
Foto: Arquivo/Reuters – 14.07.1996
*** A “cerimónia” de constituição da Comunidade de Países de Língua brasileira (CPLB) decorreu em Lisboa no dia 17 de Julho de 1996. O Presidente português era então Jorge Sampaio e não Mário Soares, como “garante” a advogada/empresária brasileira que assina o texto transcrito em baixo.
Tal e tão profundo é o conhecimento da Exma. Sr.ª Dr.ª sobre o assunto. Haja respeito. Mas também, que diabo, isto para os “quadros” brasileiros é meia-bola e força, tanto se lhes dá como se lhes deu, mais um Governador-Geral da Tugalândia, menos um soba qualquer na colónia, “tá légau”, é indiferente. O que interessa é fingir que Portugal ainda é um país independente e não mais uma anexação do Brasil, como os ex-PALOP.
Vem agora esta representante de um escritório especializado em “economia digital” (premiada pela revista “Forbes”, ena, big deal) à “terrinha” arrotar a postas de jacaré e logo, pressurosamente, o “Público” publica-lhe um belo libelo sobre as maravilhas da brasilusofonia e decerto outros radiantes futuros.

Costa, Marcelo, Obiang, João Lourenço
Convenhamos que aquilo das cartas entre alunos de ambos os lados do Atlântico, vendo bem a coisa, até seria uma ideia (decente, para variar) e poderia permitir de facto alguma espécie de intercâmbio, temperando com laivos de civilização algo que não passa hoje em dia de uma relação envenenada, tóxica, apodrecida: os alunos portugueses não apenas são forçados a tragar brasileiradas a granel como, ainda por cima e de forma ainda mais macabra, têm de “aprender” em brasileiro, ler, escrever e até mesmo falar brasileiro — com sotaque e tudo.
Pois, a ideia das cartas poderia ter funcionado, sim, mas algures no passado, quando ainda a Língua Portuguesa tinha variantes no Brasil, em Angola e em Moçambique. Isso, infelizmente, miseravelmente, já lá vai: o “gigante” engoliu as três províncias maiores, a começar pela ex-potência colonial, com a prestimosa colaboração de um número nada despiciendo de mercenários, vendidos e traidores portugueses, todos eles pertencentes a irmandades várias mas sobretudo devotos de USD, o deus único dos patifes.
O textículo da Maneira não passa de mais um panfleto de propaganda, portanto, com a relativa inovação de uma brasileira qualquer especializada em negócios (nada digitais) vir à colónia debitar umas patacoadas enaltecendo o AO90, pretexto para a cobertura política de “expansão” da língua (deles) e para o saque geral firmado no malfadado 17 de Julho.
Adiamos os sonhos lusófonos para depois que vencermos o vírus
www.publico.pt, 17 de Fevereiro de 2022
Rosara de Oliveira Maneira
Com a pandemia da covid-19 temos tempo novamente para escrever cartas! Tecendo o pensamento sobre história e memória, associei a ideia de tempo a algo que havia sido inscrito como conceito no ato de criação da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP), que em 2021 comemorou 25 anos. E que teve, entre seus fundadores, José Aparecido de Oliveira (1929-2007), ex-embaixador do Brasil em Portugal. Ele e os ex-presidentes de Portugal, Mário Soares***, de Angola, José Eduardo dos Santos, e representantes da Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe criaram a CPLP sob os fundamentos da fraternidade, a que se juntaria mais tarde Timor-Leste.
Foto: Arquivo/Reuters – 14.07.1996
Passei a analisar quando substituímos todas as nossas trocas de cartas por emails. E como conciliar uma comunicação muito ágil, na qual se perde em razão dessa imposição de velocidade no “espaço tempo”? O tempo, no qual crianças enviam a informação e esta é recebida e no minuto seguinte, desaparece! Tempo é construção no existir e, se não compreendido, é uma ameaça de esvaziamento de sentido a alimentar desesperança.
Cartas exigem tempo para escrever, para postar e para esperar a resposta. Foi essa a reflexão inspiradora para a idealização do livro Cartas de Lá e Cá, elaborado a partir da troca de correspondências entre 450 crianças portuguesas e brasileiras, de 7 a 14 anos, editado para ser distribuído gratuitamente, nas escolas.As centenas de cartas e os cartões-postais, individuais e coletivos, revelando pensamentos criativos, começaram a ser escritos como atividade de sala de aula, em fevereiro de 2019. Durante seis meses, foram trocadas correspondências entre 200 estudantes da Escola Básica de Óbidos, em Portugal, e 250 alunos de Conceição do Mato Dentro, fundada em 1842, no estado de Minas Gerais. A cidade histórica foi escolhida para o projeto por ser a terra natal do embaixador José Aparecido, meu tio e inspirador do livro e a quem homenageei em 2019, por ocasião dos seus 90 anos, na sede da ABL (Academia Brasileira de Letras).
Cartas de Lá e Cá é uma construção coletiva luso-brasileira, pois, além dos estudantes, os professores, e as diretoras das escolas – que utilizaram as cartas como matéria prima – conversaram muito sobre o acordo ortográfico, que regula 98% das palavras da língua portuguesa e através das cartas, puderam encontrar, inclusive as que fazem parte do grupo dos 2%.
Nessa troca – começada há mais de 500 anos -, e para organizar tantas conversas, foram selecionadas fotos e desenhos infantis. Esse projeto contou com o apoio do Instituto Camões e da Embaixada do Brasil em Portugal.
Como voluntária, estive em Óbidos, no final de 2019, embarcando do Rio com imensas malas, cheias de livros para o lançamento. Emocionou-me encontrar com os miúdos no auditório da escola. Os portuguesinhos me pediram para conhecer os novos amigos.
Assumi o compromisso de organizar um encontro virtual no dia 5 de maio de 2020- data que marcou a primeira edição do Dia Mundial da Língua Portuguesa, instituído pela UNESCO. Ao meu lado estaria José Fernando Aparecido de Oliveira, filho do homenageado, de quem recebi todo o apoio. A data foi simbolicamente escolhida para uma videoconferência entre os estudantes, que permitiria às crianças ampliar os seus conhecimentos sobre as relações históricas que nos entrelaçam a Portugal. Mas desde então o Mundo foi surpreendido pelo avanço da pandemia, e, em março, foi decretada a quarentena no Brasil. O mundo se fechou e fomos obrigados a cancelar o evento. Contudo, apenas adiamos os sonhos das crianças para depois que vencermos o vírus.
[Rosara de Oliveira Maneira
PartnerofCorporatein Maneira ECIJABrazil]
[“A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico”, diz o “Público” . Não é exacto. A autora, que é brasileira, escreve em brasileiro (aquilo a que chamam “acordo ortográfico”). Aqui no Apartado apenas são reproduzidos textos em brasileiro quando escritos por brasileiros, como é o caso, mesmo quando tentam imitar o Português, como também é o caso.]
[Destaques e “links” (a verde) meus.]