação das relações culturais entre os povos e as comunidades que se exprimem em português;

Conteúdos noticiosos que “falam” por si mesmos, sem necessidade de comentários extensos.

Sinopse: o Presidente da República português foi ao Brasil, a pretexto da reinauguração do Museu da Língua brasileira, e levou debaixo do braço, para oferecer aos seus confrades brasileiros, uma Ordem honorífica expressamente criada para o efeito.

Do medalhão deste moderníssimo penduricalho, a “Ordem de Camões”, ainda não existe sequer uma imagem a cores, à excepção daquela em que o exemplar n.º 1 aparece nas mãos de um “cara” qualquer (o Presidente brasileiro não quis saber da palhaçada para nada e nem pôs os pés na “cerimónia”).

Em artigo de opinião publicado no jornal “Sol”, um tal Dinis de Abreu escreve (em brasileiro) uma diatribe exclusivamente partidária, fingindo-se zangado (ou “indignado”, como agora é de bom tom dizer-se) com o “acinte” dos brasileiros e logo aproveitando o embalo para atacar partidariamente o Presidente tuga. Paleio (de) político, portanto, o qual vale o que vale, isto é, zero.

Mais uma vez fica exposta, vergonhosamente escarrapachada em alguns media “do regime”, a canina e salivante bajulação do filho de Baltasar Rebelo de Sousa ao “gigante” brasileiro, a sua inamovível dedicação à causa neo-imperialista sob a “liderança do Brasil”. Com a dedicação característica dos sonsos e na senda de Cavaco, Sócrates e Costa, aquilo a que manifestamente aspira — e que pretende promover a alto desígnio nacional — é entregar a Língua de Camões, simbolicamente representada numa medalha de lata, a uma ex-colónia terceiro-mundista.

Não merecia o nosso poeta maior, símbolo de Portugal, semelhante enxovalho.

 

O ‘anjo da guarda’ do Governo

Dinis de Abreu
“Jornal Sol”, sol.sapo.pt, 07.08.21
opiniao@newsplex.pt

 

Com a desenvoltura que o caracteriza, Marcelo Rebelo de Sousa deslocou-se ao Brasil, a pretexto da reinauguração do Museu da Língua Portuguesa, em S. Paulo, que um incêndio quase consumiu há cinco anos. Fez bem. Mas o clima pré-eleitoral que já se vive no país não o poupou.

Apesar de convidado, Jair Bolsonaro não compareceu ao evento, sem aviso prévio, trocando-o por uma concentração de motoqueiros, que decorria no estado paulistano. Uma descortesia.

É certo que Marcelo soube, com ironia, furtar-se ao embaraço, ao citar um provérbio popular – «Só dança quem está na roda»…

Mas ficou o revés, tanto mais que o Presidente era portador da primeira medalha Camões, uma nova condecoração atribuída ao museu recuperado.

Poderá conjecturar-se que o facto de Bolsonaro ter ignorado a homenagem, se deveu ao actual governador de S. Paulo, anfitrião da cerimónia, ser um dos seus activos críticos, ou ’sinal de desagrado’ por Marcelo se ter avistado com Lula da Silva, um seu declarado adversário, ainda a contas com a Justiça.

Mas nada disso absolve o gesto, que não diminuiu Marcelo, mas que foi uma nota dissonante numa celebração da Língua Portuguesa, com mais de 250 milhões de falantes, cabendo ao Brasil o contributo principal.
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Caligrafia

Mas ali, nas minhas mãos, estava algo que desapareceu e que faz toda a diferença. Confere humanidade, sentido e tempo ao que se escreve: a caligrafia. Não falo de grafologias ou outras “logias” que por mim fecharia de vez. É porque acho que a nossa letra também é parte do que somos. E essa a tragédia, amigos: já não me lembro como escrevo. Algo do que me é único e transmissível está em vias de se afogar no mar destes tempos. Não me posso queixar: a culpa é minha porque sem querer me rendi à forma anónima e instantânea como comunicamos hoje uns com os outros. [Nuno Miguel Guedes, 18.11.20]

caligrafia

caligrafia | n. f.
ca·li·gra·fi·a (grego kalligrafía, -as) – nome feminino
1. Arte ou técnica de escrever à mão segundo determinados modelos de estilo e de beleza.
2. Maneira de escrever à mão característica de cada pessoa . =ESCRITA, ESCRITURA, LETRA
3. Letra manuscrita .
Palavras relacionadas: escrita, caligráfico, caligrafista, caligrafar, alfabetista, cursivo, caligrama.

