Mês: Março 2022

«Todes pelo mim»

Eis a “maravilhosa língua unificada” em todo o seu “esplendor”. O recorte acima, da página web do centro de promoção e divulgação da língua brasileira da Universidade do Porto, é apenas mais uma amostra a juntar à abjecta colecção que aqui vou coligindo — um pouco a trouxe-mouxe, porque não é fácil seleccionar os exemplos mais repugnantes, tal é o nojo que fede de todo o lado — e que servem como ilustrações, em sentido literal, da campanha de brasileirização em curso. Mesmo para aquelas pessoas a quem incomoda ligeiramente ler mais do que duas linhas de texto seguidas, não será assim muito difícil fazer o que dantes se dizia a cábulas, preguiçosos e analfabetos: quem não sabe ler vê os bonecos.

Desta vez, não apenas o dito recorte é um “espetáculo” como também o é o artigalho abaixo, da autoria de certa “profe” brasileira; com a respectiva chapa de identificação ao pescoço, esta senhora — aliás muito bem apessoada, note-se — faz o favor de nos revelar mais uma pequena amostra daquilo que é o “ensino” da língua brasileira e como se inicia o processo de fabrico dos futuros “fêssorr” a despachar aos contentores por via marítima para “ensinar” os indígenas tugas.

A aberração a que chamam “língua universau” ou “língua unificada”, a ver se enganam algum patego cá da “terrinha”, o que aliás vai resultando em pleno, tal é a concentração de cretinos “puxa-saquistas” de que em Portugal se faz gala, tem vindo a apossar-se — perante a passividade colaboracionista dos políticos e contando com a geral bovinidade deslumbrada de uma ou outra camada de cambada — principalmente dos sectores editorial (estudantil, precisamente), jornalístico, traduteiro, universitário e académico (distintos tugúrios de vaidosos patológicos).

Nesta conformidade de cerco e destruição das partes até aniquilar o todo, utilizando exactamente a mesma estratégia, os acordistas e seus serventes preparam já o assalto ao sector nacional mais estruturante e identitário: o Ensino, pois claro.

Quando os alunos desta “profe” utilizam a língua brasileira em contexto de sala de aula («Vo faze um jornal pra escola») tiram involuntariamente uma espécie de fotografia do futuro; as crianças portuguesas já estão a ser industrialmente embrutecidas com tudo quanto é palhaçada brasileira falada em brasileiro, os nossos jovens, estudantes ou nem por isso, já estão a ser metodicamente enculturados, literatura (técnica ou não) no original brasileiro (com terminologia específica) impingidas ou “traduzidas” por “tradutores” brasileiros, material pedagógico de todo o tipo; mesmo quanto aos adultos, aqueles que em princípio deveriam ter algum juízo e pensar pela sua própria cabeça (ou usá-la para algo mais do que segurar o cabelo), o assédio estupidificante — ou, usando sinónimos para o efeito, a lavagem ao cérebro — manifesta-se já maciça e obsessivamente, com “jornalismo” brasileiro, legendagens e dobragens (“dublagens”, na língua deles), telenovelas escarradas, futebolistas às carradas, canais de TV (existem dois canais brasileiros pagos nos operadores por cabo portugueses), “igrejas” brasileiras (seitas brasileiras, para ser exacto) e até umas “escolas de samba” e outros carnavais igualmente demenciais.

Muito instrutivo, de facto. Desensinar tornou-se já na técnica “pedagógica” de eleição. Para o efeito, nada mais eficaz do que importar o crioulo do Brasil e diplomar os seus treinadores sambistas.

Todes pelo mim

www.assiscity.com
“Assiscity” (Brasil), 22.03.22

*Por Michele Orsi*

 

Era a hora mais esperada do meu dia, a pausa para um café. Que momento! Posso garantir a você, ninguém é infeliz tomando um bom cafezinho passado na hora, para nós professores, então, é hora sagrada. Esse era o meu momento, só meu, olhos fechados, apreciando e saboreando meus 10 longos minutos de paz. De repente:

– Oi, professora.

Michelle Orsi, empresária e professora de língua portuguesa Foto: Divulgação

Fingi que não era comigo. Melhor não abrir os olhos, o excesso de trabalho pode estar me pregando uma peça. Vou ficar aqui, feito estátua, olhos cerrados, não respira.

– Profe, você pode “mim” ajudar?

Confesso que, nessa hora, eu queria ser um personagem da saga Harry Potter, só para aparatar em outra dimensão. Continuar fingindo que não estava ali? Não iria funcionar, o melhor era ajudar mesmo, afinal, depois do “mim ajudar” aquela alminha precisava de mim urgentemente.

Encarei o problema. Nem abri os olhos direito e a enxurrada de palavras, sem sentido, começaram.

– Professora, eu preciso de ajuda. Vo faze um jornal pra escola e minha primeira notícia vai ser sobre a nova língua portuguesa – a linguagem neutra. Você mim ajuda?

Minha vontade era de falar NÃO, sair dali e fingir não ter ouvido tanta besteira – para não dizer um palavrão. Mas, algo naquele diálogo despertou minha atenção, muito mais do que o “mim” antes do verbo – “linguagem neutra”. Reverberava no meu ouvido.

