O pesadelo do Brasil

Senhor, em todo tempo, em toda idade,
Diante reis, diante emperadores,
Tiveram sempre as Musas liberdade;
Ou pera celebrar com seus louvores
Aqueles que por seus ilustres feitos
De fama vêm a ser merecedores;
Ou para reprender claro defeitos
Doutros qu’a torpes vícios entregaram
As obras, as palavras, os conceitos.
[Diogo Bernardes, Carta XXIX, 1-9 (1591)]

O núcleo deste “post”, espécie de presigo* caso se tratasse de refeição, é a mais recente entrevista de Carlos Fino — um valente sem papas na língua — ao “Diário de Notícias”. Este prato, como poderá comprovar qualquer leitor que o prove, é servido pelo escriba de serviço com os truques culinários do costume, sempre tentando realçar uma suposta condescendência do entrevistado para com as atávicas torções dos brasileiros em relação a Portugal, mai-los tradicionais insultos à nossa História com que os ditos indígenas mimoseiam amiúde os papalvos que em Portugal vergam com gosto a cerviz a qualquer enxovalho deglutido por matilhas semi-selvagens de “irmãos” e “primos” de uns quantos “pacifistas” do lado de cá. No entanto, também como de costume, nem essa desesperada tentativa de temperar a mistela consegue ao menos atenuar o travo insuportavelmente amargo da (triste, miserável) realidade: de facto, não há nada que enganar, malhar no tuga é o desporto nacional do Brasil; o futebol e o samba não passam de entretenimentos publicitários para encher os intervalos entre os espectáculos de matatuga em sessões contínuas.

Compondo o prato principal, temos como acompanhamentos (ou conduto**) dois vídeos que ilustram algumas das referências enumeradas pelo jornalista para ilustrar a sua mais do que óbvia e flagrantemente verídica tese: figuras da Corte portuguesa no Brasil transformadas em grotescas personagens de tele-novelas (a circense é a única indústria brasileira rentável); numa terceira gravação, o Professor José Hermano Saraiva lecciona uma das suas aulas televisivas, precisamente sobre aquilo que designa como “O Sonho do Brasil”. Sonho esse que agora se revela como aquilo que na verdade sempre foi — um pesadelo.

Como se não bastasse a indiferença generalizada, o encolher de ombros característico, o santo-e-senha “pronto, já está, paciência”, há uns patuscos patrícios, artistas de variedades para figuração, profissionais da escrita mercenária, intelectualóides armados em linguistas, pagos à peça, uns quantos medíocres actores e até políticos (incluindo o próprio Presidente da República) que na Tugalândia bajulam e vão ao extremo de imitar os mastins, os portadores do vírus da raiva anti-lusitana que ladram do lado de lá do Atlântico.

Reacções? Nenhuma. Um assomo de indignação? Dois séculos de nada. Vergonha na cara, ao menos? Não, parece que não há disso nos mentideros dos “notáveis”. Há por aí uma gentinha extraordinária que não admite “guerras Portugal-Brasil” mas que se delicia com prazer se for a pancadaria ao contrário; acham perfeitamente que primos bastardos lhes insultem a Mãe.

Talvez ainda hoje Bernardes e Camões tenham acertado no busílis da questão. Atribuíam no século XVI a decadência ao que então se designava como “torpes vícios”. Bem, pelo menos quanto a “obras, palavras e conceitos” estavam carregadinhos de razão.

Principalmente os “torpes vícios” dos ataviados que em Portugal obedecem à voz do dono e ronronam de gozo pelos pontapés que ele faz o favor de lhes dispensar.

*[na acepção popular do termo, prato principal]
**[na acepção popular do termo, acompanhamentos do prato principal]


″A narrativa dominante no Brasil apresenta os lusitanos como povo estrangeiro que veio para explorar e depois se foi embora″

 

Foi logo em 1822 que o Brasil começou a negar a origem portuguesa para se justificar como país ou esse afastamento foi sobretudo obra da república, para minimizar a era imperial sob a égide dos Bragança?
Leonídio Paulo Ferreira
www.dn.pt, 16.01.22

 

