Mês: Fevereiro 2022

O apagador, os apagados, o apagamento

De facto, como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção, a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c?

Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua;

d) A divergência de grafias existente neste domínio entre a norma lusitana, que teimosamente conserva consoantes que não se articulam em todo o domínio geográfico da língua portuguesa, e a norma brasileira, que há muito suprimiu tais consoantes, é incompreensível para os lusitanistas estrangeiros, nomeadamente para professores e estudantes de português, já que lhes cria dificuldades suplementares, nomeadamente na consulta dos dicionários, uma vez que as palavras em causa vêm em lugares diferentes da ordem alfabética, conforme apresentam ou não a consoante muda;

e) Uma outra razão, esta de natureza psicológica, embora nem por isso menos importante, consiste na convicção de que não haverá unificação ortográfica da língua portuguesa se tal disparidade não for resolvida;

f) Tal disparidade ortográfica só se pode resolver suprimindo da escrita as consoantes não articuladas, por uma questão de coerência, já que a pronúncia as ignora, e não tentando impor a sua grafia àqueles que há muito as não escrevem, justamente por elas não se pronunciarem. [Nota “explicativa” do AO90]

Ensino de Português a alunos estrangeiros com novas regras

www.publico.pt, 16.02.22

BrasiLusa

O ensino de Português a alunos estrangeiros tem novas regras, como a possibilidade de os estudantes terem uma frequência parcial do currículo ficando com mais tempo para um período inicial de aprendizagem da língua, anunciou o Governo.

As novas medidas constam de um despacho, publicado nesta quarta-feira em Diário da República, que regulamenta as condições de ensino do Português Língua Não Materna, específico para os estudantes estrangeiros que frequentam a rede de escolas nacional.

Até agora, os alunos estrangeiros apenas substituíam a disciplina de Português por Português Língua Não Materna, “frequentando as restantes disciplinas do currículo como se fossem capazes de aceder a todos os conteúdos”, sublinha o gabinete de imprensa do Ministério da Educação (ME).

Portugal é cada vez mais um país de acolhimento de imigrantes, lembrou em declarações à Lusa, o secretário de estado Adjunto e da Educação, João Costa. “Hoje é normal que haja mais de 30 línguas maternas numa mesma escola. Os alunos chegam com perfis sociolinguísticos muito diferenciados, bilingues, falantes de línguas de famílias muito distantes das indo-europeias, sem língua de comunicação”, afirmou João Costa.

O despacho agora publicado “possibilita que as escolas adaptem o ensino da língua portuguesa à realidade de cada aluno, por exemplo com períodos de imersão mais intensos, permitindo que tenham reforço de língua antes de frequentarem as outras disciplinas do currículo”, especificou o secretário de Estado, sublinhando que “a escola inclusiva recebe todos os alunos, todas as línguas e adapta-se às necessidades de cada um, sem padronizar”.

Agora, passa a ser mais valorizada “a diferença, o património cultural e linguístico de cada um e a integração das famílias”.

Além da frequência parcial do currículo, garantindo mais tempo para um período inicial de aprendizagem do português, o despacho prevê ainda que os alunos possam frequentar “actividades a desenvolver durante o período horário de dispensa das disciplinas previstas na matriz curricular do respectivo ano de escolaridade”, explica o gabinete de imprensa do ME.

Estas actividades devem promover o contacto com falantes nativos de português do mesmo grupo etário, assim como o conhecimento da realidade e história da região e o contacto com instituições da comunidade local.

Durante esses períodos, deve ainda apostar-se no desenvolvimento do conhecimento da língua e cultura portuguesas assim como na promoção de ligações entre aspectos culturais de Portugal e do país de origem.

O reconhecimento e a valorização da diversidade como oportunidade e como fonte de aprendizagem para todos, no respeito pela multiculturalidade da comunidade escolar” é outra das vantagens que devem ser aproveitadas pelas escolas.

O ME recorda que a elaboração desta alteração decorre do plano de recuperação das aprendizagens 21|23 Escola+, que previa medidas específicas para os alunos estrangeiros que se viram privados do contexto de imersão linguística durante o período de encerramento das escolas.

