Dia: 4 de Setembro, 2021

«A Língua Brasileira» [por Eni P. Orlandi]

Faz parte da estratégia de intoxicação da opinião pública a omissão absoluta do facto mais do que evidente de que a Língua Portuguesa e a língua brasileira são duas instâncias culturais de comunicação independentes; não existe já qualquer espécie de dúvida quanto à declaração, historicamente fundamentada, de a independência política do Brasil (1822) ter incluído todos os aspectos do seu património, a começar pelo territorial e de soberania, passando pelo histórico e cultural tangível, bem como pelo que de mais intangível define uma nação, a sua História e o seu povo, isto é, a Língua nacional: a Língua nacional do Brasil é a Língua Brasileira.

A estratégia referida, de omissão radical do facto, foi totalmente teorizada por meia dúzia de académicos, inventada por alguns políticos do chamado “arco da governação”, financiada por elementos de organizações tão “discretas” e aparentemente díspares como a Maçonaria e a Opus Dei, e, last but not least, com a colaboração de especialistas em empastelamento (bloqueio, silenciamento) e em outras técnicas de contra-informação.

Sofre pena de clausura em cela “disciplinar”, por tempo indeterminado (que tanto pode ser de perpétua como apenas enquanto der na real gana ao agente de serviço), quem porventura tiver o atrevimento de sequer utilizar a expressão “língua brasileira”. Funcionando como uma gigantesca cela de tipo orwelliano, isolada, escura como breu, insonorizada, com o ar viciado pela ausência de qualquer janela, é esse o “buraco” virtual (até ver) para onde são atirados “discretamente” pelos verdugos acordistas todos aqueles que, por exemplo, recordem datas, refiram factos ou reproduzam escritos sobre o assunto. Segundo a narrativa oficial, é terminantemente proibido mencionar a língua nacional do Brasil, ou seja, o brasileiro; é obrigatório, pelo contrário, encher a boca com paleios gandiloquentes e balofos, absurdos e (de) imbecis, sobre a “língua universáu”, a “difusão e expansão” do AO90 no mundo “lusófono”.

Precisamente, seguindo a mesma lógica dos variadíssimos conteúdos em texto, em imagem e em vídeo anteriormente aqui publicados sobre a língua brasileira, desta vez temos a transcrição de um texto académico — um verdadeiro “clássico” na matéria –, demonstração de rigor academista da transparência e da espectacular simplicidade da resposta a uma questão que jamais existiu: a Língua Brasileira descende da Língua Portuguesa mas já há muito ultrapassou a fase de autonomia, hoje por hoje atingiu o estatuto de independência plena.

O que de novo comprova o carácter neo-imperialista do AO90, isto é, a forma como uns quantos vendidos, mercenários e traidores pretendem selvaticamente impor a Portugal a Língua nacional da República Federativa do Brasil.

Ciência e Cultura

Print version ISSN 0009-6725 On-line version ISSN 2317-6660

Cienc. Cult. vol. 57 no. 2 São Paulo Apr./June 2005

 

A LÍNGUA BRASILEIRA

Eni P. Orlandi

A língua brasileira (bvs.br)

 

INTRODUÇÃO
A questão da língua que se fala, a necessidade de nomeá-la, é uma questão necessária e que se coloca impreterivelmente aos sujeitos de uma dada sociedade de uma dada nação. Porque a questão da língua que se fala toca os sujeitos em sua autonomia, em sua identidade, em sua autodeterminação. E assim é com a língua que falamos: falamos a língua portuguesa ou a língua brasileira? (1)

Esta é uma questão que se coloca desde os princípios da colonização no Brasil, mas que adquire uma força e um sentido especiais ao longo do século XIX. Durante todo o tempo, naquele período, o imaginário da língua oscilou entre a autonomia e o legado de Portugal.

