Dia: 17 de Setembro, 2021

‘Está tudo vivo’

18percentgray / Canva

É de facto gratificante verificar, até pela raridade do fenómeno, que existe ainda quem não se limita a “dar aulas”, bem pelo contrário, trata os alunos como seres-humanos e não como retardados incapazes de atar os próprios atacadores.

Não é da responsabilidade dos alunos que alguns adultos (pelo menos em idade acumulada), “pedagogos” e “técnicos” da corda, tenham por profissão inventar inanidades como a «“Leitura Recreativa” ou de “Entretenimento” para o texto literário», salteando esses pratos indigestos com temperos ainda mais intragáveis, como a TLEBS, e, para rematar, o molho de cicuta da marca AO90.

Não sendo de todo necessário ir tão longe na matéria quanto o parnasianismo nem tão perto quanto o nihilismo, a verdade é que nos crescentes escalões etários — ou seja, em cada um dos “ciclos” curriculares do Ensino no nível Básico e no Secundário — existe uma espécie de consciência artística colectiva à qual a população estudantil é sensível, está receptiva e demonstra entusiasmo sem hesitações nem considerandos.

https://www.facebook.com/poets01/photos/a.102296028635339/193269342871340/Aproveitar ou dar vazão às capacidades artísticas inatas, no sistema de Ensino português — à semelhança do que sucede com o processo de ensino/aprendizagem da Língua Portuguesa –, tornou-se hoje em dia numa empreitada que, além de ingrata e arriscada, é também profundamente tantálica; dito de outra forma, se a algum professor ocorrer tentar uma abordagem pedagógica escorada pela Arte, seja esta qual for ou um pouco de todas elas (recapitulando, para abreviar: som, imagem, cor, volume, movimento, espaço e palavra), pois então esse infeliz docente irá, ainda que em absoluto inocente, ser crucificado como indecente. O que significa, muito para além do mero jogo de palavras, que vivemos uma era em que ser docente é indecente, logo, indocente,

Veja-se, como ilustração do governamental postulado quanto ao “item”, uma espécie de orientação oficial sobre “A educação através da arte” escarrapachada num blog por certa entidade obscura de que, devo confessar, jamais tinha ouvido falar:

«Também o gabinete responsável pela execução do Programa Rede Bibliotecas Escolares (RBE) em Portugal instituiu a questão da cultura e das artes como uma das prioridades para a acção das bibliotecas escolares em 2020/21 e, como forma de a tornar visível, disponibiliza na sua biblioteca escolar digital uma recolha de museus presentes no mundo virtual que pode ajudar as bibliotecas a desenharem actividades e a impulsionarem experiências educativas inovadoras nas escolas.» [escrita brasileira corrigida para Português]

Mesmo dando de barato o erro de Português no parágrafo transcrito (não aguento mais do que uma bacorada de cada vez, lacuna minha, só li o resto de relance), e mesmo não chamando a atenção para o facto indesmentível de haver erros até em sites oficiais de Ensino e sobre Português, ainda assim será de destacar a total vacuidade do palavreado, a ausência de qualquer conteúdo objectivo ou programático e, em suma, o abjecto “verbo de encher” que aquilo é. Nesse vazio de ideias atafulhadas com expressões idiomáticas do ensinês bacoco (não confundir com barroco) consiste todo o “pugrama” da tal educação através da tal coisa que os tais burocratas debitam por ócio e vício.

A escrita, mesmo, por vezes, a escrita não literária, é Arte. Como a pintura e a escultura, assentando numa arquitectura própria, escrever é uma outra forma de música, obedecendo ambas por igual a tempo e modo, à pauta — que pode evoluir mas que é imutável enquanto código de interpretação — e às notas que são letras, à clave que é o tom, aos silêncios gritantes que fazem todo o sentido, ao som “mudo” que é solene ou de terror ou estupefacção ou reverencial.

Portugal não teria sequer hino nacional sem as oito notas e as vinte e seis letras. Notas e letras, inseparáveis e solidárias, duas gémeas siamesas unidas para sempre pela memória num só carácter colectivo que torna a existência em algo com sentido.

