Dia: 27 de Novembro, 2021

“Outro valor mais alto se alevanta”

Pois vens ver os segredos escondidos
da natureza e do húmido elemento,
a nenhum grande humano concedidos
de nobre ou de imortal merecimento,
ouve os danos de mim que apercebidos
estão a teu sobejo atrevimento,
por todo o largo mar e pela terra
que inda hás-de subjugar com dura guerra.

[Os Lusíadas, Canto V – estância 42]

«A língua portuguesa empregada na obra [“Os Lusíadas”, de Luís de Camões] é muito mais semelhante ao português hoje chamado de “brasileiro” do que ao português europeu. Essa é uma das evidências de que a língua na Europa sofreu muito mais modificações do que no Brasil.»

Será porventura demasiadamente humilhante persistir em comentar este tipo de investidas com que imbecis brasileiros e políticos em geral, caracteristicamente rancorosos por um conflito eterno com o seu próprio passado colectivo mas extremamente sôfregos e zelosos quanto aos seus interesses particulares, tentam apoucar, amesquinhar e sumamente insultar a memória, o carácter, toda a História do povo português.

Não resta já, caso se admita, por hipótese académica, ter existido a partir de 1822 a mais ínfima ligação emocional ou afectiva entre a super-potência colonial europeia e o que até àquela data foi uma das colónias portuguesas, qualquer relação entre a Língua Portuguesa e o brasileiro.

No âmbito da operação político-económica em curso, que se consubstancia num conjunto de manobras e tácticas de neo-colonialiismo linguístico e de limpeza étnico-cultural tipicamente neo-imperialista (e racista e xenófoba e “anti-tuga”), os mais recentes eventos acabam por não ser de uma relevância tal que justifiquem mais do que um olhar breve — se bem que não alheado ou distraído; infinitamente mais relevantes são os esquemas (de) políticos e seus intectualóides assalariados.

Esta espécie de revanche histórica — característica da pequenez de espírito e da tacanhez comum aos traidores — conta com quatro aliados “naturais” de ambos os lados os lados do Atlântico: os mandantes, os paus-mandados, os executores e os indiferentes. Ou seja, o inimigo conta com muitos aliados e com milhões de alheados. É nestes últimos, ao contrário das aparências, que reside o maior perigo.

Alertar sem carpir mágoas, denunciar sem delação, apontar sem ficar a olhar para o próprio dedo, eis algumas das “tarefas” de que é capaz qualquer um. Isso seria bastante, seria até mais do que suficiente, seria com toda a certeza o fim do experimentalismo ditatorial acordista.

Porque dizer “já chega” não chega. E não abrir sequer a boca é sufocante.

 


O português brasileiro em Portugal

Mariana Bordignon
megacurioso.com.br, 19.11.21

 

Em 10 de novembro, uma reportagem do portal português Diário de Notícias alertou para o fato de que “há crianças portuguesas que só falam brasileiro“. Essa é a preocupação de alguns pais e responsáveis que notaram diferenças na fala dos filhos em Portugal: “Dizem grama em vez de relva, autocarro é ônibus, rebuçado é bala, riscas são listras e leite está na geladeira em vez de no frigorífico“. O fenômeno acontece em razão do contato das crianças com vídeos de youtubers brasileiros famosos, como Luccas Neto.

Na pandemia, o acesso a esses conteúdos aumentou consideravelmente, a ponto de influenciar a comunicação dos pequenos, que passaram a falar “brasileiro”. Na reportagem, alguns pais relataram o quanto o contato com as redes sociais afetou a fala dos filhos. “Todo o discurso dele é como se fosse brasileiro. Chegamos ao ponto de nos perguntarem se algum de nós era brasileiro, eu ou o pai”, conta uma mãe.

Mas, afinal, Portugal e Brasil não têm o mesmo idioma oficial? Em tese sim, principalmente depois do Novo Acordo Ortográfico de 2009, que teve o objetivo de unificar a escrita dos países de língua portuguesa. Na prática, porém, as diferenças se mantêm e são bastante acentuadas.

