Dia: 4 de Fevereiro, 2022

A língua deles

31. Trinta e uma menções de “língua portuguesa” ou “português”. Referem-se assim estes três artigos à língua deles, o brasileiro, mas sempre utilizando o bordão habitual, brandindo um passaporte europeu obtido na candonga como salvo-conduto histórico e político para entrar pela porta-dos-fundos no Velho Continente e para em simultâneo espetar uma lança em África.

A língua deles, que políticos e empresários portugueses mandaram “adotar”, tem andado ultimamente às voltas com mais uma polémica — já aqui noticiada — que apenas ao Brasil diz respeito mas que necessariamente há-de sobrar para nós (os donos da Língua mandam, a República Portuguesa obedece). Versa a nova inventona brasileira, como se poderá aferir da pequena recensão em triplicado que se segue, sobre o sexo das palavras. Espécie de dúvida existencial semelhante à do sexo dos anjos, aos brasileiros faz imensa confusão que o género (gramatical) seja “discriminatório”, logo, “sexista”, logo, “homofóbico”, logo, “reaccionário”, logo, “fascista”.

Haja paciência, senhores (e senhoras, claro). É preciso um(a) bom(boa) bocado/bocada de pachorra/pachorro para aturar os/as cromos/cromas.

Mas enfim, pelo menos para já e até mais ver, as ordens de Brasília quanto a esta político-linguística “problemática” ainda não chegaram ao Ministério dos Negócios Estrangeiros (via CPLB ou através do Governador-Geral da província portuguesa) e portanto ainda não é obrigatório ensinar aos meninos e às meninas como transformar as palavras em meninas e meninos.

Vendo para além das brincadeiras habituais com a língua deles, das quais resultou a CPLB e desta a excrescência AO90, podemos constatar que estas três peças jornalísticas veiculam as mesmas posições políticas que serviram de pretexto à imposição da “língua universáu” nas neo-colónias brasileiras na Europa e em África.

Por exemplo, esta pérola descreve na perfeição como surgiu, o que é e qual a verdadeira finalidade do acordo cacográfico: «apesar de se vender como linguagem, não é um produto social apto a produzir comunicação. Ele não surgiu no quotidiano de um povo, mas sim criada e integrada de forma alienígena, através de movimento político sectário.»

A formulação assenta como uma luva na definição de AO90 e os lapsus linguae não se ficam por aí, há ainda mais cores: «não é linguagem, é mera destruição ideológica da nossa língua.»

Exacto. O “acordo” imposto selvaticamente a Portugal nada tem a ver com linguagem e teve por objectivo a destruição ideológica da nossa Língua, substituindo-a pela língua deles.

Linguagem neutra: Veja o que é e conheça as leis contra sua utilização

“Migalhas” (Brasil), 14.01.22

O assunto voltou à mídia após Bolsonaro criticar uma decisão do ministro Edson Fachin.
Nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro, em entrevista ao programa Morning Show, da Jovem Pan, criticou o ministro do STF, Edson Fachin, por suspender uma lei de Rondônia que proíbe a denominada linguagem neutra na grade curricular e no material didático de instituições locais de ensino, públicas ou privadas, e em editais de concursos públicos.

“Que país é esse? Que ministro é esse do Supremo Tribunal Federal? O que ele tem na cabeça?”

Veja a fala do presidente no vídeo abaixo:

Mas você sabe o que é, de fato, a linguagem neutra? Será que existem outras leis semelhantes Brasil a fora? Como está o andamento deste julgamento no Supremo? Descubra a seguir na reportagem.

O que é a linguagem neutra?
A linguagem neutra, também conhecida como linguagem não-binária, tem como objetivo evitar o uso dos gêneros tradicionalmente aceitos pela sociedade (masculino e feminino), de modo a tornar a comunicação mais inclusiva e menos sexista.

Neste tipo de linguagem, substitui-se os artigos feminino e masculino por um “x”, “e” ou “@”. A palavra “todos” ou “todas”, por exemplo, na linguagem neutra ficaria “todes”, “todxs” ou “tod@s”.

Há quem defenda, ainda, o uso do termo “elu” (no lugar de “ele” ou “ela”) para se referir a qualquer pessoa, independente do gênero, de forma a abranger as pessoas não-binárias (que não se identificam como homem nem como mulher).

Leis que proíbem a linguagem neutra
A lei 5.123/21, de Rondônia, questionada no STF, não é a única a proibir o uso da linguagem neutra nas escolas e em concursos públicos. No Mato Grosso do Sul, recentemente, foi sancionada a lei 5.820/21, que torna obrigatória a utilização da norma culta da Língua Portuguesa nos instrumentos de aprendizagem utilizados no ambiente escolar, nos documentos oficiais e na confecção de materiais didáticos.

Já em Joinville/SC, a lei 9.077/21 veda expressamente a utilização de linguagem “estranha à Língua Portuguesa” em utilização de flexão de gênero no âmbito da administração pública municipal.
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