Teoria do cAOs, efeito borboleta e efeito dominó

Chaos theory states that within the apparent randomness of chaotic complex systems, there are underlying patterns, interconnectedness, constant feedback loops, repetition, self-similarity, fractals, and self-organization.

In 1972, Philip Merilees concocted ‘Does the flap of a butterfly’s wings in Brazil set off a tornado in Texas?’

A domino effect or chain reaction is the cumulative effect produced when one event sets off a chain of similar events. [Wikipedia]

Este artigo de Ana Cristina Leonardo sobre as eleições, contendo uma grande carga de bom-senso (e uma pequena de ingenuidade), é um exemplo quase perfeito do efeito dominó que finalmente começa a fazer cair, uma após outra, as peças do jogo acordista.

Vendo o fenómeno por um prisma equivalente mas ainda mais ilustrativo, de novo se constata sobre o AO90 (e suas adjacências esconsas, negócios escuros, brutais mentiras) pairam as asas da borboleta que agitando-se algures acabarão fatalmente por fazer desabar as lisboetas barracas de São Bento, Belém e Necessidades.

É de facto gratificante constatar que vão desaparecendo os pruridos na adjectivação e na compreensão dos pressupostos do processo. Os bois que tentaram vender a Língua Portuguesa a troco de um prato de lentilhas começam a ser chamados pelos nomes. Porque as pessoas já perceberam que afinal foram por canalhas tomadas por imbecis.

Ainda não chegámos a vias de facto, é certo, mas os factos são tantos — e qual deles o mais evidente — que em breve lá chegaremos.

O mais recente artigo de AC Leonardo sobre o assunto é outra pequena amostra da reacção em cadeia. Sobre a qual, aliás, haverá alguns considerandos a tecer e não menos imprecisões a esclarecer… provindo duas delas de citações contidas no texto.

Por exemplo, quando cita a expressão «legitimação do AO» poderia a autora talvez ter atalhado de imediato que jamais existiu qualquer de espécie de “legitimação” do AO90, até porque uma coisa e a outra são conceitos que mutuamente se excluem. O que sucedeu foi uma espécie de discussão beneditina (ou peregrina) em 1991, mera formalidade destinada a fazer passar uma ilegalidade absurda, e mais tarde, em 2008, foi montado na mesma tenda de circo um espectáculo com palhaços e malabaristas fazendo seus números.

O AO90 nunca foi “legitimado”. Uma votação parlamentar sujeita a disciplina partidária não legitima uma questão de interesse nacional, sem a menor ligação com sectarismos. Ora, os deputados aprovaram a RAR 35/2008 exactamente como se estivessem a decidir mandar construir (ou não) um bairro social na Quinta da Marinha. É para isso que lá estão, fazem aquilo que os patrões mandarem os “seus” deputados fazer: levantar-se ou ficar sentados.

Outra referência citada que bateu “ao lado”, e ainda que Franchetti, com louvável prudência, tenha acrescentado “creio que” à formulação: «No Brasil, creio que sobretudo interessa às grandes editoras que publicam dicionários e livros de referência, bem como didácticos.»

Olhe que não, olhe que não. Miudezas. Na impagável expressão norte-americana, isso é “peanuts”. Ou, no não menos pitoresco “futebolês”, o que as editoras ganham à conta da cacografia brasileira é “pinotes”. Trocos, portanto. Claro que nos casos — que até já sucederam — de fusões entre grandes editoras portuguesas e brasileiras (são grandes mas não são grande coisa), bem, aí até pode ser que alguns empochem umas lecas, mas isso não é nada se comparado com os negócios fabulosos — indústrias, movimentação de capitais, especulação, exploração de matérias-primas e de mão-de-obra — que na verdade e de facto estiveram desde sempre por detrás de toda a trama, a gigantesca e fraudulenta maquinação urdida a pretexto da “língua universáu” e sob o disfarce político-diplomático a que chamaram CPLP.

Por fim, ainda uma terceira referência ao arrazoado no artigo reproduzido, desta vez uma opinião da própria autora: «interpretar o sim ao Acordo como sinal de ignorância da larga maioria dos políticos em exercício».

Bom, além das razões já aduzidas será então de contrapor uma outra opinião.

Que os políticos em geral e os deputados em particular são de uma ignorância confrangedora, pois claro, ele há verdades como punhos, sendo a parlamentar bovinidade uma das mais evidentes, mas no caso vertente o que se passou foi — como se não bastassem as gerais dificuldades na leitura e as inerentes deficiências no raciocínio — que a esmagadora votação não passou de tremenda fantochada, a função circense já referida, com o acréscimo venenoso de um truque nojento: aos deputados foi transmitida a vaga ideia (um hábito da casa) de que iriam votar, segundo as ordens dos respectivos líderes, a adesão de Timor-Leste à CPLP. Se era a isto que se referia a filósofa, ah, pois então com certeza, está carregadinha de razão, o “sim ao acordo” sucedeu precisamente por causa da “confusão” («ouve lá, sabes em que é estamos a votar? Timor na CPLP? Ah, óptimo, então não fiz confusão, eu cá levantei-me porque me mandaram mas não sabia para que raio era aquilo»).