“caligrafia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/caligrafia [consultado em 10-07-2021].

São coisas diferentes, como é óbvio, mas na verdade a caligrafia actual tem tudo a ver com a medieval arte da iluminura; aliás, uma e outra são de certa forma uma relação directa de causa e efeito, já que a iluminura era, antes de Johannes Gutenberg, por regra, a primeira letra capitular de um códice; ou seja, o texto copiado à mão nos livros em pergaminho antes da invenção da prensa de tipos móveis, a impressão em papel.

Mas, ainda que sem esquecer a beleza da iluminura (de “lume” e de “luz”), aquilo de que agora falamos é de caligrafia — também ela uma arte, se levada a um extremo de elaboração e classe, que mesmo na sua forma mais básica foi tragada pela voragem consumista e devorada pela sofreguidão do tempo. Praticamente aniquilada pela ditadura do imediatismo, sobrevivem ainda hoje alguns destroços de caligrafia (sob a forma de “escrita de médico”, por exemplo), mas parece ser irrevogável a sua extinção radical num futuro já não muito distante.

Estranhamente — ou talvez não –, nada a substituiu. O sistema de Ensino, ao qual em princípio compete zelar pela transmissão de conhecimentos às gerações que se sucedem, sempre tão entretido a inventar brincadeiras para entreter os meninos e a tornar obrigatórias outras brincadeiras para entreter os adultos (a TLEBS, entre outras imbecilidades), jamais se preocupou (“nem um bocadinho”, para usar uma medida de imbecilómetro) com essa “minudência”; para as entidades oficiais, coadjuvadas por uma seita gigantesca de cabeças-de-vento, saber escrever à mão — que é (“só”) um factor neurológico determinante na aprendizagem, como se explica em neurolinguística, essa bizarria — não tem o mínimo interesse, até porque estudar a matéria dá trabalho, e portanto o que é preciso é que os alunos tenham imensos Magalhães (o computador socretino, que o Fernão ninguém conhece) e que “aprendam” a “divertir-se”, num ambiente pedagógico lúdico e jamais ralando-se com coisa alguma ou ter gosto no que fazem além de jogar futebol. Em suma: a “escrita” foi prescrita sem necessidade sequer de uma lei ou ordem para tal, tendo bastado para o efeito um chorrilho de contradições nos termos, oximoros vagamente hilariantes e umas quantas patacoadas pseudo-pedagógicas “muito giras”.

Porém, quando chegar o dia em que será necessário reconstruir a Língua Portuguesa, após a demolição operada pelo camartelo acordista (da marca AO90), as mesmas entidades não terão outro remédio senão recuperar as verdadeiras ferramentas pedagógicas que já deram sobejas provas de eficácia no passado e que, apesar de toda a evolução tecnológica, continuam a singrar proficuamente nos sistemas de Ensino dos países aos quais jamais ocorreu “modernizar” e tornar “mais fácil” a ortografia em Inglês, Francês, Japonês, Mandarim, Coreano, Árabe e outros “atrasadinhos” do género. Uns quantos por cá e outros tantos no Brasil, “iluminados” de dois países que são portentos de “modernidade” e de “progresso”, eles, sim, eles é que são muito espertinhos e portanto, ao contrário dos “atrasadinhos”, aos moderninhos ocorreu aniquilar a ortografia — o que implicará necessariamente, quando as pessoas normais se aperceberem da aldrabice, voltar a uma norma racional, estável e exequível.

Assim, além de usar, por exemplo, concursos de ortografia (spelling bee) como técnica pedagógica, também a reintrodução da caligrafia no sistema de Ensino português poderia tornar-se num poderosíssimo auxiliar no processo de ensino/aprendizagem. Tratar-se-ia apenas de aproveitar o instinto competitivo, tão próprio da natureza humana, e o orgulho pelas próprias realizações, outra tendência inata, como métodos pedagógicos veiculados, respectivamente, pela ortografia e pela caligrafia.

