Mês: Abril 2022

Internet em Português: Chrome e Firefox

CHROME Desacordo Ortográfico – extensão Chrome

«Ah e tal agora escreve-se assim…»
«Extensão para o Google Chrome que converte páginas escritas ao abrigo do acordo ortográfico de 1990 para o de 1945. Está publicada aqui. […]. Papa-linces.»
«Não há coisa mais aberrante do que uns mentecaptos a tentar “evoluir” a língua à força e por decreto. Esta idiotice tem de acabar (e rápido), e esta iniciativa é uma forma de devolver a sanidade às vítimas deste aborto ortográfico.»
«Voltemos a ler em bom Português.» [Miguel Laginha, “Desacordo Ortográfico“]

[com a cacografia brasileira] [em Português]
[Wikipédjia lusôfona (brasileira) em brasileiro] [Wikipédjia brasileira com ortografia em Português]
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1. Open the Chrome Web Store.
2. Find and select the extension you want.
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1. Aceder a Chrome Web Store
2. Procure e seleccione a extensão pretendida.
3. Click em “adicionar ao Chrome”.
4. Algumas extensões irão indicar permissões ou dados necessários para a instalação. Para aprovar, click em “adicionar extensão”. Assegure-se de que aprova extensões de proveniência segura.

O processo de instalação de uma extensão no Chrome é muito simples e intuitivo. Depois de instalada esta, a “desacordo Ortográfico”, pode adicionar um “botão” ao menu de topo do browser (como na imagem a seguir) e pronto, sempre que quiser ver uma página da Internet com a ortografia do Português basta um click no ícone com “O” em fundo preto.


FIREFOX

Firefox contra o Acordo Ortográfico – extra para “FoxReplace”

«Este site pretende ser mais uma frente de luta contra a aberração que é o Acordo Ortográfico. Mais especificamente, será o site oficial de suporte e divulgação ao método para colocar o seu Firefox a mostrar textos em acordês como se estivessem escritos de acordo com a norma do AO45, que é aquela que todos conhecemos muito bem e estamos familiarizados. Isto é feito com recurso ao extra FoxReplace, para o Firefox. Não sabe o que é? Encontra a resposta na página convenientemente denominada O que é?.» [João Ricardo Rosa, “Firefox contra o Acordo Ortográfico“]

[com a cacografia brasileira] [em Português]
[texto de acordista] [texto do acordista em Português]

Existem inúmeras variáveis de configuração da extensão FoxReplace para Firefox e do respectivo ficheiro de palavras e sites onde as alterações podem actuar automaticamente (ou “a pedido”, conforme preferir). Na imagem seguinte vê a localização da extensão nas “ferramentas” do Firefox (em Windows 10) e as opções imediatas — aplicar substituição automática ou só na página corrente (“manual”) — e as configurações globais (em Options/Opções) através do conteúdo do ficheiro de substituições.
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‘Preconceito linguístico’, racismo e xenofobia – 1

Artes gráficas

A montagem das duas imagens acima, reproduzidas infinitamente nos mais diversos sites brasileiros e portugueses, contém uma ligeira diferença entre a fotografia da direita, em plano médio enquadrado, e o pormenor da mesma “retratado” na figura da esquerda: a da direita apresenta um cartaz com os dizeres “Grátis se for para atirar a um zuca” e a da esquerda, o suposto “pormenor”, diz “Atira uma pedra a um caciqueiro“. A caixa onde supostamente ambos os cartazes foram pendurados por alunos da Universidade de Lisboa é a mesma, evidentemente, daí a definição de “ampliação de pormenor”. Deduz-se, portanto, que o cartaz nessa caixa ou mudou ou foi ou ia mudando.

