Dia: 19 de Novembro, 2021

“C Tá Lôco” – 6.º episódio

Confesso que não é nada fácil, realmente. Ter de aturar tipos destes, além de tóxico, faz perigar ou pode perturbar o juízo a qualquer cidadão, por mais mais racional, razoável e calmo que seja. Alego em minha defesa, porém, para justificar a (aparente) paciência de santo (salvo seja), dispor da impassível carapaça que é apanágio de quem anda “nisto” do AO90 e respectivas escorrências há bem mais de uma década.

Certo visitante deixou aqui no Apartado não uma carta, não um relatório ou algo igualmente maçudo, mas um singelo, extremamente certeiro aviso:

«Sem querer prejudicar a sua saúde mental, deixo-lhe aqui mais um exemplo dessa antipatia e, desde já, alerto que a voz desta janada é irritante como o caraças.»

Pim. Em cheio. Nada de mais cirúrgico. Confere com a presente “explicação” prévia.

Conforme diz esse visitante (agora “promovido”, por provas dadas, à categoria de companheiro de armas), a vozinha da fulaninha do vídeo acima é mesmo irritante — quase insuportável, fica o alerta, recomenda-se cuidados e cautelas de galinha, literalmente — e o texto abaixo é de facto uma agressão, não apenas pelo pretensiosismo de quem tão mal e porcamente o esgalhou como pelo evidente nervosismo que revelam as piadolas nele contidas.

De certa forma, e no caso ainda mais flagrantemente do que é costume, as telenovelas brasileiras costumam ser um sub-produto (exceptuando talvez a brasileira “Gabriela”, do grande escritor brasileiro Jorge Amado) para consumo imediato, uma espécie de fast-food mental, digamos, um McMenu enfarta-brutos para tragar sem sequer pestanejar e assim substituir neurónios por matéria adiposa.

Após cinco episódios (este é o sexto e outros se seguirão), a telenovela que agora decorre, centrada nas consequências orais — literalmente — da “língua univérrssáu” imposta pelo AO90, tem servido um pouco como contraponto a vários Big Mac enfardados em série: pode suceder que alguns dos habitualmente mais “distraídos” continuem a produzir listas e relatórios, indiferentes ao que interessa e extremamente “levezinhos” na abordagem desta “temática”, mas a realidade — qual martelo ou taco de basebol — já vai acertando em algumas cabeças, ralando-se pouco ou nada (como aliás é típico das coisas contundentes) com os efeitos devastadores da pancada, sejam estas comoções cerebrais (algumas com afundamento craniano) ou “simples” traumatismos na moleirinha.

https://www.facebook.com/thelanguagenerds/posts/4542100235905043?__cft__[0]=AZU31MSRQH_QYhNU1dC7rsYborayVwuyNLlRrWFe0QFYS-XegbogVbI1OOuQUw_UymuoTScHgiQdS0wnICtT8VcpU7Xq3MdbWelg46-cJjQYoIYlRcqfFHzXK8PkZ8FVVBcPTaw2JAGXEvYIeA12TAKVYrKGwYZ1tMgoonVkM0upPQ&__tn__=%2CO*FComo todos sabemos de ginjeira, a agressão neo-imperialista invertida é um processo em curso de fabrico e portanto existem coisas que em aparência apenas agora se descobrem. E não foi por falta de aviso, bem entendido, considerando que desde pelo menos 2012 têm sido inúmeras as notícias (os posts) sobre as ameaças políticas à independência nacional (histórico-cultural, identitária e patrimonial) inerentes à colonização linguística imposta por um “acordo ortográfico” que de ortográfico nada tem e de acordo muito menos.