Recomeçar pela base, enfim; pelas fundações, como as catedrais. Assim como sucede a qualquer criança que o primeiro dia de escola ficará na sua memória para sempre, também as “primeiras letras” — e a forma como são apresentadas aos alunos, com mais ou com menos cerimónia, como se fossem pessoas e não simples caracteres — terão desde logo um capítulo reservado na história de cada qual.

E todos eles, alunos e caracteres, fazem parte do livro de História de Portugal, o que fala de todos nós.

A sua caligrafia contém um pouco de si, expressa o que tem a dizer e demonstra a sua criatividade.

Com as novas tecnologias, a arte de uma bela letra manuscrita perdeu-se. Já ninguém escreve cartas de amor à mão. Já não se passam bilhetinhos de mão em mão na sala de aulas. Para quê escrever à mão se há tantos emojis que se podem usar?

Mas a caligrafia é uma arte que se pode dominar, como o mostra Abbey Sy e os quatro artistas internacionais — João Neves, Lisa Lorek, GooglyGooeys e MeaganHyland — que convidou a participarem neste livro. Juntos, criaram novos estilos de letras, mostrando como as desenhar e usar numa variedade de línguas e situações.

Vai encontrar letras para todos os gostos e com estilos diversos — coloridas, a preto e branco, clássicas ou simplesmente divertidas — e ideias para transformar até a mais aborrecida das frases numa obra de arte.

Seja criativo com as 26 letras do alfabeto!

[FNAC]

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“Uma fantasia ridícula”

«Só que os portugueses, quando não conseguem pagar as contas, pensam imediatamente em conquistar um império, de preferência o império que perderam. E, como são modestos, pensaram logo no Brasil. O nosso alto comando congeminou logo uma estratégia irresistível: importar para Portugal a ortografia brasileira. No momento em que os portugueses escrevessem (o pouco e mal que escrevem) sem consoantes mudas, o Brasil não podia deixar de se render, com uma saudade arrependida e desculpas rasteiras. Mas, como a humanidade é má, em particular no hemisfério sul, o Brasil terminantemente recusou o nosso audacioso “acordo ortográfico” e deixou Portugal sem consoantes mudas, pendurado numa fantasia ridícula e sem a menor ideia de como vai sair deste sarilho: um estado, de resto, habitual.» [Vasco Pulido Valente, 11 de Janeiro de 2013]


Ainda sobre a última cimeira da CPLP, em Luanda, uma crónica de João Gonçalves no “Jornal de Notícias” a merecer, pelo menos, dois destaques e uns quantos comentários.

Primeiro. Citação: «a única coisa que me interessaria seria a defesa da língua, matéria em que falha clamorosamente»

Bom, é evidente que a CPLP falha clamorosamente em tudo — a sua própria invenção foi uma inacreditável bambochata — mas, pelo contrário, no que diz respeito à “defesa da língua” brasileira, temos de reconhecer que os seus agentes academicistas e mercenários polivalentes estão a fazer um excelente trabalho. De facto, como aliás seria mais do que expectável, visto que no âmbito da CPLP a língua é mero pretexto para dar cobertura política aos interesses geoestratégicos brasileiros, à estratégia expansionista do “país-continente” convém “promover e difundir a língua” brasileira “no mundo”.

Neste contexto — e para todos os efeitos — a única pretensão da CPLP quanto à Língua Portuguesa, através do AO90, é… extingui-la.

Por conseguinte, caso de facto se interesse pelo assunto, como parece, melhor faria o cronista em preocupar-se com a defesa da sua própria Língua e não com ambições neo-colonialistas, com a preservação da Língua-padrão em Portugal e com a difusão do Português canónico nas ex-colónias portuguesas em África, não com a abolição administrativa do nosso traço identitário mais marcante.

Segundo destaque. Citação: «um pretexto frívolo e inconsequente para o país lavar alguma má consciência “colonialista” que possa ter sobrado dos idos de 70 do século passado»

Formulação curiosa, esta. Espantosa, até, se formos tolerantes (magnânimos seria talvez demasiado) e se tentarmos encaixar a ideia subjacente em algum tipo de premissa inteligível. O que não será tarefa fácil, convenhamos; ou, dito de outra forma, em linguagem um pouco menos formal (digamos), isto é pôr a carroça à frente dos bois — sendo a carroça a CPLP e os animais que fizeram a carroça os bois.