Do mesmíssimo caixote em madeira existe até outro “pormenor”, desta vez mostrando o interior do dito, vendo-se no fundo oito pedras de diversos tamanhos. O significado disto não é propriamente explicitado, nem é dito algures se os calhaus eram para atirar a “zucas” ou à cabeça dos “caciqueiros”, consoante o cartaz que em cada momento estivesse a decorar o caixote. Também ficamos sem saber se porventura as pedras não seriam para escorar a tábua vertical, ou como lastro, ou ainda se simplesmente, por exemplo, alguém teria usado aquilo para jogar ao “chinquilho”. Curiosamente, aliás, nesta vista de cima não se vislumbra letreiro algum na ilharga, ainda que em perfil, e o objecto parece ter levado um pontapé, ou algo assim, desviando-se da coluna a que estava acostado.

Segundo a imprensa brasileira e de acordo com alguma imprensa portuguesa, começa a surgir em Portugal uma onda de racismo, preconceito e xenofobia, onda essa que parece engolfar exclusiva ou pelo menos principalmente os emigrantes brasileiros em geral e, destes, os estudantes universitários em particular. Ou vice-versa, não se entende bem.

A busca Google devolve neste momento “About 93,800 results” pelo critério de pesquisa “brasileiros em portugal+xenofobia”.

Para os emigrantes provenientes de qualquer dos 27 estados da República Federativa do Brasil é completamente indiferente — na medida em que não é sequer do seu conhecimento, de tão ocupados que estão em viver o melhor que podem e sabem — que Portugal tenha a sua própria Cultura, feita de hábitos, costumes e gostos diferentes, assim como para pouco ou nada interessa a brasileiros a História e o património (material ou imaterial, identitário ou meramente idiossincrático) daquilo que entre nós é assumido como sendo “o” português… a começar pela Língua.

Não é culpa dos brasileiros, como aliás nada nem ninguém, colectiva ou individualmente, pode ser responsabilizado por uma fatalidade mundial, que existe em maior ou menor grau em todos os países — Brasil incluído –, o facto de por aqui rastejarem também alguns racistas ou xenófobos. Esse estranho e primitivo fenómeno não é uma característica nacional e não afecta exclusivamente uma ou outra potencial vítima em função da sua nacionalidade de origem, seja ela brasileira ou qualquer outra.

O que não invalida, ainda assim, que o fenómeno tenha já sido e continue a ser explorado pelos propagandistas de serviço até ao osso, com não pequena soma de exageros, repetições marteladas até à exaustão, montagens, colagens e falsificações avulsas (como a das imagens acima) ou utilizando a pura e simples invenção como técnica de persuasão, isto é, de intoxicação da opinião pública.

Os episódios de racismo são (felizmente) raros, até porque, ao invés da propaganda vitimista, em Portugal existe uma espécie de idolatria — não apenas nas camadas populares — por tudo quanto é brasileiro: telenovelas, jogadores de futebol (e de outras inúmeras modalidades), programas de TV, “pregadores”, “pastores” e até “bispos” de diversas seitas brasileiras.

Não são “só” as técnicas “jornalísticas” manhosas. Não são “só” as fotografias aldrabadas, os títulos bombásticos, a histeria da linguagem, as ameaças veladas (ou expressas). Não são “só” as lamúrias de fazer uivar os lobos, as rapsódias de faca e alguidar e as escolas de samba a “bombar”. Também, por “mera coincidência”, os números estão sempre “atrasados” e incompletos e truncados. Talvez este seja um êxodo sem precedentes; nem entre 1974 e 1976, com os chamados “retornados”. Veremos.

Tudo isto entronca, evidentemente, naquilo que em linguagem de Eça se designa como “a base, a basesinha”, ou seja, já não propriamente o vetusto Latim mas um dos honrados filhos deste — o Português.

Dos netos ainda não reza a História.

