‘Preconceito linguístico’, racismo e xenofobia – 1

Artes gráficas

A montagem das duas imagens acima, reproduzidas infinitamente nos mais diversos sites brasileiros e portugueses, contém uma ligeira diferença entre a fotografia da direita, em plano médio enquadrado, e o pormenor da mesma “retratado” na figura da esquerda: a da direita apresenta um cartaz com os dizeres “Grátis se for para atirar a um zuca” e a da esquerda, o suposto “pormenor”, diz “Atira uma pedra a um caciqueiro“. A caixa onde supostamente ambos os cartazes foram pendurados por alunos da Universidade de Lisboa é a mesma, evidentemente, daí a definição de “ampliação de pormenor”. Deduz-se, portanto, que o cartaz nessa caixa ou mudou ou foi ou ia mudando.

Do mesmíssimo caixote em madeira existe até outro “pormenor”, desta vez mostrando o interior do dito, vendo-se no fundo oito pedras de diversos tamanhos. O significado disto não é propriamente explicitado, nem é dito algures se os calhaus eram para atirar a “zucas” ou à cabeça dos “caciqueiros”, consoante o cartaz que em cada momento estivesse a decorar o caixote. Também ficamos sem saber se porventura as pedras não seriam para escorar a tábua vertical, ou como lastro, ou ainda se simplesmente, por exemplo, alguém teria usado aquilo para jogar ao “chinquilho”. Curiosamente, aliás, nesta vista de cima não se vislumbra letreiro algum na ilharga, ainda que em perfil, e o objecto parece ter levado um pontapé, ou algo assim, desviando-se da coluna a que estava acostado.

Segundo a imprensa brasileira e de acordo com alguma imprensa portuguesa, começa a surgir em Portugal uma onda de racismo, preconceito e xenofobia, onda essa que parece engolfar exclusiva ou pelo menos principalmente os emigrantes brasileiros em geral e, destes, os estudantes universitários em particular. Ou vice-versa, não se entende bem.

A busca Google devolve neste momento “About 93,800 results” pelo critério de pesquisa “brasileiros em portugal+xenofobia”.

Para os emigrantes provenientes de qualquer dos 27 estados da República Federativa do Brasil é completamente indiferente — na medida em que não é sequer do seu conhecimento, de tão ocupados que estão em viver o melhor que podem e sabem — que Portugal tenha a sua própria Cultura, feita de hábitos, costumes e gostos diferentes, assim como para pouco ou nada interessa a brasileiros a História e o património (material ou imaterial, identitário ou meramente idiossincrático) daquilo que entre nós é assumido como sendo “o” português… a começar pela Língua.

Não é culpa dos brasileiros, como aliás nada nem ninguém, colectiva ou individualmente, pode ser responsabilizado por uma fatalidade mundial, que existe em maior ou menor grau em todos os países — Brasil incluído –, o facto de por aqui rastejarem também alguns racistas ou xenófobos. Esse estranho e primitivo fenómeno não é uma característica nacional e não afecta exclusivamente uma ou outra potencial vítima em função da sua nacionalidade de origem, seja ela brasileira ou qualquer outra.

O que não invalida, ainda assim, que o fenómeno tenha já sido e continue a ser explorado pelos propagandistas de serviço até ao osso, com não pequena soma de exageros, repetições marteladas até à exaustão, montagens, colagens e falsificações avulsas (como a das imagens acima) ou utilizando a pura e simples invenção como técnica de persuasão, isto é, de intoxicação da opinião pública.

Os episódios de racismo são (felizmente) raros, até porque, ao invés da propaganda vitimista, em Portugal existe uma espécie de idolatria — não apenas nas camadas populares — por tudo quanto é brasileiro: telenovelas, jogadores de futebol (e de outras inúmeras modalidades), programas de TV, “pregadores”, “pastores” e até “bispos” de diversas seitas brasileiras.