[Transcrição integral (incluindo “links”. Destaques e sublinhados meus.]

Seria possível expor todo o conteúdo deste artigo do “Público” simplesmente sequenciando as afirmações nele destacadas.

Não deixa de ser algo irónico, para dizer o mínimo, que o mesmo Ministério da “Educação” que promove e fomenta a aniquilação da Língua Portuguesa através da obrigatoriedade compulsiva da utilização da língua brasileira no Ensino venha agora propalar o direito à diferença e a defesa do património cultural e linguístico de cada um.

É extraordinário, de facto, que aos ministeriais (e certamente geniais) manda-chuva tenha ocorrido tão copiosa enxurrada de lugares-comuns, os quais, além de evidentes e comummente aceites, gozam em Portugal de um estranhíssimo estatuto de exclusividade: apenas são aplicáveis nas aulas leccionadas em língua brasileira, a Novilíngua que os donos disto tudo mandaram o povinho “adotar”. Bizarro naipe de paradoxos…

Devem ter descoberto agora, os tipos da alfacinha 5 de Outubro (e adjacências), que o ensino deve adaptar-se «sem padronizar» às necessidades (condicionantes, presume-se) de cada aluno. “Sem padronizar”… desde que seja tudo impingido em brasileiro aos rebanhos de ovelhinhas que enchem as salas de aula.
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O Esporte Club de Portugau

Manchester City Football Club is an English football club based in Manchester that competes in the Premier League, the top flight of English football. Founded in 1880 as St. Mark’s (West Gorton), it became Ardwick Association Football Club in 1887 and Manchester City in 1894. The club’s home ground is the Etihad Stadium in east Manchester, to which it moved in 2003, having played at Maine Road since 1923. The club adopted their sky blue home shirts in 1894 in the first season of the club’s current iteration, that have been used ever since.[4] They are currently ranked 6th in the all-time English top flight table since its creation in 1888,[5] thus making it one of the country’s most successful football clubs. [Wikipedia]

O endereço electrónico é https://pt.mancity.com/; à semelhança do que sucede com as versões francesa (https://fr.mancity.com/ ou espanhola (https://es.mancity.com/), por exemplo, as duas primeiras letras do endereço (pt, fr, es) remetem para a versão dos diversos países e da respectiva Língua. No caso da página “portuguesa” do Manchester City F.C., portanto, temos em pt.mancity.com a versão em… brasileiro!


O Man City é um equipa de futebol inglesa. Como o Sporting Clube de Portugal é uma equipa portuguesa, evidentemente, à semelhança do Sport Lisboa e Benfica e do Futebol Clube do Porto, os três principais clubes portugueses que costumam participar na Liga dos Campeões — uma competição europeia. O Brasil é um país sul-americano que absolutamente nada tem a ver com a Europa, com os assuntos europeus (incluindo o futebol europeu, por mera coincidência uma indústria de milhões).

Este aparentemente estranho fenómeno de usurpação de uma nacionalidade e da sua Língua — nada mais, nada menos — é exactamente o mesmo que sucede na Wikipédia brasileirófona, nos correctores ortográficos, nos programas de uso profissional (ou amador), em todas as plataformas e serviços online (Google, Facebook, Twitter, YouTube, etc.).

Aquilo que leva brasileiros a fazer-se passar por portugueses, o que os “autoriza” a escrever em brasileiro fingindo que aquilo é “português”, o que permite que uma ex-colónia impinja violentamente o seu crioulo a milhões de portugueses, pois bem, todos sabemos perfeitamente o que os autoriza a destruir a Língua Portuguesa, porque é-lhes permitido imporem-se como colonos, donos e senhores não apenas da Língua mas também da Cultura portuguesa; sabemos quando e onde teve início a sinistra operação de linguicídio, a terraplanagem cultural; sabemos quem foram os responsáveis, os pais da aberração; sabemos quem são aqueles que, por indiferença, por omissão, por demissão ou por conivência, cobardemente, alarvemente, estupidamente, continuam a permitir que para os envolvidos o crime compense.

Pois lá chegará o dia em que todos esses, por mais que se julguem imunes ou inimputáveis, ficarão para sempre enterrados e esquecidos na vala comum da infâmia.