Brasileiros são maioria entre os 555 mil estrangeiros em Portugal | Portugal Giro – O Globo

Por Gian Amato
“O Globo” (Brasil), 17/12/2021

Estrangeiros e brasileiros em protesto do Comitê dos Imigrantes de Portugal em Lisboa | Divulgação/CIP

O número de residentes estrangeiros em Portugal aumentou 40% em 10 anos. É o que descobriu o Censo realizado no país este ano. Os dados preliminares foram divulgados na quinta-feira (16).

Entre os 555.299 estrangeiros residentes, 5,4% da população, a maioria tem sido brasileira ao longo dos últimos anos. A comunidade que vive no país supera os números oficiais e, na realidade, é muito maior que os dados expostos nas planilhas dos órgãos do governo.
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Língua vazia

Population (2020): 12,400,232 | Metro: 22,001,281 (Greater São Paulo) [Wikipedia]

«A única solução para o infeliz acordo seria rasgá-lo. Mas ‘repensar’ também serve, desde que isso sirva para cobrir de vergonha a parolada nativa que abraçou o acordo sem parar para pensar.» [João Pereira Coutinho, 28.01.17]

«Como foi possível levar a sério o acordo ortográfico?»
«O problema do acordo é termos tido vários governos que, reverentes e analfabetos, foram ratificando, modificando e legislando como se o acordo fosse mesmo para levar a sério.»
[João Pereira Coutinho, 08.05.16]

 

Mau, mau, mau. A julgar pelo palavreado desconexo que alardeia neste seu artigo, o mais recente dos que foi escrevendo sobre o AO90, parece-me legítimo formular a seguinte singela pergunta: o que terá acontecido para que João Pereira Coutinho tenha subitamente desatado a confundir o AO90 com os “linguistas” de serviço que o fizeram? Ter-lhe-á dado, a JPC, assim de repente, quando por acaso estava (ou está) no Brasil em serviço, alguma camoeca? Mas afinal o que diabo tem o AO90 a ver com as calças?

Se, de facto, foi um lapso momentâneo, um simples hiato ou decerto acidental pancada fortuita com a testa em alguma portada baixinha, bom, vejamos, então já é outro falar e nesse caso talvez valha a pena relembrar a propósito o bê-á-bá.

Por uma questão de higiene mental e para que resulte claro da leitura que de facto JPC não terá dado uma inoportuna cabeçada, acrescentei na transcrição emendas entre parêntesis rectos ([…]), nos casos em que me pareceu que o texto original foi adaptado pelo editor brasileiro do jornal brasileiro para brasileiro (conseguir) ler a prosa redigida no Português vernáculo*** do original. Como sabemos, os brasileiros que sabem ler têm uma relação extremamente conflituosa com as línguas estrangeiras, a começar pela portuguesa, e por isso mesmo não apenas traduzem todo e qualquer texto em Português como vão ao ponto de legendar em brasileiro, nos canais de TV, tudo o que um tuga diz na estranhíssima língua cuja designação, “língua portuguesa” (ou “português”), foi segundo eles roubada aos brasileiros, os únicos detentores da patente da “língua univerrssau“.

Enfim, adiante, vamos ao artigo propriamente dito. A ver se tiramos a limpo o que afinal se terá passado na ligeiramente vertiginosa carola do escriba para que tenha debitado tamanha concentração de “distracções” e tal sortido de “variações”.

O pressuposto inicial em que o escriba se estriba, executando um estranhíssimo número de malabarismo argumentativo — aliás, um pouco trapalhão — sem qualquer mérito ou a merecer o menor crédito, é inventar de raiz uma estranha e indistinta figura genérica de malvados aos quais chama, em tom de insulto e chacota, “os puristas da língua”. Não se refere com certeza aos que rasgam as vestes por causa de estrangeirismos, barbarismos, francesismos e, principalmente, anglicismos. Não. Com esses não se chateará JPC porque esses mesmos não chatearão JPC; é-lhe indiferente, e bem, que tais fanáticos domésticos não parem nos sinais de STOP (“to stop” é um verbo em Inglês, que horror), que não apreciem nem “mousse” nem “suflé” (olha, “soufflé”, é Francês, que nojo, iach!) ou que tenham raiva a “olés”, a “faenas, a “chicuelinas” (espanholadas tauromáquicas por junto, t’arrenego). Pois nada disso interessa. O epíteto assenta inteirinho e em exclusivo, segundo a estranha formulação do autor, nos lombos dos acordistas portugueses, os patuscos que pretendem esgalhar uma “língua unificada” e tudo.