Comecei tentando lembrar o abençoado que o correto é “me ajudar”, que MIM não conjuga verbo, que ele não era um índio da época dos jesuítas, sim, porque hoje, até os índios falam corretamente. Foi quando percebi que falávamos dialetos diferentes.

– Tendi, mas a senhora pode ajudar mim fazer?

Tive tempo de dar apenas três piscadelas…

– Profe, eu quero mostra pros alunes a importância da linguagem neutra pra acolhe a todes amigues aqui na escola, mais não sei como explica essa nova mudança no português, mim ajuda?

Meu cérebro ainda estava corrigindo as gafes verbais daquela frase toda, quando a próxima surgiu:

– Meu título vai ser – BEM-VINDESTODES!

Antes de perder um pouco do bom senso que ainda me restava, tentei explicar que a linguagem neutra NÃO existe na nossa língua e é pouco provável de existir, já que, para ser implementada, deve-se mexer em toda a estrutura linguística aqui e em Portugal, afinal somos línguas irmãs e todas as alterações feitas aqui devem estar em comum acordo com lá, o tal do acordo ortográfico. Logo, não vão mudar uma língua inteira, centenária, por conta de uma aberração verbal que mais exclui do que agrega. Sim, EXCLUI. Aliás, antes de querer obrigar uma sociedade toda a mudar sua forma de falar e escrever é preciso APRENDER o próprio idioma corretamente, o que está longe disso acontecer.

Como exemplo, citei a palavra SOCIEDADE que é um substantivo feminino terminado em e; já motorista, que também é um substantivo feminino, termina em A, para mudar o gênero basta acrescentar o artigo – o, assim, você terá o motorista – masculino, NÃO EXISTE motoriste, porque não existe nenhum artigo neutro. Portanto, não é colocando E, x ou @, no final das palavras, que incluirá alguém ao idioma.

E, assim, foi nosso pequeno tempo de conversa. Tentei mostrar o que fazer com os surdos, já que, em libras não há a possibilidade de acréscimo inventado de vogais “neutras” – “Ai, profe, não tem surdo na escola.”. E os cegos? “Cego nem lê, profe.”. Falta de conhecimento em braile é comum também. Autistas? “Ah, autistas já lê, nehprofe, vai ficar até mais fácil pra eles?!“. E lá estava eu, piscando três vezes de novo…
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N’intendo

À laia de nota prévia, devo dizer que não entendo absolutamente nada desta indústria dos jogos virtuais, pelo que desde já peço desculpa caso cometa alguma gaffe de ordem técnica a respeito de tão esotérica quanto — digo eu — estupidificante matéria. De qualquer forma, não é de todo esse o aspecto que aqui importa; atendamos apenas ao essencial do que se noticia no Brasil (em Portugal este tipo de minudências é prudentemente ocultado), consistindo na preocupação que aflige a “intelectualidade” local, ou seja, os joguinhos de computador. E, principalmente, que essas brincadeiras estejam “localizadas” na língua deles, a brasileira.

Pois, confere, a “brincadeirinha” é um modo de vida, lá como cá, portanto há que “localizar” joguinhos, que isto ele o Inglês é “língua dji cáchorro” e, sobretudo, não se parece nada com a “língua universau“.

A industrial lavagem ao cérebro e geral embrutecimento não se confinam, porém, como sabemos, às fronteiras brasileiras; desde que a neo-colonização linguística e cultural brasileira se transformou em política de Estado da ex-República Portuguesa, sendo compulsivo o uso da língua brasileira em vez da nacional, tudo o que tem a ver com tradução (ou “localização”) do Inglês ou de qualquer outra Língua decente para a “universau” implica por arrastamento que isso vai “sobrar” para as sete colónias brasileiras, a começar por aquela que na pré-História (antes de 1986) foi a potência colonizadora da actual metrópole sul-americana.

O ingente “problema” de os brasileiros em geral serem fatal e congenitamente incapazes de articular sons para eles alienígenas (como o “th” em “the” ou em “thirst”, por exemplo, ou como as sequências consonânticas mn, pt, pç, cc, cç, ct) e a sua atávica falta de jeito para línguas (o tuga é ao contrário mas até isso será liquidado em breve com a obsessão pela dobragem/”dublagem”), ambos os factores confluindo na mesma “incomodidade” levam a que aqueles tipos procurem com afã quem lhes traduza os joguinhos.

O “pobrema” (que é coisa de pobre, como dizia o filósofo Caco Antibes) reside na teórica resistência de certo responsável português pelas vendas da Nintendo, esse colosso do vazio massificado, ao facto de fazer “dublagens” e já não dobragens. Isto é, se a bonecada passará a falar “assim” (PT-PT) ou “dêssi jeitu” (PT-BR). Não devem ter informado o pobre senhor de que agora existe uma coisa maravilhosa que é chamar-se “língua universau” à língua brasileira.

