Dia: 14 de Novembro, 2021

Águas residuais, estações de tratamento, saneamento básico

 

e o Alencar imediatamente, limpando os bigodes dos pingos de sopa, suplicou que se não discutisse, à hora asseada do jantar, essa literatura latrinária. Ali todos eram homens de asseio, de sala, hein? Então, que se não mencionasse o excremento! [Eça de Queirós, “Os Maias”]

 

Lixo. Detritos. Excrementos. A célebre máxima popular, muito utilizada para designar os mais variados assuntos, postula com imenso grau de certeza que os dejectos flutuam, formulação essa que plenamente se aplica em significado — se bem que não exactamente com o mesmo escatológico significante — ao “acordo ortográfico” e às suas igualmente repugnantes implicações. Acresce que, misturadas na flutuante lei empírica, estão também presentes, antes de que alguém por odorífera caridade carregue no botão de descarga do autoclismo, os repugnantes pedaços fétidos a que se convencionou chamar “acordistas”.

Começa a vir à tona o produto da fossa séptica (AO90) daquilo que alguns apreciadores do dito produto andam por aí a impingir às pessoas embrulhado num papel (a “nota explicativa“) enfeitado com um lacinho (a “língua univérrssáu“). Começam portanto a vir à tona os excrementos e dissemina-se implacavelmente o fedor nauseabundo. O que significa ter-se tornado impossível para os “acordões” continuar a disfarçar o pivete.

Há apenas alguns dias teve início mais um episódio da latrinária saga.

Em jeito de síntese, temos que uma jornalista portuguesa publicou no mais antigo diário nacional um artigo (ver abaixo) sobre aquilo que toda a gente sabe mas que ainda poucos se atrevem a mencionar: o AO90 representa não “apenas” a imposição violenta da língua brasileira a Portugal (e PALOP), eliminando no processo a Língua Portuguesa, como também facilita enormemente — em “traduções”, programas para crianças, telenovelas a granel, camiões TIR cheios de pontapeadores, nas legendagens (“dublagens”, em brasileiro), na eliminação de conteúdos cibernéticos portugueses — a demolição sistemática de todo e qualquer sector estruturante do statu quo cultural português, em especial na sua vertente mais disseminada, popular, visível, quotidiana. Ou seja, está em curso em Portugal o fenómeno sociológico vulgarmente designado como aculturação, a qual resulta ou é implicação directa, no caso vertente, de enculturação brasileira.

Este é um tema para continuar a acompanhar em futuro(s) post(s), até porque o referido artigo vai tendo imensas repercussões e algumas sequelas. Para já, aqui fica o ponto de partida ou, por assim dizer, a notícia do primeiro rebentamento do sistema de esgotos em que medram alguns apreciadores de porcaria, o estoiro da abjecta cloaca neo-imperialista.

Acompanhamento esse que terá certamente, como se verá pelos nacos a citar, a reacção pavloviana habitual: lá vêm as rotineiras “acusações” de xenofobia (e até de “racismo”), com brasileiros e tuguinhas (como nos designam os zucas), lado a lado, ombro a ombro, os do lado de lá com a habitual arrogância de quem se julga “enorme” e “gigantesco” como o seu “país-continente”, os do lado de cá lambendo o chão (e outras partes dos ditos) que se dignam pisar os seus idolatrados “caras”.

Ignoremos, como sempre e desde sempre, tais e tão insultuosos carimbos. Ignoremos as provocações de estrangeiros e as iguais dos seus lacaios com passaporte português. Assim como a Língua não é só ortografia (nem apenas sintaxe, léxico, morfologia), também a questão não se resume a qualquer interpretação meramente semântica e muito menos se restringe à retórica dos agentes assalariados e dos tacanhos deslumbrados.