O afastamento começa em 1822, ainda antes da declaração da independência, quando os portugueses do Brasil, com D. Pedro e José Bonifácio à cabeça, procederam à inversão de sentido com que justificaram a separação. Aqueles mesmos que tinham sido até aí os maiores expoentes do antigo regime, apresentaram-se como vítimas da “tyraniaportugueza”, inaugurando assim – como escreveu Eduardo Lourenço – “o discurso ressentido de uma nação sem pai“. Logo na primeira metade do século XIX, os liberais brasileiros, na Oposição, começaram também a criticar “os males que vinham do passado” – absolutismo monárquico, centralização política, escravatura… Desta forma, o passado herdado pela independência deixou de ser considerado herança benigna – como defendia Varnhagen, pai da historiografia brasileira – para se transformar num pesado fardo. A partir de 1889, a república agravou tudo – sobretudo no período jacobino, quando os portugueses passaram de parentes próximos a inimigos. Num contexto de intensa disputa pelo mercado de trabalho, em que os imigrantes ocupavam o lugar dos escravos, os lusitanos foram apontados como culpados de todos os males imputados à monarquia. Em mensagem ao presidente Floriano Peixoto, que cortou relações com Portugal, o clube dos jacobinos de São Paulo prometia combater os estrangeiros “especialmente os portugueses, raça inferior, povo refractário ao progresso, nosso inimigo de todas as épocas, causador de todos os nossos males e do nosso atraso!” Foi a república aliás, que – 100 anos depois da independência – criou Tiradentes. Ele tinha a seu favor a data de nascimento – 21 de Abril, convenientemente um dia antes do aniversário da chegada de Cabral, que se queria apagar.

Esse estranhamento, como afirma no título do livro, é evidente hoje no dia a dia para um português que viva no Brasil?

Para um português que aqui viva e observe, é patente o pouco conhecimento e a desvalorização do passado, a ponto de muitos brasileiros nem sequer associarem a língua que falam ao país que somos. Portugal é uma vaga, distante e remota referência, sobre a qual se aprendeu alguma coisa na escola, mas não é associado à identidade nacional, já que a narrativa dominante tende a apresentar os lusitanos como povo estrangeiro que veio para explorar e depois, empurrado, se foi embora: “Levou o ouro e deixou as pedras”. Como se os brasileiros não fossem produto da metamorfose dos colonos que aqui assentaram arraiais e fizeram o Brasil. É como se o inegável elo histórico que liga os dois países tivesse sido apagado da memória nacional. Hoje em dia, não há xenofobia anti-portuguesa – eu não falo isso nem na tese nem no livro: os brasileiros são simpáticos e cordiais no trato; mas há, em geral, grande desconhecimento e rejeição da herança, que o anedotário anti-português promoveu e promove.

O brasileiro comum conhece a história de Portugal na definição das fronteiras do país, o papel emancipador da corte de D. João VI no Rio de Janeiro, o facto da independência ter sido proclamada pelo herdeiro da coroa portuguesa e de uma forma muito menos conflituosa do que a de Simon Bolívar na América de língua espanhola?

Todas essas coisas estão nos manuais escolares – os brasileiros conhecem o básico. Conhecem, mas não valorizam – e não valorizam porque não relevam a memória portuguesa, contra a qual construíram a sua nacionalidade. Nessa (des)apreciação do passado, tudo o que foi bom já era brasileiro ou proto-brasileiro, enquanto tudo o que foi mau ainda era português. Essa memória é, portanto, ambígua. Por um lado, na esteira de Oliveira Lima (D. João VI e O Movimento da Independência) e Pedro Calmon (O Rei do Brasil), há uma imagem benigna, que foi recordada em 2008, sobretudo no Rio de Janeiro, quando se comemoraram os 200 anos da chegada da Corte portuguesa ao Brasil, acentuando o seu papel na abertura dos portos, em 1808, e na elevação do Brasil a Reino, em 1815. Ao mesmo tempo, porém, em termos mediáticos, a figura de D. João e da Corte foi completamente ridicularizada no filme Carlota Joaquina, Princesa do Brasil (1995), de Carla Camurati, que fez enorme sucesso justamente porque veio ao encontro de uma imagem negativa da herança lusa já estabelecida, reconfirmando e reactualizando junto do brasileiro comum o estereótipo do português derrisório, sujo e burro, um ridículo que nos faz rir e com o qual nada queremos ter a ver.

Filmes e séries de TV que caricaturam a família real nesse período de 1808-1821 do Rio como capital do império português têm real impacto?

Além do filme de Camurati, que exibiu, a Globo – maior rede de televisão do Brasil – tem promovido outras obras de acentuado viés antilusitano, designadamente O Quinto dos Infernos, comédia de 2002 em que de novo se ridiculariza a Corte portuguesa. O impacto dessas e outras criações é enorme e não pode ser menosprezado – contribuem para naturalizar o antilusitanismo, o lugar comum generalizado do carácter essencialmente negativo da herança histórica e cultural lusitana, considerada prejudicial para a formação do Brasil.

Do ponto de vista académico, é mais objectiva a relação histórica do Brasil e de Portugal?