Já não bastavam as macacadas do tal Neto (ou lá o que é), ao vivo e a cores, com imensas fitinhas coloridas, batucadas e imbecilidades sortidas para entreter os “môléqui” tugas, agora além das crianças portuguesas também os adultos — se bem que dentro da mesma faixa etária mental — levarão com “localizações” zucas; tudo muito “légau”, é claro, mas apenas para quem está metido no negócio, os vendilhões da política, os vigaristas da linguística, os espetadores de “espetáculos”, os pedagogos especializados no neurónio esquerdo.

Uma longa e penosa luta espera-nos ali adiante, já na próxima esquina do tempo. Não vai ser fácil a reconstrução, apanhar e colar os cacos, recuperar os destroços e retomar o rumo da Língua Portuguesa que os traidores persistem em demolir.

Nintendo Portugal fala sobre pedidos de tradução e cita o Brasil

“Tecmundo” (Brasil), 11.03.22

 

Assim como os brasileiros, que recentemente fizeram uma grande campanha para que Pokémon Scarlet e Pokémon Violet fossem localizados para PT-BR, os portugueses também estão empenhados para que os títulos da Nintendo sejam localizados para PT-PT. Jorge Vieira, líder da Nintendo Portugal, falou sobre o assunto em uma entrevista para a Eurogamer nesta sexta-feira (11).

Ele citou que a retomada dos negócios da empresa japonesa no Brasil, que voltou a ter representação oficial em 2020, tem ajudado nesse trabalho de convencer a gigante a traduzir os games. Vieira citou o MarioParty Superstars como exemplo de que é possível atuar nesse sentido.

“Também ajuda muito a questão no mercado brasileiro a Nintendo estar paulatinamente novamente recuperando um espaço que já teve no passado e obviamente começa a ser uma aposta”, argumentou.

Além de Superstars, o primeiro jogo a ter texto em PT-BR no Switch, recentemente a marca revelou que MarioStrikers: BattleLeague e Nintendo SwitchSports também terão essas opções de legendas na nossa língua.

Apesar disso, o executivo explicou que trazer a representação de um título para uma língua não é uma decisão tomada rapidamente e que depende de um tempo. Segundo o representante da Nintendo, a localização é um processo complexo que precisa cumprir certo padrão de qualidade não somente na tradução, mas também na revisão, por exemplo.

“A localização é um tema que não passa somente por cada país. Obviamente, se a decisão dependesse de nós em Portugal, teríamos os jogos localizados, mas é um processo que tem seguramente muita gente a intervir na decisão. Não é tão fácil como às vezes leio, com alguma ingenuidade, que é pegar em três ou quatro pessoas, traduzimos e isto fica bem”.

Vieira comentou que lê bastante os fóruns na internet e sempre se depara com as pessoas pedindo um trabalho da Nintendo mais forte em relação à língua portuguesa. Ele disse que entende a paixão dos fãs e garantiu que está sempre conversando com os “chefões” lá do Japão para que a questão seja considerada por eles.

“Quanto mais opções tivermos, melhor. Se tivermos a opção de ter o jogo em português, mesmo o português do Brasil […], é uma ajuda imensa especialmente com as crianças. Mas também temos questões muito nossas, já tive de explicar internamente sobre o acordo ortográfico, das diferenças do português [de Portugal] para o português do Brasil e obviamente é um tema”, ele pontuou.

O líder da Nintendo Portugal prometeu ainda, pelo menos para os portugueses, que seguirá fazendo um lobby para que a gigante japonesa enxergue o português como uma língua estratégica para os jogos.

“Prometemos que a questão não está esquecida, continuamos a trabalhar nisso e vamos ver. O nosso objetivo é no futuro ter cada vez mais jogos localizados”, finalizou Vieira.

Chefe da Nintendo Portugal se pronuncia sobre localização de jogos de Switch em português

O portal Eurogamer publicou, nesta sexta-feira (11), trechos de uma conversa com Jorge Vieira, chefe da Nintendo de Portugal, em que o executivo comenta sobre os pedidos que se intensificaram neste começo de ano por mais jogos da empresa localizados em português.

No início de março, fãs brasileiros iniciaram uma campanha nas redes sociais pedindo que Pokémon Scarlet/Violet (Switch) fosse localizado em português, gerando engajamento não só da própria comunidade, mas também de influenciadores e celebridades. O movimento chegou a liderar os assuntos mais comentados do Twitter do Brasil.
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“Silêncio escuro de lagoa morta”

«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.» [Guerra Junqueiro, in ‘Pátria’ (1896)]


Para entender as três “notícias” que se seguem é necessário armar-se a gente de algum arsenal de paciência e de ao menos um módico de perspicácia. O trivial, portanto; a coisa é tão evidente que até dói, salvo seja.

Tanto as “novidades” do “Expresso das Ilhas” como (ou principalmente) a “local” do “Observador” — um dos mais activos órgãos de propaganda e contra-informação governamental — surgem do factor comum habitual, ou seja, através de despachos da Agência Brasilusa (a central oficial de intoxicação e de lavagem ao cérebro), denotando estes de novo o seu habitual esforço para disfarçar a realidade e mascarar as mentiras de Estado com o disfarce da “língua universau” e sob a capa de um “acordo” fictício. As aberrações do costume, portanto, mas estas — se lidas em sequência cronologicamente inversa — sem deixar qualquer margem a que os “distraídos” (tipos que não querem “guerras com o Brasil” e lindezas assim, como se tais guerras existissem fora das suas moleirinhas) finjam que por distracção algo se lhes escapou. Por mais que tentem, com essas mais do que evidentes declarações de intenções, os anjinhos “pacifistas” que se dizem anti-AO90 e tudo não podem desta vez escapar às reais intenções da pseudo-linguística golpada ou iludir as reais intenções (exclusivamente económicas) da diplomacia brasileira e dos colaboracionistas domésticos.

