“The truth? You can’t handle the truth!”

No dia de hoje, 5 de Maio, os acordistas militantes celebram a “expansão e difusão” da língua brasileira tau, a univerrssau, cara, viu), um solícito e insólito evento lançado por certo ex-primeiro-ministro português nos jardins da Organização das Nações Unidas (o que certamente terá feito à má-fila, que a ONU não é a da Joana). Curiosamente, este sucedâneo de, por exemplo, Pérez de Cuéllar ou Boutros Boutros-Ghali, é internacionalmente conhecido pelo seu atávico horror a pântanos mas não teve o menor pejo em enterrar-se até ao pescoço num imenso lamaçal, a maior vigarice político-linguística da História universal, isto é, a liquidação da Língua Portuguesa e sua substituição pela brasileira para assim, usando o AO90 como pretexto, justificar a invenção da CPLB e a coberto desta “difundir e expandir” os interesses económicos do Brasil pelas ex-colónias portuguesas.

Lula da Silva "Doutor" Honoris Causa pela Universidade de Coimbra, Março 2011

Lula da Silva “Doutor” Honoris Causa pela Universidade de Coimbra, Março 2011

Tudo pago pelos contribuintes portugueses, bem entendido, comes&bebes incluídos e com extras no cardápio (viagens, estadias, “turismo linguístico“, palestras de sueca e dominó, etc.), resta aos 10 milhões de pagantes liquidar as contas e continuar como têm estado — é aliás o estado natural do tuga –, caladinhos. Ou seja, é a velha “norma” de uso e costume em Portugal, o “paga e não bufes”. Isto sem contar com os sorvedouros, as máquinas de triturar o erário público que estão especificamente ao serviço dos interesses brasileiros, com o Instituto Camões (que deveria mudar o nome para Instituto Tiririca – pió qui tá numfica) e o IILP à cabeça, fora os colaboracionistas de vários galhos e os media de intoxicação social.

Torre da Univ. Coimbra ("o Cabrão")

Torre da Univ. Coimbra (“o Cabrão”)

A logística gigantesca necessária para olear a máquina de propaganda (e também, com precisão cirúrgica, algumas mãos) envolve imensos assalariados, comissionistas e tarefeiros, o que acarreta para uns poucos deles, os mais ou menos “notáveis”, necessariamente manobras e números vários, desde a mais ridícula choraminguice pelo tacho, pela prebenda, pela benesse, pela condecoraçãozinha, até à vitimização ritual e viscosa da tugalhada envolvida com cuspidelas de racismo, xenofobia ou preconceito linguístico… a ver se intimidam, por exemplo, o Batatinha ou, em extremo, o Companhia.

O artigo seguidamente transcrito veio de longe, a treze fusos horários de distância, mas bem poderia ter sido escrito no Bairro do Restelo ou na escadaria do “Cabrão” da Universidade de Coimbra.

O que lá diz o entrevistado é “tipo” ah, e tal, o Brasil é que é coiso e tal, ai ai, o Brasil. Enfim, o habitual estendal de lugares-comuns e lamechices asquerosas enaltecendo — como sempre, cá estão outra vez os rituais — o “gigantismo” do Brasil e a sua “superioridade” contável, isto é, ah, e tal outra vez, váláver, eles são 210 milhões (ou lá o que é) e nós não passamos de uma caganitazinha (bem, o “académico” não fala em caganitas, que “parece mal” num “académico” usar termos escatológicos, ou calão, vá, essas coisas horrorosas que diz o povo das tascas, ui, mas que mal parece).

Um festival de pedantismo; é o que lá está. Esta gente é tão previsível — pudera, limitam-se a repetir infinitamente meia dúzia de chavões — quanto os idiotas e tão dedicada aos negócios como os agiotas.

"registros"

Mesmo com todo os sistemas nos originais em Inglês, na Internet a onomástica e a toponímia estão na Língua local. Note-se, por exemplo, “Registros” (em Lisboa, Portugal)

Todos os dias vamos vendo por todo o lado as consequências da mais ridícula subserviência e da mais aberrante bajulação que alguns portadores de passaporte português dedicam ao país-irmão deles.

Nas ruas, em cartazes, anúncios, letreiros (incluindo já alguma onomástica) e até indicações de trânsito; nos canais de TV, cujas miseráveis “traduções” e legendagens de filmes ou documentários são feitas ou por brasileiros em brasileiro ou por tradutores tugas que fingem conhecer a língua brasileira para não perder o emprego.

Nas dobragens (“dublagens”, em brasileiro) e nas entrevistas de rua dos canais de “informação”, em que dão sempre preferência ao sutáki duiss prêsêntchiss.

Em tudo quanto é sistema informático, desde programas a jogos, em todas as plataformas e serviços virtuais (se bem que seja possível ler seja o que for na Internet com a ortografia correcta), temos de levar com as insuportáveis bacoradas brasileiras — como escarros que o ecrã do aparelho nos atira à cara — e com a sua língua univerrssau.