É uma questão de tempo.

Crônica da Partida

CITY FAZ JOGO PERFEITO EM ALVALADE E GOLEIA SPORTING

Champions League
ter 15 fev

SPORTING – 0 MANCITY – 5

RiyadMahrez (7’), Bernardo Silva (17’, 44’),PhilFoden (32’), RaheemSterling (58’)

John Edwards
“site” do Manchester CityF.C., versão “PT”, Wed 16 Feb 2022, 22:00

Exibição impecável do time de Pep Guardiola e um 5-0 na bagagem

O City foi a Lisboa querendo fazer um jogo sem erros e, se possível, levar uma boa vantagem para o EtihadStadium nas oitavas de final da Liga dos Campeões.

o que aconteceu, no entanto, foi muito melhor que isso. Uma partida impecável de um time que alcança seu auge na parte mais fundamental da temporada. E um 5-0 que dá muita segurança para o jogo da volta.

O QUE ACONTECEU

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Novas cartas da nova metrópole

Foto: Arquivo/Reuters – 14.07.1996

*** A “cerimónia” de constituição da Comunidade de Países de Língua brasileira (CPLB) decorreu em Lisboa no dia 17 de Julho de 1996. O Presidente português era então Jorge Sampaio e não Mário Soares, como “garante” a advogada/empresária brasileira que assina o texto transcrito em baixo.

Tal e tão profundo é o conhecimento da Exma. Sr.ª Dr.ª sobre o assunto. Haja respeito. Mas também, que diabo, isto para os “quadros” brasileiros é meia-bola e força, tanto se lhes dá como se lhes deu, mais um Governador-Geral da Tugalândia, menos um soba qualquer na colónia, “tá légau”, é indiferente. O que interessa é fingir que Portugal ainda é um país independente e não mais uma anexação do Brasil, como os ex-PALOP.

Vem agora esta representante de um escritório especializado em “economia digital” (premiada pela revista “Forbes”, ena, big deal) à “terrinha” arrotar a postas de jacaré e logo, pressurosamente, o “Público” publica-lhe um belo libelo sobre as maravilhas da brasilusofonia e decerto outros radiantes futuros.

Costa, Marcelo, Obiang, João Lourenço

Convenhamos que aquilo das cartas entre alunos de ambos os lados do Atlântico, vendo bem a coisa, até seria uma ideia (decente, para variar) e poderia permitir de facto alguma espécie de intercâmbio, temperando com laivos de civilização algo que não passa hoje em dia de uma relação envenenada, tóxica, apodrecida: os alunos portugueses não apenas são forçados a tragar brasileiradas a granel como, ainda por cima e de forma ainda mais macabra, têm de “aprender” em brasileiro, ler, escrever e até mesmo falar brasileiro — com sotaque e tudo.

Pois, a ideia das cartas poderia ter funcionado, sim, mas algures no passado, quando ainda a Língua Portuguesa tinha variantes no Brasil, em Angola e em Moçambique. Isso, infelizmente, miseravelmente, já lá vai: o “gigante” engoliu as três províncias maiores, a começar pela ex-potência colonial, com a prestimosa colaboração de um número nada despiciendo de mercenários, vendidos e traidores portugueses, todos eles pertencentes a irmandades várias mas sobretudo devotos de USD, o deus único dos patifes.

O textículo da Maneira não passa de mais um panfleto de propaganda, portanto, com a relativa inovação de uma brasileira qualquer especializada em negócios (nada digitais) vir à colónia debitar umas patacoadas enaltecendo o AO90, pretexto para a cobertura política de “expansão” da língua (deles) e para o saque geral firmado no malfadado 17 de Julho.

Adiamos os sonhos lusófonos para depois que vencermos o vírus

www.publico.pt, 17 de Fevereiro de 2022
Rosara de Oliveira Maneira

 

Com a pandemia da covid-19 temos tempo novamente para escrever cartas! Tecendo o pensamento sobre história e memória, associei a ideia de tempo a algo que havia sido inscrito como conceito no ato de criação da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP), que em 2021 comemorou 25 anos. E que teve, entre seus fundadores, José Aparecido de Oliveira (1929-2007), ex-embaixador do Brasil em Portugal. Ele e os ex-presidentes de Portugal, Mário Soares***, de Angola, José Eduardo dos Santos, e representantes da Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe criaram a CPLP sob os fundamentos da fraternidade, a que se juntaria mais tarde Timor-Leste.