  1. Em 17 de Julho de 2021, na 13.ª Cimeira da CPLB, em Luanda, é “assinado” entre os Estados-membros (quantos deles, ao certo, não consta, mas também não interessa para nada) o Acordo de Morbilidade, garantindo que, por exemplo, um português possa emigrar para a Guiné Equatorial.
  2. Em 12 de Fevereiro de 2022, o “acordo de morbilidade” foi aprovado pelo equivalente — em todos os aspectos, incluindo negociatas de bastidores, corruptos, roubos de “colarinho branco” — que no Brasil faz as vezes do Parlamento tuga. Esta aprovação «seria suposto demorar seis meses, mas foi rápido», dizem os próprios.
  3. 7 de Março de 2022, o «Brasil conclui ratificação do acordo de mobilidade da CPLP e coloca Portugal como prioridade». Na mesma data é “anunciado” (mais propaganda, mais areia p’rós olhos) que o gigantone sambístico «passa a ser o sexto país da CPLP a concluir o processo de adesão ao Acordo» de morbilidade.

Ou seja, em conclusão, a incrível pressa com que homens de negócios brasileiros e portugueses esgalharam este outro “acordo” — apenas oito meses desde a redacção até à assinatura, coisa que é certamente record mundial — demonstra claramente aquilo que por diversas vezes aqui foi bem mais do que exposto, denunciado e esclarecido: a ganância desenfreada é aquilo que exclusivamente move políticos e empresários e foi apenas com essa finalidade objectiva (o petróleo e os diamantes de Angola, o gás natural de Moçambique, Portugal como porta dos fundos para excedentários) que o AO90 foi literalmente inventado, tentando dessa forma conferir algum lustro “académico” e “cultural” à Comunidade dos Países de Língua Oficial Brasileira (CPLB).

A pressa extraordinária em fazer sair esta espécie de lei é só por si extremamente reveladora e ainda mais tresanda a vigarice caso atendamos ao facto de, sem qualquer espécie de transição, nos textos dos despachos dos propagandistas de serviço, passar-se das expressões ocas do costume sobre “Línguas, Cultura, Ciência e Inovação, Educação, Ciência e Cultura, Língua Portuguesa” para o verdadeiro busílis da questão: “Comércio Exterior, Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, ministros da Economia, Finanças e Comércio“. Ou seja, os textos passam de repente do paleio rotineiro sobre a língua brasileira para aquilo que realmente interessa aos vendilhões de pátrias — o dinheiro. Não o dinheiro em migalhinhas, que isso ficará para as comissões dos vendidos portugueses, mas o dinheiro à séria, largas centenas ou milhares de milhões em que se banharão os Tios Patinhas da “metrópole” brasileira.

Desta vez, para esta expedita aldrabice, não serviu de nada a regra de três Estados subscritores valerem por todos os oito (agora nove) que os acordistas e brasileiristas inventaram para aprovar o AO90 à força. Mais uma vez se demonstra que aquilo foi um expediente ad-hoc: serviu exclusivamente naquela data fatídica e, arrancado a ferros o efeito pretendido (a imposição da cacografia brasileira a toda a CPLB), nunca mais a “regra” voltou a ser utilizada.

É portanto natural que o tal Zacarias, o actual capataz do Brasil na CPLB, tenha proferido uma “curiosa”, lapidar “sentença”, sublinhando «a rapidez com que o acordo de mobilidade foi ratificado pelo Brasil: “Em tempo recorde”».

Brasil é o sexto país a ratificar Acordo de Mobilidade da CPLP

 

“Expresso das Ilhas” (Cabo Verde), 7 de Março de 2022

 

“O Ministro das Relações Exteriores da República Federativa do Brasil, Carlos Alberto França, vai visitar a sede da CPLP (…) para efectuar o depósito do instrumento de ratificação pela República Federativa do Brasil do Acordo sobre a Mobilidade entre os Estados-Membros da CPLP”, assinado a 17 de Julho de 2021, na cimeira de Chefes de Estado e de Governo, em Luanda, referiu um comunicado da organização.

Assim, o Brasil passa a ser o sexto país da CPLP a concluir o processo de adesão ao Acordo de Mobilidade, que já foi ratificado e completado também por Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Esta iniciativa será também um dos pontos altos da agenda do primeiro dia da visita oficial a Portugal do chefe da diplomacia brasileira.

Na sede da CPLP, hoje, o ministro das Relações Exteriores do Brasil “vai ser recebido pelo secretário-executivo, Zacarias da Costa, numa cerimónia que contará também com a presença dos representantes permanentes dos Estados-membros junto da CPLP”, adianta ainda a nota daquela organização emitida sexta-feira.