De um lado, o Visconde de Pedra Branca, Varnhagen, Paranhos da Silva e os românticos como Gonçalves Dias, José de Alencar alinhavam-se entre os que defendiam nossa autonomia propugnando por uma língua nossa, a língua brasileira. De outro, os gramáticos e eruditos consideravam que só podíamos falar uma língua, a língua portuguesa, sendo o resto apenas brasileirismos, tupinismos, escolhos ao lado da língua verdadeira. Temos assim, em termos de uma língua imaginária, uma língua padrão, apagando-se, silenciando-se o que era mais nosso e que não seguia os padrões: nossa língua brasileira. Assim nos contam B. S. Mariani e T. C. de Souza (Organon 21, Questões de Lusofonia) que, em 1823, por ocasião da Assembléia Constituinte, tínhamos pelo menos três formações discursivas: a dos que propugnavam por uma língua brasileira, a dos que se alinhavam do lado de uma língua (padrão) portuguesa e a formação discursiva jurídica, que, professando a lei, decidia pela língua legitimada, a língua portuguesa. Embora no início do século XIX muito se tenha falado da língua brasileira, como a Constituição não foi votada, mas outorgada por D. Pedro, em 1823, decidiu-se que a língua que falamos é a língua portuguesa. E os efeitos desse jogo político, que nos acompanha desde a aurora do Brasil, nos faz oscilar sempre entre uma língua outorgada, legado de Portugal, intocável, e uma língua nossa, que falamos em nosso dia-a-dia, a língua brasileira. É assim que distingo entre língua fluida (o brasileiro) e a língua imaginária (o português), cuja tensão não pára de produzir os seus efeitos.

Assim é que, em 1826, o projeto apresentado ao parlamento brasileiro pelo deputado José Clemente propõe que os diplomas dos médicos seja redigido em “linguagem brasileira”. Em 1827 temos a aprovação de lei que estabelece que os professores deveriam ensinar a gramática da língua nacional. Nem português, nem brasileiro, estrategicamente, nomeamos de língua nacional. Em 1870, procurando argumentar sobre a língua que falamos, temos a polêmica entre o romancista brasileiro José de Alencar e o português Pinheiro Chagas, um falando de nossas diferenças e autonomia, o outro, sobre o legado que recebemos de Portugal, a língua portuguesa. Essas referências podem ser encontradas em um quadro apresentado no início do livro História da semântica (2004) de Eduardo Guimarães, entre outros. Já no século XX, na década de 1930 há uma discussão na Câmara do Distrito Federal sobre o nome da língua do Brasil: língua portuguesa ou brasileira? Novamente se decide pelo indefinido: falamos a língua nacional. Sobre essa discussão pode-se consultar o livro (tese) de Luis Francisco Dias (1996), que conclui que, na perspectiva daqueles que se posicionaram contrários aos projetos de mudança do nome da língua falada no Brasil, o nome língua brasileira é percebido como algo que viria desestabilizar um eixo social que tem nos percursos da escrita, sob os auspícios da língua portuguesa, o seu suporte, a sua referência, e, na perspectiva daqueles que defendem os projetos de mudança do nome de nosso idioma, língua brasileira tem a sua referência constituída a partir de uma imagem romântica do país, imagem fundada no positivismo e no ufanismo que, ao longo da segunda metade do século XIX e da primeira metade do século XX marcaram nossa história. Finalmente, assim como D. Pedro outorgou uma Constituição em 1823, também em 1946, a comissão encarregada pelo governo brasileiro, em atendimento ao estabelecido pela Constituição de 1946, decide que o nome da língua falada no Brasil é língua portuguesa (2).

Esta questão, no entanto, não deixa de nos importunar, e há sempre alguma razão, um pretexto, ou alguém que a levanta em momentos diferentes de nossa história. Isso quer dizer que até hoje não decidimos se falamos português ou brasileiro. Embora a cultura escolar se queira, muitas vezes, esclarecedora em sua racionalidade e moderna em sua abertura, acaba sempre se curvando à legitimidade da língua portuguesa que herdamos e, segundo dizem, adaptamos às nossas conveniências, mas que permanece em sua forma dominante inalterada, intocada: a língua portuguesa. E quem não a fala, ainda que esteja no Brasil, que seja brasileiro, erra, é um mal falante, um marginal da língua.

É, pois, impressionante como a ideologia da língua pura, a verdadeira, faz manter o imaginário da língua portuguesa.
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