Tenhamos sempre presente, porém, este facto insofismável: os principais culpados por este crime de lesa-pátria foram e continuam a ser uns tipos de nacionalidade portuguesa. Foram meia dúzia deles expressamente ao Brasil vender a ideia, perante a estupefacção e a incredulidade dos anfitriões. Existem testemunhos insuspeitos do que ocorreu, em especial entre 1976 e 1986.

Os resultados do sinistro plano urdido (daí em diante também por brasileiros, é claro, não aparecem muitas oportunidades assim em cada milénio) estão agora à vista. E são esses os resultados que hoje, dia 5 de Maio, os descendentes de Miguel de Vasconcelos celebram. Esta é que é a verdade.

O problema, parafraseando o Coronel Jessup, é que nem toda a gente consegue lidar com a verdade. Aliás, “nem toda” é manifesto exagero; talvez “quase ninguém” seja mais adequado. Se bem que a frase esteja truncada no filme; no original de Sorkin, a “deixa” completa é “You can’t handle the truth. You can’t handle the sad but historic reality.”

Pois. Lidar — no sentido de aguentar, suportar — com a verdade é muito, muito, muito difícil para a maioria. Com a triste realidade histórica é impossível.

Carlos Ascenso André, académico e linguista: “Língua portuguesa tem a dimensão do mundo”

“Hoje Macau”,

 

Celebra-se hoje o Dia Mundial da Língua Portuguesa e, para Carlos Ascenso André, tradutor, académico e linguista, é fundamental chamar a atenção para a grandeza de um dos idiomas mais falados do mundo. O especialista em literatura clássica defende que a língua portuguesa é apenas uma e que o papel de Macau é agora outro na difusão e ensino do idioma, bem como na formação de professores

Este dia significa o quê, na prática?


Não sou dado a dias internacionais. Acho estas efemérides importantes enquanto se justificar chamar a atenção para o que deu origem a esses dias internacionais. O Dia Internacional da Mulher, por exemplo, é importante enquanto houver desigualdade de género. No caso da língua portuguesa, este dia justifica-se para chamar a atenção, a vários níveis, para a sua importância. Deve-se chamar a atenção de fora do universo da língua portuguesa, pois nem todas as pessoas desse universo têm a consciência da grandeza e importância do idioma. Falo dos países que não são falantes da língua. Mas deve-se também chamar a atenção dentro do universo do português, porque uma grande parte dos seus falantes não se dá conta dessa importância. Não me importa falar do lugar que ocupamos em termos do número de falantes, mas sim chamar a atenção para uma língua que nasceu num território minúsculo e ganhou as fronteiras do mundo. Isto é uma coisa que merece dois sentimentos, admiração e respeito. Não tem a ver com o passado colonial e não devemos confundir essas realidades. Ganhámos esta grandeza e é uma língua que vai crescer muito mais do que as outras. Segundo as últimas projecções estatísticas, se não houver nenhum cataclismo em África, chegaremos a 2100 com mais de 500 milhões de falantes de português. Vamos duplicar o número actual. O resto decorre tudo daqui: podemos falar das escolas, das universidades, do crescimento da língua nos vários territórios.

Portugal é um país de escritores, mas não tanto de leitores. Actualmente, no sistema educativo, os nossos autores são bem ensinados e divulgados?

Não tenho uma visão tão pessimista em relação ao número de leitores que existem hoje. Tenho uma visão pessimista em relação à apetência por bens culturais que se verifica na sociedade moderna, há explicações para isso. O número de atracções é muito grande e as pessoas gastam menos tempo na leitura. Comparo os meus netos comigo. Eu cresci numa aldeia e visitava sempre a biblioteca itinerante da Gulbenkian, e pouco mais tinha para fazer a não ser ler. Hoje os meus netos têm iPads, computadores, e, apesar de tudo, gostam de ler, e eu sinto-me feliz com isso. Acho, com realismo, que é preciso fazer alguma coisa pelos nossos leitores. Os nossos responsáveis devem preocupar-se na presença dos nossos autores clássicos no panorama cultural e nos programas educativos. Escritores como Eça ou Camões mereciam outro lugar nos programas educativos. Mas é preciso que os nossos professores saibam ensinar esses escritores, para que não sejam odiados. Camões, se não for bem ensinado, pode ser odiado. Mas não podemos falar só de clássicos, pois a língua portuguesa tem a dimensão do mundo. Temos o Machado de Assis, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade. Tem o Craveirinha e Mia Couto, em Moçambique. Estes autores precisam de ser trazidos para a mesa do nosso convívio. Isto faz falta para termos a dimensão da língua portuguesa e acho que esse passo não foi ainda totalmente dado.

Se olharmos para o nosso passado colonial, não há ainda a união certa entre esses vários autores de língua portuguesa?

Há, mas uma coisa são as instituições, outra são as pessoas. Refiro-me à língua portuguesa e às culturas de língua portuguesa. Tenho essa preocupação, sobretudo agora que presido à Associação Internacional de Lusitanistas. Algumas pessoas cultas, falantes de português, não têm a noção de que a língua portuguesa é só uma. No Brasil há muita gente que não pensa assim, e é um erro. Mas as culturas de língua portuguesa são muitas. Esta é uma realidade que contribui para a nossa riqueza e é um enorme património sobre o qual é preciso alertar as pessoas desde os bancos da escola. E penso que não se faz isso.