Foto: Arquivo/Reuters – 14.07.1996

Passei a analisar quando substituímos todas as nossas trocas de cartas por emails. E como conciliar uma comunicação muito ágil, na qual se perde em razão dessa imposição de velocidade no “espaço tempo”? O tempo, no qual crianças enviam a informação e esta é recebida e no minuto seguinte, desaparece! Tempo é construção no existir e, se não compreendido, é uma ameaça de esvaziamento de sentido a alimentar desesperança.
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Nas Jezik [por Rui Valente]

Há dias, numa conversa caseira, fui testemunha da enorme influência que a cultura inglesa exerce sobre os mais novos. Ao contar a história de um amigo que se candidatou a um emprego, o meu filho tropeçou no vocabulário — só lhe ocorria qualquer coisa à volta de “aplicou-se para”, numa clara influência do Inglês “to apply for”.

Vem isto a propósito da polémica em torno da enorme pressão a que está actualmente sujeito o Português Europeu, em risco de se descaracterizar completamente por força da enorme penetração de conteúdos brasileiros no nosso país — uma tendência que tem como expoente máximo o fenómeno Luccas Neto.

Embora afecte particularmente os mais novos, esta “brasileirização” está em todo o lado. Nas crianças, é assustadora — no curto espaço de uma geração corremos o risco de ver toda a estrutura do Português Europeu desaparecer, dando lugar à (des)ortografia, à construção frásica, ao vocabulário e até ao sotaque brasileiros. Mas também existe nos adultos, embora de forma mais subtil, muitas vezes sem que os próprios se apercebam. Veja-se, por exemplo, dois artigos consecutivos de Ana Cristina Leonardo no PÚBLICO: no artigo do dia 28 de Janeiro denuncia, e bem, o Acordo Ortográfico, estabelecendo uma ligação entre a sua influência e a crescente estupidificação da campanha eleitoral. Na semana seguinte, num outro texto, referindo-se a uma aplicação para telemóvel, a mesma autora dá preferência ao termo “aplicativo” (em Português de Portugal: aplicação).

Estranhamente, parece haver, entre os “influenciados”, quem desvalorize esta influência brasileira — a começar pelos pais das próprias crianças. Por um lado, dizem, essa influência sempre existiu. É anterior às próprias telenovelas brasileiras e nunca veio daí mal ao mundo. Por outro lado, acrescentam, não é pior do que a influência do Inglês. Há até quem diga que é melhor, referindo-se aos termos ingleses como “estrangeirismos”. Como se “aplicativo” e outras expressões similares não tivessem origem, também elas, noutro país.

Não é fácil desmontar este raciocínio porque a argumentação tem um fundo de verdade. Sim, a influência brasileira sempre existiu. Mas também sempre existiu entre todas as Línguas, em maior ou menor grau. Em larga medida, é desta forma que as Línguas evoluem.

A relação entre as Línguas do mundo sempre foi fluida. Quaisquer duas Línguas estão, ao mesmo tempo, a aproximar-se e a afastar-se, embora o saldo natural deste movimento seja sempre favorável ao afastamento. Português e Inglês, por exemplo, aproximaram-se no momento em que ambas escolheram a palavra “internet” para definir “rede informática à escala global”. Mas a tendência natural é a do afastamento.

Qual é então o problema da influência brasileira? Desde logo, há o facto de essa influência estar a acontecer em doses industriais. Mas, acima de tudo, estamos perante uma influência que não ocorre de forma espontânea. Pelo contrário, tem um cunho forte de imposição, pela aplicação da lei do mais forte. A influência do inglês, por grande que seja, não ameaça a nossa identidade — o meu filho jamais tentará convencer alguém de que “aplicar-se para um emprego” é uma expressão portuguesa. Pelo contrário, no caso da influência brasileira, há um risco real de termos de “debater” com terceiros a propriedade de expressões como “registro”, “econômico” ou “pantorrilha”.