Carlos Alberto França sublinhou na mesma ocasião que Brasília queria reforçar o seu papel na CPLP e pagar as contribuições em atraso num horizonte de dois anos.

[“Links”, sublinhados e destaques a verde meus.]

Brasil conclui ratificação do acordo de mobilidade da CPLP e coloca Portugal como prioridade

Agência Lusa
“Observador”, 7 de Março 2022

 

O Brasil tornou-se esta segunda-feira o sexto membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) a aderir ao acordo de mobilidade, após depositar o instrumento de ratificação na sede da organização, e colocou Portugal como prioridade para parcerias.
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Novo Império (escola de samba, Figueira da Foz, Portugal)

Fragmento de troca de comentários, em data incerta (talvez 2017), entre dois utilizadores do Facebook. Este recorte, encontrado e repescado por mera casualidade, estava perdido entre dezenas de materiais e conteúdos diversos numa das várias “colecções” que ao longo do tempo foram sendo guardadas (à cautela) em locais e em suportes diferentes.

[Tradução]

— Mihail Cazacu (Bucareste, Roménia)
Porque é que em Portugal se fala Português, uma língua brasileira, em vez de uma das línguas europeias?
— Garcia Francisco (Portugal)
Em Portugal falamos Português, que é efectivamente uma língua brasileira, dado o facto de nós termos sido descobertos em 1876 por uma navegadora brasileira de nome Fafá de Belém. A capitã Fafá atravessou o Atlântico num barco chamado Chico Buarque e encontrou terra num local hoje conhecido como sendo a costa de Portugal, perto de Évora, uma cidade costeira de onde eles enviavam escravos portugueses para o Brasil. Depois de estabelecido o comércio de escravos, os colonizadores brasileiros começaram a desenvolver o local e por fim começaram a enviar [para cá] as suas telenovelas, que sem dúvida se tornaram no ponto fulcral da Cultura deste jovem e ingénuo país. Apenas em 1958 conquistamos a independência em relação ao [Brasil] […]

Evidentemente, este “diálogo” tem tanto de virtual como de — não sendo brutal na adjectivacão — irónico. O ilustre desconhecido, Garcia Francisco de sua graça, merece uma saudação calorosa pelo extraordinário sentido de humor com que destrói uma intrigante dúvida existencial de certa cabecinha extremamente baralhada. Presume-se que a interlocutora romena tenha ficado mergulhada numa ainda mais intrincada teia de ignorância sobre Portugal e a Língua Portuguesa e sobre o crioulo brasileiro mai-lo seu “gigantismo”. É, no entanto, algo curioso que até entre alguns estrangeiros já comece a pairar a fábula brasileirista.

A resposta não é de todo irónica, afinal. Podemos mesmo dizer que é reveladora — e tristemente — do ponto a que chegou já a “difusão da língua” brasileira no mundo, ou seja, da intensa campanha de desinformação e de intoxicação da opinião pública promovida pelos lacaios neo-imperialistas da tugalândia.

Ainda menos piadético do que este “diálogo”, se tal coisa é possível dizer a respeito das golpadas visando a estupidificação em massa, é a gravação que seguidamente [agradecimentos a Paulo Martins pela indicação] podemos “apreciar” ao vivo e a cores: as “exigências” que brasileiros em Portugal pretendem impor ao país que os acolheu (e que os qualifica), na sua auto-assumida condição de colonizadores. Em suma, para este naipe extremamente “selecto”, é um escândalo que em Portugal se fale Português. Acusando os “portuguesinhos” do habitual no seu discurso característico e atirando-lhes para riba dos lombos os insultos habituais (que nós somos “preconceituosos” e xenófobos”, essas lindas coisinhas), em especial os “académicos” do calçadão — a coberto da total impunidade conferida pelos brasileiristas tugófilos — fartam-se de malhar no país, nos seus habitantes e na sua Língua.…e


Nada disto é meramente casual, evidentemente. O linguicídio é “apenas” uma das facetas mais visíveis e notórias do processo em curso que visa a aniquilação da identidade nacional. Além do factor identitário fundamental, substituindo a Língua Portuguesa pela brasileira a coberto de um “acordo ortográfico” que de acordo nada tem e de ortográfico ainda menos, os brasileiristas nascidos em Portugal promovem sistemática e violentamente o esmagamento cultural e o radical apagamento da História de todo e qualquer resquício da Pátria que tanto os seus egrégios avós como aqueles bastardos gerou.

Com a maior das “levezas” (superficialidade) foram sucessivamente permitindo — e até mesmo facilitando — a eliminação de conteúdos portugueses. Em especial na Internet e nos sistemas informáticos — a começar pela extinção do “código de matrícula” do Português-padrão (CHCP 860) — mas também nos demais canais e meios de informação, difusão e entretenimento.