A chegada da língua portuguesa à China foi o grande desafio para Portugal em matéria de política externa de língua?

Está a ser, mas não foi. Quem apostou mais forte no crescimento da língua portuguesa no Oriente foram os chineses e não os portugueses. Nós fomos atrás deste impulso mas não fomos os primeiros. A China fez isso por motivos de natureza política, e na sua expansão, sobretudo comercial, ocupou um lugar de enorme relevo nos países de língua portuguesa. O país também quer estar na Europa e usou Portugal como porta de entrada para isso. Precisou, assim, da língua como instrumento, exactamente como os jesuítas precisaram do chinês para fazer a sua penetração na China. E foi graças a esse lado comercial que o português cresceu muito no interior da China. Em 2013, quando cheguei a Macau, havia 12 ou 14 universidades chinesas que leccionavam português. Em 2018 havia 43, e agora são 55. Este é um crescimento fantástico. As instituições portuguesas aperceberam-se desse crescimento e hoje há uma aposta política e um forte investimento no desenvolvimento da língua a Oriente.

O Brasil fez esse trabalho do ensino da língua e edição de livros mais cedo?

O Brasil tem mais vantagens do que Portugal, nomeadamente graças aos autores, que têm um maior potencial de leitores do que os autores portugueses. Uma das minhas traduções do latim foi sendo publicada em Portugal com edições de mil a dois mil exemplares, enquanto que no Brasil teve uma edição de 20 mil exemplares. Mas gostava que houvesse um envolvimento dos países de língua portuguesa, sem Portugal, nesta política de internacionalização da língua. Não vejo nem o Brasil, Angola ou Moçambique a fazerem investimento semelhante como aquele que é feito por Portugal através do Instituto Camões. Portugal é o país mãe da língua, mas justificava-se, sobretudo do Brasil, um maior investimento. Se o investimento do Brasil no ensino da língua e das culturas portuguesas fosse proporcional ao número de agentes de ensino que trabalham em instituições de todo o mundo, seguramente que estaríamos bem melhor.

No caso de Macau, considera que as sucessivas administrações portuguesas fizeram pouco pela língua portuguesa no território, e menos do que o que está a ser feito pela RAEM?

Não tenho essa impressão. Portugal tem dois fortíssimos agentes em Macau que dependem de financiamento português, que é a Escola Portuguesa de Macau (EPM) e o Instituto Português do Oriente. O resto é feito por instituições locais. Os outros fazem o que podem tendo em conta as necessidades do mercado, e há que distinguir as realidades. Da parte do Governo de Macau todo o investimento resulta de opções políticas e não de necessidades do sistema. É o honrar do compromisso que está na Lei Básica, não precisa de ir além disso e penso que às vezes vai bem além disso. Portugal não tem a obrigatoriedade de fornecer os elementos que o sistema precisa, tem é de fazer uma aposta política no crescimento da língua. Através da EPM e do IPOR, que fazem um trabalho excelente, Portugal está a cumprir o que deve. As instituições políticas em Portugal têm demonstrado sempre muito respeito por aquilo que é feito em Macau.

Macau vai perder relevância como plataforma no ensino da língua?

Macau desempenhou um papel fulcral num determinado momento, que foi o período de 2013 a 2019, que foi assumir a liderança do processo no interior da China, e peço desculpa por falar em causa própria. Fizemos isso com o Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa, fazendo formação de professores e reunindo com universidades, mas estas desenvolveram-se. Mas em breve haverá um professor doutorado em várias universidades chinesas. Chegamos a este ponto e o papel de Macau já não é o mesmo, pois essas instituições ganharam o estatuto de razoável autonomia e dispensam um pouco o paternalismo das instituições de Macau. O território deve ter um papel de acompanhamento.

O que tem a língua portuguesa de mais apaixonante junto do estudante chinês?

O que mais atrai os estudantes é o mercado. Os chineses aprendem português porque é um bom instrumento para ter um emprego. Sobre a cultura de língua portuguesa há sobretudo curiosidade. Mas há duas ou três coisas que os atraem, que é o facto de esta ser uma língua de Portugal e aberta a outras latitudes. Fascina-os o facto de ser uma língua de outros países maiores. Fascina-os a relação que a língua mantém com a Europa, e desde 1974 somos um país aberto à Europa, depois do 25 de Abril. Os alunos chineses fascinam-se sobre essa abertura. Não somos uma ilha isolada e fazemos parte da cultura mediterrânica.

[Transcrição integral de entrevista publicada no jornal “Hoje Macau” de hoje,

[Nota: o título deste “post” é a célebre frase do Coronel Jessup, interpretado por Jack Nicholson, no filme americano “A Few Good Men” (1992). Esse momento está gravado no vídeo acima. Este (excelente) filme, realizado por Rob Reiner, é uma versão do livro homónimo da autoria de Aaron Sorkin.]

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