Quando a escola falha na relação do ensino do Português com a Arte

 

Maria do Carmo Vieira
www.publico.pt, 9 de Setembro de 2021

 

«A finalidade da arte não é agradar. O prazer é aqui um meio. Não é neste caso um fim. A finalidade da arte é elevar.» [Fernando Pessoa (1888-1935)]

«Fazer arte é querer tornar o mundo mais belo, porque a obra de arte uma vez feita, constitui beleza, beleza acrescentada à que há no mundo.»[Fernando Pessoa (1888-1935)]

 

Ao longo dos anos, e enquanto professora de Português, presenciei a reacção de alunos que nunca haviam reflectido sobre o conceito de Arte e cuja sensibilidade não fora educada nesse sentido, em casa, falhando muitas vezes a Escola na seriedade desse trabalho imperioso; presenciei também a reacção dos que eram minimamente capazes de atribuir-lhe um significado e testemunhar a sua influência favorável, em vários momentos da sua ainda curta vida, precisamente porque em casa haviam encontrado diálogo propício. E como a experiência já me evidenciara quão vital era essa força que nos alimenta o espírito, toca, consola e enriquece, tornou-se objectivo proeminente da minha função de professora não só colmatar uma lacuna que, a permanecer nos alunos, determinaria o acentuar de diferenças sociais, mas também revigorar o encontro nos que haviam já dado os primeiros passos na assimilação do Belo, daquilo que comove, que ilumina, que faz pensar e que dá prazer ainda que tudo isso possa acontecer, em pleno, mais tarde, como tive oportunidade de verificar com alguns dos meus alunos. Sempre estive segura de que a minha postura interferiria na formação da personalidade dos que me eram confiados, e que em mim confiavam, em cada início de Outono. E não me enganei porque o tempo demonstrou-o nesse passado e tem vindo a somar comoventes testemunhos, escritos e orais, de inúmeros alunos das muitas escolas onde leccionei.

Foi no ensino do Português, com o estudo de autores programáticos, que me empenhei em demonstrar aos meus alunos, do Básico ao Secundário, a importância da Arte, em geral, e da Literatura, em particular. A Literatura, como veículo privilegiado de reflexão sobre a condição humana e arte da palavra que “vive primordialmente dos [seus] sentidos indirectos”, exigindo uma interpretação da simbologia que expressa. Só compreendendo se pode efectivamente amar e é nessa procura de sentido, no silêncio da leitura e em diálogo tranquilo com a palavra, chave de diferentes olhares e vozes, que nos revelamos tantas vezes a nós próprios, indo forçosamente ao encontro do Outro e treinando assim a nossa capacidade de desobedecer a tudo o que colida com a nossa humanidade ou nos imponha o absurdo. Assim aconteceu também com muitos dos meus alunos, num trabalho cúmplice e comprometido.

Vivo em saudade os cerca de quarenta anos em que ajudei a desbravar ou a intensificar o caminho que leva ao estreito diálogo com uma obra de arte, seja ela escrita, plástica ou musical. Nesse percurso, foi relevante a reflexão de Fernando Pessoa sobre o facto de toda a Arte ser “uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa.” A demonstração é um pouco longa, mas imperiosa a necessidade de a registar: “[…] As artes que não são a literatura são as projecções de um silêncio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é a literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama.” Por isso me envolvi interiormente nesta causa, nesta urgência de desfazer o mito da dificuldade no estudo da obra de um determinado escritor, com realce para a poesia, ou na compreensão da autenticidade das outras artes na vivência humana, com o firme propósito de desmontar a ignorância subjacente a esses tortuosos preconceitos, íntimos aliados de teses absurdas centradas na apologia da facilidade e do funcional, bem como na perspectiva da literatura como mero tipo de texto, a par de um rótulo de garrafa. Absurdos que se haviam manifestado já no indesejado Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), que pôs em causa a função normativa da ortografia e desfigurou a sua vertente cultural, em nome da facilidade, danificando a própria pronúncia das palavras e pondo mais uma vez em evidência a sobranceria da ignorância e a leveza mental de quem a impõe, transformada em lei.
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