Os factos falam por si e portanto pouco ou nada sobra para explicar. O que está agora a tornar-se do conhecimento geral, esse tenebroso filme de terror envolvendo crianças, entrou numa rotina de sessões contínuas a que urge pôr termo. Quanto mais adultos responsáveis souberem destes horripilantes experimentalismos, mais certa e assegurada estará a sua revolta contra os fanáticos da seita acordista.

É uma questão de tempo.

″Há crianças portuguesas que só falam ‘brasileiro’″

www.dn.pt, 10.11.21

Paula Sofia Luz

Dizem grama em vez de relva, autocarro é ônibus, rebuçado é bala, riscas são listras e leite está na geladeira em vez de no frigorífico. Os educadores notam-no sobretudo depois do confinamento – à conta de muita horas de exposição a conteúdos feitos por youtubers brasileiros. As opiniões de pais, professores e especialistas dividem-se entre a preocupação e os que relativizam, por considerarem tratar-se de uma fase, como aconteceu com as novelas.

…………………..

0 espectáculo estava classificado como para maiores de 6 anos, mas as crianças a partir dos 3 anos ou mais podiam assistir “desde que com e bilhete e acompanhadas por um adulto”. A informação constava na página do pavilhão Altice Arena desde que (finalmente) foi confirmado o espectáculo de Luccas Neto, o youtuber brasileiro que no último fim de semana esteve em Portugal para delírio dos mais pequenos.

Percebe-se facilmente a indicação. Afinal, são dele os vídeos que a maioria das crianças portuguesas vê nos ecrãs de tablet, computador ou telemóvel. E falamos de crianças que têm precisamente essa idade. Numa altura em que ainda estão a aprender a falar.

Era o caso de Laura, agora com três anos, dois na altura do primeiro confinamento. “Ela chegou lá muito facilmente. Primeiro foi ver o Panda e os Caricas, o Ruca e coisas do género. Mas há muito mais conteúdos brasileiros do que portugueses. Ora, quando acaba o vídeo do Panda, aparece logo outro desses, que é muito mais apelativo para os miúdos. A partir daí é viciante para eles”, conta ao DN o pai, Jaime Pessoa, locutor numa rádio local em Pombal.

Além do confinamento – e do teletrabalho do pai, que facilitou um livre acesso ao telemóvel e aos conteúdos por parte da mais nova -, também o facto de Laura ter uma irmã mais velha, Mariana, agora com 9 anos, acabou por ser um gatilho para aceder a youtubers brasileiros. De resto, metade da família lá estará este fim de semana na Altice Arena, a usufruir de um presente de Natal de há dois anos, uma vez que o espectáculo já foi adiado duas vezes à conta da pandemia.

Todo o discurso dele é como se fosse brasileiro. Chegámos ao ponto de nos perguntarem se algum de nós era brasileiro, eu ou o pai”, conta ao DN a mãe, Alexandra Patriarca, numa altura em que o pequeno seguidor de Luccas Neto já frequenta sessões de terapia da fala.

Luccas Neto, de 29 anos, é irmão de Felipe Neto, também youtuber, mas esse mais voltado para um público mais velho, de adolescentes e jovens. Embora existam vários produtores de conteúdos similares, é ele o rei das visualizações e o seu canal no Youtube tem 36 milhões de subscritores.

Laura não diz que vê um polícia na rua mas sim um policial, a relva é grama. Come tudinho. Já Iara pediu à mãe uma bala no supermercado e “isso foi um sinal de alarme”, conta ao DN Ana Marques, que no mesmo dia percebeu que “não podia deixá-la sozinha com o tablet, porque apesar de ser muito autónoma, só tinha quatro anos“. António, da mesma idade, começou a dar sinais de alerta há já algum tempo. Ao princípio, a família até achava alguma piada à forma como ele falava, às expressões brasileiras. Mas à medida que o tempo foi passando, a educadora de infância começou a preocupar-se e foi dando sinais, porque o menino não conseguia dizer os r”s nem os l”s.
(mais…)