Estamos portanto conversados sobre avisos e é nessa mesma lógica que se insere o alerta de agora sobre este vídeo e este textículo, ambos de brasileiros que, à imagem e semelhança de tantos outros, andam por aí armados em “donos disto tudo” a espalhar com o brilhantismo asinino que os caracteriza a sua aversão por tudo aquilo que lhes cheire a “tuga”. Tanto o textículo como a grávásáum versam o mesmo tema e tentam dar-lhe tratamento idêntico (abaixo de cão), numa frustrada e algo desesperada tentativa de justificar o injustificável, isto é, que Portugal não passa de uma “terrinha” (Vera Cruz é que é um país à séria, uma super-potência de incompreendidos), que os portugueses são uns “tugazinhos” apalhaçados e que a Língua Portuguesa só terá o que “merece” — a extinção.

Seria fastidioso (e odioso) enumerar as tremendas, quilométricas asneiras que esta parelha debita, a fulana cuja voz irritante é o menos grave e o fulano cuja escrita indigente idem. São imensas, consecutivas, de rajada, e como sempre nem a um nem a outro ocorreu que desde há uns 70 anos foi o Brasil que desatou a traduzir e legendar em brasileiro os filmes ou simples gravações de depoimentos de portugueses, que desde o início do século XX ali são traduzidas obras literárias ou qualquer conteúdo escrito em Português e os emigrantes portugueses (“Né, seu Mánuéu, né, siora Máriá?”) foram desde sempre forçados — caso queiram ser entendidos — a falar em brasileiro com os indígenas.

No fundo, sejamos ao menos portadores de caridade cristã, estes dois tristes tigres de papel eriçam o pêlo porque, no fundo, no fundo, sabem que não sabem nada de nada

Ora, cá vai a esmolinha caridosa, caso tenha espelhos em casa deve custar imenso a um idiota sobreviver. Corações ao alto, “viu?”

Antônio Carlos Queiroz (ACQ)

brasiliarios.com, 11.11.21

Brazucas, chegou a hora da revanche contra os Peró!

 

Voluntários da Pátria, acaba de chegar uma notícia de Lisboa dando conta de que a situação está madura para a grande vingança contra os colonizadores do Brasil!

A meta é a conquista da Lusitânia. Primeiro, a gente invade Lisboa, Sintra, Coimbra, o Porto, Braga e tal, depois avança até Berlim, Roma, Paris, Madri e Santiago de Compostela – a brazucada toda exibindo o passaporte da União Europeia. Não pode esquecer a carteirinha das vacinas, pô!

A senha para o início da Ocupação Portuga (“Ó, Pá!” pros íntimos), que vinha sendo programada desde a Semana de Arte Moderna de 1922, foi dada pelo Diário de Notícias de Lisboa nesta quarta-feira, 10 de novembro. Conta o jornal que a nossa língua está se espalhando rapidamente pelo país e que lá tem crianças que só falam brasileiro. Elas dizem grama em vez de relva; ônibus no lugar de autocarro; bala por rebuçado; listras e não riscas; e trocam a frase “o leite está no frigorífico” por esta: “o leite está na geladeira”.

Não é sensacional? A conquista de um território estrangeiro é bem mais fácil quando os nativos ficam fluentes na língua dos conquistadores, o que parece já ser o caso. Exatamente por essa razão as elites portuguesas estão apavoradas, segundo o Diário de Notícias. Dizem que os miúdos, quer dizer, os pirralhos, estão “viciados” em brasileiro, fenômeno que as tais elites tratam como doença. Buscando a cura, estão submetendo as supostas vítimas à terapia da fala. Acho que os terapeutas dessa área são chamados de lusofonoaudiólogos, só pode!

Ana Marques, mãe de Laura, três anos, uma das meninas abrasileiradas, está furiosa. Contou ao Diário que a filha não vê “um polícia” na rua, mas sim “um policial”. Que é daquelas que barganham relva por grama. Quando, porém, a Laura pediu uma bala no supermercado, em vez de rebuçado, “isso foi um sinal de alarme”. No mesmo dia, Ana Marques percebeu que “não podia deixá-la sozinha com o tablet, porque apesar de ser muito autónoma, só tinha quatro anos”.
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