Quererá o cronista significar, com tão “revolucionária” frase, que a “má consciência colonialista” (de quem?, de que portugueses?, ou isso é uma “verdade universal”?) justifica plenamente uma espécie de vingança dos “oprimidos”, dos “colonizados” brasileiros, coitadinhos?

Ora, ora, senhor Gonçalves. Com o devido respeito, é claro, deixe-se disso. Ideias peregrinas, excomunhões, liturgias e rituais são coisas de beatas, falsa fé.

Ou apenas fé, sem adjectivo.

A CPLP irritante

João Gonçalves
“Jornal de Notícias”, 19 Julho 2021

 

Se realizarmos uma sondagem fora do “meio” sobre o significado do acrónimo CPLP, poucos saberão – e não perdem nada com isso – tratar-se da “Comunidade dos Países de Língua Portuguesa“.

 

Esta CPLP reúne em “cimeiras”. Desta vez, coube a Luanda receber mais uma. Lá foram Marcelo e Costa, este devidamente parabenizado num jantar oferecido pelo general Lourenço. Consta que Marcelo “puxou” pelo “parabéns a você nesta data querida” e ambos, Costa e Marcelo, desmentiram existir qualquer “irritante” entre eles. Fizeram juras de acrisolado “amor” institucional que culminaram com Costa, no seu tradicional registo de brutalidade política, a insinuar que a Guiné Equatorial entrara na CPLP, em 2014, pela mão de Passos e de Cavaco. Vamos por partes. Logo à cabeça, a língua. Acerca da qual ninguém, na prosélita CPLP, se entende por causa do “acordo ortográfico” de 1990. No país do sr. Obiang, então, a questão nem se coloca. A Guiné Equatorial ignora por junto a democracia e a língua. Todavia, nada disso impediu que os ex-presidentes de Angola e do Brasil, respectivamente Eduardo dos Santos e Dilma Rousseff, tivessem forçado a mão dos outros a aceitar a presença de Obiang na CPLP. Sem a menor capacidade geoestratégica na Europa, ou seja onde for, a CPLP caiu definitivamente na irrelevância e na inutilidade que a caracteriza desde a sua brilhante “ideia” fundadora. Quanto a interesses e negócios – as determinantes não “irritantes” da exigência angolano-brasileira de incluir a Guiné Equatorial na CPLP e que os outros inalaram e engoliram com receio que se desfizesse tão ilustre agremiação -, Costa nada disse e desfez-se em retórica democrática. Por outro lado, se, em 2018, o Estado concedeu 1,5 milhões em isenções fiscais à filha de Obiang através da Zona Franca da Madeira, por que é que não se exigiu simultaneamente democracia e respeito pelos direitos humanos no “seio” da CPLP? Só agora é que se lembrou? Enfim, desta irritante CPLP, a única coisa que me interessaria seria a defesa da língua, matéria em que falha clamorosamente. E logo a matéria não petrolífera ou bancária, e um dos melhores meios de influência de Portugal, como Vasco Pulido Valente escreveu há sete anos. A CPLP será o que sempre foi. Um pretexto frívolo e inconsequente para o país lavar alguma má consciência “colonialista” que possa ter sobrado dos idos de 70 do século passado. O que representa nada, porque os “parceiros” se estão nas tintas para isso.

João Gonçalves – Jurista

[Autoria: João Gonçalves. Publicação: “Jornal de Notícias”, 19 Julho 2021. Destaques, sublinhados e “links” meus. Imagem/citação de Cícero de: utilizador Facebook.]

Costa, Marcelo, Obiang, João Lourenço [imagem de: “Folha 8“]

Os ridículos

13.ª Cimeira da CPLP – Luanda, Julho 2021 — Os diplomatas falam de uma comunidade com grandes possibilidades. Ela inclui países com reservas significativas de gás e petróleo, outros têm potencial agrícola. Se a CPLP tem ambições, a circulação de pessoas terá de ser melhorada, pelo menos para alguns grupos. [jornal “Novo”, 24.07.21]


«O português que falamos/escrevemos no Brasil é bem diferente daquele falado/escrito em Portugal.» [Luiz Fernando Casanova, tradutor brasileiro]