Mas que raio de confusão, caro JPC! Não é isso o que pretendem patuscos nem o que procuram vendidos nem o que privilegiam traidores; de todo; ou, melhor dizendo, isso tanto se lhes dá como se lhes deu, essa tanga da língua “univerrsáu” serve exclusivamente para fingir que a CPLB não é uma máquina brasileira de fazer negócios e que o principal objectivo desta não é o saque metódico das riquezas naturais das ex-colónias portuguesas em África.

Convém não confundir a narrativa para enganar saloios e deslumbrados com a geral ânsia de enriquecer rapidamente dos inventores da dita narrativa e seus lacaios. Não passam, como nunca passaram, de paus-mandados do seu patronato tuga-zuca — os ladrões podres de ricos da “santa aliança” atlântica (abençoada pela própria Igreja Católica), empresários políticos e políticos empresários com ligações nada discretas a irmandades não muito secretas com evidentes ligações aos meandros do poder político.

Bom, findemos, que isto ele é viscosidade a virar com pinças, portanto já basta o que basta, fiquemo-nos pelo essencial.

Pareceu-me da leitura do artigo que a JPC baralharam-se-lhe um pouco as ideias mas devo com certeza ter entendido mal. Ou então não entendi de todo.

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Português, uma língua vadia

João Pereira Coutinho

“Gazeta do Povo”, 12.04.22

 

São Paulo, 11 horas da manhã. Entro no táxi, indico o endereço ao motorista, o carro inicia a viagem. Conversamos. Política, pandemia, trânsito na cidade. A certa altura, ele pergunta: “De onde você é?” Respondo, um pouco surpreso: “Portugal”. Ele sorri e depois elogia: “Você fala muito bem a nossa língua”.

Agradeço, honrado: quem diria que, vindo de Portugal, eu saberia falar essa língua chamada português? Aliás, até acrescento: “Língua difícil, mas eu vou chegar lá”. Ele, compreensivo, consola a minha insegurança: “Imagina! Já está bom assim”.

Seria fácil olhar para o motorista e deplorar a ignorância dele. Será que ele nunca estabeleceu uma ligação entre “Portugal” e “língua portuguesa”? Pergunta absurda. Talvez o ignorante seja eu. Talvez o meu português seja mesmo diferente do dele. Talvez ele fale “português” e o meu português seja uma melodia parecida, familiar, quase igual. Quase.

Não sabem os puristas da língua, esses que sonham com um idioma unificado e até fizeram um Acordo Ortográfico, que o português nasceu antes de Portugal e que continuará a evoluir fora do país?

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Negócio sem aspas

As interrogações são de facto diversas. As perplexidades também. O que implica, evidentemente, não apenas muitas dúvidas como, sobretudo, algumas certezas: ASS, um político profissional, com tudo o que de mais sinistro acarreta semelhante designação, foi — convém não esquecer — o braço direito, o imediato, o lugar-tenente, o putativo herdeiro “ideológico” de José Sócrates, esse extraordinário modelo de virtudes. O qual modelo — como ainda mais convém recordar — foi um dos paizinhos “ideológicos” do AO90. Era o próprio ASS quem sentava sua profícua máquina de ideias na cadeira de Sua Excelência o Ministro da Defesa quando foi aprovada no Parlamento a criminosa Resolução da Assembleia da República número 35/2008 e posteriormente, com base “legal” naquela, a Resolução do Conselho de Ministros número 8/2011.