Já aqui foram escalpelizados alguns dos casos mais flagrantes de apagamento selectivo e eliminação sumária (Google e outros “motores de busca”, Wikipedia, programas de edição de texto, “corretores” cacográficos compulsivos, etc.). Todos os endereços de serviços e de plataformas que eram “https://domínio.com.pt” ou “pt.domínio.org” ou “domínio.xxx.pt-pt”, por exemplo, e que continham “interfaces”, documentação ou quaisquer outros conteúdos portugueses e cuja ortografia era a da Língua Portuguesa mantiveram o endereço (URL) mas o que agora deles consta está tudo na cacografia brasileira, escrito na língua brasileira e com conteúdos brasileiros; existem casos em que os anteriores conteúdos portugueses (imagens, entradas de enciclopédia, expressões idiomáticas, etc.) foram substituídos pelos equivalentes brasileiros.

Evidentemente, convém ir ilustrando e documentando o golpe de Estado, também a página de abertura da Wikipédjia Lusôfona contém apenas assuntos brasileiros (negócios, de preferência)

O Programa de Desenvolvimento de Submarinos é uma parceria firmada entre o Brasil e a França, no ano de 2008, com o objetivo de transferir tecnologia para a fabricação de embarcações militares. É um componente da Estratégia de Defesa do Estado para o desenvolvimento do poder naval do país com a produção de quatro submarinos convencionais (propulsão diesel-elétrica) e do primeiro submarino de propulsão nuclear brasileiro. O programa fará do Brasil um dos poucos países a contar com tecnologia nuclear, ao lado de Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido, China e Índia.

Apesar de o programa ter iniciado em 2008 com o objetivo de prover a Marinha do Brasil com uma “força naval de envergadura”, parte dele remonta à década de 1970 quando a Marinha começou a procurar o domínio da energia nuclear. (leia mais…)

Veja-se um outro caso ao acaso, que isto está por todo o lado e já infectou tudo: a versão “pt” (brasileira) da Google Maps utiliza para os transportes públicos portugueses a terminologia exclusiva do Brasil. Assim, o famoso “eléctrico 28” é uma espécie de monumento alfacinha em movimento a que agora os brasileiros impõem que se chame “bondji vintchioito” ou “bondjinho 28”.Temos portanto, por força do AO90, da “língua univérsáu” e, em suma, por ordem dos novos “bwana” cá do indigenato, que “em nossa cápitáu próvinciáu” Lisboa temos “bondes”, o que aliás é extensível a toda a colónia, onde também passamos a ter ponto de “ônibus” onde na anticlíngua tínhamos “paragens de autocarro” (uma chinesice que ninguém entendia, “ônibus” é muito mais “fáciu, viu”).
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Timor Loro Sae, Timor Sol Nascente

Nota prévia
Após uma relativamente longa suspensão, em sinal de respeito para com as vítimas da tragédia que estalou na Ucrânia, mas atendendo a que apesar de tudo continua sem qualquer alteração em Portugal o processo de genocídio cultural em curso, decidi retomar a publicação de conteúdos neste “blog”, na expectativa e com a esperança de que esteja para breve a reconquista da independência, da auto-determinação e, numa palavra, da paz naquele país.


«Como foi possível?»
«Algumas pessoas nos perguntam e muitas outras se interrogam: como foi possível que a entrada em vigor do “acordo ortográfico” de 1990 tenha sido aprovada pelo Parlamento?»
Lusa
Na votação de hoje na Assembleia da República, estava em causa apenas a adesão de Timor-Leste ao Acordo Ortográfico e a possibilidade deste poder entrar em vigor após três ratificações, como estabelece o segundo protocolo modificativo. [“Despacho” da agência Lusa, 16 de Maio de 2008. Este “despacho” foi reproduzido na altura pela generalidade da imprensa portuguesa.]

Eu próprio, tal como muitos senhoras e senhores Deputados, assisti a um lancinante apelo de um português que está em Timor e que pedia que se ratificasse este Acordo Ortográfico para que possa ser uma realidade o ensino do Português em Timor-Leste, com professores portugueses mas também brasileiros, ou angolanos, ou moçambicanos. [Excerto de intervenção em plenário de Pedro Mota Soares (deputado), durante a discussão da RAR 35/2008, em 16 de Maio de 2008.]

O que está aqui hoje em discussão — no fundo, o conteúdo deste Segundo Protocolo Modificativo — é a entrada em vigor desse mesmo Acordo Ortográfico, a sua abertura à República Democrática de Timor-Leste e o prazo limite de seis anos para adaptação dos manuais. Isto, depois de um Primeiro Protocolo Modificativo que alterara o texto inicial, quando este previa, como prazo para ratificação por todas as partes signatárias, a entrada em vigor do próprio Acordo Ortográfico no ano de 1994. [Excerto de intervenção em plenário de Rui Gomes da Silva (deputado), durante a discussão da RAR 35/2008, em 16 de Maio de 2008.]

Fica a pergunta: quantos dos 204 deputados terão votado favoravelmente a RAR 35/2008 julgando estar a aprovar não a entrada em vigor do AO90 mas apenas a admissão de Timor-Leste como Estado subscritor? [“Post” da ILCAO em 25.09.12.]

Uso de português em debate de candidatos presidenciais timorenses causa polémica

www.dn.pt, 22.02.22

 

A decisão da Comissão Nacional de Eleições (CNE) timorense de incluir algumas perguntas em língua portuguesa no debate dos candidatos presidenciais às eleições de 19 de Março está a causar polémica em Timor-Leste.