Com a influência brasileira, hoje em dia, e residindo eu em Portugal, já tive de preencher formulários de “registro” numa actividade. Na internet, pedem-me que me “cadastre”. E, numa consulta a uma empresa portuguesa, recebi uma proposta para a realização de um estudo “socio-econômico”.

O que é que isto tem que ver com o Acordo Ortográfico? Tudo.

Na era pré-acordo, não passaria pela cabeça de ninguém, numa empresa portuguesa, escrever a um cliente uma carta em Português do Brasil.

Mas imaginemos, por absurdo, que isso acontecia. Qual seria a minha reacção? Sem o Acordo Ortográfico, o meu raciocínio só podia ser um: por alguma razão que não compreendo, uma empresa decidiu escrever-me em Português do Brasil. E, com um encolher de ombros, seguiria em frente.

Na era pós-acordo as fronteiras desapareceram. Pode muito bem acontecer que quem me escreve em Português do Brasil esteja convencido — e a tentar convencer-me — de que o faz em “Português”, um Português “universal” que dizem existir agora e que mais não é do que Português do Brasil.

Com a imposição do Acordo Ortográfico estamos, portanto, perante mais um fenómeno de engenharia social, de cariz eminentemente político, em que a Língua é usada não como meio de comunicação mas como forma de construir — ou destruir — identidade.

E, como sempre, quando a política mete as mãos na Língua — seja por estratégia geo-comercial, seja por conflito étnico ou religioso, seja por absoluta falta de senso — as consequências não são boas. Regra geral, acontece uma de duas coisas: a substituição forçada de uma Língua por outra, ou a criação de duas Línguas “diferentes”. Veja-se o caso do Bósnio, do Sérvio e do Croata. São apenas variantes do Servo-Croata, perfeitamente inteligíveis entre si. No entanto, num cenário de pós-guerra na ex-Jugoslávia, Bósnia-Herzegovina, Croácia e Sérvia entenderam por bem sublinhar as pequenas diferenças existentes, apresentando-as agora como três Línguas distintas. É frequente encontrar-se cartazes “triligues” onde se vê a mesma coisa escrita três vezes, sendo que a única diferença é que o Sérvio, que também pode ser escrito com caracteres latinos, está geralmente escrito em cirílico. São experiências “contra-natura” que tendem a correr mal: na Croácia, a legendagem de filmes Bósnios foi abandonada depois de ter sido ridicularizada e as pessoas da região, independentemente da sua origem, limitam-se a usar a expressão “Nas Jezik” (a nossa Língua) quando se referem ao idioma que usam.
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Língua universau, língua globau etc. e tau

Coexistirão várias sintaxes“, dizem eles. Ah, pois, pois, disso ninguém duvida, a língua brasileira é infinitamente flexível, aquilo dá para tudo, literalmente, basta escrever como eles falam e pronto, está feito, toma lá a língua universáu, ô cara.

Pérolas deste calibre são a granel no texto, mas no vídeo ainda há mais e melhores: sempre sem se rir, um tipo qualquer “ispilica” — a propósito do “quadro a óleo” supra, essa fantástica obra de renomado “pintor” brasileiro — qual a categoria, de entre cinco possíveis, mais adequada para “enquádrá” os dizeres do garoto e as suas dúvidas pungentes sobre o “new portuguêis”.

Desiluda-se, no entanto, quem achar que as brincadeiras dos brasileiros com a sua língua (ou, melhor dizendo, com a língua deles) contém algo de inconsequente ou inócuo, que não irá para além do corso carnavalesco habitual e que, portanto, isto não passará das marcas. Já as passou todas. Já estamos do lado de lá. O crioulo de origem portuguesa de que o Brasil se apossou com a designação original, chamando sua a Língua, cumpre hoje — perante a indiferença geral e com a conivência activa de alguns lacaios políticos portugueses — uma função meramente instrumental como “facilitadora” de negócios (como está profusamente expresso), enquanto pretexto para dar vazão ao expansionismo da mediocridade (e da estupidez e da ignorância) e ainda como veículo de propaganda dos putativos méritos do neo-colonialismo invertido, de um neo-imperialismo absolutamente insuportável.