Não cabe aqui esmiuçar as diversas torções “ideológicas” ou os contorcionismos políticos de Sua Excelência o actual Presidente da mesma Assembleia onde foi parida a escandalosa ilegalidade originária, desde o seu apoio a Otelo e depois a Eanes, de Maria de Lurdes Pintassilgo a Mário Soares à Presidência da República, a sua viagem de Trotskyist a “socialista” mai-los seus compagnons de route desde a extrema esquerda burguesa ao repousante centrão, esse uterino, confortável e quentinho refúgio dos DDT. No entanto, mesmo sem necessidade de fazer um desenho da história e da cara do “cara”, aparece com nitidez uma personalidade com tanto de arrivista como de carreirista, o perfil característico do “gajo porreiro”, sempre de tacha arreganhada e naifa a postos para qualquer abraço. O tipo indicado no lugar exacto e no momento certo, portanto, aquele que reunia — e continua a reunir, ao que se vê — todas as condições para fazer passar “democraticamente” o impensável, para executar friamente o plano de destruição da Cultura, para liquidar de vez o mais ínfimo ou remoto resquício de Língua Portuguesa, de património identitário (imaterial e material), de identidade nacional (colectiva e individual). Não será com certeza por mera coincidência que o mesmo ASS, sempre ASS, tenha detido e feito soçobrar sucessivamente as “pastas” de Ministro da Educação, Ministro da Cultura, Ministro da Defesa e Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Agora alça-se ao topo da carreira: Presidente da Assembleia da República, a segunda figura na hierarquia do Estado. O esplendor da lógica trepadeira.

Haja alguma espécie de pudor, porém. E de vergonha alheia, claro. Não citarei nem uma palavra daquilo que sobre a Língua Portuguesa regurgita quem, por algum tipo de paranóico trauma, sempre fez e continua a fazer o mais que pode para aviltá-la.

Mas há quem se preste a semelhante frete, a tão excruciante sacrifício.

Depois de tanta exclamação, vamos enfim às interrogações?

Nuno Pacheco
www.publico.pt, 07.04.22

Já passou mais de uma semana desde que Augusto Santos Silva foi eleito presidente da Assembleia da República por confortável contabilidade: 156 votos a favor, 63 brancos, 11 nulos. Vê-lo na política, neste ou noutro cargo, não espanta, eleito e reeleito deputado desde 1995 e rodando pastas como governante desde 1999; espantou, sim, o seu anúncio de que voltaria à vida académica se o PS deixasse. Pelos vistos não deixou e o espanto foi-se.

Do discurso da sua tomada de posse já bastante se falou, havendo quem muito o elogiasse. Mas há um ponto a que importa voltar: o da língua. Sem surpresa, ela preencheu parte considerável das 2282 palavras com que o ex-ministro se dirigiu ao Parlamento, ora repisando velhíssimas máximas, como o português ser “a língua mais falada no Hemisfério Sul”, “uma das que mais crescem”, ferramenta diária “de mais de 260 milhões de pessoas”, ora, a coberto da afirmação (também tão gasta) de que temos uma “língua pluricêntrica”, deixar umas frases aparentemente encorajadoras de tal diversidade: “É uma língua que se fez e transformou e evoluiu em encontros, em descobertas, em miscigenações”; “a natureza pluricêntrica da língua em que nos exprimimos – cada um na sua variedade, da relação de tais variedades se fazendo a pujança da língua comum”; “servindo para a expressão de múltiplas culturas, a língua que, sendo nossa pátria, é a pátria de outros, cada povo fazendo dela pátria ao seu modo próprio, de tal modo que a língua portuguesa é hoje, ao mesmo tempo, o fator de construção de pátrias distintas e o laço mais forte e perene de ligação entre essas pátrias.” Deixando de lado os arroubos poéticos (“tem a vastidão do mar e a limpidez da luz”) ou a citação de autores que sempre vêm ao caso (Sophia, Vieira, Eça, Drummond, Vergílio Ferreira, Lispector, Luandino, Saramago, Mia Couto), tais frases podem dar a entender que Augusto Santos Silva terá, enfim, compreendido que o caminho e a força da língua portuguesa residem na sua diversidade e não em espartilhos artificiais e inúteis como o Acordo Ortográfico de 1990, de que tem sido guardião supremo e inabalável. Não é crível. A diversidade aqui é devaneio poético, valendo no papel o ferrete impositivo.
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«Deite-se fora o Acordo Ortográfico» [Miguel Esteves Cardoso, 8 Abril 2022]