Dez candidatos ouvidos pela Lusa (há 16 concorrentes) concordam com a decisão, recordando que o português é, a par do tétum, uma das línguas oficiais do país e que o Presidente deve dominar as duas línguas.

A maior oposição à ideia tem sido vincada por dirigentes do KmanekHaburas Unidade Nacional Timor Oan (KHUNTO), partido que apoia a candidatura da atual vice-primeira-ministra, Berta dos Santos, que evidencia algumas dificuldades a falar português.

“Não há regras, procedimentos legais que exijam que o candidato tem que falar português”, afirmou à Lusa AntonioTilman, dirigente e deputado do KHUNTO.

“O debate é um meio de os candidatos darem a conhecer as suas políticas à população em geral, que não compreende bem português”, afirmou.

Questionado sobre se a postura do partido tem a ver com o facto de a sua candidata ter dificuldades em português), Tilman insiste que o debate não é sobre a “capacidade de falar ou não” português.

Contra a decisão manifestou-se igualmente o secretário-geral da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin), Mari Alkatiri.

“Sou defensor da língua portuguesa. Mas neste caso a mensagem deve ser entendida pelos eleitores. 90% dos eleitores não vão absorver nada das mensagens”, disse à Lusa.

Além da oposição pública da candidatura de Berta dos Santos, para já nenhum outro candidato criticou publicamente a decisão, anunciada pelo presidente da CNE, José Belo.

José Ramos-Horta, candidato presidencial, disse à Lusa que concorda totalmente com o uso das duas línguas oficiais durante o debate.

“Como é possível imaginar-se um chefe de Estado timorense que não domine as duas línguas oficiais de Timor-Leste, sendo Timor-Leste membro da CPLP?” (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), disse Ramos-Horta, que ocupou a presidência entre 2007 e 2012.

Outro candidato, Constâncio Pinto, disse à Lusa concordar “perfeitamente com o uso da língua portuguesa no debate da CNE porque a língua portuguesa é uma das línguas oficiais de Timor-Leste”.

“Porque é que temos medo no uso da capacidade de falar em português?”, questionou Martinho Gusmão, padre e candidato presidencial.

LereAnanTimur, general e candidato à presidência, recorda que foi decisão dos timorenses na sua constituição “optar pelo português com o tétum como línguas oficiais” e que por isso o Presidente do país deve defender as duas línguas.

Opinião idêntica tem a candidata Milena Pires, que disse à Lusa que “sendo o tétum e o português línguas oficiais de Timor-Leste, consagradas na Constituição da República, é natural que ambas sejam usadas no debate presidencial promovido pela CNE”.

Opinião idêntica têm Isabel Ferreira, Milena Pires e Virgilio Guterres, candidatos que disseram à Lusa que as línguas estão constitucionalmente consagradas e que por isso devem ser usadas no debate.

Ainda assim, Virgilio Guterres reconheceu que “uma percentagem significativa dos eleitores ainda não domina a língua portuguesa”.

O candidato Mariano Assanami Sabino vinca mesmo que “o Presidente tem papel guardião da constituição e é necessário também usar o português”.

Outro candidato, Felizberto Duarte lembrou que as leis “a serem promulgadas pelo presidente são escritas em português. Domínio de português dos candidatos para o cargo de presidente é um requisito essencial de competência”, disse à Lusa.

A utilização da língua portuguesa no debate já devia ter acontecido em eleições anteriores, defendeu o candidato Anacleto Ferreira. “Só espero não esteja a ser usada esta obrigação como uma arma política”, disse à Lusa.

O debate da CNE está marcado para 08 de Março e a primeira volta das eleições ocorre a 19 de Março.

[Corrigi a cacografia brasileira do original. Destaques e “links” a verde meus. Imagem minha (distribuição de manuais de Língua Portuguesa pelas escolas das montanhas de Timor).]

Cabo Verde tem a sua própria língua nacional, o Crioulo, e utiliza o Português-padrão como segunda língua. Do mesmo modo, em Timor-Leste a língua nacional é o Tétum, sendo a Língua Portuguesa canónica utilizada unicamente em meios oficiais e académicos para efeitos governamentais ou diplomáticos.

Em Timor, aliás à semelhança do que sucedeu e continua a suceder em todas as demais ex-colónias portuguesas, o Português de lei funciona como língua franca, ou seja, como sistema de comunicação comum entre grupos de indivíduos de língua materna e de uso diferentes.
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Uma das Caldas

Nota prévia

Após uma relativamente longa suspensão, em sinal de respeito para com as vítimas da tragédia que estalou na Ucrânia, mas atendendo a que apesar de tudo continua sem qualquer alteração em Portugal o processo de genocídio cultural em curso, decidi retomar a publicação de conteúdos neste “blog”, na expectativa e com a esperança de que esteja para breve a reconquista da independência, da auto-determinação e, numa palavra, da paz naquele país.


Ora cá está um fantástico monumento à pura e simples estupidez. De todo o acervo publicado no Apartado 53, nunca tais píncaros de imbecilidade tinham sido alcançados — apesar das inúmeras, mirabolantes produções de todos os gurus acordistas já aqui transcritas –, especialmente se tivermos em atenção os requintes de debilidade que denota D. Teresa no seu estendal de inacreditáveis asneiras.