Pois sim, pois é. O brasileiro é tão diferente do Português quanto o Português é diferente do Galego. Qualquer texto, de qualquer tipo, escrito em Galego é imediatamente e sem qualquer esforço inteligível para um leitor português — e o mesmo sucede se invertermos os factores. Isto é naturalíssimo, claro, dado que ambas as Línguas partilham um tronco comum e, historicamente, foram na Idade Média o idioma comum aos diversos povos estabelecidos a Norte e a Sul do rio Minho. A Língua galaico-portuguesa, ancestral elo de ligação de cariz (também) político, foi partilhada ao longo de séculos, portanto, mas nem um facto nem o outro influíram minimamente na autonomização das duas “variantes”, primeiramente, e na separação, por fim, transformando-se uma e outra em Línguas nacionais independentes.

Seria possível copiar e colar todo o parágrafo antecedente, para ilustrar a situação actual das línguas portuguesa e brasileira, com a errata da ordem: onde se lê «Galego» leia-se «brasileiro» e «onde se lê rio Minho leia-se oceano Atlântico». Não se trata de mera similitude, o que sucede hoje — e desde 1822 — é rigorosamente a mesma coisa que sucedeu na Península Ibérica no século XIV, com um período de carência que se prolongou por cerca de duzentos anos. Grosso modo, o mesmo hiato temporal entre o “grito do Ipiranga” e a invenção do AO90, esse absurdo manual de colonização linguística invertida.

A consistência, a regularidade e a inevitabilidade do processo de separação verifica-se em concomitância, não apenas no plano linguístico mas também no político, com a excepção do malaquenho aleijão — um “acordo” inédito, sem qualquer precedente (ou alguma coisa vagamente parecida) em todo o mundo.

Tanto o brasileiro como o Galego apresentam notórias divergências em relação ao Português, a todos os níveis, a começar pela ortoépia (ou prosódia, não confundir com pronúncia ou sotaque e muito menos com “o falar”) e incluindo, por natural inerência, o léxico, a semântica, a ortografia e, evidentemente, a morfologia. Não entra nesta analogia, por acréscimo a contrario, que na língua brasileira a sintaxe (a construção frásica, o “modo de escrever”) não tem nada a ver com a da Língua Portuguesa — mas essa discrepância fundamental e estruturante não sucede com o Galego.

É uma questão de tempo, realmente. Apesar de alguns galegos pretenderem também, nisso concorrendo com engraxadores profissionais da tugalândia, abichar umas sinecuras à conta do AO90 puxando o lustro aos chanatos dos brasileiros, a questão na Galiza é respeitavelmente vetusta e evidentemente pacífica: Galego é Galego, Português é Português. Aliás, um “acordo ortográfico” com a Galiza não apenas jamais lembraria ao diabo como também não iria permitir bajular qualquer “país-continente” nem concorrer aos tachos sobrantes (e menores) à conta de uma putativa “língua ibérica” ou outra coisa qualquer parecida com a “língua universáu” de Malaca, Bechara, Cavaco, Lula e Sócrates.

E quem diz Galego, diz o próprio Castelhano, esse verdadeiro gigante, ou diz Catalão ou, já agora, se a questão é de “parecenças”, então porque não um acordo ortográfico luso-transalpino, pois então, o Italiano é parecidíssimo com o Português, nós por cá até temos boa pizza, em não havendo carrascão marcha o belo Chianti, ou assim, e isto já dando de barato que o Mourinho agora é treinador do AS Roma, há lá coisa mais universal do que a língua futebolística, não brinquemos.

Portugal em peso deveria começar já a treinar o seu Espanhol, a alinhavar El Acuerdo Ortográfico, salvo seja, ou em alternativa seria de tentar os nossos “irmãos” italianos (em especial no Vaticano há disso aos pontapés), fazer um verdadeiro acordo ortográfico com eles, algo mais pingue e sumarento do que o péssimo negócio (para nós) com o Brasil, para quem a fantochada ortográfica é um belo troço.

Se o que se pretende é rebolar a rir, distraindo assim o povão de golpadas e camuflando mafiosos, então ao menos que se tente a via italiana — apinhada de especialistas em omertá. Capisce?