Nos meios intelectuais e entre as elites – com excepção, até certo ponto, dos militares, onde ainda subsiste uma visão benigna da herança lusitana pela extensão de território que esta garantiu ao Brasil – perpassa muitas vezes um sentimento de desprezo pela cultura portuguesa. Historicamente, é certo, houve sempre, também, uma corrente lusófila – mas ela tornou-se minoritária e o que passou a preponderar foi o antilusitanismo, que a república acentuou. Já no século XX, a Semana de Arte Moderna de São Paulo (1922), aprofundou o corte com Portugal, procedendo já não só pela crítica, mas pelo apagar da memória – começava a antropofagia cultural. Em carta a Drummond, Mário de Andrade chega a dizer que pretendeu esquecer, ignorar a antiga metrópole, esse “paizinho desimportante” e em 1925, Antônio Torres, em Razões da Inconfidência, escreve que “o portuguez é o nosso mais tenaz inimigo”. Logo depois, Gilberto Freyre ainda recolocou Portugal no cerne da nacionalidade brasileira; mas a partir dos anos 50, as correntes marxistas e neo-marxistas que passaram a preponderar nas universidades, desconstruíram essa narrativa e deram continuidade, até hoje, à visão crítica da herança lusa. Mais próximo de nós (1999), Marcelo Coelho, membro do conselho editorial da Folha de São Paulo, resumia bem a situação: “Não há coisa a que sejamos mais refractários do que à cultura portuguesa. Para nós, é quase uma contradição nos próprios termos. Fernando Pessoa e Saramago só passaram pela nossa alfândega porque recalcámos a lusitanidade deles… Tomámos posse virtual desses dois grandes escritores portugueses, portanto, sem abandonar nossa estranheza, nosso desdém pela lusitanidade.” A Escola e os Média – fizeram o resto, repetindo ‘ad infinitum’ essa auto-imagem. Pode por isso dizer-se que o anti-lusitanismo (não a xenofobia!) está na própria génese da nacionalidade brasileira tendo-se consolidado de tal forma que se tornou praticamente inconsciente. Entretanto, dos anos 80 para cá, surgiu uma nova corrente historiográfica que tende a rever alguns dos lugares comuns anti-lusitanos, elaborando – algumas vezes em cooperação com historiadores portugueses – visões mais matizadas do passado. Trata-se de um desenvolvimento muito positivo que poderá, a prazo, contribuir para uma maior compreensão mútua. Se o Brasil se desenvolver, é razoavelmente expectável, ainda que não garantido, que passe a ser mais condescendente para com o seu passado.

A atitude de Portugal, sobretudo das cortes liberais, a quererem devolver o Brasil à condição de colónia depois do Reino Unido criado por D. João VI explica o estranhamento ou isso é assunto de historiador e a explicação tem de ser procurada noutras causas?

A ideia de que teria havido tentativa de re-colonização não se sustenta nos documentos – foi criada pelos portugueses do Brasil por razões políticas para reforçar os argumentos da separação. O que houve foi choque entre “os portugueses dos dois hemisférios” – como então se dizia – para saber onde deveria ficar a sede do império – Rio de Janeiro ou Lisboa? Faltou aos liberais da antiga metrópole jogo de cintura suficiente para se chegar a um compromisso e evitar a ruptura. Há outras causas para o estranhamento – mas a principal radica aí – na necessidade que, por razões políticas, os membros da elite portuguesa do Brasil tiveram de se diferenciar para construir a nova nacionalidade.

Quando se fala das falhadas tentativas de colonização francesa e depois holandesa, qual o ponto de vista dos brasileiros hoje?

O de sempre – que o Brasil teria tido a ganhar se tivesse sido colonizado por outros europeus que não os portugueses nem, por extensão, os espanhóis. Em particular, a ocupação holandesa do Nordeste, no século XVII, é sempre apontada como exemplo do que supostamente teria sido uma alternativa mais vantajosa. E os franceses, claro, são sempre mais charmosos – como os portugueses do século XIX também já pensavam e em cuja ideologia e políticas assenta a origem do estranhamento.

Além da matriz portuguesa, o Brasil recebeu forte influência africana e depois de imigrantes alemães, italianos, libaneses e até japoneses. Sente de alguma forma que são aqueles com apelidos portugueses, com um avô ou bisavô em Portugal, que mais exibem estranhamento?

Não. O estranhamento em relação a Portugal é um sentimento generalizado, seja qual for a ascendência nacional ou a origem étnica dos brasileiros; até porque, mesmo os que têm nomes portugueses – e até sobretudo eles – são os mais miscigenados, em geral considerados os brasileiros por excelência. O facto de se ter nome português não significa que haja uma diferença. Outra coisa são os nascidos em Portugal, ou que mantêm com Portugal uma relação mais próxima – esses tenderão naturalmente a olhar o nosso país com outros olhos. São eles que integram a comunidade lusitana no Brasil.