No qual estendal não vale sequer a pena corrigir a cacografia, porque o paleio (de chacha) que a autora bolça não vem embrulhado em espécie alguma de “redacção”: aquilo não é nem brasileiro, se bem que a única regra gramatical desse crioulo seja a total ausência de regras gramaticais, nem é, muito longe disso, a anos-luz, algo que remotamente se pareça com Português.

Diz que é “professora”, a autora do naco, mas, por algum insondável mistério da sorte, parece já estar reformada, o que é sem dúvida tremendo alívio para os alunos e as escolas das redondezas das Caldas das Taipas, essa simpática localidade dos arredores de Guimarães que até tem um jornal e tudo… facto do qual manda a hombridade reconheço com humildade o meu imperdoável desconhecimento. Aliás, é para mim surpreendente, confesso, que nas Taipas haja um periódico; do local apenas conhecia a piscina (jamais esquecerei as manchas amarelas alastrando em volta dos banhistas, além do hábito que alguns deles tinham de ali tomar o seu banho quinquenal, além de calções levavam consigo uns nacos de sabão-macaco) e os bons pesqueiros que então havia no troço de rio Ave que do outro lado da estrada faz uma curva larga.

Além de ser muito mais pitoresco ler o textículo conservando-lhe todos os aleijões, mesmo os mais dolorosos e de penosa leitura (ignoremos a parte da TLEBS, para variar e para facilitar), parece-me que além do modo intocado também o conteúdo merece uma “reflexão” aprofundada, ou seja, deverá cada qual partir o coco a rir à sua maneira, mas sempre tentando conservar uma (com)postura (con)digna, por exemplo, abafando as gargalhadas com uma almofada (ao menos um lenço, vá) para não incomodar desnecessariamente a vizinhança.

Note-se-lhe o estilo furibundo, por exemplo. A xôdona passa-se positivamente dos carretos porque, para seu dela grande escândalo, há quem não “adote” o AO90.

O textículo abre, evidentemente em sentido figurado, logo com um tremendo murro na mesa que, certamente, deve ter assustado imenso, pobres animais, as trutas, os barbos, as achigãs do rio Ave: «Pasme-se… Instituições do ensino superior, institutos politécnicos e universidades não o adotaram e, boquiabertamente…, há universidades em que uns professores o adotaram e outros não, transformando em joguetes os alunos que têm de fazer a correção ou não dos seus textos de acordo com o professor.»

“Pasme-se”, diz ela. E diz bem. Ao menos isso. A sua estremada (e estrumada) dedicação à “causa” do II Império brasileiro vai ao ponto de, aliás como é hábito naquele tipo, tratar a murro e a pontapé a Gramática — erros de concordância, hipercorreções, acordo verbal a trouxe-mouxe, etc. — e em simultâneo enaltecer os méritos das luvas de boxe na escrita.

Isto não é “acervo” coisa nenhuma, isto é só parvo todos os dias. Ainda que por absoluta excepção, reproduzir aqui esgalhanços publicados na imprensa regional ou local é um risco tremendo: no chamado “Portugal profundo” há de tudo, naturalmente, mas por vezes a tendência dos jornais locais é, fatalmente, desgraçadamente, dar voz à mediocridade igualmente profunda dos titulares de canudo ou cargo público. Ora, de entre essa desprezível minoria arranjam sempre maneira de se destacar os que também na “província” fundam escolas de samba e organizam uns “cafuné prus coroné” ou coisa que o valha.

De facto, existem os traidores, mercenários e vendidos, os que directa ou indirectamente têm algo a ganhar, não só em contado como também em mordomias, em “tachos”, em “revisões”, em “pareceres”, em “favores”, em publicações, em currículo (marado), em “contactos”. Mas existem além desses, se bem que ainda — felizmente — em números residuais, uns quantos mamíferos que, por estarem como as nódoas entranhadas no mais incrustado do tecido social, sentem uma irreprimível vontade de defecar em público por escrito.

Entre ambas as sub-espécies, a urbana e a provinciana, desde que ignorando o maior ou menor pretensiosismo que lhes é comum, não há por onde ou como escolher: denunciar a idiotia de uns, expor a desonestidade intelectual de outros e sobretudo combater a má-fé de todos eles, eis o que em suma desde há décadas deixou de ser um simples direito e passou a ser um dever absoluto.

O (des)acordo ortográfico e a TLEBS

Teresa Portal

 

O Acordo Ortográfico (AO) foi e continua a ser uma questão polémica, pois apenas adotado, unilateralmente e, para cúmulo, pelo país que fala e escreve a língua-mãe.

 

Pior ainda, apenas uma pequena fatia do país foi “obrigada” a adotá-lo, o Ministério da Educação. Faz dez anos que as escolas o utilizam.

Pasme-se… Instituições do ensino superior, institutos politécnicos e universidades não o adotaram e, boquiabertamente…, há universidades em que uns professores o adotaram e outros não, transformando em joguetes os alunos que têm de fazer a correção ou não dos seus textos de acordo com o professor.
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