Ultrapassada por brasileiristas deslumbrados a fronteira da decência, desbaratados os últimos resquícios de dignidade que ainda restavam a esta campa rasa à beira-mar escavada, pouco ou nada mais nos resta do que prosseguir na senda da resistência. Contra todas as probabilidades, sim. Custe o que custar, sim.

Como no primeiro dia.

Portuguêsbrasileiro afirma-se, cada vez mais, como língua global de futuro

“Comunidades”, 31.01.22

O portuguêsbrasileiro afirma-se, cada vez mais, como uma das línguas globais de futuro. Estima-se que em 2050 o número de falantes de portuguêsbrasileiro ultrapasse os 400 milhões e que, até ao final do século, chegue aos 600 ou 700 milhões.

Os cálculos foram apresentados, no final de 2021, pelo director executivo do Instituto Nacional de Língua Portuguesabrasileira (IILPB), Incanha Intumbo, no âmbito de um webminar[sic] internacional promovido pela Lusa LanguageSchool (escola de portuguêsbrasileiro para estrangeiros sediada em Lisboa).

Ainda que ligeiramente diferentes, também a[sic] projecções das Nações Unidas apontam para um “avanço robusto” da língua portuguesabrasileira, concretamente para uma duplicação dos seus actuais 260 milhões de falantes, até ao final do século.

Tanto para o responsável do IILP, como para a Comunidade dos Países de Língua Portuguesabrasileira (CPLPB) “a aprendizagem da língua portuguesabrasileira está em alta”, sendo actualmente a quinta língua mais falada no mundo, a primeira no Hemisfério Sul e uma das línguas mais usadas na internet e nas redes sociais. Apresenta um forte crescimento, sobretudo em África.

“Só no Senegal (país de língua oficial francesa) estão inscritos mais de 40.000 novos alunos de portuguêsbrasileiro no âmbito do Instituto Camões”, ilustrou o cabo-verdiano Incanha Intumbo.

“Não quer dizer que o portuguêsbrasileiro do futuro seja totalmente homogéneo, coexistirão várias sintaxes, mas isso é a riqueza da língua. Desde que todos nos entendamos isso é que interessa”, sublinhou o responsável.

Intumbo lembrou que países tão poderosos economicamente como a Índia ou os EUA são membros observadores associados da Comunidade dos Países de Língua Portuguesabrasileira (CPLPB ), “o que revela o interesse global do Portuguêsbrasileiro como língua cultural, técnica, científica e de negócios”.

Nélia Alexandra, directora do Centro de Avaliação de Língua para Estrangeiros da Universidade de Lisboa (CAPLE) confirmou este interesse crescente do portuguêsbrasileiro no Centro de Avaliação de Língua para Estrangeiros (que examina e confere os títulos académicos para novos falantes de portuguêsbrasileiro) no âmbito da Universidade de Lisboa.

“Há um novo paradigma, mais novos falantes de portuguêsbrasileiro que procuram a língua por motivos académicos, científicos e profissionais e menos por razões de cidadania ou residência, como acontecia até recentemente”, defendeu a directora do CAPLE, para quem o ensino do portuguêsbrasileiro “está cada vez melhor, reflectindo-se tal nos exames”.

Por seu turno, Susana Moura, professora na Lusa LanguageSchool, sugeriu que “o ensino do Portuguêsbrasileiro mudou muito nos últimos anos”.

Houve uma explosão a partir de 2015 e, hoje em dia, há uma grande variedade etária, coisa que não acontecia há 10, 15 anos. Hoje em dia coexistem alunos de português seniores com jovens de 9 anos. É muito diferente, há mais procura, mais variedade, mais exigência e qualidade”, frisou.

Um dos problemas que se identificam, na opinião desta docente, é a “falta de manuais escolares e textos de apoio, mesmo a nível online”, referiu.

O Brasil neste campo é bastante mais dinâmico. A nível de apps, por exemplo, ou outras formas de apoio, o que alunos encontram online é quase tudo brasileiro, os apoios para português de Portugal são muito escassos”, sustentou.