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Miguel Esteves Cardoso
“Público”, 8 de Abril de 2022

Deite-se fora o AO e, em vez desse desmando, ensinemos às nossas crianças a riqueza, a graça e a personalidade das várias versões nacionais da língua portuguesa.

Emendar a mão é o único sinal de superioridade. Quem emenda a mão é porque sabe que errou. Mas, para saber que errou, tem de estar acordado, tem de estar aberto, tem de ouvir as vozes discordantes, tem de mostrar a coragem de ser constantemente avaliado.

A humildade não é um princípio nem um valor. Não é interior sequer. A humildade é uma prática. Só se afirma nas acções. Ser humilde é praticar a humildade: não é fazer-se de santo ou encher a boca de palavras aprovadas.

Para se ser humilde é preciso dar valor aos outros, estar atento aos outros, ter medo de nos enganarmos e confiar nos outros para nos corrigir.

É por isso que emendar a mão é tão bonito de se ver: é o contrario da arrogância, 0 contrário da prepotência, o contrário da rigidez, o contrário do fechamento.

É altura de dar uma alegria à língua portuguesa: é altura de a libertar do Acordo Ortográfico.

O Acordo Ortográfico foi feito numa altura em que a uniformização estava na moda, numa época em que se pedia às pessoas que esquecessem as diferenças.

Mas entretanto tudo mudou: agora são as diferenças que é preciso celebrar. Portugal já não é um pais pequenino diante o Brasil e os outros países que falam português. Agora, Portugal é Portugal e o Brasil é o Brasil e São Tomé e Príncipe é São Tomé e Príncipe.

O contrario da uniformização é a celebração das diferenças. A melhor maneira de as celebrar é através do estudo. Deite-se fora o Acordo Ortográfico e, em vez desse desmando, ensinemos às nossas crianças a riqueza, a graça e a personalidade das várias versões nacionais da língua portuguesa.

E nos também temos direito à nossa versão, à nossa ortografia, às nossas manias, às nossas particularidades.

A alegria da nossa língua é a liberdade.

Restituam-na e serão recompensados.

 

[Reprodução integral (por “text scan”) de crónica da autoria de
Miguel Esteves Cardoso (MEC)
publicada na edição em papel do jornal “Público”
de 8 de Abril de 2022
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]

«(…) o AO é um acto de genocídio cultural, estético, racional e político.»
«O AO é como querermos unir, à força, os verões e os climas brasileiros, portugueses e cabo-verdianos, procurando semelhanças superficiais e despromovendo diferenças profundas, só para chegarmos à conclusão que todos sentimos frio e calor e que todos somos molhados pela chuva.Por muito que acreditemos no contrário, os nossos tempos, como as nossas línguas – e as maneiras como as escrevemos graficamente – são parecidos de mais para fingirmos que somos diferentes. Mergulhamos no conhecido e aprendemos como deve ser.»
[«Calor e mar bravo» [MEC, Público], 12.08.11]

«(…) em que se noticiava e elogiava a decisão de Vasco Graça Moura, depois de ter consultado e obtido o apoio unânime do conselho de administração do Centro Cultural de Belém, de mandar à merda o Acordo Ortográfico.» [«Grande Vasco» [MEC, “Público”, 06.02.12]