Esqueçam de vez o elefante e habituem-se às diferenças

Nuno Pacheco
publico.pt, 22.07.21

 

Hoje, como há dez, trinta ou cinquenta anos, o português continua a ter duas variantes claras: a portuguesa e a brasileira. O acordo não alterou isso, só alterou cada uma das variantes.

O elefante estava muito sossegadinho a um canto, na sua perene inutilidade, até que alguém o chamou. E ele lá veio, arrastando o seu peso, sem saber a que propósito se lembraram da sua existência. Sim, porque na festa ninguém reparou. Ao chegar aos 25 anos, idade para ter juízo, o quarteto de consoantes que lemos como cêpêélepê mantém muitos devaneios (como a crença de que Obiang virá algum dia a ser democrata), mas já se entretém com coisas mais adultas como a livre circulação ou até os negócios, sejam eles promitentes ou duvidosos. Agora a língua, que na declaração de Luanda se reveste das pomposidades habituais (a palavra “língua” é repetida 25 vezes, seja para recomendar vacuidades como a “ampliação da [sua] difusão internacional” , ou reiterar o sonho de a ver como “oficial” na ONU), já se desembaraçara — na retórica, mais ainda não nos nefastos efeitos — do elefante. Para quê, então, trazê-lo à baila?
(mais…)

Redundância, hipérbole, alegoria, eufemismo e outras figuras de estilo

O “acordo ortográfico” de 1990, não sendo nem acordo nem ortográfico, de facto e materialmente significa a “adoção” integral da cacografia brasileira e implica a erradicação definitiva do Português-padrão. Trata-se, por conseguinte e por exclusão de partes, de uma manobra política, a curto prazo, e de engenharia social, a médio prazo, com (mais do que) evidentes intuitos de expansão geopolítica e, portanto, financeira, encapsulando uma forma subtil de neo-colonialismo numa espécie de supositório mental com a designação comercial de “CPLP”.
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Volta ao AO90 por etapas – 1 a 4″]

 

Peço imensa desculpa pela indecente auto-citação mas, parece-me, a diatribe encaixa como uma luva neste texto de Ana Cristina Leonardo, em especial se atendermos ao conteúdo do primeiro parágrafo, que introduz o tema com uma “perigosa” analogia apenas aparentemente desgarrada e casual, como se o “acidente” individual que refere no início não tivesse nada a ver com o desastre colectivo em que estamos todos — quer queiramos, quer não — afogados. E como remate do artigo a autora utiliza novamente a “táctica”: falar de outra coisa, de algo completamente diferente mas que afinal é… a mesma coisa, uma analogia sob a aparência de auxese. Tiro-lhe, por conseguinte, o meu chapéu, desbarretando-me perante a elegância e a subtileza de uma e, da outra, a alegria da alegoria.

Algumas notas, não abusando, sempre evitando cair na rapsódia do costume, ou seja, discutir questões técnicas ortográficas quanto a um assunto que de ortografia nada tem.

A expressão «valor diacrítico das consoantes não articuladas» é interessante, já que tal formulação denota uma óbvia conotação política: as consoantes não articuladas que refere (o que remete para a etimologia, um pesadelo para a empresa Malaca&Bechara, Lda.) existem no Português-padrão mas não no brasileiro; esta novilíngua socorre-se de uma escrita (isto é, várias, uma por Estado, outra em cada cidade, bairro ou prédio e ainda outra de pessoa para pessoa) que não passa de mera transcrição fonética dos inúmeros “falares” brasileiros; o AO90 tenta desesperadamente pôr alguma ordem naquela imensa cacografia e daí os seus alucinados autores usarem a ridícula expressão “pronúncia culta”; ou seja, cá está, “pronúncia”, logo, transcrição fonética (com o alfabeto comum, não com o fonético, é claro, que naquelas bandas a ignorância é pandémica) e portanto, por exclusão de partes, nada de ortografia. Em resumo: o AO90 brasileiro (passe a redundância) preconiza — numa primeira fase — que “o que não se lê não se escreve”, portanto o brasileiro fica exactamente como era (porque já era isso mesmo) e todas as consoantes a abater (100%) afectam exclusivamente o Português sério e a sério. Numa segunda fase, os prestáveis acordistas portugueses distribuirão entre si os tachos para formar uma CTR (Comissão Técnica de Revisão) que reintroduzirá as consoantes que são “mudas” para nós mas que os brasileiros articulam; por exemplo, “rêcépição” voltará a ser “recepção” para os pândegos tugas; e, dado que no Brasil “corrupto” ou “corrupção” se pronuncia (logo escreve/transcreve) “corruto” ou “corrução”, então em Portugal (e PALOP) a CTR ordenará mais essa patacoada insuportável na “língua universáu“.