“Livros e textos de apoio fazem muita falta. Já começam a aparecer as edições e apoios online, mas nunca é demais, é muito importante”, vincou.

Próximas gerações

“Se hoje a nossa língua tem um considerável valor estratégico, geopolítico, económico e cultural, essas projecções permitem prever um futuro auspicioso para o nosso idioma comum nas próximas gerações”, destacou Francisco Ribeiro Telles, ex-secretário executivo da CPLPB, por ocasião do Dia Mundial da Língua Portuguesa brasileira, celebrado a 5 de Maio.

A língua portuguesabrasileira esteve na génese e é a matriz identitária da Comunidade dos Países da Língua Portuguesabrasileira, a Colo[sic], permanecendo até hoje como o pilar fundamental e um elemento congregador de todos os países e povos que a partilham.

É, acima de tudo, um património comum de todos os que a usam e que a foram alimentando e valorizando ao longo dos séculos apropriando-se dela, recriando-a e vivendo hoje como um elemento central da sua própria identidade.

[Transcrição integral (emendado e com a cacografia brasileira convertida em ortografia portuguesa) de versão publicada em 31.01.22 num “site” que se auto-intitula como “Comunidades”. Destaques, sublinhados e “links” meus.]

O erro de Damásio

«La vida es ciervo herido que las flechas le dan alas.»
Luis de Góngora

 

Mesmo sendo apenas medianamente cartesiano, qualquer sujeito pode relacionar predicados usando apenas complementos (directos ou indirectos) e adjectivando (ou não) quaisquer determinantes, substantivos e nomes envolvidos com (ou sem) as preposições e/ou formas pronominais necessárias (ou não).

Tal enunciado, assim servido, com ressonâncias gongóricas e vagamente aparentando um mero jogo de palavras, poderá em última análise significar rigorosamente coisa nenhuma. Mas também, se lido com a devida filtragem semântica e se utilizadas diversas outras ferramentas do imenso arsenal da inteligibilidade, pode tornar-se afinal de uma simplicidade desarmante.

Em geral, os acessos de verborreia, assim como os “ataques” permanentes que afectam os leitores compulsivos, são por regra ocasionais e não servem de imediato como diagnóstico — ou sequer indício — de qualquer coisinha mais grave; aborrecida circunstância essa que depende da ultrapassagem de uma fronteira idealizada cujas barreiras são o exagero e a persistência.

A linguagem compreende uma dimensão de pura fruição, tanto na oralidade como na escrita, que nunca ou muito raramente é analisada ou sequer tida em conta numa abordagem científica ou técnica da questão. Seja qual for o ponto de vista, na perspectiva das diversas cátedras envolvidas, a comunicação serve sempre uma função meramente utilitária e sinteticamente binária; ou seja, serve para comunicar, destina-se a que o emissor envie uma mensagem ao receptor que a descodifica; emissão e recepção, primordialmente individuais, podem ter diversos receptores (ouvintes, leitores) e mais do que um emissor (rádio, televisão, imprensa), variando a qualidade da recepção (interpretação) consoante a validade da emissão (texto) e do nível de ruído (erros gramaticais) e das interferências (incompreensão, desconhecimento) no canal ou suporte.

Nesta acepção, podemos considerar — com uma certa leveza, admitamos — que a escrita encontra paralelo em outras formas de expressão cujo epítome é uma forma de arte: a música, do grito ao adágio, a pintura, do mural à tela, o teatro, da mímica ao palco, a escultura, do pilão à figura, a arquitectura, da cama de folhas ao arco gótico. E assim acontece também a literatura, desde os sinais de rasto que sabiam ler os cavernícolas até ao código digital mais hermético, do bilhete ao livro, do mais simples conto ao mais espantoso dos romances, da história para adormecer crianças à epopeia gloriosa e épica, da dedicatória gravada a canivete no tronco de uma árvore ao poema sublime que viverá ainda muito para além dela.