«Os escritores e cronistas Miguel Esteves Cardoso e Pedro Mexia vão continuar a usar o Acordo Ortográfico de 1945, questionando a utilidade do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, cujo período de transição da sua aplicação termina quarta-feira*.»
«Questionado pela Lusa, se a partir de 13 de Maio irá utilizar a nova grafia Miguel Esteves Cardoso foi peremptório: “Claro que não! Nunca. É uma posição de liberdade e patriótica”.» [LUSA – 105 FM – 09 Maio 2015, “post” com o título “Miguel Esteves Cardoso e Pedro Mexia (e muitos outros) não aceitam AO90″, 11.05.15]

«Daqui a 50 anos, em 2065, quase todos os opositores do analfabeto Acordo Ortográfico estarão mortos. Em contrapartida, as crianças que este ano, em 2015, começaram a ser ensinadas a escrever tortograficamente, terão 55 anos ou menos. Ou seja: mandarão no país e na língua oficial portuguesa.»
«A jogada repugnante dos acordistas imperialistas — ignorantes e cada vez mais desacompanhados pelas ex-colónias que tentaram recolonizar ortograficamente — terá ganho tanto por manha como por estultícia.»
«As vítimas e os alvos dos conspiradores do AO90 não somos nós: são as criancinhas que não sabem defender-se.» [«O segundo acto» [Miguel Esteves Cardoso, “Público”, 20.05.15]


Se em vez de mim “à frente” da iniciativa estivesse alguém como Miguel Esteves Cardoso, “nosso” MEC, ou um outro nome ainda mais veterano (e venerável), Pedro Tamen, por exemplo, bem, pois com certeza, nesse caso outro galo cantaria, o pessoal mui naturalmente adora seguir um líder, mas que esse líder seja gente de algo, garantia à cabeça — literalmente — de que de sua ilustre cabeça jorrarão ideias em tropel e prestígio a rodos e brilho aspergido por todos em volta. [JPG, “Uma história (muito) mal contada [XXVII]”, 20.12.15]


[Nota: a versão online do artigo está disponível apenas para assinantes do “Público”. Imagem inserida na transcrição (foto-montagem de MEC) do jornal online “Observador”.]

Fatos à medida

«Se não fossem a bexiga, o tifo, a malária, o analfabetismo, a lepra, a doença de Chagas, a xistosomose, outras tantas meritórias pragas soltas no campo, como manter e ampliar os limites das fazendas do tamanho de países, como cultivar o medo, impor o respeito e explorar o povo devidamente? Sem a disenteria, o crupe, o tétano, a fome propriamente dita, já se imaginou o mundo de crianças a crescer, a virar adultos, alugados, trabalhadores, meeiros, imensos batalhões de cangaceiros – não esses ralos bandos de jagunços se acabando nas estradas ao som das buzinas dos caminhões – a tomar as terras e dividi-las? Pestes necessárias e beneméritas, sem elas seria impossível a indústria das secas, tão rendosa; sem elas, como manter a sociedade constituída e conter o povo, de todas as pragas a pior? Imagine, meu velho, essa gente com saúde e sabendo ler, que perigo medonho!» [Jorge Amado]

Esta é outra das consequências mais nefastas do AO9 — como se algum resultado de semelhante aberração pudesse ser positivo — que portugueses tentam omitir fingindo que não existe mas que encaixa perfeitamente na teoria vitimista dos brasileiros em geral. Anteriormente havia alguma espécie de harmonia entre os dois países e os povos de ambos, convivendo naturalmente os de cá e os de lá com todas as suas diferenças sociais, históricas, culturais e — natural ou principalmente — linguísticas.