Não existe, por conseguinte, pegando-lhe apenas por esta ponta, qualquer espécie de “ortografia pós-Acordo”. Uma das finalidades do AO90, de resto, é abolir administrativamente o próprio conceito de Ortografia — eliminar a Língua Portuguesa substituindo-a pela transcrição fonética do falar dos brasileiros de “pronúncia culta” (Bechara e um primo dele).

Outra afirmação um pouco dúbia no texto: «a Resolução 26/91 que valida o Acordo Ortográfico». Não, não “valida” coisa nenhuma, perdoará a autora a truculência. Essa Resolução da Assembleia da República resultou de uma “Proposta de Resolução” do Governo, como determinam os trâmites previstos no “regulamento” do processo legislativo, não tendo produzido a mais remota das consequências. Prova disso é o facto de toda essa papelada (AO90, PdR, RAR) ter ficado a marinar numa qualquer gaveta durante… 17 anos!

Foi quando o “génio” Cavaco chamou o inefável Santana Lopes e o incumbiu de ir à gaveta buscar aquilo é que o processo de demolição da Língua Portuguesa teve realmente início. E foi, por fim, em 2008 (17 anos depois da RAR 26/91, repito) que a aprovação do II Protocolo Modificativo (via RAR 35/2008) pôs realmente em marcha o camartelo. Sem esta última golpada o AO90 jamais teria saído da abençoada gaveta de onde Santana a repescou e, portanto, a Resolução de 1991 valeria (ou validaria) tanto como um maço de notas do Monopólio.

Por fim, só mais esta: «ortografia pós-Acordo». Bom, ora vejamos. Como direi? Belo oximoro, realmente. Não desmerece.

Parabéns à prima!

Ana Cristina Leonardo
“Público” (suplemento “ípsilon”), 23.07.21

 

 

Em verdade vos digo, caros leitores, em Portugal é mais fácil um estúpido passar pelo buraco de uma agulha do que saber-se a velocidade a que segue o carro de um ministro. Tal mistério (ou segredo de Estado), naturalmente decifrável à luz da Relatividade einsteiniana, implicando, todavia, no caso, a compreensão de fenómenos abstrusos para o comum dos mortais — compreendidos os efectivos da GNR — tais como o efeito Doppler, a dilatação do tempo, a invariância da velocidade da luz e variação da massa, as transformações de Lorentz e o diabo a quatro — isto apesar de Jean Piaget ter concluído que, para crianças mais novas, quanto mais depressa andarmos, menos tempo passa — remete-nos para uma frase de Mark Twain, autor inesgotável no que respeita a frases de espírito: “Leitor, suponha que era um idiota. E suponha que era um membro do Congresso. Mas repito-me”.

Como não lhe dar razão quando olhamos para a Resolução 26/91 que valida o Acordo Ortográfico, o qual, desde então, só nos tem dado alegrias, a nós e aos habitantes da Guiné Equatorial?

Aprovada pela esmagadora maioria (cinco deputados ausentaram-se, PCP, PEV e três deputados do CDS-PP abstiveram-se e apenas votaram contra Manuel Alegre (PS), Nuno Melo e António Carlos Monteiro (CDS) e a deputada não inscrita (ex-PCP) Luísa Mesquita), perguntamo-nos, sem querer ofender ninguém em particular, mas não nos importando de ofender toda a gente em geral, quem, dos parlamentares “acordistas” , seria capaz de justificar o seu voto favorável a este articulado: “O c, com valor de oclusiva velar, das sequências interiores cc (segundo c com valor de sibilante), cç e ct, e o p das sequências interiores pc (c com valor de sibilante), pç e pt, ora se conservam, ora se eliminam”?

Escrevem-se coisas extraordinárias nessa Resolução!

“É indiscutível que a supressão deste tipo de consoantes [mudas] vem facilitar a aprendizagem da grafia das palavras em que elas ocorriam. De facto, como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção, a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c? Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua”.
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