Que português deve ser usado na escola?

Durante a pandemia, os estudantes passaram das aulas presenciais ao modelo online. Foi nessa oportunidade que a psicóloga goiana Adriana Campos presenciou uma conversa entre a filha e a professora de Português. A jovem questionava por que sua nota havia sido menor do que a da colega portuguesa com quem fez um trabalho em dupla. “A professora falou que o trabalho estava excelente, elogiou a criatividade das duas, mas disse para a minha filha: ‘Só que você, infelizmente, ainda fala esse português inapropriado, esse português brasileiro. E você precisa aprender a falar direito’. Eu não conseguia acreditar”, afirmou ela.

O relato da psicóloga se soma a reclamações de brasileiros que afirmam sofrer discriminação em razão de sua variante dialetal. Há depoimentos até de alunos universitários que temem receber notas mais baixas ao usarem a variante brasileira. O receio é tão grande que muitos estudantes chegam a entregar trabalhos em inglês — o programa do Erasmus promove a mobilidade acadêmica entre países europeus, por isso em muitas universidades portuguesas é possível entregar trabalhos em inglês.

Essas atitudes de preconceito linguístico não estão de acordo com a política de acolhimento e incentivo à interculturalidade de Portugal. O secretário de Estado da Educação de Portugal, João Costa, conta que os documentos orientadores para o ensino da língua portuguesa “preveem o domínio do português europeu padrão, integrando também a consciência da diversidade de registros e de características das variantes faladas pelo mundo”.

O “verdadeiro” português

Diante desse alvoroço sobre as mudanças na língua em Portugal, é interessante chamar a atenção para o fato de que a diferenciação entre o português brasileiro e o português europeu é assunto recorrente na área da linguística. Desde 1980, pesquisadores buscam estudar por que as duas línguas estão se afastando.

Muitos acreditam que foi o português do Brasil que se diferenciou e adquiriu características próprias. No entanto, alguns estudos sugerem que não é bem assim. No vídeo “As marcas do português brasileiro”, linguistas comentam que os colonos portugueses que chegaram ao Brasil no século XVI terem transmitido aos indígenas o idioma que falavam em Portugal. Analisando documentos escritos da época, é possível perceber que aquele português se assemelha muito mais ao brasileiro do que ao europeu.

Diante dessa constatação, podemos dizer que o “verdadeiro português (e muitas aspas aqui!) é o falado no Brasil. Foi o português europeu que sofreu modificações ao longo do tempo, principalmente a partir do século XVIII, e acabou se afastando daquela língua falada no século XVI.

E onde estão as evidências?

Um dos casos interessantes que vale comentar é a diferenciação entre o gerúndio (no Brasil) e o infinitivo (em Portugal). Os brasileiros usam de forma recorrente a estrutura “estou dançando”, por exemplo, enquanto para os portugueses o mais comum é “estou a dançar”. Analisando um dos textos mais famosos em língua portuguesa, Os Lusíadas, podemos encontrar muitas e muitas estruturas de gerúndio. E a estrutura do infinitivo? Quase nenhuma! A língua portuguesa empregada na obra é muito mais semelhante ao português hoje chamado de “brasileiro” do que ao português europeu. Essa é uma das evidências de que a língua na Europa sofreu muito mais modificações do que no Brasil.

Aqui, vale chamar a atenção para o fato de que o português no Brasil também sofreu alteração ao longo do tempo, principalmente com a chegada de imigrantes a partir do século XIX.

Preconceito linguístico

Sendo assim, a afirmação de que o português europeu é o “certo” e o português do Brasil é o “errado” não faz sentido. Primeiro, nenhuma das formas é certa ou errada, ambas são variantes de uma mesma língua inicial. Segundo, se formos apelar para a língua mais “tradicional”, as marcas do português brasileiro indicam que ele está muito mais próximo do português que veio de Portugal no século XV do que o falado na Europa atualmente.
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