E pronto. Foram só umas notas soltas, nada de remoques. Como poderia, com que direito, de mais a mais perante mais esta demonstração de que a teoria do cAOs já não é uma mera teoria académica. É a realidade começando a ser bem entendida.

Mentes simplex

Ana Cristina Leonardo
“Público”, 28 de Janeiro de 2022

Num dos seus momentos menos enigmáticos, escreveu Maria Gabriela Llansol: “O começo de um livro é precioso”. Se pusermos de lado todo o resto do texto de Llansol que se inicia com a frase citada — à maneira do Rousseau do Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade Entre os Homens: “Comecemos então por afastar todos os factos, porque eles nada interessam para a questão” —, o mesmo se poderá aplicar a uma crónica.

Não podendo a crónica fugir demasiado à realidade, melhor dizendo, à “espuma dos dias”, sente-se o cronista assoberbado, ou mesmo atarantado, quando a espuma se adensa e se agiganta, qual glaciar à deriva nos mares gelados dos desertos brancos.

Naturalmente, há dois temas eternos a que pode sempre recorrer-se: a essa desgraça maior chamada Acordo Ortográfico e à beleza das amendoeiras em flor.

Sobre amendoeiras, cujos lençóis de flores foram capazes de apaziguar as saudades da neve de Gilda, a princesa nórdica que viveu em tempos que já lá vão no Al Gharb andaluz (não confundir com o Allgarve de Manuel de Pinho, o ex-ministro que mandou demolir a última morada de Almeida Garrett…), pouco haverá a acrescentar a não ser talvez que as árvores de flores brancas dão amêndoas doces e as árvores de flores rosa são amêndoas amargas.

Já sobre o Acordo Ortográfico, será curioso registar a posição dos principais partidos concorrentes às eleições de Domingo. Lembrando que a legitimação do AO passou pelo assentimento de todas as bancadas da Assembleia da República, com excepção do PCP, do PEV e de três deputados do CDS que se abstiveram (apenas votaram contra Manuel Alegre (PS), Nuno Melo e António Carlos Monteiro (CDS) e do ex-PCP, Luísa Mesquita), quase catorze anos passados sobre a aprovação da degola das consoantes mudas (e outras que foram, entretanto, emudecendo) e perante os resultados poucos famosos que tal revisão acabaria por trazer — tanto do ponto de vista da unificação, argumento maior dos acordistas, como no da ortografia tout court, com os erros a engrossarem à conta da “pronúncia culta” que passou, basicamente, a confundir-se com “a ortografia que soasse melhor”: veja-se o exemplo de espectador que passou a ‘espetador‘, novamente a espectador, havendo quem entretanto, e não são poucos, já escreva espétador… —, quem o votou acabou a lavar as mãos, como Pilatos.

Com o caos instalado, conclui-se que a maioria (PAN, IL, CDS, PSD…) diz querer avaliar o Acordo. Não deveria ser antes avaliarem-se?

À esquerda, António Costa, oracular, afirma que o AO “deve fazer o seu caminho”. Catarina Martins afirma que o “Acordo prevê, ele próprio, que haja estudos e revisões ao longo do tempo, e, portanto, se algum de nós estiver a dizer que não quer essa revisão, está a dizer que não quer o próprio Acordo”, raciocínio algo bizantino que, além de assentar numa falsidade (nada no Acordo prevê aquilo de que a deputada fala), denuncia alguma ignorância sobre o funcionamento da língua: afinal a ortografia não é como o PIB que, habitualmente, muda todos os anos. Rui Tavares afirma que o que importa é a coerência, sendo por isso muito importante o Acordo, melhorado ou não, enquanto contributo para a promoção da língua portuguesa lá fora (este desígnio promocional assente na uniformização, como toda a gente sabe, também tirou em tempos o sono aos ingleses e espanhóis: os primeiros conseguiram que shit se tornasse universal nos territórios de Sua Majestade; já os segundos tentaram, sem sucesso, impor a interjeição coño à totalidade do mundo hispânico).

Perante o estado do mundo em geral e a solenidade do nosso acto eleitoral em particular, a quem é que poderá interessar o assunto Acordo Ortográfico?