Antes do AO90, a língua brasileira não passava, pelo menos oficial e politicamente, de uma variante do Português-padrão. Desde que a cacografia brasileira foi imposta a toda a “lusofonia”, em Julho de 2008, também em Portugal começaram a surgir alguns sinais da xenofobia e intolerância que sempre foram características intrínsecas da atitude dos brasileiros em geral quando se referem ao nosso país e principalmente aos nossos compatriotas emigrados naquele país; o preconceito anti-português radicará muito provavelmente na constatação (expressamente inventada para o efeito) de que o atraso sócio-económico brasileiro é integralmente “culpa” dos “exploradores” portugueses que sempre andaram por lá a “roubar” o ouro brasileiro e a explorar os escravos que naquela época, como é “um fato”, não era prática comum nem nada. Segundo a sua impecável “lógica”, os brasileiros foram “vítimas” dos malvados portugueses durante 388 anos, “pôrrtantu, viu”, “u siguintchi”, de igual modo a culpa de tudo o que de mau acontece no Brasil desde a independência, em 1822, continua a ser de Maria e de “seu Manuéu” — esse casal apalhaçado que retrata na diminuta cabecinha de milhões de brasileiros o estereotipo nojento por eles reconhecido como o verdadeiro tuga.

Há quem diga que o fenómeno não passa de um arquétipo, garantindo inocuidade e inocência às diatribes, mas, na verdade, como aliás todos sabemos perfeitamente, e alguns até por experiência própria, aos brasileiros em geral não agrada nada qualquer coisa que sequer lhes cheire a “tuga” ou, como dizem na sua língua, a “portuguesinho”. Ainda que tenhamos o discernimento suficiente para distinguir o “brasileiro médio”, por regra portador de uma carga imensa de confrangedora ignorância, do “brasileiro comum” (ou normal, dirão alguns mais irritadiços) e da sua petulância, a arrogância de que fazem gala quase todos eles, ainda assim teremos sempre de contar com a “sede” que o zuca tem ao tuga; é uma idiossincrasia peculiar sem a mínima sustentação.

A questão radica em razões históricas “mal resolvidas”, geralmente apoiadas numa narrativa sustentada pelos caciques locais (os “coroné” ou “coronéu”) e por uns quantos políticos um bocadinho mais trogloditas, representando Portugal para todos os efeitos o álibi perfeito que justifica o atávico atraso do seu “imenso” país terceiro-mundista: tudo o que no Brasil sucede de mau ou funciona mal ou não funciona de todo é automaticamente “culpa dos portugueses” (como se aquilo não fosse independente desde 1822, repita-se) e eles são inocentes de tudo, não passam de pobres vítimas — a não ser que a coisa interesse, porque nesse caso já é 100% brasileira (veja-se o caso de Bartolomeu de Gusmão) — e portanto há que “castigar” os amaldiçoados tugas.

Esse “castigo” histórico e existencial (fifty-fifty) em jeito de vingança tem de facto de ser implacável, a começar por arrancar-nos a língua (com minúscula) — é brasileiro o exclusivo da vitimização — e depois destruir-nos também a Língua (com maiúscula) impondo a língua (de novo, com minúscula) brasileira como sendo “universau”, e tudo isto incluindo não apenas a sua deles cacografia como também o léxico, a arbitrariedade de regras gramaticais (abolindo a Gramática, esse empecilho, por redundância) e até, como se tem visto, o “sutáki” deles.

Cada qual responderá por si, evidentemente. No que diz respeito à minha já muito longa luta contra o AO90, jamais existiu qualquer espécie de preconceito (anti-brasileiro ou outro). Bem pelo contrário, aliás, até porque desde sempre atribuo — com bastas provas e nada de “bocas foleiras” — tanto a responsabilidade como a irresponsabilidade pelo e do estropício aos corruptos, vendidos e traidores envolvidos no golpe de Estado, aos políticos, empresários, académicos e outros tipos de canalhas (além dos inúmeros idiotas úteis que dantes rasgavam as vestes), todos eles portugueses e portuguesas ou, melhor dizendo, todos eles e elas sendo portadores de passaporte português — cortesia das entidades oficiais coniventes.
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