Não são “só” as técnicas “jornalísticas” manhosas. Não são “só” as fotografias aldrabadas, os títulos bombásticos, a histeria da linguagem, as ameaças veladas (ou expressas). Não são “só” as lamúrias de fazer uivar os lobos, as rapsódias de faca e alguidar e as escolas de samba a “bombar”. Também, por “mera coincidência”, os números estão sempre “atrasados” e incompletos e truncados. Talvez este seja um êxodo sem precedentes; nem entre 1974 e 1976, com os chamados “retornados”. Veremos.

Tudo isto entronca, evidentemente, naquilo que em linguagem de Eça se designa como “a base, a basesinha”, ou seja, já não propriamente o vetusto Latim mas um dos honrados filhos deste — o Português.

Dos netos ainda não reza a História.

Brasileiros são maioria entre os 555 mil estrangeiros em Portugal | Portugal Giro – O Globo

Por Gian Amato
“O Globo” (Brasil), 17/12/2021

Estrangeiros e brasileiros em protesto do Comitê dos Imigrantes de Portugal em Lisboa | Divulgação/CIP

O número de residentes estrangeiros em Portugal aumentou 40% em 10 anos. É o que descobriu o Censo realizado no país este ano. Os dados preliminares foram divulgados na quinta-feira (16).

Entre os 555.299 estrangeiros residentes, 5,4% da população, a maioria tem sido brasileira ao longo dos últimos anos. A comunidade que vive no país supera os números oficiais e, na realidade, é muito maior que os dados expostos nas planilhas dos órgãos do governo.

Segundo o último relatório do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), existem 183.993 brasileiros residindo de maneira considerada oficial, com documentos válidos.

Mas a conta do SEF só vai até dezembro de 2020 e exclui brasileiros com cidadania portuguesa e europeia que residem no país. Também ficaram de fora os brasileiros em processo de regularização.

Outro dado: milhares de renovações de residência foram feitas em 2021. São brasileiros com intenção de ficar pelos próximos anos. E não há registros oficiais de uma grande volta em massa e recente ao Brasil.

Pelo contrário. A população brasileira residente bateu recorde na pandemia, como informou o Portugal Giro, e mais de 100 mil entraram no país desde a reabertura ao turismo, em setembro.

Uma grande parte deverá ficar em solo português após o tempo legal de permanência como turista, como tem sido ao longo dos anos. E estes novos residentes só entrarão na lista oficial quando forem regularizados.

Recentemente, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil divulgou os dados estimados da diáspora brasileira. E Portugal só fica atrás dos Estados Unidos (1,7 milhão) em número de expatriados. Segundo o Itamaraty, são 276 mil brasileiros em Portugal, quase 100 mil pessoas a mais que no relatório do SEF.

Logo, segundo estimativa do Itamaraty, a população brasileira residente em Portugal é pelo menos a metade dos estrangeiros encontrados pelo Censo. A outra metade está diluída em diversas nacionalidades.

Já o professor Eduardo Picanço Cruz, da Universidade Federal Fluminense, citado em reportagem do “Valor Econômico”, estima que o número de brasileiros em Portugal é de aproximadamente 350 mil pessoas, ou 63% dos estrangeiros.

Em seu estudo, Picanço contextualizou que o fluxo de “imigrantes brasileiros em Portugal é composto por indivíduos com maior capacidade financeira e empreendedora, alto nível de qualificação profissional ou por indivíduos que buscam maior qualificação (estudantes de mestrado e doutorado e pesquisadores)”.

Porém, no cotidiano, é perceptível que há brasileiros de diversas classes sociais e com as mais variadas profissões e perspectivas de vida em Portugal.

Além de Portugal ter perdido população (tem 10,3 milhões, menos 217 mil) pela primeira vez desde 1970, a faixa acima de 65 anos foi a única que cresceu.

Em contato com a coluna, o Instituto Nacional de Estatística (INE) informou que os números definitivos do Censo só serão divulgados no último trimestre de 2022.

[Transcrição integral de peça jornalística publicada pelo jornal brasileiro “O Globo” em 17.12.21. Destaques, sublinhados e “links” (a verde) meus.]


[continua]

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