Encarar o AO como um negócio que correu mal já seria suficientemente grave. Recuando a 2012, o crítico e professor brasileiro Paulo Franchetti punha o dedo na ferida. Numa entrevista que continua disponível online no blog “Tantas Páginas” (https://tantaspaginas.wordpress.com/2012/02/07/) pode ler-se:

“O acordo ortográfico é um aleijão. Linguisticamente malfeito, politicamente mal
pensado, socialmente mal justificado e finalmente mal implementado. Foi conduzido, aqui no Brasil, de modo palaciano: a universidade não foi consultada, nem teve participação nos debates (se é que houve debates além dos que talvez ocorram durante o chá da tarde na Academia Brasileira de Letras), e o governo apressadamente o impôs como lei, fazendo com que um acordo para unificar a ortografia vigorasse apenas aqui, antes de vigorar em Portugal. O resultado foi uma norma cheia de buracos e defeitos, de eficácia duvidosa. Não sei a quem o acordo interessa de fato. A ortografia brasileira não será igual à portuguesa. Nem mesmo, agora, a ortografia em cada um dos países será unificada, pois a possibilidade de grafias duplas permite inclusive a construção de híbridos. E se os livros brasileiros não entram em Portugal (e vice-versa) não é por conta da ortografia, mas de barreiras burocráticas e problemas de câmbio que tornam os livros ainda mais caros do que já são no país de origem. E duvido que a ortografia seja uma barreira comercial maior do que a sintaxe e o ai-meu-deus da colocação pronominal. Mas o acordo interessa, é claro, a gente poderosa. Ou não teria sido implementado contra tudo e todos. No Brasil, creio que sobretudo interessa às grandes editoras que publicam dicionários e livros de referência, bem como didácticos. Se cada casa brasileira que tem um exemplar do Houaiss, por exemplo, adquirir um novo, dada a obsolescência do que possui, não há dúvida que haverá benefícios comerciais para a editora e para a Fundação Houaiss — Antonio Houaiss, como se sabe, foi um dos idealizadores e o maior negociador do acordo. O mesmo vale para os autores de gramáticas e livros didácticos — entre os quais se encontram também outros entusiastas da nova ortografia. E não é de espantar que tenham sido justamente esses — e não os linguistas e filólogos vinculados à universidade — os que elaboraram o texto e os termos do acordo. Nem vale a pena referir mais uma vez o custo social de tal negócio: treinamento de docentes, obsolescência súbita de material didático adquirido pelas famílias, adequação de programas de computador, cursos necessários para aprender as abstrusas regras do hífen e outras miuçalhas. De meu ponto de vista, o acordo só interessa a uns poucos e nada à nação brasileira, como um todo. Já Portugal deu uma prova inequívoca de fraqueza ao se submeter ao interesse localista brasileiro, apesar da oposição muito forte de notáveis intelectuais, que, muito mais do que aqui, argumentaram com brilho contra o texto e os objetivos (ou falta de objetivos legítimos) do acordo”.

Para aqueles que garantiam que de Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné, Timor vão vir charters de encomendas de dicionários e manuais escolares com a nova ortografia foi a desilusão. Do mesmo modo, no Brasil não se passaram a vender livros portugueses às pazadas por se ter feito cair o p a recepção (p que, aliás, se mantém por lá), por muito que alguns autores cheguem até a lacrimejar em público, comovendo plateias femininas.

Se além do negócio falhado, interpretar o sim ao Acordo como sinal de ignorância da larga maioria dos políticos em exercício não nos deixa mais felizes nem tranquilos — os quais, não percebendo nada do assunto, acharam que simplificar a língua, alicerçando-a na fonética, seria o suficiente para levar em braços o português até aos confins da galáxia e mais além — talvez, tantos anos passados, nos permita entender melhor como o “simplex” saiu caro: discursos partidários mais pobres do que o mais miserável dos franciscanos, retórica de mão na anca, humor revisteiro e sem graça e, brinde de bolo-rei, um gato com nome de pessoa como assunto de conversa.

Porque assim como o bater de asas de uma borboleta no meu quintal pode eventualmente provocar um furação no outro lado do mundo, quem sabe não seja alheia a esta coisa em forma de assim a que alguns chamaram campanha eleitoral), ter passado, por exemplo, o desgraçado co-réu a corréu.

[Transcrição integral. Destaques, sublinhados e “links” meus. Imagem de topo de: “blog” (brasileiro) Gramática do Mundo.]

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2 Comments

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  1. Preciosas adendas ao texto de Ana Cristina Leonardo. Quando o li, pensei exactamente o mesmo. Quem acha que o AO90 se deve exclusivamente a manobras de editoras ainda não viu a floresta…
    Na verdade, até espero que não tenha sido essa a única razão para a criação de tamanho estropício. Se alguém vendeu a Língua Portuguesa, ao menos que não tenha sido por “peanuts”.

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