O que pretendem os seres sinistros que andam por aí a enganar as pessoas não é “só” exterminar uma Língua ancestral substituindo-a por um sucedâneo, não é “só” eliminar a cultura do povo que essa Língua define e não é “só” apagar a identidade desse povo. O que na verdade pretendem é apossar-se da designação e é, sobretudo, pervertendo significados através da adulteração de significantes, transformar a Língua Portuguesa em mero salvo-conduto político, em simples ferramenta de manipulação e silenciamento, em instrumento de estupidificação em massa.

Portanto, nada a ver com emoção, nada a ver com razão. Daí o erro.

E ainda menos tem a questão seja o que for a ver com cérebro. Aliás, o cérebro é para eles um perigo, demónios, essa coisa que produz pensamentos deveria talvez ser triturada, metida a ferros, desfeita à marretada, o cérebro não é para quem ousar usar, é para aniquilar. Ora, exceptuando as balas e as serras mecânicas, não há nada mais eficaz para atingir o cérebro do que a linguagem…

O Cérebro e a Linguagem

Estruturas essenciais de mediação coordenam a actividade dos centros cerebrais. Alguns destes centros são especializados na elaboração dos conceitos, outros, na de palavras e frases.

Os neuropsicólogos que estudam a linguagem tentam compreender como utilizamos e combinamos palavras (ou signos, no caso de uma linguagem gestual) para formar frases e transmitir os conceitos elaborados pelo cérebro. Investigam também como compreendemos palavras expressas por outros e de que forma o cérebro as transforma em conceitos.

A linguagem surgiu e manteve-se ao longo da evolução porque constitui um meio de comunicação eficaz, sobretudo para conceitos abstractos. Ela auxilia-nos a estruturar o mundo em conceitos e a reduzir a complexidade das estruturas abstractas a fim de apreendê-las: é a propriedade de “compreensão cognitiva”.

O termo “chave-de-fendas”, por exemplo, evoca várias representações dessa ferramenta: as descrições visuais da sua aparência e utilização, as condições específicas do seu emprego, a sensação que provoca o seu manuseio ou o movimento da mão quando a utiliza. Da mesma forma, a palavra “democracia” é associada a diversas representações conceptuais. A “economia cognitiva” que a linguagem autoriza ao reagrupar numerosas noções sob um mesmo símbolo permite-nos elaborar conceitos complexos e alcançar níveis de abstracção elevados.

Na aurora da humanidade, a palavra não existia. A linguagem surgiu quando o homem, e talvez algumas espécies que o precederam, soube conceber e organizar acções, elaborar e classificar as representações mentais de indivíduos, eventos e relações. Da mesma forma, os bebés concebem e manipulam conceitos e organizam inúmeras acções bem antes de pronunciar as primeiras palavras e frases. Entretanto, nem sempre a maturação da linguagem depende da dos conceitos: algumas crianças têm deficiência dos sistemas conceptuais, mas possuem uma sintaxe correcta. Os centros neuronais que asseguram certas operações sintácticas parecem desenvolver-se de forma autónoma.

A associação de símbolos

A linguagem surge como produção humana voltada para o mundo exterior (um conjunto de símbolos correctamente ordenados, difundido para fora do organismo) e representação intracerebral destes símbolos e regras para associá-los. O cérebro representa a linguagem e qualquer outro objecto da mesma forma. Ao estudar as bases neuronais da representação de objectos, eventos e suas relações, os neurologistas esperam descobrir os mecanismos de representação da linguagem.

O cérebro elabora a linguagem mediante a interacção de três conjuntos de estruturas neuronais, segundo acreditamos. O primeiro, composto de numerosos sistemas neuronais dos dois hemisférios, representa interacções não linguísticas entre o corpo e seu meio, percebido por diversos sistemas sensoriais e motores; ele forja uma representação de tudo o que uma pessoa faz, percebe, pensa ou sente. Além de decompor essas representações não linguísticas (forma, cor, sucessão no tempo ou importância emocional), o cérebro cria representações de nível superior, pelas quais gere os resultados dessa classificação. Assim ordenamos intelectualmente objectos, eventos e relações. Os níveis sucessivos de categorias e representações simbólicas produzidos pelo cérebro gerem a nossa capacidade de abstracção e de metáfora.
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