Qual a imagem de Portugal hoje no Brasil?

Portugal tem hoje – desde a integração europeia e em particular nos últimos anos – uma boa imagem no Brasil – país democrático, barato, de excelente culinária e lindo, “onde se fala a nossa língua, boa base de chegada à Europa… Mas isso não faz com que se valorize mais o passado português, o património imaterial lusitano. O antilusitanismo de que falo tem carácter histórico – não se aplica ao Portugal contemporâneo, com o qual o brasileiro, quando chega, fica em geral surpreso ao descobrir uma identificação que não esperava, tão acentuado foi o corte com a raiz portuguesa.

Ficou surpreendido com a polémica que o seu livro causou no Brasil?

Não creio que se possa falar de polémica no Brasil. O que houve até agora foram reacções de pessoas mais ligadas a Portugal – do juiz Gilmar Mendes à cantora Fafá de Belém – que tendem, como seria de esperar, a desvalorizar o anti-lusitanismo, que consideram coisa apenas do passado, como se tudo hoje já fosse diferente. Até agora, pelo menos, a polémica tem sido maior em Portugal, onde até já me acusaram de “sensacionalismo fácil, perigoso e inconveniente” no ano em que se assinalam os 200 anos da independência brasileira, como se as efemérides fossem impeditivas do debate e não o contrário. Aqui, já fui acusado pelo movimento woke de “racismo” por sugerir que se assinale a chegada de Cabral(!), mas tenho também recebido diversas manifestações de apoio e interesse por parte dos média e alguns académicos.

Recordo-me da sua reportagem no Iraque em 2003 e de como a RTP se antecipou à CNN e à BBC a noticiar o início do ataque americano. Na época, isso tornou-o figura popular no Brasil, pois as reportagens eram aí emitidas. É fácil um português hoje ser figura querida no Brasil? Por exemplo, os treinadores de futebol que tanto sucesso estão a conseguir?

O êxito dos treinadores portugueses no Brasil ajuda certamente a desqualificar a ideia do “português burro“. Mas é preciso relativizar – eles são incensados não porque sejam portugueses, mas porque têm êxito. Treinou o Flamengo, ganhou a Libertadores e ainda por cima “fala a nossa língua”? – é Deus! Não nos iludamos, porém – a relevância que lhes é dada seria idêntica se fossem de qualquer outra nacionalidade – talvez à excepção dos argentinos…

Tem sugestões para contrariar o estranhamento? As celebrações de 200 anos da independência podem ser uma oportunidade para Brasil e Portugal se redescobrirem?

Se nos limitarmos às celebrações oficiais, não. Já em 93, em artigo no Expresso, José Hermano Saraiva sublinhava o distanciamento existente entre Portugal e Brasil, frisando que a ideia de comunidade só tem servido para “sessões solenes”, que são obviamente ilusórias. A diferenciação é tão grande que não pode ser superada com eventos episódicos que se limitem a repetir lugares comuns. Até porque o desejo de aproximação é quase unilateral. A redescoberta mútua de que fala exigiria esforço continuado e persistente, que só pode resultar, da nossa parte, de políticas públicas sustentadas, com apoio financeiro adequado, em defesa do enorme património histórico, cultural e imaterial lusitano que existe no Brasil e faz parte da nossa própria identidade. Se não o fizermos, arriscamo-nos a que a nossa memória se perca, absorvida pela antropofagia brasileira, como aliás já está a acontecer. O resto são paliativos que não mudam o essencial. Faço várias propostas no livro – designadamente a criação de um Grande Prémio de Jornalismo Portugal-Brasil. Mas sobretudo, o que importa – como recomendou Lourenço – é que o problema seja nomeado: conhecido e encarado de frente. Para ver se ainda é possível revisitarmos juntos a nossa história comum e o que nela possa haver – para além do que houve de doloroso e inexpiável – alguma promessa de diálogo que “mutuamente nos enriqueça e humanize”.

leonidio.ferreira@dn.pt

[Transcrição integral. Cacografia brasileira corrigida. Destaques, sublinhados e “links” meus. Imagem/citação de Nietzsche de origem desconhecida.]


Uma história sobre os bastidores da Independência do Brasil, contada de maneira cômica e com muita aventura, desde a vinda da Família Real até poucos meses após a morte de D. Pedro I em Portugal. Tudo começa em 1785, com a chegada da pequena espanhola Carlota Joaquina a Portugal para casar-se com o príncipe D. João. Já em 1808, após muita indecisão, D. João VI resolve transferir a corte para o Brasil. Em paralelo à história dos monarcas, se desenvolve o romance da donzela Manuela com Francisco Gomes, o Chalaça. [MeccaTV (Brásiu)]

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